{"id":25702,"date":"2020-06-16T17:17:46","date_gmt":"2020-06-16T20:17:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25702"},"modified":"2020-06-16T17:17:46","modified_gmt":"2020-06-16T20:17:46","slug":"revolucao-brasileira-e-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25702","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira e Natureza"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/miro.medium.com\/max\/976\/1*2Zx6iOdkBq4iOcXf0DZZ0A.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Rumo \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o total<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Dantas*<\/p>\n<p>A pris\u00e3o do cotidiano no capitalismo<\/p>\n<p>Um olhar atento e sens\u00edvel aos dilemas humanos em nossa era \u00e9 capaz de perceber a quase completa aus\u00eancia de beleza e inspira\u00e7\u00e3o de poesia no cotidiano. E que cotidiano \u00e9 esse? \u00c9 a pr\u00f3pria vida coletiva na sociedade, os espa\u00e7os f\u00edsicos e afetivos que constru\u00edmos e recebemos em nossa vida. \u00c9 o ritmo do rel\u00f3gio ditando a hora de acordar, martelando na consci\u00eancia a contagem dos minutos em que o indiv\u00edduo precisa se levantar, dar uma boa olhada na pr\u00f3pria cara, escovar os dentes, passar o caf\u00e9, tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3, vestir a farda do trabalho, tudo isso enquanto olha regularmente a tela do celular avisando a que horas o \u00f4nibus passa.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 experienciado por nossos corpos e mentes como se fosse natural, n\u00e3o levando em conta que, vinte anos ou mais antes de nascermos, nossos pais tamb\u00e9m repetiam a mesma cerim\u00f4nia cinzenta todos os dias, com exce\u00e7\u00e3o de feriados e datas comemorativas. A repeti\u00e7\u00e3o incessante desse movimento, do qual voc\u00ea n\u00e3o tem controle, \u00e9 a pedra de toque na produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de um esquema de vida no qual as vontades individuais cumprem um papel t\u00e3o residual que certas vezes achamos at\u00e9 que \u00e9 capricho.<\/p>\n<p>Quem de n\u00f3s n\u00e3o j\u00e1 acordou completamente indisposto, desejando ficar um pouco mais na cama, e quanto mais ficamos na cama maior \u00e9 a ang\u00fastia de saber que aqueles minutos podem fazer voc\u00ea perder sua condu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o chegar ao trabalho no hor\u00e1rio correto, o que por sua vez pode amea\u00e7ar toda a \u201cestabilidade\u201d de sua vida caso perca o emprego. Isto \u00e9, aqueles minutinhos t\u00e3o inofensivos, dos quais voc\u00ea precisa para preparar o esp\u00edrito para mais um dia longo, pode lhe custar muito caro. Quem nunca ouviu a frase \u201ctempo \u00e9 dinheiro\u201d? Bem, acontece que o seu tempo n\u00e3o \u00e9 seu e a riqueza que voc\u00ea produz nesse tempo n\u00e3o \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Uma das implica\u00e7\u00f5es deste aprisionamento cotidiano \u00e9 que ocorre um processo violento de afastamento dos seres humanos do contato com a natureza. Cada vez mais, esse contato \u00e9 substitu\u00eddo por servi\u00e7os de satisfa\u00e7\u00e3o de desejos fabricados na nossa intera\u00e7\u00e3o com o cotidiano viciado da urbanidade. O que quero dizer com isso? Quero dizer que nosso comportamento est\u00e1 cada vez mais condicionado \u00e0 busca por satisfazer necessidades humanas b\u00e1sicas, mas que, at\u00e9 ent\u00e3o, as reais condi\u00e7\u00f5es para satisfaz\u00ea-las s\u00e3o estranhas ao complexo cotidiano em que estamos inseridos.<\/p>\n<p>Para as popula\u00e7\u00f5es urbanas proletarizadas, a possibilidade de sentir, de interagir com a natureza, se resume cada vez mais ao nosso contato com a natureza transformada, a natureza morta: o material de constru\u00e7\u00e3o da nossa casa, os diversos aparelhos eletr\u00f4nicos e utens\u00edlios dom\u00e9sticos s\u00e3o a natureza transformada pelo trabalho. Mas mais que isso: a rela\u00e7\u00e3o das pessoas n\u00e3o s\u00f3 com a natureza, mas tamb\u00e9m entre si mesmas, torna-se cada vez mais mediatizada pela mercadoria.<\/p>\n<p>Exemplo do primeiro caso: uma pessoa urbana que, preocupada com a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o, planeja fazer uma horta, precisa que sua casa seja bem localizada com rela\u00e7\u00e3o ao sol e aos ventos; que tenha suficiente \u00e1gua saud\u00e1vel dispon\u00edvel; precisa comprar utens\u00edlios, uma boa terra preta e produtos naturais para suprir a necessidade nutricional das plantas etc. A busca desta pessoa por satisfazer uma necessidade t\u00e3o humana quanto alimentar-se com zelo n\u00e3o \u00e9 uma necessidade s\u00f3 dela. Mais que isso. \u00c9 uma necessidade que, ao mesmo tempo que \u00e9 s\u00f3 dela, \u00e9 muito mais para pessoas que n\u00e3o disp\u00f5em de certas liberdades compradas com dinheiro, como a liberdade de se alimentar.<\/p>\n<p>Um exemplo do segundo caso \u00e9 que as pessoas cada vez mais necessitam de ferramentas de intera\u00e7\u00e3o digital para abrir o caminho para a intera\u00e7\u00e3o presencial com outras pessoas. As pessoas submetidas ao cotidiano repetitivo tendencialmente perdem o interesse nas pr\u00f3prias atividades a que se dedicam e tamb\u00e9m nas pessoas com quem interage nessas atividades. Nesse contexto, a internet e principalmente as redes sociais surgem como preenchimento a esse vazio. N\u00e3o preciso dizer que todas as redes sociais s\u00e3o monetizadas, certo? Que incorporam massivamente propagandas de servi\u00e7os e produtos variados.<\/p>\n<p>Portanto, cotidianamente interagimos com complexos de complexos sociais, de forma utilit\u00e1ria, regidos pela mercadoria. Da mesma forma acontece com os meios com os quais interagimos com a natureza.<\/p>\n<p>Estas caracter\u00edsticas, colocadas de forma gen\u00e9rica, se expressam sob formas muito mais agudas num pa\u00eds como o Brasil. Isso se deve ao fato de que nosso pa\u00eds, desde o in\u00edcio, foi abocanhado pelo colonialismo, que erigiu uma estrutura econ\u00f4mica em que a condi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o tem um claro determinante de cor. O exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios e a violenta escravid\u00e3o que arrancou a vida e cultura dos povos de \u00c1frica foram acontecimentos que fundamentaram o desenvolvimento de um modo de domina\u00e7\u00e3o burguesa particularmente cruel. O Estado burgu\u00eas brasileiro constituiu-se como um estado autocr\u00e1tico que imp\u00f5e um cotidiano de apartheid e de viol\u00eancia onipresente contra as \u201cclasses perigosas\u201d &#8212; notadamente a popula\u00e7\u00e3o negra e favelada, bem como a camponesa &#8211;, colocando em pr\u00e1tica o controle destas classes por meio da viol\u00eancia estatal e paramilitar e tamb\u00e9m por meio da forte influ\u00eancia ideol\u00f3gica do empreendedorismo sobre as subjetividades desumanizadas pela superexplora\u00e7\u00e3o da sua for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Brasil: coloniza\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Primeiramente, perdoem-me pela forma r\u00e1pida com que argumentarei agora. Nada do que estou debatendo aqui \u00e9 uma novidade, pois o tema j\u00e1 possui uma larga e variada contribui\u00e7\u00e3o de te\u00f3ricos como Florestan Fernandes, Clovis Moura, Nelson Werneck Sodr\u00e9, tantos e tantas outras. Falando agora de uma perspectiva mais ampla, quero chamar aten\u00e7\u00e3o para uma tend\u00eancia constante na sociedade capitalista, que \u00e9 a progressiva expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o rural do campo. No Brasil, a coloniza\u00e7\u00e3o explodiu sobre as popula\u00e7\u00f5es das florestas na forma de genoc\u00eddio e escraviza\u00e7\u00e3o. Foi instaurado um regime cotidiano de viol\u00eancia que imp\u00f4s a muitos a servid\u00e3o, mas que, primeiramente, imp\u00f4s o assassinato em massa de seres humanos que se revoltaram com o grande mal que cruzou os mares para trazer mortes, destrui\u00e7\u00e3o das florestas, escravid\u00e3o, doen\u00e7as que dizimaram milhares e a perpetua\u00e7\u00e3o de um sistema cotidiano de viol\u00eancia que at\u00e9 hoje fundamenta o racismo, o exterm\u00ednio das popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o-brancas proletarizadas, das comunidades tradicionais e popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Vamos pensar o Brasil. O Brasil era, da perspectiva dos europeus, este gigantesco peda\u00e7o de terra do qual poderiam extrair toda a mat\u00e9ria prima necess\u00e1ria para dar impulso e turbinar o novo modo de produ\u00e7\u00e3o que estava por nascer, processo no qual as grandes navega\u00e7\u00f5es tiveram papel central. Ent\u00e3o, este peda\u00e7o de terra, simplesmente jogado ali no meio do oceano, s\u00f3 podia ser o destino que Deus havia lhes revelado atrav\u00e9s da palavra de muitos profetas. Pouco tempo antes desse acontecimento, houve a chegada dos europeus ao continente africano.<\/p>\n<p>Quase que simultaneamente, iniciava-se o processo de invas\u00e3o\/coloniza\u00e7\u00e3o da \u00c1sia. Objetivamente, isso significou para os europeus o seguinte: agora eles dispunham de uma larga rota de com\u00e9rcio que se estende para al\u00e9m dos mares. Na Am\u00e9rica, toda a mat\u00e9ria prima dos sonhos; na \u00c1frica, toda a for\u00e7a de trabalho necess\u00e1ria para fazer valer aquela mat\u00e9ria prima. Se observarmos a totalidade deste processo, o cerne do fen\u00f4meno pode ser expressado da seguinte forma: uma parte da Europa comprou grande parte do mundo e de sua popula\u00e7\u00e3o, convertendo de forma brutal e violenta a natureza e seus produtos em meio e condi\u00e7\u00e3o para fazer girar uma engrenagem cujo centro de tudo \u00e9 a mercadoria.<\/p>\n<p>Os europeus povoaram a col\u00f4nia com uma grande massa de pessoas que foram violentamente arrancadas de suas vidas para cumprirem a fun\u00e7\u00e3o de escravos num sistema escravagista. Ent\u00e3o, os propriet\u00e1rios destes escravos s\u00f3 precisavam se preocupar com o seguinte: ficar atento ao produto mais demandado pelo rec\u00e9m-nascido mercado mundial e colocar toda a massa de escravos na fun\u00e7\u00e3o de dobrar a natureza para gerar este produto. O que quero dizer com esta fala t\u00e3o sum\u00e1ria \u00e9 que a chegada dos europeus \u00e0 Am\u00e9rica e outros continentes significou, no plano mundial, o nascimento de uma dupla escraviza\u00e7\u00e3o: a da Natureza e da humanidade diferente da europeia. Vejam, quando digo diferente da europeia, significa tudo mesmo. O nascimento deste sistema foi, primeiramente, o processo de expropria\u00e7\u00e3o violenta do que fundamentalmente n\u00e3o tem dono: a terra. Simultaneamente, a constru\u00e7\u00e3o deste sistema precisava ser dada como obriga\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es que sofreram justamente com a primeira expropria\u00e7\u00e3o, a da terra, seu meio de vida. Ent\u00e3o, o \u00eaxodo rural, a sua fun\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria, pode ser localizado desta forma: a imposi\u00e7\u00e3o violenta \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 terra de abandonarem seu meio de vida e transformarem-se em trabalhadores, indigentes nas cidades ou escravos na terra.<\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos XV e XIX, apesar de mudan\u00e7as pol\u00edticas entre as classes propriet\u00e1rias, a escravid\u00e3o foi mantida, tendo acabado somente em 1888, diante \u2015 embora n\u00e3o unicamente, mas sobretudo \u2015 da press\u00e3o de in\u00fameras revoltas de escravos, como a revolta dos Mal\u00eas, e movimentos abolicionistas de car\u00e1ter popular, compostos em sua maioria por ex-escravos. O significado da aboli\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o foi de liberta\u00e7\u00e3o. As popula\u00e7\u00f5es negras foram expulsas da terra, sem direitos, sem qualquer repara\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o tiveram todas as suas express\u00f5es culturais criminalizadas como vadiagem. Rapidamente, o lugar que as classes dominantes reservaram aos negros ao inv\u00e9s da senzala foram as pris\u00f5es. A chibata dos capit\u00e3es do mato foi substitu\u00edda pelo ferro da pol\u00edcia. Sem alternativas, muitas pessoas foram morar de forma completamente prec\u00e1ria e desumana em barracos que posteriormente se transformaram nas modernas favelas que conhecemos. As que ficaram no campo, o destino da maldade dos senhores de engenho transformada em coronelismo e latif\u00fandio. Portanto, tratou-se de uma aboli\u00e7\u00e3o feita por cima, uma vez que as classes dominantes morriam de medo de uma \u201chaitianiza\u00e7\u00e3o\u201d do Brasil, uma refer\u00eancia \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o haitiana de 1791, que foi liderada por escravos e que culminou com a sua independ\u00eancia em 1804.<\/p>\n<p>Desta forma, criou-se uma massa gigantesca de despossu\u00eddos, maltratados, abandonados e assassinados pelo Estado que mant\u00e9m, ainda hoje em dia, o car\u00e1ter racista e reacion\u00e1rio que marcou o Estado colonial. Nunca foi feita qualquer repara\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 toda cultura racista importada da Europa e aprofundada por mais de trezentos anos contra a popula\u00e7\u00e3o negra. Com efeito, a popula\u00e7\u00e3o negra continuou sendo a massa trabalhadora fundamental na constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds contra ela mesma, um ambiente que a maltrata. A popula\u00e7\u00e3o negra foi vista em si mesma como o problema a ser resolvido, a ser controlado ou exterminado.<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira e Natureza: rumo \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o total<\/p>\n<p>No fundamental, \u00e9 imposs\u00edvel pensar uma repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para a desumaniza\u00e7\u00e3o sofrida pelo povo negro, comunidades tradicionais e povos ind\u00edgenas sem levar em considera\u00e7\u00e3o o largo processo que mencionei sumariamente acima. Tal processo corresponde justamente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos antagonismos de classe em nosso pa\u00eds. De um lado, uma classe dominante sanguin\u00e1ria e completamente submetida aos interesses comerciais dos pa\u00edses metropolitanos; de outro, uma vasta classe trabalhadora formada principalmente por descendentes de ex-escravos, al\u00e9m dos trabalhadores imigrantes que tiveram a entrada no pa\u00eds facilitada no bojo do plano de embranquecimento do Brasil.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 como pensar esta mesma repara\u00e7\u00e3o sem levar em conta o saqueamento da terra brasileira por um invasor estrangeiro que a submeteu \u00e0 rapinagem mais violenta, em fun\u00e7\u00e3o do evidente papel subordinado do Brasil com rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses-metropolitanos dirigentes do mercado mundial, que impunham \u00e0s col\u00f4nias o papel de pa\u00eds agr\u00e1rio exportador, de fornecedor de mat\u00e9rias primas minerais, de terras para a produ\u00e7\u00e3o de monocultura, de \u00e1gua para o abastecimento desta rede e de m\u00e3o de obra barata e escravizada.<\/p>\n<p>Com o in\u00edcio do Brasil Rep\u00fablica, o Estado brasileiro incorporou todo este caldo societal, elevando-o posteriormente, atrav\u00e9s de revolu\u00e7\u00f5es passivas e moderniza\u00e7\u00f5es conservadoras, a formas mais sofisticadas de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sobre as classes exploradas do Brasil. Foi assim com o Estado Novo e foi assim com a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. Portanto, as classes dominantes brasileiras, sabendo da completa aus\u00eancia de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com o passado recente de escraviza\u00e7\u00e3o, buscou usar a for\u00e7a e a viol\u00eancia de forma onipresente na vida da classe trabalhadora brasileira, buscando mant\u00ea-la na r\u00e9dea curta enquanto operava profundos processos contrarrevolucion\u00e1rios de moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, primeiramente buscando criar um parque industrial brasileiro; posteriormente, ajustando a sociedade para o ingresso na fase monopolista do capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p>Em ambos os processos, adensou-se a repress\u00e3o contra as chamadas \u201cclasses perigosas\u201d: a popula\u00e7\u00e3o negra nas favelas e a popula\u00e7\u00e3o camponesa, submetidas ininterruptamente a um cotidiano crivado de viol\u00eancia e mis\u00e9ria. O avan\u00e7o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista na economia agr\u00e1ria e pecu\u00e1ria, com incremento de maquin\u00e1rio e modernos meios de fertiliza\u00e7\u00e3o da terra, aprofundou as contradi\u00e7\u00f5es de classe no campo, de modo que a funcionaliza\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio, do garimpo e do extrativismo em geral ao capitalismo monopolista produziu grandes \u00eaxodos rurais, imortalizados em forma de literatura em obras como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Morte e Vida Severina, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto.<\/p>\n<p>Uma na\u00e7\u00e3o como a nossa, que desde o in\u00edcio tem suas costas chicoteadas barbaramente, carrega cicatrizes de longo prazo. Tais acontecimentos aqui narrados t\u00e3o caricaturalmente provocaram transforma\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas na face do pa\u00eds. O Brasil p\u00f3s-30 e p\u00f3s-64 n\u00e3o era mais o mesmo pa\u00eds. Era um outro pa\u00eds, mas com todas as suas mazelas aprofundadas e com meios mais sofisticados de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e subjetiva do povo trabalhador brasileiro. O \u00eaxodo rural continuou constante, pois a popula\u00e7\u00e3o camponesa continuava no fogo cruzado e, buscando fugir da viol\u00eancia armada do latif\u00fandio ou das secas, via na retiran\u00e7a a possibilidade de, se sobreviver, chegar \u00e0 cidade e construir uma nova vida. No entanto, mesmo que conseguisse chegar, descobriria um espa\u00e7o tremendamente opressor no qual n\u00e3o seria sequer reconhecido como ser humano e ent\u00e3o seria mais um a engrossar as fileiras da imensa \u201cpopula\u00e7\u00e3o excedente\u201d, que acaba submetendo-se aos trabalhos mais desumanos, sem teto e sem alimenta\u00e7\u00e3o, sob o risco constante de ser escorra\u00e7ado pela pol\u00edcia ou pela parte mais reacion\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma breve apresenta\u00e7\u00e3o de dados para ilustrar as implica\u00e7\u00f5es disso. Segundo um estudo realizado pela Embrapa\u00b9 entre 2014 e 2017, 84,3% da popula\u00e7\u00e3o ocupa \u00e1reas urbanas, que representam 0,63% do territ\u00f3rio brasileiro. Por outro lado, segundo o \u00faltimo censo agropecu\u00e1rio do pa\u00eds\u00b2 (2017), cerca de 1% dos propriet\u00e1rios concentram em torno de 50% da \u00e1rea rural brasileira, enquanto que estabelecimentos com \u00e1reas menores a 10 hectares s\u00e3o metade das propriedades de terra e concentram apenas 2% da \u00e1rea total. Um exemplo que nunca veremos ser comentado na TV \u00e9 o absurdo fato de que o grupo CR Almeida seja propriet\u00e1rio de cerca de 4,5 milh\u00f5es de hectares de terra no cora\u00e7\u00e3o do Par\u00e1\u00b3. Trata-se do maior latif\u00fandio do mundo. Al\u00e9m disso, avan\u00e7a o processo de estrangeiriza\u00e7\u00e3o da propriedade de terra no pa\u00eds, de modo que j\u00e1 somos o terceiro pa\u00eds com maior quantidade de grandes lotes de terra nas m\u00e3os de estrangeiros, perdendo apenas para a Rep\u00fablica do Congo e a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Portanto, vejam, a chegada dos europeus ao Brasil se insere num largo processo de arrendamento do mundo pela Europa, um processo que necessitou de uma concomitante imposi\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o aos povos n\u00e3o europeus como meio de garantir a sobreviv\u00eancia daquele empreendimento que, mais tarde, Marx chamaria de processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva (ou origin\u00e1ria) de capital. Nesse sentido, a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes dominantes formadas no Brasil incorpora todas as ideias reacion\u00e1rias importadas da Europa, incluindo teorias como o darwinismo social, e expressa sua domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na forma de viol\u00eancia onipresente contra as classes sociais perigosas, que t\u00eam o maior potencial de rebelar-se. Ou seja, a institui\u00e7\u00e3o total escravid\u00e3o, como forma de domina\u00e7\u00e3o bruta, transmutou-se ao longo dos s\u00e9culos, transformou-se nos c\u00e1rceres, nas pol\u00edcias, no latif\u00fandio etc., para impedir que as massas exploradas ascendessem ao primeiro plano da pol\u00edtica como sujeito pol\u00edtico aut\u00f4nomo, capaz de propor e articular um projeto alternativo de sociedade. Tal conforma\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pode ser caracterizada como autocracia burguesa, que institui uma estrutura estatal e pol\u00edtica organizada para minar os interesses populares, ao passo que gerencia toda a sociedade do ponto de vista das classes dominantes.<\/p>\n<p>Dessa forma, a hist\u00f3ria da luta de classes no Brasil demonstra fartamente que os profundos dilemas da classe trabalhadora brasileira n\u00e3o podem ser resolvidos atrav\u00e9s da sua chegada ao poder por via do Estado. Trata-se, por outro lado, de incapacitar o estado autocr\u00e1tico burgu\u00eas de gerenciar a sociedade brasileira, articulando as massas exploradas na dire\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do Poder Popular. Tal processo deve culminar com a cria\u00e7\u00e3o de zonas aut\u00f4nomas que orientem sua a\u00e7\u00e3o no sentido de erguer-se como um poder paralelo ao do Estado burgu\u00eas, golpeando ininterruptamente sua base econ\u00f4mica e pol\u00edtica, por via de ocupa\u00e7\u00f5es de terras do latif\u00fandio e de ind\u00fastrias de produ\u00e7\u00e3o de bens essenciais.<\/p>\n<p>Tal poder paralelo deve organizar-se de modo que a poderosa unidade popular seja capaz impor \u00e0s classes dominantes a realiza\u00e7\u00e3o de uma reforma agr\u00e1ria sem precedentes, devolvendo a terra \u00e0s popula\u00e7\u00f5es camponesas, comunidades tradicionais e ind\u00edgenas. Tal processo deve ser dirigido e orientado para o reflorestamento e recupera\u00e7\u00e3o das terras arrasadas pelo agroneg\u00f3cio, pelo latif\u00fandio e pela minera\u00e7\u00e3o. Sem isso, ser\u00e1 imposs\u00edvel a articula\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos saberes tradicionais e cient\u00edficos em torno de um grande projeto de reavivamento da flora e fauna brasileira. Por outro lado, somente um radical processo de reflorestamento do Brasil pode solucionar a futura devasta\u00e7\u00e3o da crise h\u00eddrica que se avizinha, uma vez que somente o plantio avassalador de \u00e1rvores de diversas esp\u00e9cies nativas pode engendrar um largo processo de recupera\u00e7\u00e3o de olhos d\u2019\u00e1gua, nascentes, pode criar novos rios e curar os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e reservas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, o Poder Popular, orientado na dire\u00e7\u00e3o do socialismo, deve impor um profundo processo de reforma urbana de modo a organizar racionalmente a distribui\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es no territ\u00f3rio nacional, processo que deve ser orientado com base num profundo conhecimento da geografia do pa\u00eds, da biodiversidade, das necessidades espec\u00edficas e nutricionais de determinados biomas e solos, respectivamente. Desse modo, \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar uma sociedade cujo modo de produ\u00e7\u00e3o caminhe para a destrui\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o entre campo e cidade. Toda cidade deve ter hortas comunit\u00e1rias, jardins bot\u00e2nicos e uma \u00e1rea reservada para estudos de repara\u00e7\u00e3o e reposi\u00e7\u00e3o dos nutrientes do solo. Desta forma, como nosso pa\u00eds \u00e9 continental e diverso, a monocultura precisa ser extirpada, dando lugar a uma concep\u00e7\u00e3o de agricultura e de soberania alimentar em que sejam levadas em conta as caracter\u00edsticas do solo da regi\u00e3o, da sua localiza\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o aos ventos, a altura, as necessidades nutricionais da popula\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, o Poder Popular deve orientar-se no sentido de envolver cada vez mais profundamente as pessoas com a Natureza, de modo que seja poss\u00edvel pavimentar uma cultura, uma \u00e9tica, um metabolismo socioambiental, capaz de reconhecer os Direitos da M\u00e3e Terra e, finalmente, de gerar o entendimento de que a humanidade n\u00e3o passa de um de seus filhos. Portanto, a urg\u00eancia do socialismo se liga \u00e0 urg\u00eancia da constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo, que precisa, literalmente, ser cultivado. O papel do Socialismo e do Comunismo na Hist\u00f3ria \u00e9 justamente de gestar as condi\u00e7\u00f5es para a integra\u00e7\u00e3o rec\u00edproca da esp\u00e9cie humana, transformada em comunidade humana, com a natureza.<\/p>\n<p>*Militante do PCB em Pernambuco.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>[1]https:\/\/www.embrapa.br\/busca-de-noticias\/-\/noticia\/28840923\/mais-de-80-da-populacao-brasileira-habita-063-do-territorio-nacional<br \/>\n[2]https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/11\/maior-concentracao-de-terras-revelada-pelo-censo-agropecuario-incentiva-desmatamento-e-conflitos\/<br \/>\n[3]https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2006\/07\/especial-latifundio-concentracao-de-terra-na-mao-de-poucos-custa-caro-ao-brasil\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25702\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-25702","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Gy","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25702\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}