{"id":2577,"date":"2012-03-21T21:43:00","date_gmt":"2012-03-21T21:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2577"},"modified":"2012-03-21T21:43:00","modified_gmt":"2012-03-21T21:43:00","slug":"robert-fisk-o-massacre-no-afeganistao-nao-foi-loucura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2577","title":{"rendered":"Robert Fisk: O massacre no Afeganist\u00e3o n\u00e3o foi loucura"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Come\u00e7a a cansar-me esta hist\u00f3ria do soldado louco. Era previs\u00edvel, \u00e9 claro. Nem bem o sargento de 38 anos &#8211; que massacrou no \u00faltimo domingo (11) 16 civis afeg\u00e3os perto de Kandahar, incluindo nove crian\u00e7as &#8211; retornou para sua base, os especialistas em Defesa e os meninos e meninas dos centros de pensamento j\u00e1 anunciavam que ele havia enlouquecido.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o era um perverso terrorista sem entranhas &#8211; como seria, \u00e9 claro, se fosse afeg\u00e3o, em especial talib\u00e3 -, mas apenas um cara que foi \u00e0 loucura.<\/p>\n<p>Essa mesma bobagem foi usada para descrever os soldados estadunidenses homicidas que realizaram uma orgia de sangue na cidade iraquiana de Haditha. Com a mesma palavra se descreveu o soldado israelense Baruch Goldstein, que massacrou 25 palestinos em Hebron, algo que fiz notar neste mesmo jornal, poucas horas antes que o sargento enlouquecesse de repente, na prov\u00edncia de Kandahar.<\/p>\n<p>Ao que parece, enlouqueceu, anunciaram jornalistas. Um homem &#8220;que provavelmente havia sofrido algum colapso (The Guardian)&#8221;, um soldado perverso (Financial Times), cujo dist\u00farbio (The New York Times) foi sem d\u00favidas (sic) perpetrado em um acesso de loucura (Le Figaro).<\/p>\n<p>S\u00e9rio? Sup\u00f5e-se que acreditamos nisso? Claro, se estivesse completamente louco, nosso sargento teria matado 16 de seus colegas norte-ame ricanos. Ele teria matado seus companheiros e, em seguida, atearia fogo aos corpos. Mas n\u00e3o, ele n\u00e3o matou estadunidenses; escolheu matar afeg\u00e3os. Houve uma escolha. Por que, ent\u00e3o, matou afeg\u00e3os?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma pista interessante em tudo isso, que n\u00e3o tinha aparecido em reportagens da m\u00eddia. Na verdade, a narra\u00e7\u00e3o dos fatos foi curiosamente lobotomizada-censurada, inclusive por aqueles que t\u00eam tentado explicar o terr\u00edvel massacre em Kandahar. Lembraram a queima de exemplares do Alcor\u00e3o &#8211; quando soldados norte-americanos em Bagram jogaram os livros sagrados em uma fogueira &#8211; e as mortes de seis soldados da Otan, incluindo dois norte-americanos, que vieram depois.<\/p>\n<p>Mas explodam-me em peda\u00e7os se n\u00e3o esqueceram &#8211; e isso se aplica a todas as mat\u00e9rias sobre o recente massacre &#8211; uma afirma\u00e7\u00e3o not\u00e1vel e extremamente significativa do comandante em chefe do Ex\u00e9rcito estadunidense no Afeganist\u00e3o, o general John Allen, h\u00e1 exatamente 22 dias. Na verda de, foi uma declara\u00e7\u00e3o t\u00e3o inusitada que eu recortei as palavras em meu jornal matutino e coloquei o recorte na minha pasta para refer\u00eancia futura.<\/p>\n<p>Allen disse aos seus homens: esta n\u00e3o \u00e9 a hora da vingan\u00e7a pelas mortes de soldados norte-americanos nos dist\u00farbios de quinta-feira. Alertou que eles deveriam resistir a qualquer tenta\u00e7\u00e3o de revidar, depois que um soldado afeg\u00e3o matou dois norte-americanos. &#8220;Haver\u00e1 momentos como este, em que voc\u00eas estar\u00e3o procurando o significado dessas mortes&#8221;, continuou. &#8220;Momentos como este, em que suas emo\u00e7\u00f5es ser\u00e3o governadas pela raiva e pelo desejo de vingan\u00e7a. Esta n\u00e3o \u00e9 a hora da vingan\u00e7a; \u00e9 a hora de olhar no fundo de sua alma, de recordar a sua miss\u00e3o, lembrar a sua disciplina, lembrar-se de quem voc\u00eas s\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Foi um chamado extraordin\u00e1rio, vindo do comandante em chefe dos EUA no Afeganist\u00e3o. O general se viu for\u00e7ado a dizer para o seu ex\u00e9rcito, supostamente bem disciplinado, profissional , de elite, que n\u00e3o cobrasse vingan\u00e7a aos afeg\u00e3os aos quais, supostamente, est\u00e1 ajudando\/ protegendo\/ educando\/ adestrando, etc. Teve que dizer aos seus soldados que n\u00e3o cometessem assassinato.<\/p>\n<p>Eu sei que os generais diziam essas coisas no Vietn\u00e3. Mas no Afeganist\u00e3o? As coisas chegaram a esse extremo? Temo que sim. Porque, por mais que eu n\u00e3o goste de generais, tenho lidado com muitos deles pessoalmente, e geralmente t\u00eam uma id\u00e9ia bastante acertada do que acontece em suas fileiras. E eu suspeito que o general John Allen j\u00e1 havia sido advertido por seus oficiais de que seus soldados estavam irritados com as mortes que se seguiram \u00e0 queima de exemplares do Alcor\u00e3o e, talvez, tivessem decidido empreender uma escalada de vingan\u00e7a. Por isso tratou de um modo t\u00e3o desesperado &#8211; em uma declara\u00e7\u00e3o t\u00e3o impactante como reveladora &#8211; de prevenir um massacre exatamente como o que ocorreu no \u00faltimo domingo.<\/p>\n<p>No entanto, essa mensagem foi completament e apagada da mem\u00f3ria dos peritos quando eles analisaram essa matan\u00e7a. N\u00e3o se permitiu em seus relatos nenhuma alus\u00e3o \u00e0s palavras do general Allen, nenhuma refer\u00eancia, porque, naturalmente, isso teria tirado o nosso sargento do grupo dos enlouquecidos e lhe teria dado um poss\u00edvel motivo para o massacre. Como de costume, os jornalistas tiveram que meter-se na cama com os militares para procriar um louco e n\u00e3o um assassino. Pobre rapaz: andava mal da cabe\u00e7a. N\u00e3o sabia o que fazia. N\u00e3o \u00e9 de admirar que o tenham tirado do Afeganist\u00e3o t\u00e3o r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Todos tivemos nossos massacres. H\u00e1 My Lai (aldeia vietnamita onde, em 16 de mar\u00e7o de 1968, centenas de civis, na maioria mulheres e crian\u00e7as, foram executados por soldados do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos), e nosso pr\u00f3prio My Lai brit\u00e2nico, em uma aldeia da Mal\u00e1sia chamada Batang Kali, onde os guardas escoceses &#8211; envolvidos em um conflito contra os insurgentes comunistas &#8211; assassinaram 24 indefesos trabalhad ores da borracha, em 1948.<\/p>\n<p>Claro, pode-se argumentar que os franceses na Arg\u00e9lia foram piores que os norte-americanos no Afeganist\u00e3o &#8211; diz-se que uma unidade de artilharia francesa fez desaparecer 2 mil argelinos em seis meses -, mas isso \u00e9 como dizer que somos melhor que Saddam Hussein. Certo, mas veja que par\u00e2metro de moralidade.<\/p>\n<p>\u00c9 disso que se trata. Disciplina. Moralidade. Valor. O valor de n\u00e3o matar por vingan\u00e7a. Mas quando se est\u00e1 perdendo uma guerra que se finge estar ganhando &#8211; me refiro ao Afeganist\u00e3o, \u00e9 claro -, suponho que isso seja esperar demais. Parece que o general Allen perdeu seu tempo.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Joana Rozowykwiat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: C. Maior\n\n\n\n\n\n\n\n\nRobert Fisk, em La Jornada\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2577\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2577","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Fz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2577"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2577\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}