{"id":25787,"date":"2020-07-06T22:03:55","date_gmt":"2020-07-07T01:03:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25787"},"modified":"2020-07-06T22:06:44","modified_gmt":"2020-07-07T01:06:44","slug":"ecos-em-um-poco-tapado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25787","title":{"rendered":"Ecos em um po\u00e7o tapado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn.futura-sciences.com\/buildsv6\/images\/wide1920\/f\/9\/f\/f9f7b12395_119205_prise-bastille-tableau-01.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Edson Oliveira*<\/p>\n<p>O historiador Eric Hobsbawm, em seu trabalho Ecos da Marselhesa, de 1990, faz um confronto ao revisionismo historiogr\u00e1fico sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789 e tamb\u00e9m uma an\u00e1lise sobre a recep\u00e7\u00e3o marxista desse evento que mudou as coordenadas da humanidade. O camarada Hobsbawm nos mostra como as tentativas de revolu\u00e7\u00f5es subsequentes a 1789 traziam em si os ecos dessa grande vit\u00f3ria da humanidade, sobretudo, nos mostra que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 trouxe, em si, a tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria proporcionada em 1789. Naquele momento em que uma classe estava sob dom\u00ednio de um regime absolutista, em 1917, houve uma supera\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica da proposta revolucion\u00e1ria da Marselhesa.<\/p>\n<p>Na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa a propostas revolucion\u00e1rias estavam sob os signos da Libert\u00e9, Egalit\u00e9 e Fraternit\u00e9, propostas completamente abstratas. J\u00e1 na Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 essas propostas ganham a devida materialidade. A revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria traz a proposta de P\u00e3o, Paz e Terra e, com essas propostas, que eram emanadas do povo, conseguem a unidade necess\u00e1ria da classe explorada para dar um passo largo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p>A partir do momento da efetiva\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria, houve momentos hist\u00f3ricos que vieram com a emerg\u00eancia de abafar os seus ecos: a luta da R\u00fassia j\u00e1 sovi\u00e9tica, em tr\u00eas frentes, que obrigou a suspender o processo revolucion\u00e1rio para direcionar as energias em uma guerra civil; o fortalecimento do fascismo na It\u00e1lia; a d\u00e9cada da grande infla\u00e7\u00e3o que culminou na quebra da bolsa de valores em 1929 e que permitiu o nascimento do nazifascismo; os nazis com suas propagandas antibolcheviques, disseminadas pelas suas produ\u00e7\u00f5es \u201cart\u00edsticas\u201d, cinema, literatura, m\u00fasica, teatro, pintura etc. A segunda grande guerra, que os nazistas deram in\u00edcio para conquistas de territ\u00f3rio e para erradicar o \u201cmal do mundo\u201d (leia-se judeus e comunistas sintetizados em uma \u00fanica caricatura), s\u00e3o eventos que registram a tentativa de abafar os ecos da proposta revolucion\u00e1ria de 1917.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a conquista do Reichstag pelos sovi\u00e9ticos e o vis\u00edvel fortalecimento da organiza\u00e7\u00e3o da classe prolet\u00e1ria nos pa\u00edses capitalistas, principalmente em sua periferia, procuraram-se novas formas de abafar as propostas revolucion\u00e1rias para a sociedade, criou-se a proposta do Estado de bem-estar-social para \u201cdomar\u201d a classe prolet\u00e1ria atrav\u00e9s de \u201csal\u00e1rios decentes\u201d. Junto do Estado de bem-estar-social veio o \u201camerican way of life\u201d. Proposta de uma culturaliza\u00e7\u00e3o imperialista, baseada no acesso a mercadorias e dissemina\u00e7\u00e3o dos costumes da terra do Tio Sam, que foi propagandeada aos quatro ventos pela intensifica\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas atrav\u00e9s da ind\u00fastria cultural.<\/p>\n<p>Em meio a essa americaniza\u00e7\u00e3o do mundo, surgem novos movimentos revolucion\u00e1rios que d\u00e3o for\u00e7a para os ecos de 1917: a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa de 1949; a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana 1959; a luta dos povos africanos apoiados pela URSS para independ\u00eancia; a Revolu\u00e7\u00e3o Vietnamita com a derrota do Tio Sam pelos Vietcongs em 1975. Entretanto, o imperialismo achou novas formas de abafar novamente esses ecos fortalecidos por esses grandes eventos hist\u00f3ricos. J\u00e1 em 1973, h\u00e1 o golpe militar no Chile, que estava sob a vigia de infiltrados no governo de Salvador Allende, alinhados pela alian\u00e7a pol\u00edtico-militar que culminou na Opera\u00e7\u00e3o Condor, que era um \u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina entre os pa\u00edses sob regime militar &#8211; Brasil, Argentina, Bol\u00edvia, Paraguai e Uruguai, tutelados pela CIA dos Estados Unidos &#8211; para impedir qualquer tentativa revolucion\u00e1ria no \u201cquintal\u201d do Tio Sam e fazendo a Am\u00e9rica Latina de laborat\u00f3rio para implantar as suas novas propostas pol\u00edtico-econ\u00f4micas: o neoliberalismo.<\/p>\n<p>O neoliberalismo, implantado na Am\u00e9rica Latina sob as for\u00e7as imperialistas, trouxe as propostas de flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas, horizontaliza\u00e7\u00e3o da produtividade, terceiriza\u00e7\u00e3o dos setores prim\u00e1rios das empresas, privatiza\u00e7\u00f5es dos setores p\u00fablicos de produ\u00e7\u00e3o e de assist\u00eancia \u00e0 classe prolet\u00e1ria, setores de servi\u00e7os informalizados etc. Com tudo isso trouxe, junto de si, o desmonte das institui\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora historicamente conquistadas, o que determinou a fragmenta\u00e7\u00e3o da classe revolucion\u00e1ria para o aumento da extra\u00e7\u00e3o de \u201cmais-valor\u201d da for\u00e7a de trabalho. Esse foi o mesmo neoliberalism que corroborou para a queda do muro de Berlim, e tamb\u00e9m para a queda da URSS, apagando a materialidade de um mundo al\u00e9m deste aqui. Todas essas propostas foram legitimadas por produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas selecionadas e massificadas que contribu\u00edram para alimentar a ind\u00fastria cultural, que era fortalecida como uma m\u00e1quina de propaganda de guerra. Essas propagandas abriram as portas para o s\u00e9culo XXI e jogaram os ecos de 1917 em um po\u00e7o profundo e o tamparam com sete selos para abaf\u00e1-los e propagarem as propostas mais nefastas.<\/p>\n<p>A ideologia multiculturalista e p\u00f3s-moderna conseguiu, al\u00e9m de se infiltrar nas fileiras da esquerda, dar suporte para o fortalecimento da culturaliza\u00e7\u00e3o neonazifascista, por via da nega\u00e7\u00e3o de uma classe prolet\u00e1ria, nega\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o capital-trabalho, estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e nega\u00e7\u00e3o an\u00e1rquica das organiza\u00e7\u00f5es centralizadas da classe trabalhadora. O neoliberalismo conseguiu sistematizar, com a globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo, a quase anula\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da classe prolet\u00e1ria. Utilizou as ideologias multiculturalista e p\u00f3s-moderna para se fortalecer ideologicamente por meio propagand\u00edstico, a ind\u00fastria cultural. Tornou poss\u00edvel \u201ccientificamente\u201d a nega\u00e7\u00e3o da classe prolet\u00e1ria e ao mesmo tempo negou a cientificidade como an\u00e1lise necess\u00e1ria para a compreens\u00e3o da realidade em sua complexidade. Atrav\u00e9s desses meios ideol\u00f3gicos, evocaram-se os gritos nefastos do nazifascismo, legitimando-os, para efetivarem as suas propostas anticivilizacionais, antiprolet\u00e1rias e antiemancipadoras.<\/p>\n<p>Hoje, mais do que nunca, estamos vivendo um momento em que os ecos de 1917 est\u00e3o abafados pelas propostas anticivilizacionais e irracionalistas do neoliberalismo e pelos gritos nefastos propagados pela reatualiza\u00e7\u00e3o do nazifascismo. Estamos em tempos interessantes e temos a sorte e o azar de vivermos nesse momento. A sorte \u00e9 que conseguimos compreender profundamente o processo de desenvolvimento do sistema capitalista mais profundamente para afirmarmos a sua insustentabilidade para proporcionar uma vida digna aos seres humanos. O nosso azar \u00e9 que o inimigo conseguiu fragmentar a classe revolucion\u00e1ria, o proletariado, e fazer com que ela perdesse a sua unidade, que \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do movimento prolet\u00e1rio que temos de reconquistar. A emerg\u00eancia para n\u00f3s hoje \u00e9 reabilitar a unidade do proletariado. Para isso, temos que rememorar os ecos de 1917 e as experi\u00eancias hist\u00f3ricas produzidas pela revolu\u00e7\u00e3o de outubro. Temos que destampar o po\u00e7o e, para parafrasear o camarada Marx, em o 18 Brum\u00e1rio, \u201cn\u00e3o para fazer os seus [ecos] rondar outra vez\u201d e apenas \u201ccomprimir a cabe\u00e7a dos vivos\u201d, mas, sim, fazer com que as propostas impulsionadas por esses ecos se efetivem na realidade.<\/p>\n<p>* Militante do PCB da cidade de Assis-SP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25787\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[222],"class_list":["post-25787","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6HV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25787"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25787\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}