{"id":25777,"date":"2020-07-02T00:28:12","date_gmt":"2020-07-02T03:28:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25777"},"modified":"2023-02-26T01:02:53","modified_gmt":"2023-02-26T04:02:53","slug":"breque-dos-apps-uma-greve-historica-dos-entregadores-de-aplicativos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25777","title":{"rendered":"Breque dos APPs: uma greve hist\u00f3rica dos entregadores de aplicativos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/Eb3hqn9WoAsBdwv?format=jpg&amp;name=large\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Edmilson Costa &#8211; Secret\u00e1rio Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p>Trabalhadores e trabalhadoras de aplicativos realizaram uma greve hist\u00f3rica, com manifesta\u00e7\u00f5es em praticamente todas as capitais e grandes cidades do Pa\u00eds, envolvendo milhares de pessoas. Essa \u00e9 a primeira vez que um movimento dessa ordem e com essa dimens\u00e3o ocorre no Brasil. Foi uma greve diferente e um movimento espont\u00e2neo da categoria, convocado a partir das redes sociais e do boca a boca. As greves cl\u00e1ssicas s\u00e3o convocadas por sindicatos ou por trabalhadores organizados nos locais de trabalho, mas essa greve do dia 1\u00ba de julho foi in\u00e9dita porque envolveu uma categoria nova, fruto da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho a partir das plataformas digitais, e realizada a partir da reapropria\u00e7\u00e3o pelos trabalhadores das pr\u00f3prias redes digitais. Em outros termos, a dial\u00e9tica da rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho ou da luta de classes colocando em movimento quem est\u00e1 disposto a lutar.<\/p>\n<p>Foi uma greve efetivamente nacional. Em S\u00e3o Paulo, desde bem cedo, trabalhadores e trabalhadoras j\u00e1 estavam concentrados\/as na Zona Sul ou em frente a shopping centers, supermercados e grandes cadeias de distribui\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio da tarde realizaram uma grande manifesta\u00e7\u00e3o e um buzina\u00e7o pela rua da Consola\u00e7\u00e3o e Avenida Paulista, que contou com a presen\u00e7a de milhares de entregadores com suas motos e bikes, num clima tranquilo, mas com muita disposi\u00e7\u00e3o de luta. No Rio de Janeiro, tamb\u00e9m foi realizada uma grande manifesta\u00e7\u00e3o com motos e bicicletas at\u00e9 a Delegacia Regional do Trabalho. Em Bras\u00edlia, os manifestantes fizeram um grande buzina\u00e7o e se concentraram em frente ao Congresso Nacional. Em Belo Horizonte a manifesta\u00e7\u00e3o foi no centro da cidade, bem como em Recife, Salvador, Aracaju, Porto alegre, Rio Branco, Teresina, Macei\u00f3, Recife, al\u00e9m de outras grandes cidades do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ou seja, trabalhadores e trabalhadoras de aplicativos demonstraram pedagogicamente que, mesmo nas condi\u00e7\u00f5es mais adversas, a subjetividade de pertencimento \u00e0 classe dos explorados fala mais alto que qualquer das dificuldades e se tornaram um exemplo significativo para as outras categorias da classe trabalhadora, dando um recado principalmente para as velhas centrais sindicais brasileiras, que vivem encontrando desculpa para n\u00e3o lutar. Ora, se uma categoria dispersa, sem nenhum direito, sem tradi\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o e de luta, e que pode ser desligada do trabalho com um simples apertar de bot\u00e3o digital, consegue fazer uma greve nacional como a que vimos hoje, por que essas centrais sindicais, que re\u00fanem milhares de sindicatos e v\u00e1rios milh\u00f5es de trabalhadores n\u00e3o podem tamb\u00e9m convocar uma greve nacional? Somente a acomoda\u00e7\u00e3o, o burocratismo e o peleguismo podem explicar tamanha letargia.<\/p>\n<p>A greve nacional ocorreu em fun\u00e7\u00e3o das prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es em que esses trabalhadores desempenham suas atividades. S\u00e3o for\u00e7ados a trabalhar 10\/12 horas por dia, ganhando por entrega, que em muitas vezes n\u00e3o chega a um real por corrida. N\u00e3o t\u00eam vale refei\u00e7\u00e3o para caf\u00e9, lanche ou almo\u00e7o e n\u00e3o t\u00eam op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser comer suas marmitas sentados nas cal\u00e7adas. S\u00e3o obrigados ainda a alugar os equipamentos de trabalho (moto ou bicicleta) e agora, em plena pandemia, n\u00e3o recebem m\u00e1scaras, \u00e1lcool em gel ou qualquer equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual, o que os exp\u00f5em permanentemente \u00e0 doen\u00e7a, fato que j\u00e1 atingiu muitos destes trabalhadores.<\/p>\n<p>Os entregadores criticam a intransig\u00eancia e o arb\u00edtrio das empresas, que fixam metas absurdas de entregas, as quais p\u00f5em em risco as suas vidas, fazem um sistema de pontua\u00e7\u00e3o para chantage\u00e1-los e bloqueiam quem n\u00e3o se enquadra nas metas ou busca organizar a categoria. Os entregadores n\u00e3o t\u00eam nenhum dos direitos trabalhistas da CLT, a grande maioria ganha pouco mais que o sal\u00e1rio m\u00ednimo, geralmente trabalham de domingo a domingo. Ou seja, operam em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga aos oper\u00e1rios do s\u00e9culo XIX, que tinham jornada de trabalho de at\u00e9 16 horas e comiam no p\u00e9 da m\u00e1quina.<\/p>\n<p>No caso das trabalhadoras, essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave porque t\u00eam que acordar ainda mais cedo, geralmente \u00e0s cinco horas da manh\u00e3, para preparar caf\u00e9 e comida para as crian\u00e7as e quando chegam em casa \u00e0 noite ainda t\u00eam que cuidar dos filhos, dar banho, colocar para dormir e fazer janta e a marmita para o dia seguinte. Dormem pouco e no outro dia j\u00e1 devem estar novamente no batente. Al\u00e9m de tudo isso, t\u00eam que suportar diariamente o machismo no tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>Vale lembrar ainda que essas empresas de aplicativos exploram tamb\u00e9m os pequenos propriet\u00e1rios de bares, restaurantes e pequenos neg\u00f3cios. Elas cobram entre 15% e 35% dos comerciantes e realizam todo tipo press\u00e3o para que parte desse percentual n\u00e3o seja repassada para o consumidor. T\u00eam uma pol\u00edtica de descontos que \u00e9 bancada pelos pequenos propriet\u00e1rios. Nesse momento de pandemia, os pequenos propriet\u00e1rios se tornam muito dependentes dessas empresas, a\u00ed ent\u00e3o os oligop\u00f3lios digitais v\u00e3o aumentando as exig\u00eancias e os comerciantes que n\u00e3o concordam s\u00e3o desligados, o que significa a fal\u00eancia. As empresas de aplicativos exploram nas duas pontas: os trabalhadores e os donos dos pequenos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Por todas essas quest\u00f5es, os trabalhadores e as trabalhadoras em aplicativos resolveram dar um basta e fazer a greve nacional como forma n\u00e3o s\u00f3 de pressionar as empresas pelos direitos que os outros trabalhadores j\u00e1 possuem, mas tamb\u00e9m por uma s\u00e9rie de reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, tais como aumento das taxas por entrega, aumento por quilometragem rodada, fim do sistema de pontua\u00e7\u00e3o, fim dos bloqueios indevidos, seguro de vida, seguro acidente e equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual, al\u00e9m de vale para caf\u00e9, almo\u00e7o e lanche. Ou como diz um deles: \u201d\u00c9 terr\u00edvel carregar comida para os outros com a barriga vazia\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto os trabalhadores enfrentam essa situa\u00e7\u00e3o desesperadora, os donos das empresas de aplicativos como iFood, Rappi, Uber Eats, James, entre outros, est\u00e3o ganhando rios de dinheiro \u00e0s custas de um trabalho extremamente prec\u00e1rio e desumano. Esses patr\u00f5es escravocratas, fantasiados de executivos moderninhos das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, ainda buscam mascarar a superexplora\u00e7\u00e3o com contos de fada, afirmando que os entregadores s\u00e3o empreendedores e donos do seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, parceiros ou colaboradores. Trata-se de uma picaretagem lingu\u00edstica t\u00edpica dessa fase agressiva do neoliberalismo para esconder a superexplora\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e das trabalhadoras.<\/p>\n<p>Essa greve hist\u00f3rica teve um papel fundamental, pois aumentou a moral dos entregadores, fortaleceu o esp\u00edrito de uni\u00e3o e, especialmente, revelou para a sociedade a brutalidade com que essas empresas moderninhas tratam os trabalhadores em pleno s\u00e9culo XXI. Mas essas empresas est\u00e3o tamb\u00e9m provando do pr\u00f3prio veneno tecnol\u00f3gico: h\u00e1 uma corrente de dezenas de milhares pessoas negativando ou dando nota baixa, no pr\u00f3prio portal dos APPs, a esse comportamento medieval dos patr\u00f5es e deixando duras mensagens contr\u00e1rias \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, al\u00e9m do fato de que a campanha para que a sociedade n\u00e3o realizasse pedido durante a greve deve ter dado um enorme preju\u00edzo a essas firmas. A imagem de tais empresas sai bastante arranhada desse epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Vale lembrar ainda um fato importante desse processo: se as empresas t\u00eam for\u00e7a para impor um trabalho t\u00e3o prec\u00e1rio aos entregadores, a sociedade agora ganhou for\u00e7a para exercer uma solidariedade ativa com os trabalhadores, tanto no que se refere aos protestos digitais, quanto ter a possibilidade de escolher quem mais respeitar os direitos da categoria, podendo impor preju\u00edzos aos cofres dos patr\u00f5es. Ou seja, ampliou-se o leque da luta, pois agora os trabalhadores t\u00eam a possibilidade de ganhar uma solidariedade objetiva para a sua luta.<\/p>\n<p>Outro dado importante dessa paralisa\u00e7\u00e3o de novo tipo \u00e9 o fato de que, por ser uma categoria nova, o movimento foi espont\u00e2neo, fruto da revolta contra as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e remunera\u00e7\u00e3o. Mas a luta forja novas lideran\u00e7as, unifica reivindica\u00e7\u00f5es, coloca em movimento a classe. Tanto que agora os entregadores j\u00e1 est\u00e3o discutindo f\u00f3rmulas para se organizar melhor, tanto num F\u00f3rum, onde debater\u00e3o os principais problemas da categoria e as pautas de reivindica\u00e7\u00f5es, quanto em outras formas de organiza\u00e7\u00e3o, como grandes cooperativas ou sindicatos nacionais. Afinal, os entregadores de aplicativos despertaram para a luta!<\/p>\n<p>A Unidade Classista, a Uni\u00e3o da Juventude Comunista e os Coletivos Feminista Classista Ana Montenegro, Minervino de Oliveira e LGBT Comunista estiveram presentes em pontos de concentra\u00e7\u00e3o dos entregadores em v\u00e1rias capitais e cidades do Brasil, prestando sua solidariedade ativa. O canal no youtube do Jornal Poder Popular fez transmiss\u00e3o ao vivo das manifesta\u00e7\u00f5es, com rep\u00f3rteres em v\u00e1rias capitais, al\u00e9m de comentaristas analisando o significado dessa greve hist\u00f3rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25777\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,383,31],"tags":[219],"class_list":["post-25777","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","category-c31-unidade-classista","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6HL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25777","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25777"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25777\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25777"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25777"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25777"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}