{"id":25819,"date":"2020-07-12T23:49:28","date_gmt":"2020-07-13T02:49:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25819"},"modified":"2020-07-12T23:49:28","modified_gmt":"2020-07-13T02:49:28","slug":"a-caixa-preta-das-startups-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25819","title":{"rendered":"A caixa preta das startups da Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.tierney.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/iStock-664198918-scaled.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Marina Avelar, em entrevista a C\u00e1tia Guimar\u00e3es, da EPSJV\/Fiocruz<\/p>\n<p>OUTRAS PALAVRAS<\/p>\n<p>Funda\u00e7\u00f5es bilion\u00e1rias, como Lemann, promovem servi\u00e7os por aplicativos, focados em forma\u00e7\u00e3o empresarial de educadores. Na pandemia, cobi\u00e7a por solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, como vulgariza\u00e7\u00e3o do EaD, s\u00e3o nova jogada para reduzir ensino a fonte de lucro<\/p>\n<p>Lan\u00e7ando m\u00e3o do conceito de \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o por desastre\u201d, que analisa a experi\u00eancia de pa\u00edses que passaram por trag\u00e9dias naturais, Marina Avelar, pesquisadora associada da Graduate Institute of International and Development Studies, da Su\u00ed\u00e7a, debate criticamente, nesta entrevista, como a suspens\u00e3o das aulas em fun\u00e7\u00e3o da pandemia pode se tornar uma \u201djanela de oportunidades\u201d para uma penetra\u00e7\u00e3o ainda maior das entidades filantr\u00f3picas de origem empresarial nas redes p\u00fablicas de ensino. Protagonismo na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e oferta de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para o ensino remoto s\u00e3o, na avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora, algumas das a\u00e7\u00f5es dessas entidades que miram o agora e o futuro.<\/p>\n<p>O movimento Todos pela Educa\u00e7\u00e3o atua rotineiramente tentando influenciar pol\u00edticas p\u00fablicas, auxiliando decis\u00f5es governamentais. Da mesma forma, entidades empresariais espec\u00edficas tamb\u00e9m mant\u00eam contratos com v\u00e1rias secretarias de educa\u00e7\u00e3o, para iniciativas diversas. H\u00e1 diferen\u00e7a na intensidade ou qualidade dessa atua\u00e7\u00e3o neste momento? Como voc\u00ea identifica, a partir de a\u00e7\u00f5es mais concretas, que essas entidades t\u00eam aproveitado a pandemia como uma \u201cjanela de oportunidades\u201d?<\/p>\n<p>N\u00e3o tem uma diferen\u00e7a radical na forma de trabalho. S\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es que v\u00eam ampliando seu espa\u00e7o, tendo incid\u00eancia desde o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o at\u00e9 os munic\u00edpios j\u00e1 faz um tempo. O que de fato aconteceu de novo foi, primeiro, uma rearticula\u00e7\u00e3o, um reposicionamento muito \u00e1gil. Isso realmente distingue essas organiza\u00e7\u00f5es das outras, em parte, justamente pela forma empresarial que elas t\u00eam, por terem v\u00e1rias pessoas com forma\u00e7\u00e3o em business, que t\u00eam um olhar diferente para ver tend\u00eancias de mercado e conseguir posicionar marcas rapidamente, ao contr\u00e1rio da pol\u00edtica p\u00fablica, do governo, dos pr\u00f3prios professores e dos movimentos sociais, que geralmente t\u00eam uma lentid\u00e3o um pouco maior, at\u00e9 porque t\u00eam que articular muita gente. J\u00e1 essas organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito independentes por terem muito dinheiro,por n\u00e3o terem que prestar contas a muita gente. Ent\u00e3o, em dois meses, eles j\u00e1 tinham se reposicionado completamente. Isso eu acho que surpreende um pouco. Em duas, tr\u00eas semanas de pandemia, v\u00e1rias dessas organiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 estavam mandando question\u00e1rios para professor, fazendo pesquisa online para coletar dados e demandas, para tentar desenvolver produtos, informa\u00e7\u00f5es, plataformas\u2026 E organiza\u00e7\u00f5es em que a tecnologia n\u00e3o era muito o centro, de repente, estavam cheias de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para oferecer.<\/p>\n<p>Me d\u00e1 um exemplo de entidades que n\u00e3o tinham o desenvolvimento de tecnologias e plataformas como parte da sua atua\u00e7\u00e3o mais permanente e que conseguiram desenvolver neste momento?<\/p>\n<p>\u00c9 importante a gente lembrar que eles trabalham muito em rede. S\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es que, quando voc\u00ea olha uma s\u00f3, \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil ver, mas quando voc\u00ea analisa o setor, as parcerias, isso aparece. Ent\u00e3o, a pr\u00f3pria Funda\u00e7\u00e3o Lemann \u00e9 uma que j\u00e1 vinha investindo em tecnologia h\u00e1 um tempo. Desde 2014, 2015, eles j\u00e1 faziam uma competi\u00e7\u00e3o de startups de educa\u00e7\u00e3o e workshops de desenvolvimento de aplicativos. Mas, nos \u00faltimos anos, o que chamava muita aten\u00e7\u00e3o na Funda\u00e7\u00e3o Lemann era o trabalho pela Base [Nacional Comum Curricular \u2013 BNCC]. Trabalharam muito fortemente no Movimento pela Base durante a formula\u00e7\u00e3o da BNCC e, depois que ela foi aprovada, tiveram um trabalho tamb\u00e9m muito forte de implementa\u00e7\u00e3o da Base, para acelerar a ado\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios e nos estados. E a\u00ed aconteceu esse reposicionamento. Em uma entrevista recente, eles mesmos usaram essa palavra \u2018reposicionamento\u2019. De repente, a Base saiu do foco para entrar a tecnologia. Ent\u00e3o, tecnologia n\u00e3o \u00e9 necessariamente algo novo na institui\u00e7\u00e3o, mas o foco foi novo e eles reconhecem. E todo mundo come\u00e7ou a ter nota t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Em geral, os pesquisadores cr\u00edticos ao projeto e atua\u00e7\u00e3o das entidades empresariais da educa\u00e7\u00e3o apontam tr\u00eas processos paralelos: um esfor\u00e7o de inserir na rede p\u00fablica processos e concep\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o que atendam diretamente ao interesse privado mais geral; uma tentativa de instituir mecanismos de gest\u00e3o privada na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica; e, ao mesmo tempo, a cria\u00e7\u00e3o de um nicho de mercado, com ganhos econ\u00f4micos. H\u00e1 propostas, solu\u00e7\u00f5es, iniciativas e a\u00e7\u00f5es, neste momento da pandemia, que expressem essas tr\u00eas frentes de atua\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Eu acho muito bom voc\u00ea tocar nesse assunto. Para a pesquisa, os tr\u00eas pontos que geralmente eu penso [como foco dessas entidades] s\u00e3o: o conte\u00fado que \u00e9 de fato ensinado; o m\u00e9todo, ou seja, como voc\u00ea ensina; e como voc\u00ea faz a gest\u00e3o. Junto com essa quest\u00e3o do m\u00e9todo, tem uma coisa que as pessoas falam pouco, que \u00e9 o como fazer a pol\u00edtica p\u00fablica. S\u00e3o tr\u00eas \u2018comos\u2019: o como da escola, o como da gest\u00e3o e o como da pol\u00edtica. A gente geralmente fica mais tempo nos dois primeiros, at\u00e9 porque, enquanto profissionais da \u00e1rea, a gente entende a relev\u00e2ncia disso: quem est\u00e1 ditando os conte\u00fados n\u00e3o s\u00e3o mais as entidades de educadores, associa\u00e7\u00f5es e f\u00f3runs, e sim os educadores que a gente chamava de externos, mas que n\u00e3o s\u00e3o mais externos. Tem muita disputa de projetos. Professores geralmente querem um projeto criativo, focalizado, que responda \u00e0s necessidades de cada aluno, que v\u00e1 trazer emancipa\u00e7\u00e3o e pensamento cr\u00edtico. E o projeto que essas funda\u00e7\u00f5es trazem geralmente n\u00e3o \u00e9 esse, \u00e9 uma coisa mais pragm\u00e1tica, de desenvolvimento econ\u00f4mico, de forma\u00e7\u00e3o de habilidades para coisas que o mercado precisa.<\/p>\n<p>Mas eu acho \u00f3timo focar nessa quest\u00e3o do dinheiro porque eu acho que, no fim das contas, quando a gente fala com a popula\u00e7\u00e3o em geral, \u00e9 essa a parte que chama mais aten\u00e7\u00e3o, que talvez escandalize. E isso \u00e9 mesmo muito dif\u00edcil de mapear. Uma das raz\u00f5es \u00e9 que em alguns outros pa\u00edses os or\u00e7amentos dessas entidades s\u00e3o transparentes, as funda\u00e7\u00f5es, assim como as empresas, s\u00e3o obrigadas a disponibilizar seus balancetes, e voc\u00ea consegue ver, por exemplo, que uma funda\u00e7\u00e3o est\u00e1 ganhando muito dinheiro vendendo um modelo de gest\u00e3o para a secretaria municipal.<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00e3o tem como ver isso. Faz anos que tem tido uma corrida para os pesquisadores tentarem entender a caixa preta e financeira deste setor e a gente n\u00e3o consegue. Algumas funda\u00e7\u00f5es investem nesse lado de dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e depois cobram pelas consultorias que oferecem, como o Cieb [Centro de Inova\u00e7\u00e3o para a Educa\u00e7\u00e3o Brasileira], por exemplo. Estou dando esse exemplo porque no site deles est\u00e1 mais f\u00e1cil de ver, est\u00e1 l\u00e1 muito claro que eles est\u00e3o oferecendo a secretarias municipais alguns servi\u00e7os de assessoria e consultoria que s\u00e3o pagos. Tem outras entidades que investem em startups, que \u00e9 uma coisa bastante caracter\u00edstica da Funda\u00e7\u00e3o Lemann. Nos \u00faltimos cinco anos, meio que eles participam desse sistema de acelerador [de empresas].<\/p>\n<p>Dentro do ecossistema de qualquer startup, voc\u00ea tem alguns passos. O primeiro, que geralmente chamam de incuba\u00e7\u00e3o, \u00e9 quando algu\u00e9m precisa de ajuda para fazer aquela ideia rodar: precisa de treinamento, capital inicial etc. E a\u00ed existem organiza\u00e7\u00f5es que s\u00e3o chamadas de incubadoras. Depois, quando essa ideia est\u00e1 come\u00e7ando a rodar, voc\u00ea tem outras organiza\u00e7\u00f5es que s\u00e3o chamadas de aceleradoras. Elas pegam aquelas startups que j\u00e1 t\u00eam um mercadinho, j\u00e1 t\u00eam um p\u00fablico definido e est\u00e3o precisando crescer e aceleram. A Funda\u00e7\u00e3o Lemann come\u00e7ou a trabalhar como aceleradora de startups educacionais, geralmente de aplicativos, mas tamb\u00e9m de outros tipos de produtos, que j\u00e1 estavam conseguindo captar algumas escolas, j\u00e1 estavam conseguindo vender. \u00c9 como se ela comprasse a\u00e7\u00f5es naquela startup, fizesse crescer e, na hora em que ela come\u00e7a a dar dinheiro, um peda\u00e7o \u00e9 seu. \u00c9 como qualquer aceleradora opera, mas o que \u00e9 engra\u00e7ado \u00e9 que uma funda\u00e7\u00e3o opere como uma aceleradora. Um dos exemplos \u00e9 a Geekie, que quando come\u00e7ou era um aplicativo pequeno e hoje em dia \u00e9 uma empresa educacional relativamente grande. Mas n\u00e3o temos dados para estimar em quantas cidades e escolas ela est\u00e1, qual o or\u00e7amento anual e quanto se ganha com isso.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma empresa acelerada pela Funda\u00e7\u00e3o Leman?<\/p>\n<p>Isso. A Funda\u00e7\u00e3o tem projetos que nascem l\u00e1 dentro e, de repente, quando ele come\u00e7a a ficar meio grande, cria-se um CNPJ separado e aquilo vira uma organiza\u00e7\u00e3o independente. E tem a din\u00e2mica oposta: voc\u00ea identifica uma organiza\u00e7\u00e3o pequena, traz ela para dentro, compra um peda\u00e7o da a\u00e7\u00e3o dela e depois separa. Esse setor em que a Lemann se envolveu, de investimento de impacto, \u00e9 muito pouco estudado e \u00e9 um lugar, obviamente, de fazer dinheiro. A gente ainda n\u00e3o sabe direito, mas pode muito bem acontecer de voc\u00ea ter uma funda\u00e7\u00e3o que tenha a\u00e7\u00f5es em uma editora de livros, que agora est\u00e1 colocando material online e depois esses materiais v\u00e3o ser cobrados. S\u00e3o din\u00e2micas muito opacas. Infelizmente, n\u00f3s temos pouqu\u00edssimos mecanismos de controle no Brasil para conseguir rastrear.<\/p>\n<p>Essas funda\u00e7\u00f5es geralmente t\u00eam uma vis\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o voltada para habilidades pr\u00e1ticas e trabalhos, do mercado de trabalho, pensando em desenvolvimento econ\u00f4mico, pensando em um tipo de pessoa que depois vai ser \u00fatil para o mercado de trabalho. E essa perspectiva tem uma coisa bastante individualizante da habilidade, que \u00e9 o aluno saber fazer a conta, mas tamb\u00e9m saber se portar, falar, empreender, ser criativo, mas n\u00e3o o criativo social, que questiona os problemas sociais, e sim o criativo da solu\u00e7\u00e3o de mercado, que consegue abrir uma startup\u2026E, dentro disso, a tecnologia cabe muito bem porque ela \u00e9 vista como uma op\u00e7\u00e3o geralmente mais em conta. A gente pensa em ter um financiamento bem estruturado, mais robusto, pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o profissional, para ter professores que v\u00e3o fazer os projetos com as crian\u00e7as e tal, mas, de repente, do outro lado se fala em um aplicativo que vai melhorar a aprendizagem das crian\u00e7as porque elas v\u00e3o ter joguinhos. E isso se torna uma solu\u00e7\u00e3o mais barata, que vai bem com a vis\u00e3o individualista e de austeridade que essas entidades t\u00eam de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Internacionalmente, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, faz tempo que a filantropia como um todo tem gostado bastante de tecnologia. E a\u00ed a linha entre os fins lucrativos e n\u00e3o lucrativos fica cada vez mais borrada. Voc\u00ea v\u00ea filantr\u00f3picas que tamb\u00e9m t\u00eam seus investimentos\u2026 E, de quebra, voc\u00ea tem um abordagem mais individualista, mais focada em atividades, mais barata e que, por acaso, pode virar um mercado, pode ter os aplicativos que vendem, os computadores, os tablets\u2026 Aqui no Brasil a gente teve, por exemplo, o caso [do programa] \u2018um computador por aluno\u2019, que foi uma solu\u00e7\u00e3o dos anos 2000 que acharam que iria revolucionar a educa\u00e7\u00e3o. \u2018Vamos dar um computador para cada crian\u00e7a\u2019. Teve empresas que ganharam muito dinheiro vendendo computador. No fim, as crian\u00e7as usavam os computadores como quem usa um caderno, os professores usavam as lousas e os computadores para fazer anota\u00e7\u00f5es e n\u00e3o revolucionou nada porque se a gente n\u00e3o pensa a pedagogia, um relacionamento com aplica\u00e7\u00e3o, realmente [a tecnologia] n\u00e3o cria muita coisa.<\/p>\n<p>Boa parte dessas cr\u00edticas s\u00e3o desenvolvidas h\u00e1 muito tempo, mas hoje, em meio \u00e0 pandemia, a gente tem um problema concreto, um cen\u00e1rio diferente, que requer solu\u00e7\u00f5es emergenciais. N\u00e3o \u00e9 preciso pensar a necessidade de uso da tecnologia agora, seja para suprir a falta de aulas neste momento, seja para fazer a transi\u00e7\u00e3o no p\u00f3s-pandemia?<\/p>\n<p>Eu concordo totalmente. H\u00e1 alguns exemplos de organiza\u00e7\u00f5es que t\u00eam um trabalho de pesquisar e coletar casos e exemplos de educa\u00e7\u00e3o integral e inovadora. E a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inovadora s\u00f3 porque tem tecnologia, mas justamente porque repensa a pedagogia, repensa o pr\u00e9dio, as salas\u2026 Um caminho \u00e9, por exemplo, nunca ficar passando o conte\u00fado da BNCC porque tem que correr com isso, porque vai ter prova, etc. Tem que pensar a tecnologia para ver exatamente como as crian\u00e7as conseguem aprender agora, em casa, com os pais no dia-a-dia. \u00c9 na cozinha? Ser\u00e1 que a gente consegue passar alguma receita para que a fam\u00edlia fa\u00e7a junto? Que tipo de conte\u00fado a gente pode trabalhar? Vamos falar da hist\u00f3ria da pandemia e passar alguns v\u00eddeos que s\u00e3o mais imersivos? Porque, afinal de contas, n\u00e3o adianta agora a gente ficar falando de hist\u00f3ria cl\u00e1ssica do Egito. Est\u00e1 todo mundo em casa, sofrendo com a pandemia. Vamos passar coisas que nos ajudem a entender o momento aqui e agora. Uma cidade no interior de S\u00e3o Paulo fez isso: \u2018chutou\u2019 a Base e resolveu tentar trabalhar conte\u00fados relacionados com o agora, com a pandemia, com os problemas econ\u00f4micos que est\u00e3o vindo. Como a gente pensa os problemas de gest\u00e3o da cidade? A tecnologia foi e est\u00e1 sendo usada para isso: o Whatsapp, para as pr\u00f3prias crian\u00e7as terem contato com seus colegas, est\u00e3o passando alguns v\u00eddeos, peda\u00e7os de document\u00e1rios sobre os quais o professor faz algumas perguntas para refletir\u2026 Como voc\u00ea bem falou, a gente est\u00e1 diante de um problema novo para o qual n\u00e3o d\u00e1 para fechar o olho. N\u00e3o d\u00e1 para a gente fingir e n\u00e3o fazer nada. O ponto n\u00e3o \u00e9 esse. Mas existem alguns exemplos de como usar a tecnologia para aquela proposta mais aplicada, mais concreta.<\/p>\n<p>As notas t\u00e9cnicas do Movimento Todos pela Educa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de materiais de v\u00e1rias dessas entidades e documentos do Banco Mundial, por exemplo, afirmam que \u00e9 preciso fazer um aproveitamento da tecnologia depois desse per\u00edodo de ensino remoto, aproveitando o que se aprendeu agora. Qual a centralidade da pauta da tecnologia como uma poss\u00edvel janela de oportunidades para a filantropia empresarial da educa\u00e7\u00e3o neste momento? Quais as suas principais cr\u00edticas a essa abordagem?<\/p>\n<p>Acho que vale a pena fazer um contraste com aquilo que \u00e9 a alternativa ao modelo empresarial, das funda\u00e7\u00f5es. Com uma perspectiva mais cr\u00edtica [da educa\u00e7\u00e3o], e que ficou muito marcada pelo Paulo Freire, temos uma vis\u00e3o mais coletiva, em que a gente acredita que o conhecimento \u00e9 constru\u00eddo ativamente, na intera\u00e7\u00e3o. A gente tenta tamb\u00e9m fazer essa constru\u00e7\u00e3o de conhecimento com o local, com o territ\u00f3rio. Ent\u00e3o, uma escola mais da periferia precisa discutir t\u00f3picos de saneamento da periferia e saber fazer um projeto aplicado, conseguir fazer os alunos escreverem um projeto que v\u00e1 parar na prefeitura. Voc\u00ea est\u00e1 desenvolvendo outras habilidades sociais do coletivo.<\/p>\n<p>Um outro ponto sobre o qual eu queria falar \u00e9 que uma quest\u00e3o muito complicada no envolvimento do empresariado na educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que geralmente n\u00e3o cabe todo mundo na pol\u00edtica p\u00fablica. Geralmente, quando algu\u00e9m ganha proemin\u00eancia, algu\u00e9m est\u00e1 perdendo espa\u00e7o. O que tem acontecido, nos \u00faltimos anos, \u00e9 que essas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam ganhado espa\u00e7o e quem tem perdido s\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es de educadores, os sindicatos, os f\u00f3runs estaduais e municipais. Antigamente, a gente via uma reportagem na Globo em que o especialista era o pesquisador, hoje em dia tem algu\u00e9m de uma funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma coisa que a pr\u00f3pria Campanha Nacional pelo Direito \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o tem falado bastante \u00e9 que s\u00f3 os professores nos munic\u00edpios, as escolas e secretarias poderiam estar pensando em solu\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m usariam tecnologia, mas que fossem algo decidido e acordado entre os profissionais da \u00e1rea para poder dar essa resposta. E, l\u00f3gico, tamb\u00e9m \u00e9 preciso comentar que o pr\u00f3prio MEC est\u00e1 completamente ausente dessa discuss\u00e3o. E, nesse v\u00e1cuo, as funda\u00e7\u00f5es t\u00eam entrado. Mas voc\u00ea v\u00ea o silenciamento dos profissionais da \u00e1rea. O que se faz pelo professor \u00e9 dar o plano de aula pronto. A gente n\u00e3o consegue ver essas funda\u00e7\u00f5es apoiando os professores em uma cria\u00e7\u00e3o, apoiando os professores para se associarem regionalmente e criarem essa solu\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a tecnologia em si, de fato, n\u00e3o \u00e9 o nosso inimigo. \u00c9 um erro a gente focar nessa discuss\u00e3o sobre se \u00e9 a favor ou contra EaD. A quest\u00e3o \u00e9 como essa via acontece.<\/p>\n<p>E um terceiro ponto \u00e9 a quest\u00e3o do foco. Porque o foco deve ser manter as crian\u00e7as bem, saud\u00e1veis, aprendendo, mantendo o ambiente familiar em casa saud\u00e1vel porque o medo grande, por exemplo, \u00e9 a viol\u00eancia dom\u00e9stica aumentar. Temos que levar tudo isso em conta nesse processo educacional remoto e n\u00e3o ter uma preocupa\u00e7\u00e3o \u00fanica com a prova, com cumprir a BNCC, com cumprir os objetivos de aprendizagem. Esse \u00e9 um momento t\u00e3o \u00fanico, \u00e9 uma chance de a gente repensar, dando significado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es. Usar EaD s\u00f3 para ficar nessa coisa de sempre da escola, da prova, da nota, de bater meta \u00e9 uma perda de oportunidade de a gente, de fato, atender \u00e0s necessidades das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas no cerne do que voc\u00ea est\u00e1 argumentando est\u00e1 o debate sobre o que fazer com o ano letivo. Voc\u00ea fala sobre estarmos vivendo um momento \u00fanico e o discurso predominante nesse campo cr\u00edtico \u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o deve servir \u00e0 forma\u00e7\u00e3o humana e n\u00e3o a uma forma\u00e7\u00e3o para o mercado. Mas, na vida concreta das pessoas, sobretudo, das camadas mais pobres que est\u00e3o nas redes p\u00fablicas, o tempo tamb\u00e9m \u00e9 um elemento importante. Adiar em um ano a sa\u00edda da escola, sobretudo nas s\u00e9ries finais do ensino m\u00e9dio, pode ser um problema s\u00e9rio para algumas fam\u00edlias. Os documentos das funda\u00e7\u00f5es empresariais dialogam com isso, inclusive quando n\u00e3o consideram a perda do ano letivo. Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre isso?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, \u00e9 uma necessidade real, concreta. Eu realmente acredito que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 esse lugar cheio de contradi\u00e7\u00e3o: ao mesmo tempo em que \u00e9 um bem p\u00fablico, \u00e9 tamb\u00e9m privado, \u00e9 uma coisa de formar sociedade, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma coisa de a pessoa se formar e eventualmente conseguir um emprego melhor. Ela \u00e9 esse lugar para fazer a sociedade melhor, ter seu senso cr\u00edtico. N\u00e3o pode ser s\u00f3 pelo trabalho, mas tamb\u00e9m a parte t\u00e9cnica tem que sair de l\u00e1 e a pessoa quer ter um trabalho legal. Eu acho que, infelizmente, essa possibilidade de perder o ano, perder um semestre, \u00e9 uma tens\u00e3o que est\u00e1 cortando todos os n\u00edveis. \u00c9 uma das poucas coisas que est\u00e1 juntando desde a educa\u00e7\u00e3o infantil at\u00e9 o ensino superior. Cada um tem sua especificidade, mas atinge desde o aluno que est\u00e1 na faculdade, iria se formar e tentar arrumar emprego, at\u00e9 as crian\u00e7as que n\u00e3o est\u00e3o sendo alfabetizadas. De fato, \u00e9 um ponto ser\u00edssimo. Mas eu acho que, se \u00e9 para repensar, tem que repensar s\u00e9rio. Porque s\u00f3 uma certifica\u00e7\u00e3o pela certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito vazia. A gente vai dizer que o aluno terminou o quinto ano, terminou o terceiro ano do ensino m\u00e9dio quando, na verdade, o aprendizado dele n\u00e3o aconteceu? Porque n\u00e3o est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>A gente tem um percentual enorme de alunos que n\u00e3o t\u00eam acesso ao computador. Mesmo para os que t\u00eam, as aulas n\u00e3o cobrem o conte\u00fado que dizem que est\u00e3o cobrindo. Ent\u00e3o, isso se torna uma preocupa\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e vazia. Eu acho que essa \u00e9 uma discuss\u00e3o que tem que ser feita de uma maneira melhor, mas eu tendo a concordar com a vertente que diz que, primeiro, a gente vai ter que repensar localmente, com os profissionais da educa\u00e7\u00e3o, e rever o calend\u00e1rio. A Campanha pelo Direito \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou v\u00e1rios guias contemplando quest\u00f5es como essa, inclusive o da volta \u00e0s aulas, e os elementos a serem considerados.<\/p>\n<p>Est\u00e1 previsto pela LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o] que em momentos assim a gente pode unir anos letivos, por exemplo. Ent\u00e3o, o ano letivo de 2020 vai come\u00e7ar talvez em janeiro do ano que vem e o ano que vem vai ser mais apertado. Vamos ter, por exemplo, tr\u00eas anos em dois. E a\u00ed a gente vai tirando o atraso. De fato, o aluno que iria se formar agora em dezembro, seja qual for a s\u00e9rie dele, s\u00f3 vai se formar l\u00e1 para agosto do ano que vem. E assim vai trabalhando para mitigar a perda. Eu acho que seria uma op\u00e7\u00e3o de voc\u00ea mitigar n\u00e3o s\u00f3 a perda do tempo, mas garantir o aprendizado, tentando ser mais honesta com os dois lados. E, junto com isso, tamb\u00e9m pensar em novas maneiras de certifica\u00e7\u00e3o. Quando voltarem as aulas, a gente vai ter que fazer todo um trabalho de diagn\u00f3stico que v\u00e1 al\u00e9m de prova. S\u00f3 fazer prova n\u00e3o \u00e9 suficiente, cada professor na sua sala de aula vai ter que identificar onde os alunos est\u00e3o, quem aprendeu o que, pode ter um que se deu bem com o computador e vai ter outro que n\u00e3o. Vai ter que fazer aquele nivelamento, mas talvez haja modelos de voc\u00ea conseguir passar o aluno em uma mat\u00e9ria, principalmente no ensino m\u00e9dio. Ser\u00e1 preciso repensar v\u00e1rios elementos e n\u00e3o se prender em modelos e burocracias antigas.<\/p>\n<p>Uma nota t\u00e9cnica sobre o retorno \u00e0s aulas do Movimento Todos pela Educa\u00e7\u00e3o fala especificamente em \u201cinstitucionaliza\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de recupera\u00e7\u00e3o da aprendizagem\u201d, de \u201cintrodu\u00e7\u00e3o da tecnologia como aliada cont\u00ednua\u201d e sobre a necessidade de \u201cavalia\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, n\u00e3o s\u00f3 iniciais, mas como processo\u201d para subsidiar depois essas pol\u00edticas de recupera\u00e7\u00e3o de aprendizagem. \u00c9 disso que voc\u00ea est\u00e1 falando tamb\u00e9m ou tem diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>Eu acho que h\u00e1 pontos de encontro. Por vezes \u00e9 dif\u00edcil a gente conseguir marcar as diferen\u00e7as para o p\u00fablico geral, elucidar quais projetos est\u00e3o na mesa, porque a gente soa parecido se n\u00e3o forem discutidas as ideias com maior profundidade. Eu acho que as diferen\u00e7as v\u00e3o aparecer bastante na implementa\u00e7\u00e3o. O que a gente pode deixar marcado desde agora \u2013 e essa talvez seja uma certa diferen\u00e7a entre grupos cr\u00edticos e empresariais \u2013 , \u00e9 que n\u00e3o pode ser uma avalia\u00e7\u00e3o pr\u00f3-forma e que n\u00e3o deve valer nota, que os educadores devem ser protagonistas nesse processo, e eles devem receber o devido apoio das secretarias, inclusive quanto ao financiamento. Essas medidas, da recupera\u00e7\u00e3o da aprendizagem, da avalia\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, devem ter o devido apoio das secretarias, e n\u00e3o ficar como responsabilidade da escola com professores desamparados.<\/p>\n<p>\u00c9 importante o professor ser, de fato, participativo no processo de decis\u00e3o, porque depois a execu\u00e7\u00e3o vai depender deles. V\u00e3o ser as diretoras, os pedagogos e os professores que v\u00e3o conseguir determinar se uma avalia\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo feita pr\u00f3-forma, s\u00f3 como um question\u00e1rio que eles fizeram, ou se, de fato, aquela escola, com aquele corpo docente, est\u00e1 identificando as dificuldades e alterando conte\u00fado de acordo como que as crian\u00e7as est\u00e3o demonstrando. Vai ser na pr\u00e1tica. Se esse tipo de avalia\u00e7\u00e3o tiver nota, as crian\u00e7as ficam todas loucas, o professor come\u00e7a a treinar para que as crian\u00e7as n\u00e3o se saiam t\u00e3o mal e o diagn\u00f3stico fica de lado porque o peso da nota j\u00e1 tirou o foco avaliativo. Seja l\u00e1 quem for escrever isso, tem que tentar desenhar que essas provas n\u00e3o v\u00e3o ter peso de notas, que o conte\u00fado daquele ano pode ser dado em um ano e meio, por exemplo, e que ser\u00e3o necess\u00e1rias certas adapta\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o que vinha sendo muito utilizada pelas redes no ensino remoto durante a pandemia \u00e9 a plataforma Google Classroom. Existe alguma rela\u00e7\u00e3o entre as entidades empresariais da educa\u00e7\u00e3o e essas gigantes da tecnologia? Existe concorr\u00eancia ou complementaridade entre esses segmentos?<\/p>\n<p>Existem alguns movimentos internacionais. A Google, por exemplo, come\u00e7ou a ampliar a cobertura educacional, deixou os pacotes de gra\u00e7a. O pr\u00f3prio zoom, que era pago depois de 40 minutos de liga\u00e7\u00e3o, de repente passou a ser de gra\u00e7a, um monte de escola come\u00e7ou a usar o zoom. Algumas dessas superempresas tecnol\u00f3gicas t\u00eam entrado na educa\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 tudo novo. A Microsoft fez isso naquela \u00e9poca do \u2018um computador por aluno\u2019, a Intel pegou um pouco disso tamb\u00e9m\u2026 \u00c9 uma cria\u00e7\u00e3o de mercado e tem tamb\u00e9m um tanto de marketing, de fideliza\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a v\u00ea aquela marca desde sempre\u2026<\/p>\n<p>O mercado da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito polpudo, tem muito dinheiro, principalmente estatal. Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre, por exemplo, o Google e as funda\u00e7\u00f5es, eu acho que n\u00e3o tem competi\u00e7\u00e3o. Eu acho que no Brasil essas funda\u00e7\u00f5es t\u00eam uma abordagem bastante cooperativa. Existe um trabalho demarcado: uma \u00e9 mais voltada para o ensino m\u00e9dio, se \u00e9 sobre compet\u00eancias socioemocionais \u00e9 mais o Instituto Ayrton Senna, se \u00e9 sobre desenvolvimento infantil, \u00e9 outra\u2026 Eles n\u00e3o entram muito um no lugar do outro. E a\u00ed uma Google da vida, at\u00e9 onde eu tenho percebido, consegue de uma maneira muito r\u00e1pida entrar nesse mercado, ver os atores que j\u00e1 est\u00e3o ali naquele pa\u00eds e abord\u00e1-los, fazer parcerias que n\u00e3o entram em competi\u00e7\u00e3o com esse mercado local. Acho que foi em 2015, 2016, que a Funda\u00e7\u00e3o Lemann com a [Revista] Nova escola, fez parceria com a Google para ter uma plataforma com planos de aula. Ent\u00e3o, a Google, quando chega aqui, n\u00e3o chega sozinha, mas com uma funda\u00e7\u00e3o influente. Um fortalece o outro.<\/p>\n<p>Num artigo publicado no site da Campanha Nacional pelo Direito \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea utiliza o conceito de \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o por desastre\u201d para apontar o perigo de um processo semelhante neste momento de pandemia. De fato, os documentos do Todos pela Educa\u00e7\u00e3o, Banco Mundial e mesmo Unesco, fazem muita refer\u00eancia \u00e0 experi\u00eancia de pa\u00edses e regi\u00f5es que j\u00e1 passaram por situa\u00e7\u00f5es similares a atual para falar sobre os efeitos do afastamento das crian\u00e7as e dos jovens da escola. O que se quer dizer com a ideia de privatiza\u00e7\u00e3o por desastre? E em que esse conceito ajuda a entender este momento?<\/p>\n<p>Existe uma \u00e1rea, tanto de pesquisa quanto de pr\u00e1tica, dentro da educa\u00e7\u00e3o, que se chama Educa\u00e7\u00e3o e Emerg\u00eancia. Ela trabalha com educa\u00e7\u00e3o em contextos bem at\u00edpicos, de emerg\u00eancia. \u00c0s vezes s\u00e3o desastres naturais, como, por exemplo, no Haiti, quando tem um furac\u00e3o e as escolas s\u00e3o derrubadas e outras usadas de abrigo. Mas nos \u00faltimos anos essa \u00e1rea com um todo tem se voltado bastante para a educa\u00e7\u00e3o de refugiados. S\u00e3o popula\u00e7\u00f5es que s\u00e3o deslocadas e pa\u00edses que recebem essas popula\u00e7\u00f5es. Como voc\u00ea pode fazer? Que tipo de conte\u00fado voc\u00ea usa? Tem toda essa coisa do calend\u00e1rio, certifica\u00e7\u00e3o\u2026 Tudo isso fica em xeque quando voc\u00ea tem crian\u00e7as que v\u00e3o chegando ao longo do ano, com outra l\u00edngua, com uma situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel .\u00c9 realmente uma \u00e1rea muito desafiadora e interessante porque os modelos tradicionais todos caem. E \u00e9 uma \u00e1rea que sempre foi meio que patinho feio, lutava por investimento porque quase ningu\u00e9m quer colocar dinheiro nisso, \u00e9 um tema que consideram muito espec\u00edfico, s\u00e3o popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis\u2026 De repente, essa \u00e1rea virou um foco de esperan\u00e7a para respostas. Eu acho \u00f3timo, realmente eles t\u00eam coisas para ensinar. Mas um contexto desse pode envolver privatiza\u00e7\u00e3o por desastre ou n\u00e3o. O Haiti \u00e9 um que teve: teve pesquisador, teve gente da Unesco, pessoas das na\u00e7\u00f5es unidas\u2026 O pessoal de educa\u00e7\u00e3o emergencial ficou tentando ajudar e tamb\u00e9m empresas e startups, funda\u00e7\u00f5es chegaram junto para vender produtos. Ent\u00e3o, as refer\u00eancias que eles comentam podem estar relacionadas ou n\u00e3o com contextos de privatiza\u00e7\u00e3o por desastre.<\/p>\n<p>Sobre a privatiza\u00e7\u00e3o por desastre, quando voc\u00ea n\u00e3o tem um plano concreto, robusto, geralmente puxado pelo poder p\u00fablico, voc\u00ea cria um v\u00e1cuo. E, geralmente, quem tem velocidade, poder e influ\u00eancia para ocupar esse v\u00e1cuo s\u00e3o atores privados. \u00c9 como eu falei: movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es civis, pela falta de capital mesmo e pelo tipo de estrutura organizacional, geralmente n\u00e3o v\u00e3o conseguir ocupar isso da maneira r\u00e1pida como as empresas e funda\u00e7\u00f5es privadas fazem. Quem ocupa esse v\u00e1cuo tem uma chance enorme de ser uma organiza\u00e7\u00e3o privada. E a outra coisa \u00e9 uma certa suspens\u00e3o das regras e dos mecanismos de controle. Porque, num desastre, est\u00e1 todo mundo em choque, todo mundo em d\u00favida, est\u00e1 aquele clima de desespero como est\u00e1 agora. E a\u00ed, na falta de um plano, quem entra com um plano sai ganhando. O problema \u00e9 que esse plano come\u00e7a a rodar e voc\u00ea n\u00e3o consegue mais questionar no longo prazo. E se \u00e9 um plano que previa a privatiza\u00e7\u00e3o, a\u00ed mais ainda: ele come\u00e7a a andar e fica dif\u00edcil reverter esse processo. Em contextos de desastre natural, pesquisas confirmam que a privatiza\u00e7\u00e3o que come\u00e7a ali parece continuar mesmo depois de o desastre passar. E eu acho que agora tem o risco bastante grande de isso j\u00e1 estar acontecendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25819\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[60],"tags":[222],"class_list":["post-25819","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c71-educacao","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Ir","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25819","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25819"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25819\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}