{"id":25825,"date":"2020-07-13T22:54:35","date_gmt":"2020-07-14T01:54:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25825"},"modified":"2020-07-13T22:54:35","modified_gmt":"2020-07-14T01:54:35","slug":"pandemia-e-psicologizacao-das-relacoes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25825","title":{"rendered":"Pandemia e psicologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/66.media.tumblr.com\/2be58c752d4ba4dc65adeb47da7c523c\/tumblr_nttk97GG8u1uwplv4o1_640.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A PANDEMIA DO CORONAV\u00cdRUS: CONSIDERA\u00c7\u00d5ES PRELIMINARES ACERCA DA PSICOLOGIZA\u00c7\u00c3O DAS RELA\u00c7\u00d5ES SOCIAIS<\/p>\n<p>B\u00e1rbara Maria Turci &#8211; Psic\u00f3loga e militante do CFCAM-Uberl\u00e2ndia\/MG<\/p>\n<p>Elton Luiz da Costa Alcantara &#8211; Assistente Social e militante do PCB-Uberl\u00e2ndia\/MG<\/p>\n<p>Uma epidemia, que em qualquer outra \u00e9poca teria parecido um paradoxo, desaba sobre a sociedade &#8211; a epidemia da superprodu\u00e7\u00e3o. A sociedade v\u00ea-se subitamente reconduzida a um estado de barb\u00e1rie moment\u00e2nea; como se a fome ou uma guerra de exterm\u00ednio houvessem lhe cortado todos os meios de subsist\u00eancia; o com\u00e9rcio e a ind\u00fastria parecem aniquilados. (MARX e ENGELS, 1998, p. 45)<\/p>\n<p>Iniciar qualquer considera\u00e7\u00e3o acerca da pandemia do coronav\u00edrus (Sars-CoV-2) e suas implica\u00e7\u00f5es na vida social (quaisquer que sejam) torna imperativo ter como quest\u00e3o a pr\u00f3pria sociabilidade sob o jugo do capital. Ainda que o v\u00edrus em si tenha causa natural, que possa ser explicado a partir de pesquisas laboratoriais, bioqu\u00edmicas, isolando-o do ambiente externo com suas vari\u00e1veis, a pandemia do coronav\u00edrus \u00e9 express\u00e3o fenom\u00eanica de uma l\u00f3gica do capital, do seu incontrol\u00e1vel avan\u00e7o sobre todo o planeta, movido pela \u00e2nsia voraz da lucratividade. De tal maneira, n\u00e3o pode ter suas express\u00f5es de barb\u00e1rie resolvidas no interior de sua pr\u00f3pria l\u00f3gica, que s\u00e3o, no limite, (mal) atenuadas.<\/p>\n<p>Nas palavras de S\u00e9rgio Lessa (2020), \u201co modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista se tornou essencialmente (ou seja, n\u00e3o pode ser outra coisa) um criadouro de v\u00edrus e de epidemias\u201d, e no rol de respostas ofertadas pelo Capital sinalizam-se aquelas que podemos apontar como caracterizadoras de um processo de psicologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, em que: a responsabilidade pela propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus coloca-se sobre o trabalhador que n\u00e3o se isola, a despeito das necessidades concretas que o for\u00e7am a n\u00e3o faz\u00ea-lo; o dever de zelar pela pr\u00f3pria sa\u00fade tamb\u00e9m se coloca exclusivamente ao indiv\u00edduo, que, quando pode se isolar, \u00e9 incentivado a buscar alternativas individuais para se manter em pleno desenvolvimento, produzindo; outro aspecto que tamb\u00e9m se apresenta \u00e9 o de creditar a culpa \u00e0s pessoas que, mesmo podendo, n\u00e3o seguem as premissas do isolamento social. Tais elementos buscar\u00e3o ser refletidos aqui, conectando-os com as quest\u00f5es basilares da sociedade capitalista.<\/p>\n<p>A fim de apresentar nossa hip\u00f3tese, sem a inten\u00e7\u00e3o de esgotar o debate, cabe uma breve elucida\u00e7\u00e3o sobre o fen\u00f4meno da psicologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, categoriza\u00e7\u00e3o apropriada a partir do livro Capitalismo Monopolista e Servi\u00e7o Social, de Jos\u00e9 Paulo Netto ([1992] 2011).<\/p>\n<p>Procurando suas determina\u00e7\u00f5es fundamentais, o autor vai apontar esse fen\u00f4meno como sendo \u201cum processo que enla\u00e7a [&#8230;] componentes te\u00f3rico-culturais e tend\u00eancias econ\u00f4mico-sociais pr\u00f3prias da gesta\u00e7\u00e3o e da consolida\u00e7\u00e3o da ordem monop\u00f3lica\u201d (Idem, p. 50). Como produto do desenvolvimento do capitalismo na fase dos monop\u00f3lios, cujas caracter\u00edsticas centrais envolvem a ascens\u00e3o desse modo de produ\u00e7\u00e3o a um novo patamar de explora\u00e7\u00e3o, acumula\u00e7\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o, a uma \u201cfase superior\u201d denominada imperialismoi.<\/p>\n<p>Nesse processo de inscri\u00e7\u00e3o global do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista a uma nova fase de seu desenvolvimento, observa-se uma altera\u00e7\u00e3o qualitativa do Estado. Essa altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa, por\u00e9m, uma mudan\u00e7a no seu pr\u00f3prio car\u00e1ter, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 garantidor dos interesses da burguesia, mas de fato uma muta\u00e7\u00e3o em prol de se adaptar \u00e0s exig\u00eancias do novo ciclo, o ciclo monop\u00f3lico. Dessa forma, seguindo as indica\u00e7\u00f5es de Gramsci, pode-se dizer que o Estado se amplia, integraliza-se, servindo bem para servir sempre aos interesses monopolistas da burguesia.<\/p>\n<p>A despeito das diversas nuances e distintas particularidades que se apresentar\u00e3o com o passar do tempo nas variadas localidades do mundo, esse \u00e9 um processo que se universalizar\u00e1, percorrendo o s\u00e9culo XX e nos acompanhando at\u00e9 hoje, quando nos aproximamos da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>No processo em que o Estado assume demandas da classe trabalhadora organizada, respondendo para al\u00e9m da repress\u00e3o &#8211; com pol\u00edticas, programas e servi\u00e7os sociais organizados -, caminhar\u00e1 com uma &#8220;dupla face&#8221;: a do p\u00fablico (relativo aos direitos sociais) e a do privado (dentro da l\u00f3gica do individualismo liberal).<\/p>\n<p>As sequelas inerentes ao sistema capitalista, fruto da contradi\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho, ser\u00e3o respondidas por esse Estado com duas faces. De um lado, ao legitimar as demandas dos trabalhadores trazendo a \u201cresolu\u00e7\u00e3o\u201d para dentro do seu campo de atua\u00e7\u00e3o (as institui\u00e7\u00f5es burguesas), fornecer\u00e1 respostas organizadas racionalmente (pela racionalidade burguesa) que jamais tocar\u00e3o o cerne do problema, qual seja: a explora\u00e7\u00e3o como base fundante das desigualdades sociais. De outro, fortalecer\u00e1 a l\u00f3gica na qual s\u00e3o as pessoas (consideradas indiv\u00edduos isolados) as \u00fanicas realmente respons\u00e1veis pelos pr\u00f3prios sucesso ou fracasso na sociedade, perspectiva recuperada com novas roupagens da tradi\u00e7\u00e3o liberal.<\/p>\n<p>Com outras palavras:<\/p>\n<p>o redimensionamento do Estado burgu\u00eas no capitalismo monopolista em face da \u2018quest\u00e3o social\u2019 simultaneamente corta e recupera o ide\u00e1rio liberal \u2013 corta-o, intervindo atrav\u00e9s de pol\u00edticas sociais; recupera-o, debitando a continuidade das suas sequelas aos indiv\u00edduos por ela afetados. (NETTO, 2011, p. 36)<\/p>\n<p>E assim prossegue: \u201ca incorpora\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter p\u00fablico da \u2018quest\u00e3o social\u2019 vem acompanhada de um refor\u00e7o da apar\u00eancia da natureza privada das suas manifesta\u00e7\u00f5es individuais\u201d (Ibidem, p. 36).<\/p>\n<p>Uma conjuntura hist\u00f3rica bastante espec\u00edfica foi determinante para a formata\u00e7\u00e3o desse Estado, notadamente nos pa\u00edses centrais (ou de &#8220;primeiro mundo&#8221;), construindo um aparato de seguridade social, &#8220;pleno emprego&#8221;, consumo em massa, etc., que &#8211; surfando em uma &#8220;onda longa expansiva&#8221; (MANDEL, 1982) e em disputa com a URSS pelos rumos do mundo &#8211; teve condi\u00e7\u00f5es de enfatizar uma atua\u00e7\u00e3o em prol do p\u00fablico (ressaltamos novamente: nos pa\u00edses centrais, inclusive \u00e0 custa da periferia do mundo, que n\u00e3o viu essa \u201cera de ouro\u201d brilhar em suas v\u00e1rzeas), com pol\u00edticas sociais universalizantes &#8211; ainda que, mesmo desse modo, sejam de atua\u00e7\u00e3o limitada \u00e0 epiderme do tecido social e geralmente com um saldo pol\u00edtico de coopta\u00e7\u00e3o de setores da classe trabalhadoraii.<\/p>\n<p>Isso posto, \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que esse \u00e9 um padr\u00e3o que emerge no processo s\u00f3cio-hist\u00f3rico apontado, ganhando modalidades distintas, por\u00e9m com tra\u00e7os de perman\u00eancia. Ao mesmo tempo, desenvolvem-se perspectivas de explica\u00e7\u00e3o e mecanismos de interven\u00e7\u00e3o de cunho individualizante e moralizante, personificadas e culpabilizadorasiii. Assim, o trecho a seguir apresenta uma s\u00edntese precisa desse ponto:<\/p>\n<p>as condi\u00e7\u00f5es que o marco do monop\u00f3lio estabelece para a interven\u00e7\u00e3o sobre os problemas sociais n\u00e3o destroem a possibilidade de enquadrar os grupos e os indiv\u00edduos por eles afetados numa \u00f3tica de individualiza\u00e7\u00e3o que transfigura os problemas sociais em problemas pessoais (privados); ao contr\u00e1rio, esta \u00f3tica aparece como persistente elemento coadjuvante e\/ou, em situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-sociais precisas, at\u00e9 mesmo componente de extremo relevo do enfrentamento p\u00fablico das sequelas da \u2018quest\u00e3o social\u2019 (NETTO, 2011, p. 36).<\/p>\n<p>Dessa forma, podemos tomar outra considera\u00e7\u00e3o do autor em tela, de como a psicologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais ter\u00e1 maior ou menor incid\u00eancia a depender da conjuntura considerada, inclusive podendo ser elemento central constitutivo do per\u00edodo em que nos encontramos, sob a \u00e9gide do que se chamou de neoliberalismo.iv<\/p>\n<p>Nesse sentido que nossa hip\u00f3tese se apresenta, apontando as express\u00f5es de uma evidente psicologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e dos processos sociais em uma conjuntura profundamente cr\u00edtica. Rela\u00e7\u00f5es e processos tais que, ao inv\u00e9s de serem relacionados \u00e0s determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais do capitalismo, t\u00eam tais express\u00f5es relegadas em prol do subjetivismo mais rasteiro, moralizador, hiperdimensionado, subordinando ao plano individual a responsabilidade em dar cabo das sequelas oriundas do pr\u00f3prio modo de produ\u00e7\u00e3o, do sociometabolismo do capital.<\/p>\n<p>M\u00e9sz\u00e1ros (2002) vai apontar que desde os anos 1970 o capitalismo n\u00e3o produz mais civiliza\u00e7\u00e3o, apenas barb\u00e1rie. Uma esp\u00e9cie de Rei Midas que, no mesmo toque em que produz \u201couro\u201d (lucro), destinado a uma parcela cada vez minorit\u00e1ria da humanidade, a classe dos capitalistas, deixa destrui\u00e7\u00e3o para a grande parcela da humanidade, a classe trabalhadora. Mas vai al\u00e9m e causa danos cada vez mais profundos na pr\u00f3pria biosfera, comprometendo a base sobre a qual o ser humano se origina e jamais se descola, a natureza.<\/p>\n<p>A pandemia que ora se apresenta \u00e9 tragicamente did\u00e1tica para a compreens\u00e3o desse car\u00e1ter do capitalismo, que j\u00e1 vinha gerindo um quadro de crise, sendo aquela o elemento que dissolveu as apar\u00eancias que insistiam em velar as contradi\u00e7\u00f5es desta, mas que joga com novas camadas de apar\u00eancia mistificadoras de uma compreens\u00e3o mais aprofundada da quest\u00e3o em tela: a crise estrutural do capital em suas particularidades mais recentes.<\/p>\n<p>Trocando em mi\u00fados, os resultados da propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus por todo o Planeta s\u00e3o fruto das consequ\u00eancias do capitalismo, de seu modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o. Sua apari\u00e7\u00e3o se deu num contexto em que o tecido social j\u00e1 estava profundamente debilitado, sendo catalisador das lat\u00eancias da crise capitalista, de suas caracter\u00edsticas fundamentais. Assim, as repercuss\u00f5es do encontro do Covid-19 com o sociometabolismo regido pelo capital estruturalmente em crise s\u00e3o origin\u00e1rias deste e agravadas nesse momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Atribui-se \u00e0 suposta incontrolabilidade e inevitabilidade de um v\u00edrus, as mazelas de uma classe que historicamente sofre processos de precariza\u00e7\u00e3o. Mascara-se tais express\u00f5es como resultados inevit\u00e1veis de intercorr\u00eancias naturais e n\u00e3o de um modo de produzir e reproduzir a vida que, para continuar mantendo uma classe dominante, torna necess\u00e1rio que a maioria da popula\u00e7\u00e3o permane\u00e7a sobrevivendo apenas o suficiente para vender sua for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Ao esclarecermos que os complexos sociais, elementos fundantes de um modo de produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfico, s\u00e3o determinantes da constitui\u00e7\u00e3o e da atividade dos indiv\u00edduos, n\u00e3o pretendemos inferir uma inerente passividade ou imutabilidade ao ser humano, mas apontar sua ontologia como ser social.<\/p>\n<p>Foi o desenvolvimento natural e biol\u00f3gico que possibilitou o surgimento do ser humano primitivo, mas conforme a natureza exigia desse ser, para que sobrevivesse, o dom\u00ednio e a transforma\u00e7\u00e3o dos elementos que lhe oferecia, ele passa a ultrapassar cada vez mais essa natureza, para se tornar ser social (MARX, 2004). \u00c9 atrav\u00e9s do trabalho de modifica\u00e7\u00e3o da natureza que os homens se humanizam, ou seja, desenvolvem instrumentos de trabalho necess\u00e1rios para suas atividades e, com isso, desenvolvem sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, passando a ser os \u00fanicos seres vivos a conseguirem antecipar e planejar sua atividade antes de realiz\u00e1-la (L\u00daRIA, 1979; LUK\u00c1CS, 2013; MARX, 2017).<\/p>\n<p>Com cada vez mais sofistica\u00e7\u00e3o, exigida pelo meio social em uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com a atividade humana, o trabalho enquanto rela\u00e7\u00e3o social \u00e9, ao mesmo tempo, a exterioriza\u00e7\u00e3o e a objetiva\u00e7\u00e3o do homem, e seu constituidor. Ao atuar por sobre a natureza externa a ele e ao modific\u00e1-la, ele modifica sua pr\u00f3pria natureza (MARX, 2004).<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que est\u00e3o determinadas por suas rela\u00e7\u00f5es sociais de trabalho: as caracter\u00edsticas f\u00edsicas, a consci\u00eancia, a personalidade e a atua\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo no mundo, formando um complexo processo de s\u00edntese hist\u00f3rica e universal, com v\u00e1rias particularidades que a mediam, desembocando em um modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o trabalho \u00e9 a base da constitui\u00e7\u00e3o do ser humano enquanto tal, \u00e9 \u201co modelo de toda pr\u00e1xis social\u201d (LUK\u00c1CS, 2013, p. 83), complexo social em torno do qual se constituem e organizam todos os demais complexos. Nesse processo, a pr\u00f3pria consci\u00eancia humana se constr\u00f3i, retroalimentando o metabolismo entre ser humano e natureza na busca de satisfazer suas necessidades.<\/p>\n<p>Na sociedade capitalista, por\u00e9m, com o atual desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e o dom\u00ednio do capital sobre o trabalhador, a atividade humana n\u00e3o se relaciona com a totalidade social e com outros atos humanos pelo seu conte\u00fado em si, mas sim pelo produto que surge dessas atividades: as mercadorias.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o entre pessoas s\u00e3o obscurecidas por uma rela\u00e7\u00e3o entre coisas. A forma-mercadoria, expressa na forma-valor, esconde o conte\u00fado das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es sociais. Aqui, Marx desenvolver\u00e1 a categoria de fetichismo da mercadoria (MARX, 2017), donde desdobra-se o fen\u00f4meno da aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ser humano n\u00e3o tem apropria\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o de sua atividade, consequentemente, nem do pr\u00f3prio processo de trabalho e do produto desse. Como tal processo constitui suas caracter\u00edsticas humanas, inclu\u00eddas sua consci\u00eancia e personalidade, o trabalhador se desumaniza, se afasta daquilo que o constitui, as rela\u00e7\u00f5es sociais de trabalho. Ao perder a consci\u00eancia da totalidade que o faz ser humano, tem sua personalidade e afetividade modificadas e tolhidas em seu desenvolvimento, produzindo a n\u00e3o-consci\u00eancia de si e impossibilidade de autoconsci\u00eancia de forma imediata.<\/p>\n<p>No sentido em que o ser humano se v\u00ea alienado na sociedade capitalista, o trabalho &#8211; que \u00e9 o seu medium humanizador, diferenciando-o dos animais &#8211; se converte tamb\u00e9m, na forma assalariada, em processo desumanizador. Isso nos ajuda a compreender um importante fundamento da psicologiza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o ser n\u00e3o percebe nem a si nem ao outro como social, algo al\u00e9m de um indiv\u00edduo isolado em meio a tantos outros indiv\u00edduos, cuja rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por trocas mercantis, ocultando as pessoas relacionadas.<\/p>\n<p>Nesse entremeio, h\u00e1 ainda a fort\u00edssima propaga\u00e7\u00e3o da ideologia da classe dominante, que far\u00e1 uso de mecanismos diversos (os seus aparelhos privados de hegemonia) para introjetar nos trabalhadores a certeza de que os seus interesses particulares s\u00e3o universaisv. Ao longo do seu desenvolvimento hist\u00f3rico, o capital apresentou distintos interesses, sempre em conson\u00e2ncia com a necessidade de acumula\u00e7\u00e3o ampliada. No elenco de medidas para conter as quedas das taxas de lucro, contou com um elemento fundamental nos 25 anos finais do s\u00e9culo XX, a inser\u00e7\u00e3o de novas formas organizacionais de trabalho.<\/p>\n<p>Fruto de altera\u00e7\u00f5es na esfera produtiva a n\u00edvel mundial, a referida inser\u00e7\u00e3o baseia-se fundamentalmente no chamado modelo toyotista de produ\u00e7\u00e3o. Com consequ\u00eancias as mais diversas, consideramos importante a men\u00e7\u00e3o \u00e0 intensa inser\u00e7\u00e3o da tecnologia nos processos de trabalho, junto ao incentivo do empreendedorismo e aparente autonomia do trabalhador, que factualmente significa uma maior flexibiliza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas e a captura da subjetividade do indiv\u00edduo que trabalha (ALVES, 2011)vi.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o trabalhador \u00e9 chamado de colaborador, o ambiente de trabalho se torna espa\u00e7o de aprendizagem, e as horas trabalhadas, que parecem ser controladas pelo pr\u00f3prio &#8220;aut\u00f4nomo&#8221;, s\u00e3o ditadas pelos algoritmos e pelo baix\u00edssimo pre\u00e7o pago por hora de trabalho. Na consci\u00eancia, de uma forma geral, o trabalhador pensa que tem o controle desses processos. Na ess\u00eancia, permanecem (e at\u00e9 aprofundam) as marcas do fetichismo e da aliena\u00e7\u00e3o, da perda do corpo e da mente do indiv\u00edduo para o produto de seu trabalho.<\/p>\n<p>Essa inser\u00e7\u00e3o de novas formas organizacionais do trabalho, portanto, representa ataques profundos n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, mas \u00e0 sa\u00fade dos mesmos, que concretamente acabam trabalhando mais, incorporando a ideologia do neoliberalismo e assumindo para si a responsabilidade de serem bons explorados, \u201ccordeiros\u201d que vagam (quando n\u00e3o correm) calmamente, guiados pelo \u201cpastor\u201d (que \u00e0s vezes \u00e9 at\u00e9 um deles) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s trituradoras de sua sa\u00fade e de sua vida.<\/p>\n<p>Assim, tanto o trabalho quanto a falta dele, na sociabilidade regida pelo capital, gera, invariavelmente, adoecimento mental e f\u00edsico. O empobrecimento das rela\u00e7\u00f5es sociais, a restri\u00e7\u00e3o da atividade humana ao trabalho isento de sentido e a falta de recursos concretos para existir, produzem limita\u00e7\u00f5es e regress\u00f5es no pr\u00f3prio desenvolvimento humano (ALMEIDA, 2018).<\/p>\n<p>Em tempos de crise isso se agudiza. As reformas trabalhista e previdenci\u00e1ria tendem a elevar ainda mais tais indicadores. Nesse \u00ednterim, a ret\u00f3rica ideol\u00f3gica do capital insere toda a responsabilidade por esse quadro sobre o indiv\u00edduo enquanto ser atomizado. O discurso do empreendedorismo \u00e9 uma das principais embalagens dessa responsabiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e0 toa proliferam-se os coachs e suas varia\u00e7\u00f5es (inclusive profissionalizadas), mas que n\u00e3o t\u00eam sustent\u00e1culo material para garantir a sobreviv\u00eancia dos trabalhadores com a mera mudan\u00e7a no mindset.vii<\/p>\n<p>Buscando concluir, sabendo que esse \u00e9 um tema em aberto, compreendemos que as determina\u00e7\u00f5es ent\u00e3o apontadas, caracter\u00edsticas de profundas mudan\u00e7as que ocorrem desde os anos 1970, mas intensificadas particularmente a partir da d\u00e9cada de 1990, operam uma grande reorganiza\u00e7\u00e3o na sociedade capitalista a n\u00edvel global no sentido de aprofundar ainda mais suas caracter\u00edsticas fundantes, como a explora\u00e7\u00e3o e a aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do plano \u00eddeo-cultural ao econ\u00f4mico, passando pelo plano pol\u00edtico, os trabalhadores sofreram diversas derrotas &#8211; a maior delas, certamente, foi a queda do muro de Berlim e o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, abrindo um flanco enorme para a hegemoniza\u00e7\u00e3o do discurso liberal na pr\u00f3pria esquerda. Particularmente no Brasil (como express\u00e3o de um contexto mundial) vivemos uma regressividade nos direitos e nos valores sociais, na medida em que, paulatinamente, o capital opera mecanismos tanto de desconstru\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o \u00eddeo-pol\u00edtica entre a classe trabalhadora (inclusive nos seus setores mais organizados como sindicatos, conselhos, partidos, etc.) quanto de destrui\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p>O chamado &#8220;apassivamento da classe trabalhadora&#8221; \u00e9 um claro exemplo de desconstru\u00e7\u00e3o entre os setores organizados da classe trabalhadora, operado com maestria ao longo dos governos PT. Concomitantemente, a direita conservadora e reacion\u00e1ria construiu um forte sentimento anticomunista impulsionado em maior ou menor medida pelos aparelhos privados de hegemonia da classe burguesa, fundamentado pela falsa ideia de que todo petista seria comunista e todo comunista seria petista, associando a pol\u00edtica social-liberal de concilia\u00e7\u00e3o de classes com uma proposta revolucion\u00e1ria, bolivariana, do &#8220;marxismo cultural&#8221;, dentre outras alucina\u00e7\u00f5es fomentadas por ide\u00f3logos burgueses. Opera-se, assim, a legitima\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio conservador, de cunho moralizador e individualista, al\u00e9m de um expressivo crescimento do reacionarismo (com perspectivas de cariz fascistizante), que atentam contra os direitos humanos, \u00e0 liberdade, \u00e0 igualdade e \u00e0 pr\u00f3pria vida pela intoler\u00e2ncia \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o sexual e contra matrizes religiosas de origem africana.viii<\/p>\n<p>\u00c9 essa realidade, junto a seu intr\u00ednseco processo de apartamento de si mesmo que limita as possibilidades de movimenta\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e facilita, pela mesma via, o mecanismo de psicologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais. Individualiza-se o problema, moraliza-se o outro, tratando-o como culpado e, automaticamente, respons\u00e1vel pela prolifera\u00e7\u00e3o do Covid-19, n\u00e3o apontando para a raiz da quest\u00e3o, a sociedade capitalista e as formas com as quais o Estado que lhe serve lida com as crises.<\/p>\n<p>A cada dia o mundo nos dilacera mais. Somos empilhados, retorcidos, envergados, esticados e golpeados como ferro, at\u00e9 rompermos, at\u00e9 a for\u00e7a que mantinha a liga se esvair e sobrar apenas peda\u00e7os. E assim somos fragmentados diariamente; a vida sob a \u00e9gide do capital faz tudo para aprofundar dores, dizimar esperan\u00e7as, sacudir seguran\u00e7as, ferir corpo e alma. E no meio disso tudo, no turbilh\u00e3o esfacelador, \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil olhar para o lado, al\u00e9m do agora, do j\u00e1 que se mostra, de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>A resposta do mundo, da ordem, \u00e9 apenas: &#8220;seja resiliente&#8221;, &#8220;seja empreendedor&#8221;, &#8220;se esforce que vencer\u00e1&#8221;, &#8220;se a farinha \u00e9 pouca, meu pir\u00e3o vem primeiro&#8221;, etc.. Junto com a ordem empresarial vem a ordem religiosa: &#8220;Deus escreve certo por linhas tortas&#8221;, &#8220;deixa nas m\u00e3os de Deus&#8221;, &#8220;apenas tenha f\u00e9&#8221;, &#8220;seja caridoso e ganhe seu lugar no c\u00e9u&#8221;, &#8220;aceite sua prova\u00e7\u00e3o e tenha a felicidade real no al\u00e9m&#8221;, e assim por diante.<\/p>\n<p>Aqui, aparenta-se um paradoxo, que na verdade guarda uma grande coer\u00eancia. Num mundo de fragmenta\u00e7\u00e3o quase completa, de individualismo elevado ao m\u00e1ximo, de aparente falta de sentido no mundo, de aprofundamento de uma barb\u00e1rie injustific\u00e1vel, apela-se com ainda mais for\u00e7a ao misticismo em suas v\u00e1rias matizes, ao transcendental como \u00fanica escapat\u00f3ria diante de uma realidade onde nos implodimos, e as sa\u00eddas se tornam quase sempre individuais. Drogas (l\u00edcitas e il\u00edcitas), cren\u00e7as, muito esfor\u00e7o, afirma\u00e7\u00e3o do Eu sobre os outros que lascam a exist\u00eancia desse Eu, outras cren\u00e7as, e assim se segue a espiral que evolui no presentismo, no escapismo, na busca de reden\u00e7\u00e3o e na autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desconsidera-se, portanto, o princ\u00edpio materialista de que \u201cn\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia dos homens que determina o seu ser; ao contr\u00e1rio, \u00e9 o seu ser social que determina sua consci\u00eancia.\u201d (MARX, 2008, p. 47), que a explica\u00e7\u00e3o para o fato de tantas pessoas que poderiam se isolar n\u00e3o o fazem est\u00e1 em existir uma realidade material alienante, que a vida &#8211; de si e do outro &#8211; n\u00e3o importa; que tantos j\u00e1 morrem diariamente por diversos motivos em tese evit\u00e1veis que pouca diferen\u00e7a faz o acr\u00e9scimo de uma nova vari\u00e1vel. Isso n\u00e3o significa retirar a import\u00e2ncia das necess\u00e1rias medidas adotadas individualmente (isolamento social, uso de m\u00e1scaras, \u00e1lcool, etc), mas ter o cuidado para n\u00e3o incorporar a mesma l\u00f3gica com a qual o pr\u00f3prio Estado lida com as express\u00f5es do sociometabolismo capitalista, a l\u00f3gica que individualiza, moraliza, fragmenta e culpabiliza: a psicologiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>De fato o cen\u00e1rio \u00e9 tenebroso, e nele tantos se v\u00e3o, se perdem e se aniquilam. Parece ser o fim; parece n\u00e3o ter escapat\u00f3ria; parece que \u00e9 isso mesmo; e exatamente por parecer ser o que \u00e9, que o que \u00e9, n\u00e3o \u00e9 o que parece ser. Ou seja, &#8220;a apar\u00eancia esconde a ess\u00eancia&#8221;, o que vivemos no agora, no dif\u00edcil cotidiano, esconde a grandiosidade do todo, principalmente de suas grandes possibilidades.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um quadro tr\u00e1gico, e diante deste, a sa\u00edda s\u00f3 pode existir numa verdadeira coletividade que d\u00ea sentido para al\u00e9m do eu, junto com os outros. Para isso precisamos entender quem \u00e9 o eu que sofre e quem s\u00e3o os outros com quem precisamos nos unir. Isso \u00e9 entender que aquilo que esmaga o indiv\u00edduo &#8211; v\u00e1rios indiv\u00edduos que s\u00e3o destru\u00eddos pela condi\u00e7\u00e3o em que se encontram nesse mundo &#8211; s\u00f3 pode ser vencido na unidade desses tantos indiv\u00edduos, que n\u00e3o ser\u00e3o mais s\u00f3 indiv\u00edduos, mas uma classe que se reconhece como tal, com tantas diferen\u00e7as quantas forem, mas que se une por sentir e saber que o mundo \u00e9 um s\u00f3, que a luta \u00e9 contra outra classe, que essa classe fundamental a qual pertence \u00e9 uma s\u00f3, e as distin\u00e7\u00f5es ali dentro, que o mundo insiste em aprofundar em desigualdades, preconceitos, opress\u00f5es, em prol de uma crescente e destrutiva explora\u00e7\u00e3o, ser\u00e3o esvaziadas de conte\u00fado negativo e poder\u00e3o florescer plenamente enquanto seres humanos.<\/p>\n<p>Assim, somente enquanto trabalhadores, enquanto classe &#8211; reconhecendo-se como tal e, consequentemente, reconhecendo na burguesia seu inimigo inextric\u00e1vel -, poderemos lutar e vencer o que mata a in\u00fameros destru\u00eddos por fome, guerras, mis\u00e9ria e pandemias; melhor dizendo, trucidados pelo capitalismo. Somente assim poderemos dar o passo fundamental que tanto precisamos rumo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um mundo livre da barb\u00e1rie capitalista, com seres humanos substancialmente livres, em que se inicie a real hist\u00f3ria da humanidade, abandonando a pr\u00e9-hist\u00f3ria em que vivemos.<\/p>\n<p>i \u201cO imperialismo \u00e9 o capitalismo na fase de desenvolvimento em que ganhou corpo a domina\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios e do capital financeiro, adquiriu marcada import\u00e2ncia a exporta\u00e7\u00e3o de capitais, come\u00e7ou a partilha do mundo pelos trusts internacionais e terminou a partilha de toda a terra entre os pa\u00edses capitalistas mais importantes\u201d. (LENIN, 2010, p. 88)<\/p>\n<p>ii Cf. Lessa (2013).<\/p>\n<p>iii Tal processo ocorre amparado sobre \u201cduas grandes linhas: a inteira moraliza\u00e7\u00e3o das teorias sociais abrangentes e a individualiza\u00e7\u00e3o das refra\u00e7\u00f5es da \u2018quest\u00e3o social\u2019. A primeira aparece conclusa em Parsons [\u2026]; na segunda, comparecem as incid\u00eancias dos estudos que insulam a \u2018personalidade\u2019 da rede concreta das rela\u00e7\u00f5es sociais [\u2026] e as elabora\u00e7\u00f5es funcionalistas sobre as sociopatias da \u2018sociedade industrial\u2019.\u201d (NETTO, 2011, p. 50)<\/p>\n<p>iv \u201cTudo indica que parece correto afirmar que se verifica uma vis\u00edvel domin\u00e2ncia da perspectiva \u2018p\u00fablica\u2019 quando se trata de refra\u00e7\u00f5es da \u201cquest\u00e3o social\u201d tornadas flagrantemente massivas e especialmente em conjunturas nas quais se constata uma curva ascendente do desenvolvimento econ\u00f4mico; a proemin\u00eancia da perspectiva \u201cprivada\u201d parece dar-se sobretudo em momentos imediatamente anteriores e posteriores \u00e0 emerg\u00eancia de conjunturas cr\u00edticas (NETTO, 2011, p. 37).<\/p>\n<p>v Marx e Engels j\u00e1 apontavam sobre essa necessidade de apresentar seus pr\u00f3prios interesses como de todos: \u201cRealmente, toda nova classe que toma o lugar de outra que dominava anteriormente \u00e9 obrigada, para atingir seus fins, a apresentar seu interesse como o interesse comum de todos os membros da sociedade, quer dizer, expresso de forma ideal: \u00e9 obrigada a dar \u00e0s suas ideias a forma da universalidade, a apresent\u00e1-las como as \u00fanicas racionais, universalmente v\u00e1lidas.\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 48)<\/p>\n<p>vi \u201cEstamos lidando com uma opera\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de consentimento ou unidade org\u00e2nica entre pensamento e a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se desenvolve de modo perene, sem resist\u00eancias e lutas cotidianas. Enfim, o processo de \u2018captura\u2019 da subjetividade do trabalho vivo \u00e9 um processo intrinsecamente contradit\u00f3rio e densamente complexo, que articula mecanismos de coer\u00e7\u00e3o\/consentimento e de manipula\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas no local de trabalho, por meio da administra\u00e7\u00e3o pelo olhar, mas nas inst\u00e2ncias sociorreprodutivas, com a pletora de valores-fetiche e emula\u00e7\u00e3o pelo medo que mobiliza as inst\u00e2ncias da pr\u00e9-consci\u00eancia\/inconsci\u00eancia do psiquismo humano.\u201d (ALVES, 2011, p. 114)<\/p>\n<p>vii Mesmo antes da pandemia j\u00e1 se apresentava um cen\u00e1rio bastante devastador nesse sentido, em que a grande maioria das iniciativas envolvendo neg\u00f3cios pr\u00f3prios tiveram suas portas fechadas. A not\u00edcia a seguir, ainda que apresente os dados de fechamentos de empresas de um modo geral, permite observar que, das que fecharam, havia uma maior taxa das que n\u00e3o tinham empregados, \u201capenas s\u00f3cios e propriet\u00e1rios\u201d, geralmente microempreendimentos. Outro ponto importante a se observar \u00e9 que boa parte dessas fecharam no mesmo ano em que abriram, o que aponta para uma curta dura\u00e7\u00e3o desses neg\u00f3cios principalmente diante de um cen\u00e1rio com baixa no poder de consumo.<\/p>\n<p>https:\/\/www.jornaldocomercio.com\/_conteudo\/economia\/2019\/10\/707950-brasil-perdeu-316-680-empresas-em-quatro-anos-de-saldos-negativos-diz-ibge.html#:~:text=10%20%C3%A0s%2016h59min-,Brasil%20fechou%20mais%20de%20316%20mil%20empresas%20em%20quatro%20anos,fechando%20as%20portas%20no%20Pa%C3%ADs. &#8211; acessado em 10 de Julho de 2020<\/p>\n<p>viii &#8220;Essa \u00e9 a consci\u00eancia da imediaticidade, da ultrageneraliza\u00e7\u00e3o, do preconceito, da perda de capacidade de vislumbrar, ainda que potencialmente, a totalidade. Presos a essa forma de consci\u00eancia, os trabalhadores n\u00e3o agem como uma classe nos limites da ordem do capital em luta contra suas manifesta\u00e7\u00f5es mais aparentes; \u00e9 pior, eles a naturalizam e se comportam como agentes de sua reprodu\u00e7\u00e3o e perpetua\u00e7\u00e3o dessa ordem. O senso comum reflete esse movimento e \u00e9 no cotidiano que ele se manifesta. Se pod\u00edamos falar de um senso comum progressista, ou tendencialmente de esquerda, no contexto de intensifica\u00e7\u00e3o da luta de classes na crise da autocracia burguesa e no processo de democratiza\u00e7\u00e3o, hoje, no quadro de uma democracia de coopta\u00e7\u00e3o consolidada, temos um senso comum que tende a ser conservador e, por vezes, reacion\u00e1rio.&#8221; (IASI, 2017, pp. 344 e 345)<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>Almeida, M. R. A forma\u00e7\u00e3o social dos transtornos de humor. Tese de doutorado em Sa\u00fade Coletiva. Universidade Estadual Paulista. Orientadora: Mart\u00edn, S. T. F. Ano: 2018.<\/p>\n<p>Alves, G. Trabalho e subjetividade: o esp\u00edrito do toyotismo na era do capitalismo manipulat\u00f3rio. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2011.<\/p>\n<p>Iasi, M. Pol\u00edtica, Estado e Ideologia na Trama Conjuntural. S\u00e3o Paulo: ICP, 2017.<\/p>\n<p>Lenin, V. I. O Imperialismo: fase superior do capitalismo. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2010.<\/p>\n<p>Lessa, S. Capital e Estado de Bem-Estar: o car\u00e1ter de classes das pol\u00edticas p\u00fablicas. S\u00e3o Paulo: Instituto Luk\u00e1cs, 2013.<\/p>\n<p>Lessa, S. Bolsonaro: a racionalidade da insanidade. Live realizada pelo SindUnespar em 18 de Junho de 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.google.com\/search?hl=pt-BR&amp;ie=UTF-8&amp;source=android-browser&amp;q=luria+livros&amp;client=ms-android-xiaomi-rev1. Acesso em: 08 de Julho de 2020.<\/p>\n<p>Luria, A. R. Curso de Psicologia Geral. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1979.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs, G. Para uma Ontologia do Ser Social II. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>Mandel, E. O Capitalismo Tardio. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1982.<\/p>\n<p>Marx, K; Engels, F. Manifesto do Partido Comunista. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 1998.<\/p>\n<p>Marx, K; Engels, F. A Ideologia Alem\u00e3: cr\u00edtica da mais recente filosofia alem\u00e3 em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alem\u00e3o em seus diferentes profetas (1845-1846). S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2007.<\/p>\n<p>Marx, K. Manuscritos Econ\u00f4mico Filos\u00f3ficos de 1844. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2004.<\/p>\n<p>Marx, K. Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. 2\u00aaed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular: 2008.<\/p>\n<p>Marx, K. O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Livro 1: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/p>\n<p>M\u00e9sz\u00e1ros, I. Para Al\u00e9m do Capital: rumo a uma teoria da transi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2002.<\/p>\n<p>Netto, J. P. Capitalismo Monopolista e Servi\u00e7o Social. 8\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25825\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[223],"class_list":["post-25825","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Ix","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25825\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}