{"id":25716,"date":"2020-06-18T21:08:45","date_gmt":"2020-06-19T00:08:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25716"},"modified":"2020-06-24T23:10:32","modified_gmt":"2020-06-25T02:10:32","slug":"trabalho-reprodutivo-e-genero-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25716","title":{"rendered":"Trabalho reprodutivo e g\u00eanero na pandemia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3eA_i8qsWQsu-Lbh5HhXdGj9H9JEJTG7-BdSdlegj-N079rhSwEeNTP1in63iIcNrs5yjyws8dutZg3MFcwZc38OeOt7bLzIDA69Pa5yxz9SpBgS_ad8fbBHgzC0b2pj_kufxTRIOVPrzz06oLuyoxh=w1135-h638-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Gabriela Bastos Ribas &#8211; Estudante de Ci\u00eancias Sociais e militante da UJC<\/p>\n<p>O ano \u00e9 2020 e estamos bem distante dos carros voadores e da cura de diversas doen\u00e7as. Diferente do que imagin\u00e1vamos, l\u00e1 por meados dos anos 90, vivemos hoje as incertezas causadas por um v\u00edrus e a dificuldade em lidar com ele, assim como suas consequ\u00eancias refletidas na economia, educa\u00e7\u00e3o, no mundo social e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz tanto tempo que, aqui no Brasil, convers\u00e1vamos nos bares sobre o surgimento da covid-19 na China, mas convers\u00e1vamos com a calmaria e tranquilidade de quem jamais imaginou sua vida mudando t\u00e3o r\u00e1pido. Bastou cerca de um m\u00eas para que toda a popula\u00e7\u00e3o do planeta se encontrasse diante do mesmo susto.<\/p>\n<p>A covid-19 realmente tem mudado nossa forma de vida. Se antes o programa de domingo era passear pelas cal\u00e7adas dos grandes centros e observar as vitrines de lojas, hoje o programa de domingo \u00e9 assistir lives e fazer chamadas de v\u00eddeo. Mas dizer que estamos todos no mesmo barco \u00e9 tapar os olhos para as desigualdades que, cada dia mais, se intensificam. Na arca de No\u00e9 n\u00e3o h\u00e1 lugar para todos, na sociedade capitalista tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>A frase memor\u00e1vel do grande escritor russo, Leon Tolst\u00f3i, cabe-nos muito bem no atual contexto: as fam\u00edlias felizes s\u00e3o todas parecidas, mas as fam\u00edlias infelizes s\u00e3o infelizes \u00e0 sua maneira. Ora, claro que estamos vivendo o mesmo surto, mas os riscos e as consequ\u00eancias n\u00e3o afetam a todos da mesma forma: se o v\u00edrus n\u00e3o escolhe cara, classe ou ra\u00e7a, a sua repercuss\u00e3o escolhe a dedo.<\/p>\n<p>Lembremo-nos do in\u00edcio dessa pandemia aqui no Brasil, quando a primeira morte ocorreu. Cleonice, de 63 anos, era empregada dom\u00e9stica e foi contaminada pela patroa que havia voltado da It\u00e1lia com o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. A empregadora n\u00e3o contou para Cleonice de seu diagn\u00f3stico, muito menos obedeceu as regras de n\u00e3o contato, mantendo a empregada em sua casa num momento de necessidade de isolamento social. A neglig\u00eancia dessa mulher demonstra, claramente, que vivemos uma necropol\u00edtica que escolhe a dedo quem pode morrer. N\u00e3o bastou muito tempo para o prefeito de Bel\u00e9m incluir empregadas dom\u00e9sticas como trabalho essencial antes mesmo do in\u00edcio do lockdown.<\/p>\n<p>O trabalho dom\u00e9stico, que por muitos anos passou despercebido e invisibilizado, ganhou estrelinhas quando o mundo parou. Com a suspens\u00e3o das aulas e a obrigatoriedade do isolamento, diversas fam\u00edlias encontram-se desesperadas. O que antes era despercebido, hoje tornou-se her\u00f3ico, basta olhar coment\u00e1rios nas redes sociais de pais que dizem \u201centender\u201d a luta dos professores, pois educar \u00e9 um processo \u00e1rduo. Tamb\u00e9m por isso a classe m\u00e9dia alta n\u00e3o consegue abrir m\u00e3o de seus luxos e privil\u00e9gios e acaba por manter o trabalho dom\u00e9stico remunerado na ativa, colocando a mulher trabalhadora em mais uma situa\u00e7\u00e3o entre a cruz e a espada: correr riscos e garantir o p\u00e3o, ou ficar em casa sem p\u00e3o e ainda com riscos.<\/p>\n<p>Trabalho Reprodutivo<\/p>\n<p>O termo utilizado por Silvia Federici, caracterizado pelas rela\u00e7\u00f5es de cuidado, educa\u00e7\u00e3o, culin\u00e1ria e manuten\u00e7\u00e3o da vida, tem ganhado ainda mais \u00eanfase no momento atual. Uma pesquisa recente do IBGE (2019) sobre a jornada semanal feminina contabiliza que a mulher trabalhadora dedica 53,3h por semana em trabalho, sendo 34,8 horas de emprego remunerado e as 18,5 horas em atividades n\u00e3o remuneradas, como o cuidado da casa e dos filhos. Nessa pesquisa h\u00e1 um fato de extrema import\u00e2ncia tamb\u00e9m: nas fam\u00edlias onde a mulher trabalha fora, as filhas (84,4%) estavam na responsabilidade do lar, cuidando dos irm\u00e3os e fazendo a manuten\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>Essas mulheres possuem uma rotina quase que met\u00f3dica. Se na vida anterior \u00e0 pandemia j\u00e1 enfrentavam a extenuante dupla jornada de trabalho, com o isolamento e a suspens\u00e3o das aulas, a vida da mulher trabalhadora tende a piorar. Elas acordam, levantam, organizam o caf\u00e9, limpam, v\u00e3o para o trabalho, cozinham, limpam, organizam, voltam pra casa, cozinham, organizam. E parece n\u00e3o ter fim.<\/p>\n<p>Muito se fala sobre o trabalho das enfermeiras, que est\u00e3o na linha da frente do combate ao novo coronav\u00edrus, e sim, s\u00e3o a maioria nesse setor. Justamente pela rela\u00e7\u00e3o de cuidado que se exige. Mas a verdade \u00e9 que a maioria das mulheres trabalhadoras comp\u00f5em essa linha de frente. Elas est\u00e3o nos supermercados, nos restaurantes, nos setores de limpeza, entre outros trabalhos extremamente marginalizados e prec\u00e1rios. Exercendo a fun\u00e7\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o da vida, fazendo com que as nossas necessidades sejam atendidas. Seja atrav\u00e9s do preparo de alimentos ou da pr\u00f3pria higieniza\u00e7\u00e3o dos locais abertos.<\/p>\n<p>Enquanto as grandes empresas compram o direito de abrir o com\u00e9rcio e permanecem sugando seu lucro da classe trabalhadora, essas mulheres est\u00e3o cada dia mais exaustas, vulner\u00e1veis, sobrecarregadas de toda a rotina atribu\u00edda ao seu g\u00eanero. Falar sobre linha de frente \u00e9 falar da parcela de mulheres que, quando n\u00e3o est\u00e3o em casa cuidando do lar, est\u00e3o ativamente nos setores atribu\u00eddos como necess\u00e1rios, respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o parece \u00f3bvia, mas nunca \u00e9<\/p>\n<p>Diversas falas do atual presidente do pa\u00eds relatam uma coisa importante: sem classe trabalhadora n\u00e3o h\u00e1 lucro. Mas, mesmo que isso seja vis\u00edvel a ele, parece que n\u00e3o h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o alguma sobre a classe trabalhadora definhar. Est\u00e3o nos matando.<\/p>\n<p>Est\u00e3o nos matando quando as grandes empresas compram o direito de abrir o com\u00e9rcio. Quando o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) n\u00e3o tem verba suficiente, as aulas via EAD s\u00e3o mantidas, os aux\u00edlios, que levam o nome de emergencial, demoram dias e at\u00e9 meses para serem liberados, al\u00e9m da m\u00e1 burocracia que se instaura: aplicativo que n\u00e3o funciona, congestionamentos, falta de informa\u00e7\u00e3o e filas absurdas. Est\u00e3o nos matando.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a classe alta do pa\u00eds que se encontra nessa situa\u00e7\u00e3o. A classe alta do pa\u00eds continua com sua poupan\u00e7a, com suas empregadas dom\u00e9sticas, com a seguran\u00e7a de ter um carro, um bom plano de sa\u00fade, aparelhos tecnol\u00f3gicos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o e internet est\u00e1vel.<\/p>\n<p>A pandemia surgiu no pior momento da vida brasileira e tem escancarado diversas vezes as desigualdades sociais existentes. E fica ainda mais \u00f3bvio quando entramos no assunto g\u00eanero e ra\u00e7a. Mas pensar em formas de acabar com essa necropol\u00edtica que nos consome parece ser algo cada dia mais distante. Isso porque nossas m\u00eddias e fontes de informa\u00e7\u00e3o fazem gosto em distorcer os dados ou suavizar tamanho problema.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o na vida da mulher trabalhadora num contexto pand\u00eamico n\u00e3o ser\u00e1 apenas com creches e refeit\u00f3rios p\u00fablicos como n\u00f3s, feministas, j\u00e1 v\u00ednhamos debatendo. \u00c9 necess\u00e1rio mais e \u00e9 necess\u00e1rio urg\u00eancia. Agora \u00e9 ainda mais obrigat\u00f3rio pontuarmos a import\u00e2ncia do fim da propriedade privada, o fim da explora\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e, logo, o fim do capitalismo. Precisamos com urg\u00eancia de renda b\u00e1sica, da amplia\u00e7\u00e3o e fortifica\u00e7\u00e3o do SUS, da suspens\u00e3o das aulas via EAD, o aumento de verbas para a ci\u00eancia e pesquisas.<\/p>\n<p>Para acabar com as desigualdades sociais e melhorar a vida da mulher trabalhadora precisamos acabar com o capital. Sem a mulher trabalhadora n\u00e3o h\u00e1 luta e n\u00e3o h\u00e1 vida!<\/p>\n<p>Pela vida e emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e o fim da explora\u00e7\u00e3o privada e p\u00fablica!<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ibge.gov.br\/. Acesso em: junho de 2020.<\/p>\n<p>FEDERICI, Silvia. O ponto Zero da Revolu\u00e7\u00e3o: trabalho dom\u00e9stico, reprodu\u00e7\u00e3o e luta feminista. Tradu\u00e7\u00e3o de ColetivoSycorax \u2013 S\u00e3o Paulo: Elefante, 2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25716\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,197],"tags":[222,247],"class_list":["post-25716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s5-juventude","category-saude","tag-2b","tag-jd"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6GM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25716\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}