{"id":25772,"date":"2020-06-30T22:12:40","date_gmt":"2020-07-01T01:12:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25772"},"modified":"2020-06-30T22:12:40","modified_gmt":"2020-07-01T01:12:40","slug":"a-greve-de-entregadores-e-o-direito-a-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25772","title":{"rendered":"A greve de entregadores e o direito \u00e0 sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sindeprestem.com.br\/storage\/posts\/June2020\/UZe68RrEpc6goCMDBa3X.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: Felipe Balduino)<\/p>\n<p>por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o deste ano o canal da TV estatal chinesa CGTN publicou uma reportagem em v\u00eddeo sobre Lao Ji, um entregador da cidade de Xiangyang, na prov\u00edncia de Hubei, que foi para a cidade de Wuhan, epicentro da epidemia de coronav\u00edrus \u00e0 \u00e9poca, para trabalhar e ajudar nos esfor\u00e7os de combate ao coronav\u00edrus. Em meio da cidade que fez um confinamento \u201csem precedentes na hist\u00f3ria da sa\u00fade p\u00fablica\u201d, de acordo com a OMS, Lao Ji era um dos pontos de conex\u00e3o entre farm\u00e1cias, restaurantes, hospitais e parentes.<\/p>\n<p>Nas grandes cidades do Brasil, pa\u00eds que j\u00e1 superou em muito o n\u00famero de casos e de mortos pela doen\u00e7a na China, o direito ao confinamento n\u00e3o \u00e9 assegurado. Os poucos que t\u00eam meios para n\u00e3o trabalhar ou que podem trabalhar remotamente seguem as recomenda\u00e7\u00f5es veiculadas nos an\u00fancios da televis\u00e3o, e ficam em casa. Os outros \u2013 a imensa maioria do povo \u2013 s\u00e3o obrigados a sair de casa e enfrentar a doen\u00e7a todo dia.<\/p>\n<p>Dentre esses trabalhadores est\u00e3o os entregadores por aplicativos, que rasgam as metr\u00f3poles em motos ou bicicletas para levar de tudo, de comida a documentos. Com a pandemia, o n\u00famero de pedidos nas plataformas tem crescido. O aplicativo Rappi, focado em entregas de supermercados, reportou um aumento de 30% nos pedidos em toda a Am\u00e9rica Latina. A iFood, focada em entregas de refei\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m declarou que houve aumento, sem revelar um n\u00famero. Esse aumento de demanda, no entanto, n\u00e3o tem sido compensado aos entregadores. \u201cPode at\u00e9 ter aumentado os pedidos, s\u00f3 que tem muito motoboy. Triplicaram o n\u00famero de motoboys. Tem muito motoboy para pouco pedido, n\u00e3o tem pedido suficiente [para todo mundo]\u201d diz Mineiro, de 30 anos, que h\u00e1 tr\u00eas anos faz entregas por aplicativo em S\u00e3o Paulo e que preferiu n\u00e3o ter seu nome verdadeiro revelado. De fato, com a pandemia, o n\u00famero de entregadores querendo trabalhar no iFood mais que dobrou \u2013 175 mil pessoas se inscreveram para trabalhar na plataforma em mar\u00e7o, em compara\u00e7\u00e3o com 85 mil no m\u00eas anterior, de acordo com dados da pr\u00f3pria empresa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os entregadores se enfrentam com taxas cada vez menores pelas entregas realizadas. \u201cQuando eu entrei nos aplicativos compensava, na seguinte tese: antigamente eram menos motoboys, mais pedidos, e a taxa m\u00ednima era de R$1,50. Hoje a taxa m\u00ednima por km \u00e9 de R$ 0,93 ou at\u00e9 menos\u201d, diz o motoboy, que antes de trabalhar nos aplicativos era motorista de caminh\u00e3o de uma distribuidora de g\u00e1s. \u201cQuando a gente vai retirar um pedido de 10km, o pagamento sai de 6 a 7 reais, \u00e9 raro quando cai R$ 8,50, R$ 8,40. \u00c0s vezes eles pagam R$ 0,93, \u00e0s vezes eles pagam menos, at\u00e9 R$ 0,53, \u00e9 um absurdo o que fazem com a gente. E isso todos os aplicativos; todos abaixo de R$ 1,00.\u201d<\/p>\n<p>As impress\u00f5es de Mineiro s\u00e3o confirmadas por uma pesquisa realizada pela Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho). Para 60,3% dos entregadores ouvidos pela pesquisa, houve queda na remunera\u00e7\u00e3o durante a pandemia. Outros 27,6% dizem que os ganhos se mantiveram, e 10,3% relataram ganhar mais. Antes da pandemia, 49,9% diziam ganhar acima de R$ 2.080,00 por m\u00eas. Em meio \u00e0 quarentena, o grupo diminuiu para 25,4%.<\/p>\n<p>Paralisa\u00e7\u00e3o<br \/>\nPor essas raz\u00f5es, os entregadores organizam uma paralisa\u00e7\u00e3o nacional, prevista para esta quarta, dia 1\u00ba de julho. \u201cN\u00f3s come\u00e7amos a pensar em se organizar foi h\u00e1 um ano atr\u00e1s, n\u00f3s j\u00e1 come\u00e7amos a fazer paralisa\u00e7\u00f5es referentes ao Ifood. Quando eu comecei no Ifood, a gente realmente era considerado como motoboy, como entregador, consideravam que a gente devia receber bem pelo servi\u00e7o prestado\u201d, diz o entregador. Entre as reivindica\u00e7\u00f5es do grupo est\u00e3o o aumento nas taxas de entrega \u2013 eles reivindicam R$ 2,00 por km -, um \u201caux\u00edlio-lanche\u201d para que os trabalhadores possam se alimentar e o fim de retalia\u00e7\u00f5es e bloqueios indevidos nas plataformas. A paralisa\u00e7\u00e3o nacional \u2013 chamada de \u201cbreque nos apps\u201d \u2013 acabou se expandindo, e trabalhadores da Argentina, Uruguai e Paraguai tamb\u00e9m devem parar.<\/p>\n<p>Mineiro trabalha no modelo de \u201coperador log\u00edstico\u201d (OL), esquema criado pela iFood em que o motoboy trabalha para um intermedi\u00e1rio e com uma carga hor\u00e1ria de trabalho definida. No modelo, o entregador tamb\u00e9m tem direito a uma folga semanal \u2013 de segunda, ter\u00e7a ou quarta-feira \u2013 e uma vez por m\u00eas pode folgar em um dia do final de semana. Diferente dos outros entregadores, do modelo \u201cnuvem\u201d, eles recebem por dia \u2013 para os per\u00edodos de caf\u00e9 da manh\u00e3 e almo\u00e7o, o pagamento gira em torno de R$ 40,00; para caf\u00e9 da tarde, R$ 30,00; e para a jantar, R$ 50,00 \u2013 independente de quantas entregas tiverem de realizar.<\/p>\n<p>\u201cOL n\u00e3o tem como reivindicar nada contra o iFood, porque ele n\u00e3o trabalha para o iFood diretamente, trabalha para uma outra empresa, terceirizada. Ent\u00e3o os OLs n\u00e3o tem como parar no dia, a n\u00e3o ser que esteja de folga, ou se a moto quebrar. Mas o pessoal vai quebrar tudo; se a gente chegar em algum lugar e os caras n\u00e3o deixarem a gente pegar, n\u00e3o vou pegar. N\u00e3o vou brigar com os caras por causa de uma marmita e nem vou p\u00f4r minha vida em risco. Porque os caras est\u00e3o disposto a fazer isso a\u00ed: brecar tudo\u201d, diz o entregador, em refer\u00eancia \u00e0 proposta dos grevistas de realizarem piquetes em supermercados e restaurantes.<\/p>\n<p>De acordo com ele, os que mais sofrem na plataforma \u2013 e que s\u00e3o maioria \u2013 s\u00e3o os chamados \u201cnuvem\u201d. Estes recebem de acordo com quantos pedidos aparecerem e entregarem, mas por vezes rodam at\u00e9 mais do que os OLs. \u201cOs entregadores de nuvem s\u00e3o os que mais sofrem, pela Uber, iFood, Rappi, Loggi. As taxas de entrega s\u00e3o muito baixas \u2013 a gente est\u00e1 reivindicando isso pela nuvem\u201d, diz. \u201cEstamos pedindo um aux\u00edlio-lanche porque nem todo dia a gente consegue levar uma marmita de casa. No aplicativo tem o motoboy e tem o complementador de sal\u00e1rio. O motoboy sai de casa \u00e0s 7 da manh\u00e3, ele faz os hor\u00e1rios de caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o, caf\u00e9 da tarde e janta. Imagina s\u00f3; ele ter de levar marmita para cumprir todos esses hor\u00e1rios? N\u00e3o d\u00e1. Ent\u00e3o ou voc\u00ea coloca a gasolina, ou come na rua. Se tivesse esse aux\u00edlio o pessoal conseguiria se manter no servi\u00e7o, teria como se alimentar melhor e ser tratado melhor nos restaurantes \u2013 porque tem restaurante que trata a gente como lixo.\u201d<\/p>\n<p>Em qualquer um dos modelos, o trabalhador n\u00e3o tem la\u00e7os formais com as empresas, nem direitos trabalhistas.<\/p>\n<p>Lucro de aplicativos, precariza\u00e7\u00e3o de trabalhadores, preju\u00edzo de restaurantes<br \/>\n\u201cO trabalhador j\u00e1 vive no limite financeiro e n\u00e3o pode parar. N\u00e3o interessa se a sa\u00fade est\u00e1 em risco, se eles n\u00e3o est\u00e3o dando prote\u00e7\u00e3o ou garantias de trabalho. A Rappi em mar\u00e7o teve um aumento de 300% do n\u00famero de cadastros. Provavelmente aumentou o contingente enquanto est\u00e1 rebaixando o valor da hora de trabalho sem deixar isso claro. Inclusive n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pr\u00e9-determina\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo da hora de trabalho desses motociclistas\u201d, afirmou \u00e0 BBC a pesquisadora Ludmila Costhek Ab\u00edlio, da Unicamp. Em seu levantamento, 52% dos entrevistados afirmaram trabalhar todos os dias da semana, enquanto outros 25,4% trabalham seis dias.<\/p>\n<p>Na outra ponta dos aplicativos est\u00e3o os restaurantes. As plataformas cobram deles comiss\u00f5es que variam de 15% a 35%, o que os for\u00e7am a aumentar o pre\u00e7o de seus produtos. No entanto, nos Estados Unidos, onde muitos pequenos restaurantes t\u00eam fechado ou sa\u00eddo das plataformas por suas comiss\u00f5es serem insustent\u00e1veis em meio \u00e0 pandemia, h\u00e1 relatos tamb\u00e9m de press\u00f5es dos aplicativos contra os restaurantes para que os pre\u00e7os se mantenham, ou para que os pre\u00e7os ofertados nas plataformas sejam os mesmos que os oferecidos nos card\u00e1pios dos espa\u00e7os f\u00edsicos dos restaurantes. Assim, os pre\u00e7os dos restaurantes come\u00e7am a ser determinados pelo aplicativo.<\/p>\n<p>Por l\u00e1, h\u00e1 in\u00fameros processos sendo movidos contra os aplicativos, que argumentam que seus modelos de neg\u00f3cios criam monop\u00f3lios, j\u00e1 que os restaurantes acabam por depender deles para se manterem abertos. O modelo acaba sendo o mesmo contra as suas duas partes fundamentais: entregadores e restaurantes. Sozinho, como intermedi\u00e1rio, o aplicativo diminui os ganhos de entregadores e restaurantes, enquanto aumenta a oferta de ambos. Assim, dentro do aplicativo, eles t\u00eam de competir com um n\u00famero gigantesco de companheiros, ao mesmo tempo que, fora dele, por vezes n\u00e3o podem se manter \u2013 em especial em tempos de pandemia.<\/p>\n<p>Apoio, atos e organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nDe acordo com Mineiro, a paralisa\u00e7\u00e3o desse 1 de julho foi organizada conjuntamente, sem uma lideran\u00e7a \u00fanica. \u201cMuita gente pensou que ia ser imposs\u00edvel fazer essa paralisa\u00e7\u00e3o, mas por causa dos grupos, por causa das redes sociais, a gente conseguiu abranger at\u00e9 pra al\u00e9m do Brasil\u201d, diz. Ainda assim, a retalia\u00e7\u00e3o dos aplicativos tem sido frequentemente levantada pelos entregadores que participam das paralisa\u00e7\u00f5es e atos. \u201cRetalia\u00e7\u00e3o tem, sempre vai ter. Eu mesmo estou bloqueado em todos os aplicativos. Todos os motoboys que p\u00f5em a cara para bater, pode ter certeza: tem retalia\u00e7\u00e3o. Alguns s\u00e3o at\u00e9 denunciados pelos pr\u00f3prios motoboys\u201d, lamenta. Ele critica os motoboys que procedem dessa forma: \u201cA partir da hora que esse motoboy se vira contra a pr\u00f3pria classe dele, ele est\u00e1 tirando o p\u00e3o de cada dia de um outro pai de fam\u00edlia. Se ele parasse, n\u00f3s n\u00e3o ficar\u00edamos a merc\u00ea dos aplicativos. Isso n\u00e3o \u00e9 motoboy, p\u00f4. S\u00f3 pensa no dinheiro, n\u00e3o pensa no bem-estar dos outros motocas, no dia-a-dia dos outros motocas. Tem gente falando que vai tirar R$ 300,00 no dia da greve? Beleza, que tire. Mas e na pr\u00f3xima semana? Vai ficar como?\u201d<\/p>\n<p>Para os usu\u00e1rios dos aplicativos que desejem apoiar os entregadores, a recomenda\u00e7\u00e3o dos grevistas \u00e9 que n\u00e3o fa\u00e7am pedidos no dia 1. E, para os que forem aos atos dos entregadores, que evitem aglomera\u00e7\u00e3o e mantenham a dist\u00e2ncia de pelo menos um metro.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, a partir das 9h, ocorrem bloqueios regionais em shoppings, restaurantes e supermercados. \u00c0s 14h, os entregadores sem concentram em frente ao Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (MASP). De l\u00e1, partem em marcha pelo centro, passando pela prefeitura, a Avenida 23 de maio e a Ponte Estaiada.<\/p>\n<p>Pedro Marin<br \/>\n24 anos, \u00e9 editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publica\u00e7\u00e3o, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. \u00c9 autor de &#8220;Golpe \u00e9 Guerra &#8211; Teses para enterrar 2016&#8221; e co-autor de &#8220;Carta no Coturno &#8211; A volta do Partido Fardado no Brasil.<br \/>\n\u00c1rea de anexos<br \/>\nVisualizar o v\u00eddeo BIG STORY: A hero delivery man helps medical staff in Wuhan do YouTube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25772\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[197],"tags":[222],"class_list":["post-25772","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6HG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25772"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25772\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}