{"id":25718,"date":"2020-06-19T23:17:32","date_gmt":"2020-06-20T02:17:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25718"},"modified":"2020-06-19T23:17:32","modified_gmt":"2020-06-20T02:17:32","slug":"nossas-tarefas-na-presente-conjuntura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25718","title":{"rendered":"Nossas tarefas na presente conjuntura"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/EZ9xfppXQAIX3vt?format=jpg&amp;name=large\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Um governo em duas horas &#8211; parte 3\/3<\/p>\n<p>Henrique Suricatto<\/p>\n<p>Os artigos anteriores se basearam no v\u00eddeo da reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril, liberado um m\u00eas depois e que causou um terremoto pol\u00edtico o suficiente para ensaiar, em todos os setores interessados na derrubada de Bolsonaro, os alicerces necess\u00e1rios para explorar uma ofensiva contra o governo. Podemos pegar qualquer fala, qualquer trecho deste epis\u00f3dio (1\/3) e teremos um perfeito diagn\u00f3stico do que at\u00e9 aqui foi o governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>A pandemia do coronavirus imp\u00f4s a necessidade de realizar uma quarentena para impedir a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. O isolamento social, como podemos notar, sequer foi levado a s\u00e9rio pelos pol\u00edticos que criticavam Bolsonaro por ser negligente na imposi\u00e7\u00e3o de medidas mais duras de isolamento, conforme proposto pelas autoridades de sa\u00fade. O exemplo de Jo\u00e3o D\u00f3ria Jr., Governador de S\u00e3o Paulo, \u00e9 a s\u00edntese de tal postura. Por mais que criticasse Bolsonaro, apressou-se em criar um plano de reabertura econ\u00f4mica quando o n\u00famero de mortos est\u00e1 pr\u00f3ximo de 9 mil (o maior do pa\u00eds) e concedeu ao prefeito paulistano Bruno Covas um status para a capital paulista diferente da regi\u00e3o metropolitana, como se a maior regi\u00e3o metropolitana da Am\u00e9rica Latina n\u00e3o tivesse rela\u00e7\u00e3o nenhuma de uma cidade com as outras. Podemos notar movimento similar no Rio de Janeiro, Rio Grande Do Sul, Minas Gerais, Amazonas, Cear\u00e1 e Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Foram pressionados politicamente pela classe burguesa em seus respectivos estados, com destaque aos burgueses comerciantes, com amplas bancadas nas assembl\u00e9ias legislativas estaduais, os mesmos que promoveram e financiaram carretas bolsonaristas contra estes governadores e os mesmos que os colocaram no poder. Nunca foi t\u00e3o did\u00e1tico demonstrar como o Estado serve como instrumento de media\u00e7\u00e3o entre as disputas intraburguesas, seu balc\u00e3o de neg\u00f3cios de diferentes setores e os lucros acima da vida (dos pobres!).<\/p>\n<p>A resposta aos nossos desafios na presente conjuntura j\u00e1 est\u00e3o sendo dadas. Entretanto, antes de encaminhar algumas reivindica\u00e7\u00f5es e palavras de ordem gerais, vamos observar alguns movimentos despercebidos ocorrendo debaixo do solo, l\u00e1 onde a toupeira habita.<\/p>\n<p>AS TAREFAS J\u00c1 TOCADAS<\/p>\n<p>Temos metade da for\u00e7a de trabalho brasileira trabalhando na informalidade. O aux\u00edlio emergencial de 600 reais (1200 para chefes de fam\u00edlia) n\u00e3o \u00e9 suficiente para sustentar financeiramente a grande maioria dos beneficiados \u2013 isto para quem conseguiu pegar! Outras precariedades ficaram em evid\u00eancia gritante, como as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, de moradia e de estudos. Os postos de trabalho n\u00e3o oferecem a seguran\u00e7a m\u00ednima para a sa\u00fade f\u00edsica e mental dos trabalhadores, qui\u00e7\u00e1 sanit\u00e1ria. Quantas categorias n\u00e3o se deram conta disso?<\/p>\n<p>Vale destacar os trabalhadores do telemarketing, conhecidos historicamente por pertencerem a uma categoria de pouca tradi\u00e7\u00e3o sindical, que se mobilizou massivamente para garantir a seguran\u00e7a sanit\u00e1ria e continuar trabalhando, mas tamb\u00e9m questionou a classifica\u00e7\u00e3o do seu servi\u00e7o como \u201cessencial\u201d. Sentindo a press\u00e3o, as dire\u00e7\u00f5es sindicais pelegas, grandes contribuintes para o marasmo hist\u00f3rico do telemarketing, tiveram que ceder e se colocar em movimento. Os trabalhadores de aplicativos de entrega come\u00e7am a se organizar coletivamente na perspectiva sindical, isto \u00e9, representados enquanto categoria, fazem paralisa\u00e7\u00f5es e se envolvem cada vez mais politicamente com as quest\u00f5es amplas da conjuntura, como o combate ao fascismo.<\/p>\n<p>As periferias dos grandes centros urbanos, diante desse mar de habitantes precarizados em suas comunidades, mobilizaram amplas brigadas de solidariedade, atreladas \u00e0s mais diferentes entidades, com destaque para as associa\u00e7\u00f5es de bairros, que tiveram grande contribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para o movimento oper\u00e1rio grevista dos anos 1970\/80. Sendo uma importante retaguarda de apoio popular \u00e0 vanguarda oper\u00e1ria, voltaram a ter papel de destaque. Distribuindo alimentos, produtos de higiene e limpeza, mapeando os grupos vulner\u00e1veis, destacando representantes eleitos para colher as demandas destes locais e trazer para melhor racionaliza\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o dos recursos dispon\u00edveis, executam um trabalho de log\u00edstica bem poderoso.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na democracia direta, sobretudo entre os informais, que encontram nas entidades dos movimentos sociais os primeiros contatos com a organiza\u00e7\u00e3o coletiva dos trabalhadores. Algumas brigadas realizam um esfor\u00e7o herc\u00faleo de disponibilizar insumos necess\u00e1rios para o bom funcionamento dos postos de sa\u00fade destes locais, entendendo a gravidade da situa\u00e7\u00e3o e tendo em mente a precariza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do SUS. De uns anos pra c\u00e1, isso reativou em amplas regi\u00f5es os movimentos em defesa da sa\u00fade, similares aos que vemos nos anos 1980 e que foram respons\u00e1veis por implantar o SUS na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 (talvez o ponto mais avan\u00e7ado).<\/p>\n<p>Na esfera do mundo do trabalho, uma velha pr\u00e1tica muito produtiva volta \u00e0 tona em larga escala, que s\u00e3o os canais de den\u00fancias. Seja por aux\u00edlio dos sindicatos combativos, frentes sindicais, ou promovidas pelos pr\u00f3prios trabalhadores, s\u00e3o criados grupos e f\u00f3runs nas redes sociais onde acontecem estas den\u00fancias, o que ajuda a unificar a categoria, gerar uma solidariedade de classe e preparar as estruturas para a\u00e7\u00f5es mais en\u00e9rgicas, como a defesa dos sal\u00e1rios e empregos, das melhorias das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e para evitar abusos nas rela\u00e7\u00f5es trabalhistas. Quando expostas para o p\u00fablico em geral, ajudam a fazer com que a sociedade pressione a empresa a reverter suas a\u00e7\u00f5es de ataques aos seus funcion\u00e1rios. \u00c9 por esse caminho que a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe acontece.<\/p>\n<p>Estabelecimentos de ensino onde n\u00e3o havia movimento estudantil ou onde este \u00e9 d\u00e9bil experimentam uma necessidade de se organizar coletivamente contra a precariza\u00e7\u00e3o do ensino, manifestada no ensino \u00e0 dist\u00e2ncia e nas condi\u00e7\u00f5es de estudos em que a grande maioria dos estudantes se encontram.<\/p>\n<p>Quando a precariza\u00e7\u00e3o \u00e9 comum \u00e0 grande maioria, quando as verdades consolidadas pelo discurso hegem\u00f4nico da ideologia burguesa se desmancham no ar pelas for\u00e7as das pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es desencadeadas pela crise, o que afetou imediatamente todas as esferas da sociedade, abre-se uma enorme oportunidade para os revolucion\u00e1rios comunistas recomporem as for\u00e7as e reorganizarem a classe trabalhadora coletivamente em prol de seus interesses materiais mais imediatos, at\u00e9 prepar\u00e1-los para a sua tarefa hist\u00f3rica de derrotar a burguesia e fazer a t\u00e3o necess\u00e1ria revolu\u00e7\u00e3o. Senhores, eis a luta de classes!<\/p>\n<p>\u00c9 lindo de ver? Sim, mas s\u00f3 ver n\u00e3o adianta nada, ou pior, permite o avan\u00e7o do oportunismo de direita e de esquerda nas organiza\u00e7\u00f5es diretas da classe trabalhadora. Vemos algumas massas novamente despertando para o senso coletivo de organiza\u00e7\u00e3o e, para as quest\u00f5es pol\u00edticas em geral, o velho volta a ser apresentado como o novo para estas pessoas e isso n\u00e3o tem outro nome a n\u00e3o ser oportunismo, pois os agentes que o promovem, o fazem conscientemente em defesa de seus interesses pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Os petistas \u2013 ou aqueles que seguem a linha pol\u00edtica do campo democr\u00e1tico-popular \u2013 tendem a novamente girar o movimento de base para o campo da institucionalidade, a promover seus parlamentares de base e candidatos nestes espa\u00e7os, monopolizando o debate pol\u00edtico e recusando qualquer ataque \u00e0 sua linha pol\u00edtica. J\u00e1 testemunhamos as consequ\u00eancias hist\u00f3ricas deste movimento e as sentimos ainda hoje.<\/p>\n<p>Mas o petismo (democr\u00e1tico-popular) pode continuar existindo mesmo de maneira espont\u00e2nea, j\u00e1 que o senso comum de esquerda \u00e9 petista e \u00e9 mais que natural que suas concep\u00e7\u00f5es de luta, t\u00e1tica e estrat\u00e9gia voltem a ser implementadas, sob outros nomes. Vemos o reflexo disso nas reivindica\u00e7\u00f5es m\u00e1ximas existentes, como a \u201cdefesa da democracia\u201d, carregada de uma abstra\u00e7\u00e3o enorme para os lutadores engajados hoje.<\/p>\n<p>Visando estes espa\u00e7os anteriormente citados (os locais de moradia), cabe a n\u00f3s expor pacientemente, mas de maneira firme, as diverg\u00eancias com esta concep\u00e7\u00e3o de luta meramente reivindicativa voltada \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, em como elas ajudam a desarticular os espa\u00e7os de luta e convertem as suas lideran\u00e7as em pol\u00edticos comuns das c\u00e2maras municipais, cada vez mais descolados do movimento real dos locais de moradia. N\u00e3o podemos permitir que estes espa\u00e7os somente existam para reagir aos ataques desferidos contra n\u00f3s. Eles devem ser espa\u00e7os reais de vida pol\u00edtica, efetivamente inseridos nas lutas dos bairros. Assim, h\u00e1 uma educa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o permanente, combativa, n\u00e3o meramente reivindicativa, um efetivo embri\u00e3o do poder popular.<\/p>\n<p>Os petistas est\u00e3o em uma linha t\u00eanue entre os advers\u00e1rios pol\u00edticos dentro do mesmo \u201ccampo\u201d de influ\u00eancia pol\u00edtica, mas n\u00e3o s\u00e3o raros os inimigos reais, tais como os pol\u00edticos da direita ou os centristas fisiol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Nos locais de trabalho, n\u00e3o tem segredo, os interesses coletivos dos trabalhadores em defesa da renda e dos sal\u00e1rios, isto \u00e9, das condi\u00e7\u00f5es de vida, devem ser defendidos organizadamente. Devem denunciar todo e qualquer abuso do patronato, para que tais den\u00fancias cheguem a toda a sociedade, para que ganhem a empatia das demais categorias, maior identifica\u00e7\u00e3o de outros postos de trabalho da mesma categoria, procurando educar os demais colegas de trabalho \u2013 a depender do local e da categoria \u2013 para a luta coletiva, aprendendo a se proteger e reivindicando os direitos b\u00e1sicos assegurados pelo m\u00ednimo de \u201cprogressismo\u201d da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista atual e organizando greves e piquetes quando se fizer necess\u00e1rio para defender os seus direitos.<\/p>\n<p>Os sindicatos precisam ser identificados minuciosamente, se s\u00e3o dirigidos por representantes realmente interessados na defesa da categoria, ou se s\u00e3o amarelos fechados com o patronato e n\u00e3o passam de burocratas fisiol\u00f3gicos. Diante da segunda constata\u00e7\u00e3o, devemos aprender a combater a \u201cpelegada\u201d e tomar para a classe trabalhadora a entidade sindical.<\/p>\n<p>Nos locais de estudo, vale a mesma forma de den\u00fancia. Com a riqueza de detalhes, os estudantes percebem que n\u00e3o se trata de sensacionalismo esquerdista, mas sim da perfeita descri\u00e7\u00e3o da precariedade do ensino neste pa\u00eds. A l\u00f3gica do sindicato dirigidos por pelegos vale para a entidade estudantil dirigida por burocratas mirins, carreiristas profissionais, interessados apenas na manuten\u00e7\u00e3o de seu med\u00edocre e \u201csagrado\u201d status de dirigente estudantil. Mas Nota Bene: jamais condenar ou demonizar a entidade em si, pois foi esta cultura esquerdista que permitiu o avan\u00e7o de contrarreformas e de ataques p\u00fablicos da burguesia a \u00f3rg\u00e3os constru\u00eddos pelos pr\u00f3prios trabalhadores para os representar coletivamente em contraponto \u00e0 mera institucionalidade burguesa. A quase liquida\u00e7\u00e3o geral das estruturas representativas das entidades de base seria um retrocesso de d\u00e9cadas na consci\u00eancia de classe. A nossa democracia direta mais consolidada, os germes mais s\u00f3lidos do Poder Popular, por uns fios est\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o decorativa.<\/p>\n<p>Para aqueles que j\u00e1 atuam nestes espa\u00e7os, s\u00e3o estas as tarefas colocadas e continuar\u00e3o a ser tocadas com estes objetivos em mente, mas, sem liga\u00e7\u00e3o com a conjuntura geral, tende-se a n\u00e3o conseguir tocar as tarefas necess\u00e1rias de suas pr\u00f3prias esferas de atua\u00e7\u00e3o, pois umas est\u00e3o ligadas \u00e0s outras. As t\u00e1ticas precisam estar subordinadas a uma estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Faz-se necess\u00e1rio tamb\u00e9m analisar o movimento geral do atual momento em seu sentido macro. As manifesta\u00e7\u00f5es de rua e as palavras de ordem levantadas por estas s\u00e3o express\u00f5es dos objetivos gerais n\u00e3o somente dos lutadores engajados nos espa\u00e7os anteriormente citados, mas sobretudo pelos independentes e massas rec\u00e9m-despertas para a pol\u00edtica que saem \u00e0s ruas para participar de manifesta\u00e7\u00f5es e outras a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de base.<\/p>\n<p>OS ATOS E A CONTRAOFENSIVA DOS REVOLUCION\u00c1RIOS<\/p>\n<p>Por conta da pandemia e do receio de se contaminar com o v\u00edrus, h\u00e1 de se reconhecer que estas manifesta\u00e7\u00f5es tocadas at\u00e9 aqui s\u00e3o t\u00edmidas em sua express\u00e3o num\u00e9rica, na capacidade de colocar gente na rua. Entretanto, para aqueles que se limitam a julgar o movimento geral somente pelas suas manifesta\u00e7\u00f5es de ruas, ou n\u00e3o constroem absolutamente nada em lugar nenhum \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 nenhum problema para independentes (politizados n\u00e3o organizados), mas conden\u00e1vel para organiza\u00e7\u00f5es \u2013 ou n\u00e3o se est\u00e3o atentos \u00e0 conjuntura como deveria.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es tendem a ter um impacto maior n\u00e3o somente pelo n\u00famero de pessoas e de for\u00e7as que conseguem levar junto, mas pelas suas reivindica\u00e7\u00f5es, e \u00e9 este fator em espec\u00edfico que veremos agora.<\/p>\n<p>A luta antifascista<\/p>\n<p>Vindo dos independentes com mais for\u00e7a, muitos veem nos discursos e pronunciamentos de Bolsonaro em fechar o regime, na sua ret\u00f3rica cada vez mais radicalizada e no mais vis\u00edvel apoio de grupos mais radicalizados da extrema direita, uma guinada fascista do governo a caminho, e esta precisa ser combatida sem cerim\u00f4nias e ser enfrentada em todos os espa\u00e7os poss\u00edveis. Que a reivindica\u00e7\u00e3o antifascista n\u00e3o tem capacidade de levar \u00e0s ruas e ao engajamento pol\u00edtico amplas massas isso \u00e9 fato, mas que a mesma traz os independentes ao engajamento pol\u00edtico e a estes a necessidade de se organizar coletivamente em prol das reivindica\u00e7\u00f5es colocadas j\u00e1 \u00e9 um grande avan\u00e7o para a presente conjuntura, em que o antipartidarismo t\u00edpico de 2013 parece ser ensaiado novamente por outros setores, sobretudo os mobilizados \u201cem defesa da democracia\u201d.<\/p>\n<p>A A\u00e7\u00e3o AntiFascista, criada pelo Partido Comunista Alem\u00e3o no in\u00edcio de 1930 tem um enorme apelo hist\u00f3rico. Uma investiga\u00e7\u00e3o s\u00e9ria da hist\u00f3ria do AntiFascismo enquanto movimento hist\u00f3rico de uni\u00e3o das for\u00e7as da esquerda classista contra o fascismo permite n\u00e3o somente politizar e organizar de maneira efetiva e permanente esta massa politizada, como ajuda na demarca\u00e7\u00e3o de uma certa independ\u00eancia de classe perante as outras for\u00e7as que se reivindicam \u201cantifascistas\u201d, mas n\u00e3o passam de liberais hip\u00f3critas que n\u00e3o querem assumir o filho que criaram. Desses demagogos estamos cheios por a\u00ed, reunidos no \u201csomos 70%\u201d , \u201cEstamos Juntos\u201d e na oposi\u00e7\u00e3o meramente formal de partidos, institui\u00e7\u00f5es e entidades da dita sociedade civil, muito refinados em escolher as palavras que usar\u00e3o para descrever o aspirante a ditador colocado no Planalto, mas covardes em colocar nas ruas a sociedade. Nas v\u00e9speras dos atos de 7 de junho, 5 partidos da oposi\u00e7\u00e3o desencorajaram seus filiados a irem \u00e0s ruas, a priorizar uma milit\u00e2ncia digital; o pr\u00f3prio PT desconversou, ficou vacilante em ir \u00e0s ruas. Tamanha demagogia j\u00e1 enche a paci\u00eancia at\u00e9 de nossos costumeiros analistas burgueses, esperando de fato um movimento eficiente na derrubada de Bolsonaro.<\/p>\n<p>A TV Globo, j\u00e1 sacando a capacidade mobilizadora do Antifascismo \u2013 olhando tamb\u00e9m para o Imp\u00e9rio, onde os EUA vivem uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es antirracistas \u2013 pauta a discuss\u00e3o em explicar a sua vers\u00e3o de antifascismo e fascismo, e assim oculta de toda a sociedade intencionalmente que foram os comunistas os maiores respons\u00e1veis pela derrota do fascismo.<\/p>\n<p>A reivindica\u00e7\u00e3o de combate ao fascismo \u00e9 justa na medida em que Jair Bolsonaro (JB) fica cada vez mais isolado e, com uma milit\u00e2ncia org\u00e2nica menor mas radicalizada, mais aberta a ideias e concep\u00e7\u00f5es mais fascistas, citar frase de Mussolini, beber leite em um gesto t\u00edpico dos supremacistas brancas estadunidenses, tolerar o uso de s\u00edmbolos da ultradireita ucraniana em manifesta\u00e7\u00f5es e simpatizar com suas t\u00e1ticas \u00e9 muita coincid\u00eancia. Em pol\u00edtica coincid\u00eancias n\u00e3o existem, existem fatos e narrativas, e os fatos n\u00e3o permitem outra narrativa. Bolsonaro sabe l\u00e1 no fundo que l\u00e1 atr\u00e1s foi incompetente o suficiente para n\u00e3o organizar organicamente seus seguidores mais fi\u00e9is e agora busca desesperadamente dar for\u00e7a material para seus militantes. O mundo digital n\u00e3o parece mais t\u00e3o eficiente quanto era h\u00e1 um ano atr\u00e1s. O Alian\u00e7a pelo Brasil, um partido a sua imagem e semelhan\u00e7a \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o dessa necessidade. Mas como os fascistas s\u00e3o uma minoria entre os pr\u00f3prios bolsonaristas, a tarefa colocada \u00e9 minar os fascistas mais consequentes da rea\u00e7\u00e3o bolsonarista, enfraquecendo e isolando cada vez mais o presidente e os burgueses que o apoiam.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 porque esta reivindica\u00e7\u00e3o do antifascismo \u00e9 justa que ela \u00e9 suficiente ou se torna a principal reivindica\u00e7\u00e3o do movimento. O nosso papel perante os lutadores independentes mobilizados pela luta antifascista \u00e9 apontar que a luta meramente reativa \u00e9 insuficiente para o combate ao fascismo e que as manifesta\u00e7\u00f5es por si s\u00f3 n\u00e3o v\u00e3o combater o fascismo. \u00c9 necess\u00e1rio criar comit\u00eas de defesa dos trabalhadores, uma educa\u00e7\u00e3o que permita a preserva\u00e7\u00e3o dos lutadores antifascista e ao mesmo tempo fortale\u00e7a as entidades alvo destas hordas reacion\u00e1rias, com \u00f3dio fisiol\u00f3gico aos trabalhadores. E, por fim, explicar a estes que o fascismo \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima da burguesia decadente em per\u00edodo de crise e \u00e9 insuficiente lutar contra o fascismo sem lutar contra o capitalismo e seus representantes, que procuram fechar com toda a perspectiva que possa existir com uma defesa abstrata de uma democracia burguesa, quando esta n\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada em sua totalidade, ou quando a pr\u00f3pria burguesia n\u00e3o faz muita cerim\u00f4nia em defend\u00ea-la. Blindar esta massa de uma influ\u00eancia liberal \u00e9 o nosso objetivo, por isso a palavra de ordem do antifascismo precisa ser disputada e esta s\u00f3 tem for\u00e7a material efetiva em conjunto com as principais palavras de ordem levantadas pelo movimento na atual conjuntura. Para isso precisamos desidratar outra palavra de ordem levantada com for\u00e7a nesta conjuntura, com um potencial mais perigoso tanto na sua formula\u00e7\u00e3o quanto em seu conte\u00fado.<\/p>\n<p>Em defesa da democracia<\/p>\n<p>Em 31 de maio a rea\u00e7\u00e3o come\u00e7ou, o que ocorreu antes era ensaio. V\u00e1rios atos ocorreram em diversas capitais do Brasil, puxados por movimentos ligados a torcidas organizadas. Em S\u00e3o Paulo, o movimento chamava-se \u201cSomos Democracia\u201d, promovido por alas da esquerda da Gavi\u00f5es da Fiel, a maior organizada do SC Corinthians Paulista e contou com a presen\u00e7a de torcedores de outros times e setores de torcidas organizadas de outros clubes paulistas presentes, al\u00e9m de coletivos de torcedores Antifascistas.<\/p>\n<p>Um fato interessante \u00e9 o retorno de movimentos pol\u00edticos ligados \u00e0s torcidas de futebol, n\u00e3o visto com destaque desde o come\u00e7o da redemocratiza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o parcelas das torcidas que durante este per\u00edodo atuaram politicamente (vide a vida org\u00e2nica destas subsedes de organizadas existentes Brasil afora), mas de forma mais localizada e dispersa, sem pretens\u00f5es de se debru\u00e7ar sobre quest\u00f5es para al\u00e9m do futebol. Contudo, como se tornaram alvo do bolsonarismo na correia da elitiza\u00e7\u00e3o do futebol \u2013 similar ao ocorrido na era Thatcher, no Reino Unido dos anos 80 \u2013 o debate da inser\u00e7\u00e3o das organizadas na sociedade voltou a atuar com mais notoriedade e grupos mais \u00e0 esquerda destas torcidas voltaram a atuar efetivamente. \u00c9 importante enfatizar que os coletivos antifascistas das torcidas de futebol n\u00e3o surgiram exclusivamente das organizadas, mas tem membros que atuam nelas.<\/p>\n<p>Anteriormente ao 31 de maio, estas torcidas vinham se contrapondo os atos bolsonaristas nas mesmas vias e locais onde se manifestavam: em Porto Alegre, Antifas de Gr\u00eamio e Internacional foram confrontar bolsonaristas em frente ao Comando Militar do Sul em 24 de maio; a Democracia Corintiana vinha fazendo o mesmo na Avenida Paulista. O papel principal era de encorajar o resto da sociedade a se contrapor ao governo nas ruas, e parcialmente vem conseguindo.<\/p>\n<p>Sobre o retorno das torcidas nas manifesta\u00e7\u00f5es de ruas pol\u00edticas \u00e9 melhor tratar em outra oportunidade, temos militantes com \u00f3timos ac\u00famulos sobre o assunto e que poderiam dar contribui\u00e7\u00f5es importantes ao conjunto dos comunistas (fica a dica).<\/p>\n<p>O mais importante de analisar aqui s\u00e3o suas principais reivindica\u00e7\u00f5es: al\u00e9m da luta contra o fascismo, a defesa da democracia \u00e9 a mais dita. Tendo em vista as constantes amea\u00e7as de JB ao estado democr\u00e1tico de direito (ao regime burgu\u00eas republicano propriamente dito) e impressionados pelas constantes not\u00edcias a respeito na defesa da democracia vindas de toda a imprensa burguesa, de institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil e de partidos pol\u00edticos de v\u00e1rios espectros e mesmo dentro da esquerda, \u00e9 natural que expressem tal palavra de ordem. S\u00e3o reflexos de sua politiza\u00e7\u00e3o, de qual \u00e9 o seu n\u00edvel neste setor e de quais foram as suas fontes de influ\u00eancia. Tomar os torcedores como exemplo de an\u00e1lise da palavra de ordem \u201cem defesa da democracia!\u201d \u00e9 buscar a melhor express\u00e3o pol\u00edtica organizada de uma pauta mobilizadora do movimento atual. A reivindica\u00e7\u00e3o da defesa da democracia tal como est\u00e1 colocada \u00e9 carregada de uma abstra\u00e7\u00e3o pass\u00edvel de ser explorada por qualquer campo pol\u00edtico, e \u00e9 a\u00ed mora o problema.<\/p>\n<p>Sejam as for\u00e7as mais oportunistas da direita e da esquerda, at\u00e9 o pr\u00f3prio governo hipocritamente usa a \u201cdefesa da democracia\u201d para alimentar sua base de militantes a se contrapor aos poderes legislativo e judici\u00e1rio, alegando a necessidade de equil\u00edbrio de poderes, ao uso da interfer\u00eancia de um sobre o outro e da necessidade de um poder moderador se impor sobre os poderes que abusam de suas atribui\u00e7\u00f5es &#8211; uma \u201c\u00f3tima\u201d ret\u00f3rica para justificar o emprego dos militares. O estado democr\u00e1tico de direito \u00e9 aquele regido pelo juspositivismo da legisla\u00e7\u00e3o burguesa, encontrada sua express\u00e3o m\u00e1xima na Constitui\u00e7\u00e3o. A democracia reivindicada \u00e9 a democracia representativa das elei\u00e7\u00f5es burguesas. Ora bolas, sabemos que as elei\u00e7\u00f5es burguesas s\u00e3o carregadas de fraudes e irregularidades inerentes ao seu sistema, n\u00e3o representam a maioria dos interesses da sociedade, apenas de alguns grupos que apresentam seus interesses como interesses universais nas campanhas eleitorais, fazendo o que agrada aos poss\u00edveis eleitores e ao povo em geral, mas imediatamente eleitos, trabalham pela manuten\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios interesses e dos grupos pol\u00edticos burgueses que os representam de fato.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 for\u00e7oso afirmar que as elei\u00e7\u00f5es e o sistema eleitoral baseado na democracia representativa s\u00e3o algumas das maiores farsas que o capitalismo nos oferece. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 o seu melhor sistema, adequado a funcionar em tempos de paz e o ideal m\u00e1ximo do sistema pol\u00edtico por ele constru\u00eddo. Tal reivindica\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica, tal como colocada e pass\u00edvel de ser explorada na perspectiva liberal, passa a dizer \u00e0s massas que n\u00e3o se trata de mudar o sistema, mas de reform\u00e1-lo e de aprimorar o seu funcionamento. Se n\u00e3o funciona bem \u00e9 por n\u00e3o estar seguindo os princ\u00edpios de sua estrutura e n\u00e3o por sua estrutura por si s\u00f3, o que expressa uma contradi\u00e7\u00e3o enorme para as classes dirigentes. Se \u00e9 justa esta reivindica\u00e7\u00e3o perante os fatos da conjuntura? Sim. Ela est\u00e1 certa perante as tarefas impostas no presente momento? De maneira nenhuma.<\/p>\n<p>Novamente, Bolsonaro pode muito bem tensionar o aparato do regime atual de estado para impor sua agenda pol\u00edtica. Os conflitos que testemunhamos entre o executivo, o legislativo e o judici\u00e1rio s\u00e3o as tens\u00f5es internas deste regime para se adaptar ao seu projeto de poder. Um golpe aberto \u00e9 a \u00faltima \u2013 e desesperada \u2013 tentativa a ser tocada, o que n\u00e3o venha a ser o caso enquanto seu enfraquecimento pol\u00edtico continue sendo levado a cabo. A democracia que tanto gritam aos quatro cantos que est\u00e1 seriamente amea\u00e7ada desde 2018, na pr\u00e1tica, para n\u00f3s comunistas, n\u00e3o \u00e9 a democracia do parlamento burgu\u00eas, da autonomia dos estados, da justi\u00e7a, do sistema eleitoral, \u00e9 a dos trabalhadores, das suas entidades, de seus sindicatos, de seus movimentos sociais e de seus partidos pol\u00edticos, \u00e9 a democracia direta da nossa classe que \u00e9 atacada, amea\u00e7ada e pass\u00edvel de esmagamento quando for encerrado este c\u00edrculo de \u201cterror sem fim\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, sem nenhuma ilus\u00e3o com o regime burgu\u00eas, mas ciente dos perigos reais que rondam a nossa classe, a defesa das liberdades democr\u00e1ticas e dos direitos dos trabalhadores soa mais consequente e pass\u00edvel n\u00e3o somente de di\u00e1logo com tais setores mobilizados em torno da perspectiva da defesa dos poucos direitos conquistados ao longo de intensos e dolorosos processos de luta no passado para garantir o m\u00ednimo as classes oprimidas. Mas!?!?<\/p>\n<p>Mas, sem vacilar, questionar quando afirmarem que est\u00e3o lutando em defesa da democracia, perguntaremos: para qual classe? Assim, estaremos abrindo as contradi\u00e7\u00f5es deste sistema vigente aos independentes honestos e \u00e0s massas rec\u00e9m despertadas e mobilizadas por esta palavra de ordem, a fim de expor a incapacidade de uma democracia burguesa de fato ser democr\u00e1tica e que a democracia direta dos trabalhadores precisa ser fortalecida em contraponto \u00e0s amea\u00e7as impostas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida das classes e grupos sociais mais oprimidos e explorados.<\/p>\n<p>Nada \u00e9 mais motivo de contesta\u00e7\u00e3o para os comunistas, diante de uma conjuntura desta natureza, do que permitir que tal perspectiva se mantenha, que uma palavra de ordem abstrata n\u00e3o seja contraposta ou colocada em contradi\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 duplamente conden\u00e1vel a postura daqueles que imediatamente condenam os grupos de nossa classe mobilizados por esta palavra de ordem, e o motivo \u00e9 simples: ela \u00e9 reflexo da ideologia dominante, da consci\u00eancia m\u00e9dia da classe na presente conjuntura, do conte\u00fado despejado por parcelas da burguesia temerosa a Bolsonaro e que esperam algo similar a junho de 2013 para derrub\u00e1-lo. Cabe a n\u00f3s expor as limita\u00e7\u00f5es da democracia representativa, fortalecer a democracia direta dos trabalhadores, apontando para os trabalhos de base e para o fortalecimento das suas entidades. As manifesta\u00e7\u00f5es de ruas s\u00e3o extremamente importantes para demonstra\u00e7\u00e3o de poder, mas s\u00f3 vamos conseguir demonstrar uma for\u00e7a real, se por tr\u00e1s desses atos houver uma constru\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, uma mobiliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via sustentada em concretos trabalhos de base e fortalecimento de lutas cotidianas nos mais diversos espa\u00e7os. Essa \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de rua, antes e depois.<\/p>\n<p>O Movimento Negro e a luta contra o racismo estrutural e a viol\u00eancia policial<\/p>\n<p>Nem cabe falar muito sobre se a pauta \u00e9 justa ou n\u00e3o, ela \u00e9 inteiramente justa na medida em que o grosso de nosso proletariado \u00e9 negro e pardo, sofre com a cor da sua pele uma dupla opress\u00e3o da classe dirigente, com fetiche nos tempos da escravid\u00e3o e s\u00f3 um esquerdista europeizado pode negar a tamanha import\u00e2ncia que a quest\u00e3o do racismo tem na luta de classes brasileira. Se, nos EUA, o levante antifascista teve como estopim a cr\u00f4nica viol\u00eancia policial americana, com o assassinato de George Floyd ocorrer da forma mais banal, no Brasil, al\u00e9m deste fator (assassinato de Jo\u00e3o Victor, no Rio, numa opera\u00e7\u00e3o policial), temos a morte de uma crian\u00e7a pequena (Miguel) ao despencar de um pr\u00e9dio de classe m\u00e9dia alta em Recife, sob os cuidados da patroa da empregada dom\u00e9stica. A patroa n\u00e3o se importava com a vida de uma crian\u00e7a negra tanto quanto a necessidade de pintar as unhas ou colocar sua cadela a passear. Se isso n\u00e3o \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de racismo, n\u00e3o sei o que \u00e9.<\/p>\n<p>A pauta em si \u00e9 extremamente justa, mas sozinha \u00e9 insuficiente, pois reivindicar mudan\u00e7as na estrutura de repress\u00e3o do Estado brasileiro e do racismo estrutural sem alterar as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida material existente \u00e9 limitar as reivindica\u00e7\u00f5es no campo da institucionalidade, \u00e9 n\u00e3o fortalecer os movimentos de resist\u00eancia e n\u00e3o educar para a organiza\u00e7\u00e3o direta e mobiliza\u00e7\u00e3o permanente do Movimento Negro. Claro, precisamos dar respostas imediatas, no campo das reformas, mas sempre reivindicando reformas que em si n\u00e3o alcan\u00e7am sua efetiva\u00e7\u00e3o completa por conta da pr\u00f3pria estrutura social vigente, com uma contradi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a evolu\u00e7\u00e3o da luta. O Movimento Negro Classista, consciente desta tarefa, atua para tirar o Movimento Negro da influ\u00eancia liberal que tanto corr\u00f3i a organiza\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia dos lutadores honestos. Permanecer lutando por pautas liberais n\u00e3o \u00e9 honrar a mem\u00f3ria dos que morreram sob a viol\u00eancia racista, dos an\u00f4nimos \u00e0 Marielle.<\/p>\n<p>A Justeza do Fora Bolsonaro e Mour\u00e3o<\/p>\n<p>No artigo anterior (2\/3), \u00e0 luz da repercuss\u00e3o da reuni\u00e3o ministerial de 22 de abril, afirmei que o bolsonarismo \u00e9 a \u00faltima express\u00e3o que as for\u00e7as burguesas mais reacion\u00e1rias conseguiram erguer contra os trabalhadores sem depender totalmente dos militares, estes sim, a \u00fanica e s\u00f3lida institui\u00e7\u00e3o: o partido fardado capaz de combater com toda a efici\u00eancia necess\u00e1ria a classe trabalhadora. Com o enfraquecimento de Bolsonaro e sua radicaliza\u00e7\u00e3o protofascista, os militares gradualmente se incorporam ao bolsonarismo para continuar sustentando o governo e combater por ele. A linha que separa o bolsonarismo do partido fardado \u00e9 nebulosa, n\u00e3o se sabe at\u00e9 que ponto e o tamanho da intersec\u00e7\u00e3o existente, o suficiente para serem uma coisa s\u00f3.<\/p>\n<p>Bolsonaro vai se agarrando ao que pode, seja aos poucos fascistas abertos que saem \u00e0s ruas e cada vez mais encorajados pela ret\u00f3rica e apoio indireto do presidente, seja ao fisiol\u00f3gico Centr\u00e3o, para manter o poder a qualquer custo.<\/p>\n<p>A burguesia cada dia que se passa convence-se que, mesmo com diverg\u00eancias, os militares continuar\u00e3o dentro da caserna e entendem o Governo Bolsonaro como o governo deles, n\u00e3o h\u00e1 uma polariza\u00e7\u00e3o entre Bolsonaro e Mour\u00e3o tal como tinha entre Dilma e Temer ou Collor e Itamar. Ao sacarem este fato desesperador a muitos burgueses, alguns esperam uma modera\u00e7\u00e3o de Mour\u00e3o caso este venha a ser o futuro presidente em um processo de impeachment, cortejado por alguns setores da burguesia e explorado parcialmente pelos comunistas, ao entender que o impeachment radicaliza a conjuntura ao nosso favor por um tempo. Mas abrir a oportunidade de Mour\u00e3o \u2013 o partido fardado \u2013 dirigir o executivo diretamente \u00e9 dar carta branca para a persegui\u00e7\u00e3o aberta \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. O verdadeiro poder moderador est\u00e1 com os detentores do monop\u00f3lio da viol\u00eancia. Talvez seja isso que nossos burgueses esperam com a ren\u00fancia ou deposi\u00e7\u00e3o de Bolsonaro e a manuten\u00e7\u00e3o de Mour\u00e3o na presid\u00eancia. O impeachment ser\u00e1 somente vi\u00e1vel com uma ampla press\u00e3o da sociedade, refletida nas ruas e na opini\u00e3o p\u00fablica. Qualquer um sabe disso e sabe que Rodrigo Maia n\u00e3o vai mover uma palha se n\u00e3o tiver press\u00e3o nas ruas. Se vai ou n\u00e3o ser aprovado \u00e9 outra hist\u00f3ria, mas \u00e9 o suficiente para mobiliza\u00e7\u00f5es amplas. Visando o risco Mour\u00e3o, plenamente justificado, seria um erro grave somente direcionar os ataques a Bolsonaro e n\u00e3o dirigi-lo ao seu vice. Afinal, sob a premissa de os militares estarem bem inseridos no governo, de sempre serem o \u00faltimo argumento da burguesia para vencer a luta de classes e alimentar na sociedade e sob a classe uma confian\u00e7a nos militares como solu\u00e7\u00e3o \u00e9 dar um tiro no joelho, \u00e9 reduzir nossa mobilidade enquanto movimento oper\u00e1rio classista para os tempos futuros. O Tribunal Superior Eleitoral sinaliza prosseguimento nas investiga\u00e7\u00f5es da chapa Bolsonaro\/Mour\u00e3o. Para se transformar num efetivo processo de cassa\u00e7\u00e3o, depende da sinaliza\u00e7\u00e3o da Procuradoria Geral da Rep\u00fablica, dirigida por um aliado vacilante de JB, Augusto Aras. Sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 CPI das Fake News foi uma advert\u00eancia de que Aras n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o aliado assim, tal como o Centr\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que dependemos deste processo para impor o Fora Bolsonaro e Mour\u00e3o ao movimento de levante nas ruas. Teremos que esclarecer para aqueles que reivindicam o Fora Bolsonaro isoladamente o qu\u00e3o esse governo na verdade expressa toda uma rela\u00e7\u00e3o da classe dominante para liquidar a democracia direta. confiar nos militares \u00e9 trocar \u2013 neste caso literalmente \u2013 6 por meia d\u00fazia, e a situa\u00e7\u00e3o concreta n\u00e3o vai mudar. Derrubar a chapa como um todo n\u00e3o tem a ver com o que se pode esperar da classe pol\u00edtica at\u00e9 2022, com um governo de transi\u00e7\u00e3o. \u00c9 quebrar temporariamente as alternativas mais radicais que eles t\u00eam na conjuntura. No caso de Bolsonaro, \u00e9 venc\u00ea-lo tirando-o e ridicularizando, perante a pr\u00f3pria burguesia, o seu filho rejeitado. No caso dos militares \u00e9 impor um grande recuo na sua presen\u00e7a pol\u00edtica no Brasil republicano (recuo, n\u00e3o sa\u00edda, os desafios que o momento nos imp\u00f5e a m\u00e9dio e a longo prazo visam prud\u00eancia para cada movimento com esta institui\u00e7\u00e3o t\u00e3o habilidosa).<\/p>\n<p>Sob estas palavras de ordem, a organiza\u00e7\u00e3o direta dos trabalhadores s\u00f3 tem a ganhar na eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe, na compreens\u00e3o exata da conjuntura brasileira e na educa\u00e7\u00e3o organizativa das massas colocadas na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para algo mais s\u00f3lido e duradouro. Somente uma vanguarda inserida nos mais amplos espa\u00e7os, com uma estrat\u00e9gia acertada no presente momento e t\u00e1ticas que envolvam os mais amplos setores organizados da classe trabalhadora e de algumas classes m\u00e9dias poder\u00e1 influenciar consequentemente os rumos destes levantes que se anunciam.<\/p>\n<p>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/p>\n<p>Aquele v\u00eddeo fornecer\u00e1 a todas as for\u00e7as interessadas na derrubada do atual governo um forte material de an\u00e1lise e propaganda por muito tempo. Passadas mais de duas semanas desta revela\u00e7\u00e3o e suas consequ\u00eancias ainda s\u00e3o discutidas, vira e mexe voltam a utiliz\u00e1-la como refer\u00eancias, um dia ser\u00e1 usada em aulas de ci\u00eancias humanas pelas universidades. Estar\u00e1 fresca na mem\u00f3ria de milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, a rea\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ganhar destaque ali, n\u00e3o exagerado \u00e9 constatar a incapacidade de diversos agentes pol\u00edticos em fazer frente aos ataques de Bolsonaro a tudo e a todos. A pandemia do novo coronav\u00edrus matou cerca de 50 mil pessoas oficialmente enquanto terminava este artigo, a queda do PIB em 2020 gira para 9% segundo estimativas dos bancos de investimentos e de revistas de economias s\u00e9rias como o Valor Econ\u00f4mico, Exame e InfoMoney, um estado de mis\u00e9ria se anuncia. A manifesta\u00e7\u00e3o cada vez mais fresca da barb\u00e1rie for\u00e7a a tomar a\u00e7\u00f5es mais consequentes e ofensivas contra essa nossa lumpemburguesia, merecedora de todo o \u00f3dio de classe poss\u00edvel. A incapacidade das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda pautadas somente em solu\u00e7\u00f5es institucionais e na perspectiva eleitoreira \u00e9 um atestado de fal\u00eancia. Veja-se o Lula, o que dele restou, a derrota consumiu sua cabe\u00e7a e o que lhe resta \u00e9 reafirmar um passado que n\u00e3o volta mais. Dentro das fileiras do PT, \u00e9 evidente o descontentamento de algumas parcelas com o seu l\u00edder enfraquecido e derrotado. O PT n\u00e3o soltou Lula por for\u00e7a pr\u00f3pria e, quando comemora vit\u00f3rias obtidas sob a for\u00e7a dos outros [STF], fica pass\u00edvel de sucumbir diante das lutas futuras.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia do PT enquanto partido, de suas respectivas centrais sindicais e entidades por ele dirigidos nos diz muito da derrota do PT e de um projeto de esquerda. Por\u00e9m, o petismo, enquanto uma forma de ser da esquerda, estar\u00e1 vivo e depende de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para emergir com a for\u00e7a que o oportunismo permitido pode lhe oferecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode continuar a ser alimentado o risco de poder abrir a via para o retorno de um antipartidarismo (na verdade de um oportunismo liberal) danoso, tal como manifestado em junho de 2013, segundo aposta da oposi\u00e7\u00e3o liberal ao governo (Somos 70% e Estamos Juntos) e a imprensa oposicionista; o resultado \u00e9 bem conhecido. Se n\u00e3o formos coerentes em cada espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o nosso, do mais banal, discreto e cotidiano, ao mais extraordin\u00e1rio, espont\u00e2neo e grandioso, vamos fracassar de novo e neste momento n\u00e3o se trata de uma mera derrota, mas do esmagamento da classe trabalhadora. A toupeira quer sair e n\u00e3o quer levar uma cacetada de um porrete.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o entre os levantes espont\u00e2neos da classe em revoltas e manifesta\u00e7\u00f5es com a necessidade de fortalecer os lutadores nos trabalhos cotidianos de base respectivos e sua inser\u00e7\u00e3o na sociedade vai preparar o movimento como um todo para vencer Bolsonaro e Mour\u00e3o, construir as c\u00e9lulas de Poder Popular nos mais variados espa\u00e7os e garantir os alicerces para empreitadas maiores. Os comunistas devem ser a for\u00e7a pol\u00edtica mais respons\u00e1vel para influenciar este processo. \u00c9 enganoso supor que se consiga dirigir uma insurrei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, mas pode-se influenciar objetivamente a opini\u00e3o p\u00fablica sobre estes levantes espont\u00e2neos e atrair seus elementos mais avan\u00e7ados para a organiza\u00e7\u00e3o coletiva cotidiana. A vanguarda fomenta sua retaguarda.<\/p>\n<p>Nestes v\u00e1rios locais onde exercem uma atividade pol\u00edtica de base, diante da conjuntura geral, notar\u00e3o com a pr\u00f3pria din\u00e2mica do movimento as limita\u00e7\u00f5es de uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o dispersa no que tange \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es isoladas existentes, mas, ao mesmo tempo, perceber\u00e3o que n\u00e3o devem depender somente de atos e manifesta\u00e7\u00f5es para renovarem as energias pol\u00edticas das massas que pretendem colocar em a\u00e7\u00e3o. A necessidade da unifica\u00e7\u00e3o das lutas em torno de palavras de ordem mais objetivas, que correspondam aos desafios da conjuntura, que eduquem os trabalhadores na teoria e na pr\u00e1tica e os coloquem em um trabalho pol\u00edtico sistem\u00e1tico a m\u00e9dio e a longo prazo, para vit\u00f3rias mais s\u00f3lidas e permanentes, que n\u00e3o rebaixam as experi\u00eancias organizativas, quanto o ac\u00famulo te\u00f3rico, exige um partido pol\u00edtico para operar estas lutas.<\/p>\n<p>O partido pol\u00edtico n\u00e3o ser\u00e1 \u201crevelado\u201d pela autoproclama\u00e7\u00e3o, por mais justeza este tenha em suas pretens\u00f5es ou em seus programas, mas pela sua capacidade de corresponder aos desafios da conjuntura. S\u00e3o assim que partidos revolucion\u00e1rios tornam-se a vanguarda \u201cespont\u00e2nea\u201d dos movimentos sociais, dos sindicatos, das entidades estudantis e de outras formas de luta organizadas surgidas no seio da luta de classes, como os comit\u00eas de bairros, de locais de trabalho e a organiza\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter sindical de novas categorias de trabalhadores.<\/p>\n<p>A vanguarda n\u00e3o deve se autoproclamar, n\u00e3o promover seus s\u00edmbolos \u2013 por mais que tenha um significado hist\u00f3rico \u2013 e bras\u00f5es aos quatro cantos por a\u00ed se n\u00e3o conquistou relev\u00e2ncia pol\u00edtica suficiente para ditar os rumos pol\u00edticos dos trabalhadores em movimentos. Para toda vanguarda, existe uma retaguarda muito mais numerosa. A difus\u00e3o de nossa linha pol\u00edtica e o fortalecimento real da organiza\u00e7\u00e3o da classe s\u00e3o as tarefas colocadas a n\u00f3s em momentos de ascens\u00e3o espont\u00e2nea das massas. \u00c9 ing\u00eanuo imaginar que se possa dirigir uma insurrei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, mas \u00e9 duplamente ing\u00eanuo supor que n\u00e3o se possa influenciar nos seus rumos ao longo do processo de levante, e depois dele, supor que o ac\u00famulo conquistado sobre uma experi\u00eancia direta de lutas por si s\u00f3 possa ser conservado.<\/p>\n<p>Camaradas, temos uma batalha pela frente e n\u00e3o participamos de uma batalha se n\u00e3o tivermos a ambi\u00e7\u00e3o real de venc\u00ea-la. A toupeira precisa sair.<\/p>\n<p>FORA BOLSONARO E MOUR\u00c3O!<\/p>\n<p>PELAS LIBERDADES DEMOCR\u00c1TICAS DA ORGANIZA\u00c7\u00c3O DOS TRABALHADORES!<\/p>\n<p>PELO PODER POPULAR!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25718\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[227],"class_list":["post-25718","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6GO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25718","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25718"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25718\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}