{"id":25837,"date":"2020-07-14T21:56:29","date_gmt":"2020-07-15T00:56:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25837"},"modified":"2020-07-14T21:56:29","modified_gmt":"2020-07-15T00:56:29","slug":"marx-e-o-homem-mercadoria-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25837","title":{"rendered":"Marx e o homem-mercadoria [parte 2]"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3cFKMiXqEZiB-L9c-0nBd_R9AhBDcQFr8wNnXi1QH3_avR8s9w3mrp_pPzyuyQgo6OK8vIynXvgcTLxm9Tbb4Mg2QZJI3gvzPgxocZco6ECXzNBy9SRB5pn2e11LPMOCknkDheIIgySIeymZtr0xwoS=w696-h385-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Bruno Guigue (*) | Le Grand Soir<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz Lima para a Revista Opera<\/p>\n<p>A plantation escravista<br \/>\n\u201cO regime colonial deu um grande impulso ao transporte mar\u00edtimo e ao com\u00e9rcio. Ele deu origem a sociedades mercantis, dotadas pelos governos de monop\u00f3lios e privil\u00e9gios e servindo como alavancas poderosas para a concentra\u00e7\u00e3o de capital. Garantiu pontos de venda para f\u00e1bricas emergentes, cuja facilidade de acumula\u00e7\u00e3o aumentou, gra\u00e7as ao monop\u00f3lio do mercado colonial.\u201d O papel do grande com\u00e9rcio mar\u00edtimo na constitui\u00e7\u00e3o de um gigantesco capital mercantil concentrado no cora\u00e7\u00e3o da Europa tem sido t\u00e3o enfatizado pelos historiadores, \u00e0s vezes seguindo o pr\u00f3prio Marx, que parece ser ocioso real\u00e7\u00e1-lo. Entretanto, at\u00e9 onde essa concentra\u00e7\u00e3o de riqueza era insepar\u00e1vel do regime colonial? Certamente o era gra\u00e7as aos \u201cprivil\u00e9gios das empresas\u201d e ao \u201cmonop\u00f3lio do mercado colonial\u201d, garantidores de um lucro comercial excepcional, assegura Marx; mas tamb\u00e9m e acima de tudo, acrescenta, pela explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do trabalho escravo: \u201cOs tesouros extorquidos diretamente fora da Europa pelo trabalho for\u00e7ado dos nativos reduzidos \u00e0 escravid\u00e3o, por concuss\u00e3o, pilhagem e assassinato, reflu\u00edam para a m\u00e3e-p\u00e1tria para funcionar l\u00e1 como capital.\u201d (10) O que essas linhas descrevem \u00e9 o processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista baseado na explora\u00e7\u00e3o colonial escravagista.<\/p>\n<p>Nesse sistema, o lucro comercial adv\u00e9m simultaneamente da exporta\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados para as col\u00f4nias, do com\u00e9rcio de escravos com vistas ao fornecimento de m\u00e3o-de-obra e da reexporta\u00e7\u00e3o de produtos tropicais para o mercado europeu; e \u00e9 esse lucro comercial gerado pela periferia que \u00e9 massivamente acumulado (\u201crepatriado\u201d, diz Marx) ao centro para \u201cfuncionar como capital\u201d, ou seja, permitir o desenvolvimento do aparato produtivo. Mas, sem a escravid\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 com\u00e9rcio, nem produ\u00e7\u00e3o mercantil nas col\u00f4nias: o cora\u00e7\u00e3o do sistema \u00e9, portanto, a \u201cplantation\u201d escravagista. Foram \u201cas grandes planta\u00e7\u00f5es, nascidas da monocultura da cana-de-a\u00e7\u00facar, um empreendimento caro e, portanto, capitalista\u201d (11), que proporcionou a base para o moderno sistema escravista. Para o lucro comercial gerado pelo com\u00e9rcio colonial e pelo com\u00e9rcio de escravos, a economia a\u00e7ucareira agrega, de fato, uma \u201cmais-valia\u201d do tipo industrial.<\/p>\n<p>Pois, \u00e0 diferen\u00e7a de outras produ\u00e7\u00f5es tropicais, o a\u00e7\u00facar imediatamente deu origem a uma verdadeira \u201cagroind\u00fastria\u201d. O plantio e o corte de cana, a moagem em usinas de a\u00e7\u00facar, a concentra\u00e7\u00e3o do melado em caldeiras, a cristaliza\u00e7\u00e3o e o refino: a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar n\u00e3o pode acomodar uma organiza\u00e7\u00e3o artesanal. Requer um efetivo numeroso e rigorosa disciplina de trabalho. \u201cNos s\u00e9culos XVI e XVII, com a grande propriedade (em termos relativos), o escravo negro se multiplicou, como condi\u00e7\u00e3o sine qua non para a sua exist\u00eancia\u2026\u201d. O tr\u00e1fico de escravos permitiu o estabelecimento de enormes planta\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar para a \u00e9poca, no limite do que permitia o transporte da cana em carros de tra\u00e7\u00e3o animal, que, ato cont\u00ednuo ap\u00f3s o corte, para n\u00e3o estragar, tinha de ser imediatamente levada \u00e0 moagem. Nessas grandes empresas, havia lugar para o trabalho regular, bem dividido, mon\u00f3tono, sem muita qualifica\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de tr\u00eas ou quatro posi\u00e7\u00f5es de natureza t\u00e9cnica. Claramente, a planta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar \u00e9 uma empresa capitalista: requer pesados investimentos (usinas, caldeiras) e uma for\u00e7a de trabalho abundante, com experi\u00eancia e disciplina coletiva. Tamb\u00e9m pressup\u00f5e o uso de capital pr\u00f3prio consider\u00e1vel, porque, devido \u00e0 dura\u00e7\u00e3o da travessia mar\u00edtima, a receita da atividade \u00e9 de longo prazo. \u00c9 por isso que o capital, aqui, \u00e9 antes de tudo o capital de mercado fornecido por uma empresa comercial que investe diretamente nas planta\u00e7\u00f5es ou concede adiantamentos aos plantadores.<\/p>\n<p>Por ser uma produ\u00e7\u00e3o capitalista, a explora\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar tamb\u00e9m \u00e9, ao fim e ao cabo, dependente de um mercado mundial em r\u00e1pida expans\u00e3o. Surgido no reinado de Lu\u00eds XIV, o \u201ccaf\u00e9 da manh\u00e3 \u00e0 francesa\u201d tornou-se um fen\u00f4meno universal em toda a Europa a partir de 1750. A demanda era tal que o Novo Mundo aumentou em dez vezes as importa\u00e7\u00f5es de escravos e introduziu novas culturas destinadas a fornecer \u00e0 Europa as bebidas ex\u00f3ticas da moda: a\u00e7\u00facar, caf\u00e9, cacau. Na periferia da economia mundial dominada pelas na\u00e7\u00f5es europeias, organiza-se uma economia escravagista que fornece, ao mesmo tempo, os produtos coloniais exigidos pelo consumidor e os ganhos substanciais proporcionados pelo com\u00e9rcio. Mas \u00e9 um dos paradoxos da acumula\u00e7\u00e3o primitiva que se tenha criado simultaneamente, nas \u201cilhas a\u00e7ucareiras\u201d(b), um sistema produtivo cuja modernidade prenuncia de muitas maneiras as caracter\u00edsticas do capitalismo industrial.<\/p>\n<p>A escala da escravid\u00e3o ocidental<br \/>\nMarx n\u00e3o deixou de notar que as planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar eram palcos de trabalho exaustivo, que condenava os cativos a um desaparecimento precoce: \u201cA situa\u00e7\u00e3o dos nativos era naturalmente mais terr\u00edvel nas planta\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, como nas \u00cdndias Ocidentais, e nos pa\u00edses ricos e populosos, como nas \u00cdndias Orientais e no M\u00e9xico, ca\u00eddas nas m\u00e3os dos aventureiros europeus que se interessassem em explor\u00e1-las.\u201d (12) Por um lado, o escravo negro morto no trabalho para produzir a\u00e7\u00facar; por outro, uma Europa em plena expans\u00e3o econ\u00f4mica, onde se aprecia o \u201ccaf\u00e9 da manh\u00e3 \u00e0 francesa\u201d: assim acontece a oposi\u00e7\u00e3o do centro \u00e0 periferia no S\u00e9culo das Luzes. \u201c\u00c9 a esse pre\u00e7o que voc\u00ea come a\u00e7\u00facar na Europa\u201d, Voltaire diz, atrav\u00e9s de um escravo mutilado que p\u00f5e em cena em Candide. \u201cA verdadeira raiz do mal\u201d, escreve Fernand Braudel sobre a Am\u00e9rica colonial, \u201cfica do outro lado do Atl\u00e2ntico, em Madri, em Sevilha, em C\u00e1diz, em Lisboa, em Bord\u00e9us, em Nantes e at\u00e9 em G\u00eanova, certamente em Bristol, e em Liverpool, Londres, Amsterd\u00e3. \u00c9 inerente ao fen\u00f4meno da redu\u00e7\u00e3o de um continente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de periferia, imposta por uma for\u00e7a distante, indiferente aos sacrif\u00edcios dos homens, que agem de acordo com a l\u00f3gica quase mec\u00e2nica de uma economia mundial.\u201d(13)<\/p>\n<p>Em um trabalho recente, um historiador estudou em detalhes o caso exemplar da cidade de Nantes. Ali aprendemos, em particular, que nesta cidade onde estavam registrados quase metade dos navios negreiros franceses do s\u00e9culo XVIII, os neg\u00f3cios enriqueciam de m\u00e3os dadas com o desenvolvimento do tr\u00e1fico; que isso come\u00e7ou no final do s\u00e9culo XVII e durou um s\u00e9culo e meio, levando ao registro de 1.756 navios entre 1703 e 1831; que as grandes fortunas de Nantes foram formadas a partir de meados do s\u00e9culo, na \u00e9poca em que os pioneiros do tr\u00e1fico de escravos conheciam seu auge; que entre 1768 e 1789, durante o \u201csegundo boom de escravos\u201d, o volume financeiro do com\u00e9rcio foi novamente multiplicado por seis; que os grandes comerciantes investiram seus lucros em bancos e seguros, se interessaram pela moderniza\u00e7\u00e3o da agricultura, contribu\u00edram para o crescimento de f\u00e1bricas de conservas, estaleiros e metalurgia; que os comerciantes de escravos formaram a classe dominante l\u00e1 at\u00e9 a Monarquia de Julho (c) e que em 1914 os descendentes dessa \u201caristocracia escravagista\u201d ainda estavam entre os capitalistas mais influentes da cidade portu\u00e1ria. (14)<\/p>\n<p>O que n\u00e3o deixa de surpreender \u00e9 a extraordin\u00e1ria longevidade e a tremenda amplitude do sistema escravagista. De 1510 a 1860, mais de doze milh\u00f5es de cativos africanos foram arrancados de suas terras nativas e enviados ao Novo Mundo; mais de dois milh\u00f5es morreram durante a travessia; estima-se que oito milh\u00f5es tenham desaparecido entre o local da captura na \u00c1frica e os postos costeiros onde os sobreviventes dos ataques foram embarcados. No total, mais de vinte milh\u00f5es de pessoas foram, portanto, v\u00edtimas do com\u00e9rcio ocidental de escravos, que infligiram \u00e0 \u00c1frica negra um profundo trauma demogr\u00e1fico ao mesmo tempo em que contribuiu para a acumula\u00e7\u00e3o capitalista numa Europa em expans\u00e3o. Como o \u201ctr\u00e1fico infame\u201d alimentava uma economia colonial que, localizada nos arredores da economia mundial europeia, no entanto, assumiu dimens\u00f5es consider\u00e1veis: por volta de 1780, no auge das plantations, franceses e brit\u00e2nicos exploraram mais de um milh\u00e3o de escravos nas \u201cilhas a\u00e7ucareiras\u201d do Novo Mundo; e os ingressos da economia agr\u00edcola representaram para as grandes pot\u00eancias, em 1800, mais da metade de seus lucros de exporta\u00e7\u00e3o. (15)<\/p>\n<p>Mas, se o ponto culminante da escravid\u00e3o colonial se situa nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas da \u201cEra do Iluminismo\u201d, \u00e9 poss\u00edvel dizer, inversamente, que o advento do capitalismo industrial fez soar a senten\u00e7a de morte do escravismo no s\u00e9culo seguinte? Certamente n\u00e3o. As an\u00e1lises de Marx, a esse respeito, t\u00eam o m\u00e9rito de nos alertar contra uma representa\u00e7\u00e3o linear da hist\u00f3ria econ\u00f4mica h\u00e1 muito reconhecida, \u00e9 verdade, pelas simplifica\u00e7\u00f5es do marxismo vulgar: o capitalismo n\u00e3o \u201csucedeu\u201d \u00e0 escravid\u00e3o, uma vez que os trabalhadores assalariados n\u00e3o deslocaram os trabalhadores em condi\u00e7\u00e3o servil da noite para o dia. Marx, dissemos, testemunhou a agonia da escravid\u00e3o moderna: mas tudo acontece como se essa agonia (particularmente longa, afinal de contas) mal tivesse seguido seu auge. Pois durante a primeira metade do s\u00e9culo XIX, apesar das sucessivas proibi\u00e7\u00f5es ao tr\u00e1fico, n\u00e3o houve um decl\u00ednio no com\u00e9rcio de escravos. A despeito do apresamento de 1.287 navios negreiros entre 1825 e 1865, mais de um milh\u00e3o de escravos foram importados para a Am\u00e9rica durante o mesmo per\u00edodo. (16) Somente entre 1810 e 1830, o sul dos Estados Unidos traziam dezenas de milhares por ano para alimentar uma economia de plantations em expans\u00e3o. Na Ilha da Reuni\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar n\u00e3o come\u00e7a a crescer antes de 1815; para o desenvolvimento dessa agroind\u00fastria mobiliza-se uma for\u00e7a de trabalho escrava cujo contingente se eleva em 45.000 cativos adicionais entre 1817 (proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico pela monarquia restaurada) e 1848 (aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o pela Segunda Rep\u00fablica).<\/p>\n<p>Escravid\u00e3o, o alicerce do capitalismo<br \/>\nO fato de o desenvolvimento da ind\u00fastria europeia nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX ter se seguido ao pico da escravid\u00e3o colonial confere um interesse particular \u00e0s an\u00e1lises d\u2019\u201cO Capital\u201d. Durante o que os historiadores chamam de \u201cprimeira industrializa\u00e7\u00e3o\u201d, pode-se observar uma intera\u00e7\u00e3o real entre os dois fen\u00f4menos. Reintroduzidos no centro do sistema, os lucros colossais da explora\u00e7\u00e3o colonial contribu\u00edram para o desenvolvimento econ\u00f4mico da metr\u00f3pole. Reciprocamente, o desenvolvimento industrial sujeita a economia das plantations, como Marx bem viu, a requisitos de produtividade que modificam radicalmente sua natureza. O mercantilismo atl\u00e2ntico repousava na explora\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica do Novo Mundo, cuja popula\u00e7\u00e3o foi aniquilada para se criar, a partir do s\u00e9culo XVI, uma economia escrava baseada no com\u00e9rcio de escravos. Mas n\u00e3o \u00e9 menos verdade que a generaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es mercantis nos tempos modernos, por sua vez, renovou as formas de escravid\u00e3o colonial. \u201cAo mesmo tempo em que a ind\u00fastria do algod\u00e3o introduziu a escravid\u00e3o infantil na Inglaterra, transformou, nos Estados Unidos, o tratamento mais ou menos patriarcal dos negros em um sistema mercantil de explora\u00e7\u00e3o. Em suma, a escravid\u00e3o aberta no Novo Mundo era o alicerce oculto necess\u00e1rio \u00e0 escravid\u00e3o assalariada na Europa.\u201d (17) Naturalmente, Marx chama imediatamente nossa aten\u00e7\u00e3o, aqui, para as formas de domina\u00e7\u00e3o em que \u00e9 modelada a extors\u00e3o do \u201ctrabalho excedente\u201d. Se a escravid\u00e3o dos empregados europeus \u00e9 \u201coculta\u201d, \u00e9 porque est\u00e1 escondida por tr\u00e1s da fic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do contrato de trabalho livremente acordado entre partes iguais. Se a escravid\u00e3o dos negros americanos \u00e9 \u201caberta\u201d, \u00e9 porque, ao contr\u00e1rio, a condi\u00e7\u00e3o dos negros est\u00e1 expl\u00edcita em seu estatuto: a condi\u00e7\u00e3o servil. Em outras palavras, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista pressup\u00f5e a liberdade do empregado como pr\u00e9-requisito para a compra de sua for\u00e7a de trabalho. O sistema escravo, por outro lado, faz do pr\u00f3prio trabalhador uma mercadoria que \u00e9 comprada e vendida. Mas n\u00e3o \u00e9 certo, sugere Marx, que essa oposi\u00e7\u00e3o evidencie o essencial.<\/p>\n<p>O que a imagem do \u201calicerce\u201d indica, de fato, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de tipo estrutural: a escravid\u00e3o moderna \u201ccarrega\u201d, de certa forma, os sal\u00e1rios industriais; constitui o apoio, ou a funda\u00e7\u00e3o. Essa express\u00e3o n\u00e3o se refere apenas, acreditamos, \u00e0 g\u00eanese hist\u00f3rica do capitalismo na era mercantilista, durante os s\u00e9culos XVII e XVIII. Designa uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima que leva a escravid\u00e3o e o capitalismo a trabalhar no mesmo movimento: tudo acontece como se a escravid\u00e3o, atrav\u00e9s dos mecanismos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva, tivesse criado as condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento capitalista; e como se este \u00faltimo, por sua vez, contribu\u00edsse para endurecer a explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo, submetendo-o \u00e0 lei descarada do lucro. O que Marx destaca \u00e9 esse movimento duplo e essa intera\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. A acumula\u00e7\u00e3o de lucro e a escraviza\u00e7\u00e3o do trabalhador, nesse sentido, parecem ser os dois lados do mesmo processo: a extors\u00e3o ilimitada do trabalho excedente, sistematicamente perseguida em favor da transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio trabalhador numa simples mercadoria.<\/p>\n<p>Tanto quanto a escravid\u00e3o dos negros nas col\u00f4nias, a explora\u00e7\u00e3o do proletariado de ambos os sexos n\u00e3o conhece limites, a n\u00e3o ser, objetivamente, a resist\u00eancia f\u00edsica. Mas ainda assim isso pode ser contornado: pela substitui\u00e7\u00e3o acelerada de trabalhadores, tomados como unidades intercambi\u00e1veis simples, cuja capacidade produtiva \u00e9 esgotada o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, a fim de maximizar o retorno; porque a \u201cvida \u00fatil\u201d do trabalhador, de tal maneira importa menos do que sua produtividade. A escravid\u00e3o moderna a que Marx chama nossa aten\u00e7\u00e3o corresponde, portanto, a um est\u00e1gio decisivo no desenvolvimento capitalista, cuja natureza ele contribui simultaneamente para revelar: a fase de acumula\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica inerente \u00e0 primeira revolu\u00e7\u00e3o industrial. Se foi acompanhada pelas formas mais ferozes de explora\u00e7\u00e3o ,\u00e9 precisamente porque visava a extra\u00e7\u00e3o de uma quantidade m\u00e1xima de capital-dinheiro destinado a ser imediatamente reinvestido, gerando o processo intermin\u00e1vel de uma acumula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem outro horizonte sen\u00e3o sua pr\u00f3pria perpetua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o do homem-mercadoria<br \/>\nMas se a escravid\u00e3o moderna possui limites hist\u00f3ricos e se o momento de seu apogeu coincide com um est\u00e1gio determinado de desenvolvimento capitalista, podemos, no entanto, inscrever o fen\u00f4meno da escravid\u00e3o no registro de uma determinada \u00e9poca, e cujas condi\u00e7\u00f5es jamais poder\u00e3o ser reproduzidas? A busca obstinada pelo lucro e a busca obsessiva de sua maximiza\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o derivam de uma ess\u00eancia da esfera de mercado que se mostra indiferente \u00e0s circunst\u00e2ncias de tempo e lugar? \u00c9 isso que Marx nos sugere quando descobre, no cerne da escravid\u00e3o antiga, a din\u00e2mica subjacente das rela\u00e7\u00f5es de mercado. Ele ent\u00e3o aplicou \u00e0 Antiguidade um tipo de an\u00e1lise que n\u00e3o est\u00e1 longe desta que se descreveu mais acima, aplicada \u00e0 escravid\u00e3o nos cultivos de algod\u00e3o nos Estados Unidos. Destaca o paradoxo de uma \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o\u201d das rela\u00e7\u00f5es sociais que antecipava, muito \u00e0 dist\u00e2ncia, o nascimento do capitalismo moderno. Como Jean-Pierre Vernant observou, v\u00e1rios textos de Marx enfatizam que a extens\u00e3o da escravid\u00e3o mercantil nas civiliza\u00e7\u00f5es antigas prejudicou as formas tradicionais de vida c\u00edvica; que come\u00e7ou e acabou por arruinar as formas de propriedade caracter\u00edsticas da polis grega. \u201cA pequena produ\u00e7\u00e3o e o exerc\u00edcio independente dos of\u00edcios\u201d, lemos n\u2019\u201cO Capital\u201d, \u201cformam a base da comunidade tradicional em seu apogeu, \u00e0 medida que a propriedade comum de origem oriental foi se dissolvendo e a escravid\u00e3o assumindo a produ\u00e7\u00e3o.\u201d(18).<\/p>\n<p>Se o mundo antigo tamb\u00e9m conheceu a invas\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais por uma escravid\u00e3o que era unida \u00e0 din\u00e2mica do mercado, \u00e9 porque essa forma de explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 prerrogativa da modernidade (e das formas que ela assumiu: a servid\u00e3o nesse passado distante n\u00e3o era menos \u201cexcessiva\u201d e \u201cterr\u00edvel\u201d, como vimos, do que as do presente); \u00e9 que o processo de escraviza\u00e7\u00e3o do homem pelo homem \u00e9 insepar\u00e1vel de um regime de acumula\u00e7\u00e3o enraizado na domina\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es mercantis, na din\u00e2mica de um mercado sujeito a um conjunto de atividades de substitui\u00e7\u00e3o de valor de uso por valor de troca, e que constitui, reconhecidamente, a ess\u00eancia do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, do qual a Antiguidade greco-romana foi, \u00e0 sua maneira, um distante pren\u00fancio. Al\u00e9m disso, o uso metaf\u00f3rico do termo escravid\u00e3o, cuja frequ\u00eancia foi enfatizada n\u2019\u201cO Capital\u201d, tem um significado mais profundo do que parece \u00e0 primeira vista: n\u00e3o s\u00e3o os trabalhadores nas f\u00e1bricas mecanizadas, tal como os trabalhadores exauridos nas planta\u00e7\u00f5es, igualmente escravos do capital? A explora\u00e7\u00e3o do trabalhador assalariado reduzida \u00e0 venda de sua for\u00e7a de trabalho a um pre\u00e7o baixo, ou a explora\u00e7\u00e3o do escravo comprado por seu senhor como gado: a mesma lei implac\u00e1vel que governa as rela\u00e7\u00f5es mercantis gera o processo que Gyorgy Luk\u00e1cs mais tarde designar\u00e1 pelo termo de \u201creifica\u00e7\u00e3o\u201d; nunca deixa de transformar a pr\u00f3pria pessoa do trabalhador em um simples instrumento; seu corol\u00e1rio \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o incessante do homem-mercadoria.<\/p>\n<p>Assim, a teoria da escravid\u00e3o, em Marx, escapa \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de uma leitura linear da hist\u00f3ria: se \u00e9 verdade que a escravid\u00e3o \u00e9 insepar\u00e1vel da explora\u00e7\u00e3o capitalista, isto \u00e9 assim porque a sequ\u00eancia de modos de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 puramente diacr\u00f4nica, mas amplamente sincr\u00f4nica. Longe de se sucederem ao longo do tempo sob a influ\u00eancia de algum determinismo, a escravid\u00e3o, a servid\u00e3o e o trabalho assalariado s\u00e3o integrados em uma combina\u00e7\u00e3o complexa, que \u00e9 o pr\u00f3prio modo de sua coexist\u00eancia. Cada forma\u00e7\u00e3o social determinada historicamente empresta suas caracter\u00edsticas, em propor\u00e7\u00f5es variadas, de um ou outro desses modos de extors\u00e3o do trabalho excedente, mas sem nenhuma ordem l\u00f3gica que dite a s\u00e9rie cronol\u00f3gica de suas apar\u00eancias. Certamente, entre a escravid\u00e3o antiga, o feudalismo medieval e o capitalismo moderno, de fato, h\u00e1 uma ordem de sucess\u00e3o cronol\u00f3gica; na escala da hist\u00f3ria ocidental, e desconsiderando a rela\u00e7\u00e3o entre o Ocidente e sua periferia, essa diacronia n\u00e3o \u00e9 de modo algum desprovida de significado.<\/p>\n<p>Essa confus\u00e3o abusiva com a hist\u00f3ria universal, por outro lado, esconde de n\u00f3s o ressurgimento maci\u00e7o da escravid\u00e3o que acompanha n\u00e3o apenas o alvorecer do capitalismo, mas tamb\u00e9m o momento em que a revolu\u00e7\u00e3o industrial o leva a conquistar o mundo. Esconde do nosso entendimento o fato indiscut\u00edvel de que v\u00e1rias formas de escravid\u00e3o sempre coincidiram, seja qual for a \u00e9poca, com o crescimento acelerado da esfera comercial; que o Oriente M\u00e9dio mu\u00e7ulmano durante sua idade de ouro, o mundo greco-romano desde a idade das cidades at\u00e9 o fim do Imp\u00e9rio, ou o Ocidente crist\u00e3o desde o Renascimento at\u00e9 a Guerra Civil, constru\u00edram sua hegemonia em uma explora\u00e7\u00e3o met\u00f3dica de recursos externos, incansavelmente retirados do reservat\u00f3rio humano cuja vulnerabilidade das sociedades perif\u00e9ricas lhes ofereceu a tenta\u00e7\u00e3o. O que Marx descobriu em \u201cO Capital\u201d, \u00e9 o que poder\u00edamos chamar de consubstancialidade do capitalismo e da escravid\u00e3o; por tr\u00e1s da diversidade de suas formas, ele p\u00f4de perceber a profunda unidade da servid\u00e3o moderna; ele viu, na \u201cescravid\u00e3o direta\u201d dos negros, a verdade da \u201cescravid\u00e3o indireta\u201d dos prolet\u00e1rios europeus; longe de estabelecer a oposi\u00e7\u00e3o do trabalho livre e escravo como um s\u00edmbolo da modernidade, ele detectou a manifesta\u00e7\u00e3o de sua hipocrisia ali, porque a aparente heterogeneidade dos estatutos n\u00e3o o cegou aos mecanismos implementados sob o imp\u00e9rio do valor de troca; em resumo, ele viu na intensifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de mercado a verdadeira origem de um dom\u00ednio do homem sobre o homem que n\u00e3o conhecia fronteiras nem diferen\u00e7as temporais; ao fazer isso, ele construiu uma teoria da escravid\u00e3o cujo conhecimento \u00e9 precioso para n\u00f3s, numa \u00e9poca em que a globaliza\u00e7\u00e3o liberal est\u00e1 dando \u00e0 luz formas contempor\u00e2neas de servid\u00e3o; e ele derrotou, ao mesmo tempo, o falso prest\u00edgio do postulado agora dominante, segundo o qual a liberdade e o mercado s\u00e3o insepar\u00e1veis, destruindo antecipadamente a tola pretens\u00e3o do liberalismo contempor\u00e2neo de incorporar a ultima ratio da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>(*) Bruno Guigue \u00e9 analista pol\u00edtico, professor de Filosofia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>(10) Ibid., p. 199.<br \/>\n(11) Fernand Braudel, Civilisation mat\u00e9rielle, \u00e9conomie et capitalisme, T. 3, Le temps du monde, Librairie Armand Colin, 1979, p. 493.<br \/>\n(12) Karl Marx, op. cit., p. 199.<br \/>\n(13) Fernand Braudel, op. cit., p. 488.<br \/>\n(14) Olivier P\u00e9tr\u00e9-Grenouilleau, L\u2019argent de la traite, Milieu n\u00e9grier, capitalisme et d\u00e9veloppement: un mod\u00e8le, Aubier, 1996.<br \/>\n(15) Philippe Paraire, \u201cEconomie servile et capitalisme: un bilan quantifiable\u201d, in Le livre noir du capitalisme, Le Temps des Cerises, 1998, p. 30.<br \/>\n(16) Jean Meyer, Esclaves et n\u00e9griers, Gallimard, 1998, p. 113.<br \/>\n(17) Karl Marx, op. cit., p. 204.<br \/>\n(18) Jean-Pierre Vernant, \u00abLa lutte des classes\u00bb, in Mythe et soci\u00e9t\u00e9 en Gr\u00e8ce ancienne, Masp\u00e9ro, 1974, p. 12.<br \/>\n(b) Col\u00f4nias francesas do Caribe (Martinica, Guadalupe, Santo Domingo, entre outras) dedicadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar.<br \/>\n(c) https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Monarquia_de_Julho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25837\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[233],"class_list":["post-25837","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6IJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25837"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25837\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}