{"id":25839,"date":"2020-07-14T21:58:22","date_gmt":"2020-07-15T00:58:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25839"},"modified":"2020-07-14T21:58:22","modified_gmt":"2020-07-15T00:58:22","slug":"marx-e-o-homem-mercadoria-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25839","title":{"rendered":"Marx e o homem-mercadoria [parte 1]"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.winslowhomer.org\/images\/paintings\/the-cotton-pickers.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Bruno Guigue (*) | Le Grand Soir<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz Lima para a Revista Opera<\/p>\n<p>No artigo a seguir, que publicamos em duas partes, Bruno Guige analisa as formas da escravid\u00e3o n\u2019O Capital de Marx.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Quando Marx se entrega, na \u201cMis\u00e9ria da Filosofia\u201d, a uma cr\u00edtica severa ao m\u00e9todo proudhoniano, ele toma um exemplo que, a seus olhos, ilustra o absurdo de uma s\u00edntese entre no\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias: esse exemplo \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o entre a liberdade e a escravid\u00e3o. Ao distinguir a escravid\u00e3o \u201cindireta\u201d, a do proletariado, da escravid\u00e3o \u201cdireta\u201d da qual os negros das col\u00f4nias s\u00e3o v\u00edtimas, ele v\u00ea nesta \u00faltima \u201co piv\u00f4 do nosso industrialismo atual, como as m\u00e1quinas e o cr\u00e9dito\u201d. Sem a escravid\u00e3o \u2013 escreve \u2013 \u201cn\u00e3o h\u00e1 algod\u00e3o; sem algod\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 a ind\u00fastria moderna. Foi a escravid\u00e3o que deu valor \u00e0s col\u00f4nias; foram as col\u00f4nias que criaram o com\u00e9rcio mundial; o com\u00e9rcio mundial \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a grande ind\u00fastria mec\u00e2nica.\u201d(1) Que concep\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno da escravid\u00e3o, no entanto \u2013 dever\u00edamos nos perguntar \u2013 est\u00e1 subjacente a essa f\u00f3rmula? E o que dizer da teoria da escravid\u00e3o, exatamente, no autor d\u2019\u201cO Capital\u201d? Se \u00e9 dif\u00edcil responder a essa pergunta, isto o \u00e9, antes de tudo porque a mesma palavra se refere a diferentes realidades. Nos textos do fil\u00f3sofo alem\u00e3o, o termo tamb\u00e9m designa a antiga servid\u00e3o greco-romana, a escravid\u00e3o colonial moderna ou mesmo a mais hedionda explora\u00e7\u00e3o capitalista contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, essa \u00faltima acep\u00e7\u00e3o \u00e9 amplamente metaf\u00f3rica. Quando Marx evoca, por exemplo, \u201ca escravid\u00e3o dos oper\u00e1rios\u201d na Inglaterra do s\u00e9culo XIX, ele usa uma imagem destinada a ilustrar a dureza das condi\u00e7\u00f5es de trabalho resultantes da introdu\u00e7\u00e3o do maquin\u00e1rio.(2) Em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho for\u00e7ado de mulheres e crian\u00e7as nas cidades manufatureiras, a mesma terminologia ainda \u00e9 necess\u00e1ria. \u201cAntes, o trabalhador vendia sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho, da qual podia dispor livremente, agora vende mulheres e crian\u00e7as; ele se torna um comerciante de escravos. E, de fato, a demanda por trabalho infantil muitas vezes se assemelha, mesmo na forma, \u00e0 demanda por escravos negros, como encontrada nos jornais americanos.\u201d(3) Bastante frequente na obra-prima de Marx, esse uso do termo para designar as condi\u00e7\u00f5es de escraviza\u00e7\u00e3o que a grande ind\u00fastria imp\u00f5e ao proletariado moderno tem, acima de tudo, um significado pol\u00eamico: a servid\u00e3o estabelecida pela maquinaria \u00e9 de tal modo infame que parece surgir, em sua crueldade, duma remota Idade das Trevas. Conquanto seja interessante, a f\u00f3rmula n\u00e3o nos diz muito sobre a concep\u00e7\u00e3o marxista de escravid\u00e3o. Que conex\u00e3o se estabelece, em particular, no texto acima mencionado, entre a escravid\u00e3o moderna e os Estados Unidos? Que lugar Marx atribui, na an\u00e1lise de sucessivas formas de sociedade, ao que \u00e9 comumente chamado de \u201ceconomia das plantations\u201d? Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o desenvolvimento do capitalismo no Ocidente, iniciado no s\u00e9culo XVI, e esse modo de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estabelecido em sua periferia colonial?<\/p>\n<p>A muta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o americana<br \/>\nQuando se interessou pelo fen\u00f4meno da escravid\u00e3o, Marx n\u00e3o o tratava como uma forma de domina\u00e7\u00e3o que houvesse desaparecido do mundo ocidental desde o in\u00edcio da Idade M\u00e9dia. Em outras palavras, ele n\u00e3o associa a escravid\u00e3o, n\u2019\u201cO Capital\u201d, ao primeiro est\u00e1gio da sucess\u00e3o de modos de produ\u00e7\u00e3o com que se costuma resumir simplificadamente sua vis\u00e3o da Hist\u00f3ria: o modo de produ\u00e7\u00e3o escravista na Antiguidade, o modo de produ\u00e7\u00e3o feudal na Idade M\u00e9dia, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista na era moderna. A escravid\u00e3o n\u00e3o constitui, a seus olhos, um est\u00e1gio obrigat\u00f3rio da evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que seria definitivamente superada com o advento da servid\u00e3o, e depois, do assalariamento, sob o efeito de algum determinismo. Como Arist\u00f3teles, na Antiguidade, ou Montesquieu, no Iluminismo, ele realiza sua reflex\u00e3o sobre um objeto que faz parte integral do cen\u00e1rio social de seu tempo. Mas, se ele testemunha formas modernas de escravid\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 menos verdade que ele tamb\u00e9m testemunhou sua agonia. Ele viveu um per\u00edodo hist\u00f3rico durante o qual a exist\u00eancia da servid\u00e3o se imp\u00f4s como uma realidade maci\u00e7a, mas simultaneamente experimentou um questionamento radical. A publica\u00e7\u00e3o do \u201cManifesto do Partido Comunista\u201d, em 1848, \u00e9 contempor\u00e2neo com a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o nas col\u00f4nias francesas. Quando a primeira edi\u00e7\u00e3o do Livro I d\u2019\u201cO Capital\u201d \u00e9 publicada, em 1867, os Estados Unidos da Am\u00e9rica mal emergiam de uma guerra civil que acabara com o regime escravocrata nos estados do sul e cobrou a vida do presidente abolicionista Abraham Lincoln.<\/p>\n<p>Uma passagem do Cap\u00edtulo X do Livro I d\u2019\u201cO Capital\u201d, dedicada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o dos negros americanos, nos fornece uma primeira indica\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o marxista da escravid\u00e3o moderna. \u201cContudo, logo que povos \u2014 cuja produ\u00e7\u00e3o se move ainda nas formas inferiores do trabalho escravo, trabalho servil, etc., \u2014 s\u00e3o atra\u00eddos a um mercado mundial dominado pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que desenvolve a venda dos seus produtos para o estrangeiro como interesse prevalecente, aos b\u00e1rbaros horrores da escravatura, servid\u00e3o, etc., \u00e9 enxertado o horror civilizado do trabalho a mais. Por isso, o trabalho dos negros nos estados do Sul da Uni\u00e3o americana conservou um car\u00e1ter moderadamente patriarcal enquanto a produ\u00e7\u00e3o era principalmente dirigida para a auto subsist\u00eancia imediata. Na medida, por\u00e9m, em que a exporta\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o se tornou interesse vital daqueles estados, tamb\u00e9m o fazer o negro trabalhar a mais \u2014 por vezes, o consumo da sua vida em sete anos de trabalho \u2014 se tornou fator de um sistema calculado e calculador.\u201d(4)<\/p>\n<p>O Cap\u00edtulo X do Livro I d\u2019\u201cO Capital\u201d tem como objetivo estudar os mecanismos relacionados ao \u201cdia \u00fatil\u201d. Esse coment\u00e1rio sobre a escravid\u00e3o americana \u00e9, portanto, parte do estudo geral das leis imanentes do \u201cmodo de produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d. Mais precisamente, o autor evoca a condi\u00e7\u00e3o servil nos Estados Unidos ao analisar a tend\u00eancia, inerente a esse modo de produ\u00e7\u00e3o, \u00e0 extens\u00e3o m\u00e1xima do hor\u00e1rio de trabalho. Agora, o que Marx diz, em ess\u00eancia, sobre a economia das plantations norte-americanas e as rela\u00e7\u00f5es sociais de escravid\u00e3o que a caracterizam? Ele distingue, na hist\u00f3ria dessa forma\u00e7\u00e3o social, dois per\u00edodos sucessivos: um primeiro per\u00edodo marcado por rela\u00e7\u00f5es do tipo patriarcal e um segundo per\u00edodo afetado pelo \u201chorror civilizado do trabalho a mais\u201d. Como \u00e9 realizada a transi\u00e7\u00e3o entre o primeiro e o segundo per\u00edodo? Qual \u00e9 o motor dessa mudan\u00e7a? Na resposta formulada pelo autor, essa transforma\u00e7\u00e3o encontra-se ligada a uma causalidade sem mist\u00e9rio: \u00e9 a busca obstinada de lucro comercial que renova profundamente as formas de escravid\u00e3o nos Estados Unidos. Pois esse lucro comercial, sob condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o determinadas, s\u00f3 pode vir de uma explora\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica de trabalho escravo. \u00c9 a domina\u00e7\u00e3o indivisa das rela\u00e7\u00f5es de mercado, portanto, que arruinou o modelo social tradicional incorporado pela domina\u00e7\u00e3o patriarcal. Causada pelo desenvolvimento da ind\u00fastria do algod\u00e3o, a explos\u00e3o da concorr\u00eancia internacional teve o \u00fanico efeito de escravizar ainda mais os escravos. Ao dobr\u00e1-los aos padr\u00f5es ditados pela grande ind\u00fastria, o capitalismo moderno piorou dramaticamente suas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>\u201cOs horrores do trabalho excedente\u201d<br \/>\n\u00c9 nesse sentido que devemos entender a f\u00f3rmula de Marx sobre \u201cos horrores do excesso de trabalho, esse produto da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Entre essas duas eras de escravid\u00e3o, de fato, n\u00e3o h\u00e1 apenas uma diferen\u00e7a de grau na explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo. O que os separa \u00e9, acima de tudo, uma profunda diferen\u00e7a de natureza introduzida, irreversivelmente, pelo dom\u00ednio exclusivo das rela\u00e7\u00f5es de mercado. Quando a forma de uma sociedade \u00e9 tal, diz Marx, que \u201c\u00e9 o valor de uso que predomina\u201d, o trabalho extra \u00e9 circunscrito pelo \u201cc\u00edrculo de necessidades determinadas\u201d e \u201cpelo car\u00e1ter da pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o gera um apetite devorador\u201d. Por outro lado, quando se trata de obter valor de troca em sua forma espec\u00edfica, atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o de ouro e prata, j\u00e1 vemos, na Antiguidade, o trabalho mais excessivo e terr\u00edvel. Valor de troca versus valor de uso, busca de lucro contra satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades, escravid\u00e3o comercial contra regime patriarcal: se tais oposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o equivalentes, \u00e9 porque indicam a diferen\u00e7a de natureza entre dois modos de organiza\u00e7\u00e3o social, que por sua vez caracterizam duas modalidades fundamentalmente distintas do fen\u00f4meno da escravid\u00e3o. Para usar a terminologia de Arist\u00f3teles, que Marx cita prontamente, poder-se-ia dizer que a servid\u00e3o patriarcal faz parte da economia dom\u00e9stica (\u03bf\u03b9\u03ba\u03bf\u03bd\u03bf\u03bc\u03af\u03b1), enquanto a escravid\u00e3o comercial faz parte da \u201ccremat\u00edstica\u201d (\u03ba\u03c1\u03b9\u03bc\u03b1\u03c4\u03b9\u03ba\u03cc\u03c2), ou seja, a arte de adquirir riqueza: a primeira encontra seu limite em atender \u00e0s necessidades da comunidade, enquanto a segunda \u00e9 t\u00e3o ilimitada quanto o desejo de adquirir. Significativa aqui \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o de que, \u201cdesde a Antiguidade\u201d, a busca exclusiva pelo valor de troca gerou formas \u201cexcessivas e apavorantes\u201d de extors\u00e3o do trabalho excedente.<\/p>\n<p>Assim, afirma-se, para Marx, o car\u00e1ter essencial da escravid\u00e3o moderna em compara\u00e7\u00e3o com outras formas de escraviza\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. O que a diferencia, de fato, \u00e9 o objetivo de um enorme lucro comercial gerado pelo trabalho excedente em larga escala. O tr\u00e1fico de escravos-mercadoria se constitui, dessa forma e sem qualquer d\u00favida, na \u00fanica modalidade poss\u00edvel de reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. O fato de a for\u00e7a de trabalho escravo ser destru\u00edda na m\u00e3o do seu possuidor fornece o pano de fundo essencial para sua renova\u00e7\u00e3o; e isso, precisamente, retroalimenta a propens\u00e3o do sistema a levar o consumo de for\u00e7a de trabalho aos limites da resist\u00eancia humana. Na plantation agora governada apenas pela lei do lucro, o escravo-mercadoria se destina n\u00e3o a durar, mas a ser imediatamente substitu\u00eddo por outro assim que ele sucumbir \u00e0 exaust\u00e3o. Em outra passagem d\u2019\u201cO Capital\u201d, Marx cita longamente o texto de um contempor\u00e2neo, John Eliot Cairns (a), que escreve as seguintes linhas num trabalho publicado em Londres em 1862:<\/p>\n<p>\u201cAs considera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que poderiam, at\u00e9 certo ponto, garantir ao escravo um tratamento humano, se a sua conserva\u00e7\u00e3o e o interesse de seu senhor fossem id\u00eanticos, se transformam nas raz\u00f5es de sua ru\u00edna absoluta quando o com\u00e9rcio de escravos \u00e9 permitido. Consequentemente, de fato, como ele pode ser substitu\u00eddo por negros estrangeiros, a dura\u00e7\u00e3o de sua vida se torna menos importante que sua produtividade. Portanto, \u00e9 uma m\u00e1xima, nos pa\u00edses escravagistas, que a abordagem econ\u00f4mica mais eficiente \u00e9 pressionar o estoque humano, de modo a proporcionar o maior retorno poss\u00edvel no menor tempo poss\u00edvel. \u00c9 nos tr\u00f3picos, onde os lucros anuais do cultivo geralmente igualam todo o capital das plantations, que a vida dos negros \u00e9 sacrificada sem o menor escr\u00fapulo.\u201d(5)<\/p>\n<p>O que o com\u00e9rcio de escravos ilustra em sua crueldade desumana \u00e9 a natureza irreprim\u00edvel da din\u00e2mica do mercado: seu poder \u00e9 tal que modifica a pr\u00f3pria natureza das rela\u00e7\u00f5es escravistas, que subverte a forma tradicional e invade o cora\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o moderna com for\u00e7a incoerc\u00edvel. Submetida \u00e0 lei f\u00e9rrea do lucro, e cedendo \u00e0 press\u00e3o irresist\u00edvel das rela\u00e7\u00f5es de mercado, a escravid\u00e3o das plantations se converteu \u00e0s regras do capitalismo ent\u00e3o florescente; e a redu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio trabalhador a uma mercadoria simples, sob o efeito do com\u00e9rcio de escravos, empurra os limites do dom\u00ednio do homem sobre o homem al\u00e9m do que \u00e9 humanamente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Acumula\u00e7\u00e3o primitiva<br \/>\nEssa descri\u00e7\u00e3o do sistema de explora\u00e7\u00e3o norte-americano que a\u00ed se desenvolve como resultado da industrializa\u00e7\u00e3o europeia, no entanto, n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima palavra de Marx sobre a escravid\u00e3o moderna. Que lugar isso ocupou no surgimento do capitalismo ocidental desde o s\u00e9culo XVI? Qual foi o seu papel hist\u00f3rico no processo de acumula\u00e7\u00e3o global? Em que medida contribuiu, desde o per\u00edodo mercantilista, para lan\u00e7ar as bases do desenvolvimento industrial moderno? Marx confronta estas quest\u00f5es na Se\u00e7\u00e3o VIII d\u2019\u201cO Capital\u201d dedicada \u00e0 \u201cacumula\u00e7\u00e3o primitiva\u201d. A acumula\u00e7\u00e3o, em Marx, \u00e9 o processo de transformar uma fra\u00e7\u00e3o do produto social em capital adicional. Por acumula\u00e7\u00e3o primitiva, Marx designa com mais precis\u00e3o um processo que assume formas hist\u00f3ricas singulares, decisivas para o desenvolvimento do capitalismo moderno. Marx empresta essa express\u00e3o da \u201cacumula\u00e7\u00e3o anterior\u201d a Adam Smith, por\u00e9m confere a ela um significado muito diferente. Para o fil\u00f3sofo escoc\u00eas, \u201cacumula\u00e7\u00e3o anterior\u201d significa poupan\u00e7a individual, ditada pela preocupa\u00e7\u00e3o comum com o futuro e que manifesta a capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o dos pioneiros da economia moderna. Destinada ao investimento produtivo, \u00e9 o verdadeiro motor do progresso econ\u00f4mico. Em Marx, por outro lado, a acumula\u00e7\u00e3o primitiva nada tem a ver com as qualidades morais do poupador anglo-sax\u00e3o. A virtude cardinal do empres\u00e1rio para os economistas burgueses designa, a seus olhos, a viol\u00eancia original do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista: \u00e9 o conjunto de processos pelos quais \u00e9 realizada, antes do surgimento do capitalismo moderno, uma concentra\u00e7\u00e3o de capital que tornar\u00e1 poss\u00edvel a era industrial.<\/p>\n<p>De uma categoria moral entre os economistas burgueses, a acumula\u00e7\u00e3o primitiva em Marx se converte numa categoria hist\u00f3rica. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 nada \u201cid\u00edlico\u201d, enfatiza, nos m\u00e9todos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva, que, pelo contr\u00e1rio, se caracterizam pelo uso da viol\u00eancia e pela brutalidade das rela\u00e7\u00f5es entre dominantes e dominados. No curso do que ele chama de \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d do capital, os meios utilizados para concentrar os meios de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham nada em comum com o ascetismo moral do empreendedor. Foi, por exemplo, a espolia\u00e7\u00e3o de terras comunais e eclesi\u00e1sticas em benef\u00edcio dos grandes propriet\u00e1rios, que est\u00e1 na origem de uma expropria\u00e7\u00e3o feroz do pequeno campesinato em epis\u00f3dios que marcaram a hist\u00f3ria da Inglaterra do s\u00e9culo XVI ao XVIII. A espolia\u00e7\u00e3o da propriedade da Igreja, a aliena\u00e7\u00e3o fraudulenta dos dom\u00ednios do Estado, a pilhagem das terras comunais, a usurpa\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o terrorista da propriedade feudal ou mesmo patriarcal na propriedade moderna privada, a guerra com os pequenos propriet\u00e1rios, nisso consistiram os processos id\u00edlicos da acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Eles conquistaram a terra para a agricultura capitalista, incorporaram o solo ao capital e entregaram \u00e0 ind\u00fastria das cidades os bra\u00e7os d\u00f3ceis de um proletariado ao desabrigo.<\/p>\n<p>Mas outros fen\u00f4menos, de import\u00e2ncia igualmente decisiva, tamb\u00e9m contribu\u00edram para a acumula\u00e7\u00e3o primitiva; foram \u201co regime colonial, as d\u00edvidas p\u00fablicas, os abusos fiscais, a prote\u00e7\u00e3o industrial, as guerras comerciais\u201d, enfim, \u201ctodas essas ramifica\u00e7\u00f5es do per\u00edodo das manufaturas propriamente dito\u201d que \u201ctiveram um desenvolvimento gigantesco durante a juventude da grande ind\u00fastria\u201d(6). Dado que o per\u00edodo das manufaturas corresponde aos s\u00e9culos XVII e XVIII na Europa, h\u00e1 todas as raz\u00f5es para acreditar que a acumula\u00e7\u00e3o primitiva, aos olhos de Marx, atingiu seu auge com a segunda metade do s\u00e9culo XVIII. No entanto, esse per\u00edodo coincide com a ascens\u00e3o mete\u00f3rica de um \u201cregime colonial\u201d que o autor n\u00e3o hesita em citar \u00e0 partida entre as modalidades de acumula\u00e7\u00e3o \u201cdurante o per\u00edodo da juventude da grande ind\u00fastria\u201d. O lugar que Marx d\u00e1 \u00e0 explora\u00e7\u00e3o colonial na hierarquia dos processos de acumula\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, particularmente significativo.<\/p>\n<p>Imediatamente depois de ter empreendido uma an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es de classe na Inglaterra, Marx ampliou a perspectiva hist\u00f3rica. Pois o que \u00e9 verdade para a sociedade brit\u00e2nica, n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m, a fortiori, para essa \u201ceconomia mundial\u201d (7) forjada pela expans\u00e3o europeia que nasceu com os tempos modernos? Viol\u00eancia origin\u00e1ria do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, a acumula\u00e7\u00e3o primitiva tamb\u00e9m era nutrida pelos lucros do empreendimento colonial que se desenrolou ap\u00f3s as grandes descobertas. \u201cA circula\u00e7\u00e3o de mercadorias \u00e9 o ponto de partida para o capital. Surge somente depois que a produ\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio no mercado j\u00e1 atingiram um certo grau de desenvolvimento. A hist\u00f3ria moderna do capital data da cria\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio e do mercado dos dois mundos no s\u00e9culo XVI.\u201d(8) Se o capital entrou na hist\u00f3ria moderna, aos olhos de Marx, foi porque sabia explorar os recursos do Novo Mundo.<\/p>\n<p>Em outras palavras, foi por conseguir criar uma periferia que a Europa se constituiu como o centro de uma nova economia mundial. Mas como Marx descreve, precisamente, as rela\u00e7\u00f5es entre a ascens\u00e3o do capital europeu e a explora\u00e7\u00e3o colonial? O cap\u00edtulo XXXI do livro I d\u2019\u201cO Capital\u201d fornece uma resposta. Intitulado \u201ca g\u00eanese do capitalismo industrial\u201d, este texto essencial mostra como o \u201cregime colonial\u201d contribuiu para a acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Novamente, como se pode imaginar, nada h\u00e1 de \u201cid\u00edlico\u201d nos procedimentos utilizados pelo conquistador europeu. \u201cA descoberta das prov\u00edncias aur\u00edferas e argent\u00edferas da Am\u00e9rica, a redu\u00e7\u00e3o dos nativos \u00e0 escravid\u00e3o, o sepultamento laboral nas minas ou o exterm\u00ednio, o in\u00edcio da conquista e saque das \u00cdndias Orientais, a transforma\u00e7\u00e3o da \u00c1frica em uma esp\u00e9cie de cais comercial para a ca\u00e7a de peles negras, esses s\u00e3o os processos id\u00edlicos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva que sinalizam a era capitalista desde o in\u00edcio.\u201d(9) Significativamente, \u00e9 neste texto que aparece a import\u00e2ncia dada pelo autor ao com\u00e9rcio de escravos. Seu papel na subjuga\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de popula\u00e7\u00f5es tropicais n\u00e3o sinaliza, aqui novamente, o dom\u00ednio exclusivo das rela\u00e7\u00f5es mercantis? O que confirma essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a insist\u00eancia de Marx, no restante do cap\u00edtulo, na \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a acumula\u00e7\u00e3o na era mercantilista e o estabelecimento do regime colonial.<\/p>\n<p>(*) Bruno Guigue \u00e9 analista pol\u00edtico, professor de Filosofia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>(1) Karl Marx, \u0152uvres, Economie I, Gallimard-La Pl\u00e9iade, p.80.<br \/>\n(2) Karl Marx, Le Capital, I, T. 1, Flammarion, 1985, p 321.<br \/>\n(3) Ibidem, p. 286.<br \/>\n(4) Ibid., p. 181.<br \/>\n(5) Ibid., p. 201.<br \/>\n(6) Ibid., T. 2, p. 182.<br \/>\n(7) Par \u00ab\u00e9conomie-monde\u00bb il faut entendre, \u00e0 la suite de Fernand Braudel, \u00abun morceau de la plan\u00e8te\u00bb \u00e9conomiquement autonome et organis\u00e9 autour d\u2019un centre. C\u2019est ainsi que se constitue, \u00e0 partir du XVI\u00e8me si\u00e8cle, \u00abune \u00e9conomie-monde europ\u00e9enne\u00bb<br \/>\n.(8) Ibid., T. 1, p. 115.<br \/>\n(9) Ibid.; T. 2, p. 197.<br \/>\n(a) https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/John_Elliott_Cairnes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25839\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[227],"class_list":["post-25839","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6IL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25839"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25839\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}