{"id":25841,"date":"2020-07-14T22:00:01","date_gmt":"2020-07-15T01:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25841"},"modified":"2020-07-14T22:00:01","modified_gmt":"2020-07-15T01:00:01","slug":"por-que-catavento-nao-tem-letra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25841","title":{"rendered":"Por que \u201cCatavento\u201d n\u00e3o tem letra"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/06\/catavento-milton_iasi.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O que a m\u00fasica instrumental tem de extraordin\u00e1rio \u00e9 que sua poesia emerge de um trabalho entre dois seres sociais que se completam \u00e0 dist\u00e2ncia e no qual um n\u00e3o pode antecipar a contribui\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>Para Fernando e seus irm\u00e3os<\/p>\n<p>Meu amigo, m\u00fasico, maestro e ex\u00edmio instrumentista Carlinhos Antunes disse em uma apresenta\u00e7\u00e3o recente que se irrita quando algu\u00e9m diante de uma m\u00fasica instrumental lhe pergunta por que ela n\u00e3o tem letra. Ele costuma responder que \u00e9 uma esp\u00e9cie de convite ao ouvinte para que fa\u00e7a sua pr\u00f3pria letra. J\u00e1 no filme sobre a vida de Ludwig van Beethoven, o compositor pergunta a uma pessoa o que ela imagina ao ouvir a 5a Sinfonia, ao que ela responde que se v\u00ea em uma fuga pela floresta. Beethoven ent\u00e3o adverte que n\u00e3o havia outra maneira, uma vez que ele ordenou que fosse isso que a m\u00fasica determinasse.<\/p>\n<p>Encontro-me no meio deste caminho. O compositor nos convida a produzir nossas imagens, mas ele organiza a festa, nos coloca na floresta, numa batalha, sentindo vento na proa de um veleiro, \u00e0 noite ou no nascer do sol. Cada nota \u00e9 uma pista de uma sensa\u00e7\u00e3o, sentimento, um sopro que nos eleva ou empurra para as sombras.<\/p>\n<p>Meu filho Camilo, por exemplo, que adora a 5a Sinfonia, diz que imagina um cara tocando piano numa batalha de Star Wars. Duvido muito que o velho Ludwig concordasse, mas igualmente ele ordenou isso em seus acordes magistrais.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, a m\u00fasica \u00e9 um poema. Vejam bem, eu, que em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00fasicos cultivo uma saud\u00e1vel inveja e uma profunda admira\u00e7\u00e3o, me refugio na for\u00e7a das palavras, poderia assim estar dando muni\u00e7\u00e3o aos advers\u00e1rios. Quando afirmo que a m\u00fasica \u00e9 um poema, parto do pressuposto de que o poema comunica algo servindo-se de palavras, nos induzindo assim a conjurar pensamentos, sentimentos, valores, pessoas ou circunst\u00e2ncias, como a m\u00fasica que se serve no lugar das palavras de suas notas e acordes. As duas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas convergem, no entanto, em um ponto crucial: ambas se servem de significantes para comunicar significados que n\u00e3o se encontram expressamente no ve\u00edculo que utilizaram.<\/p>\n<p>Uma palavra que no corpo do poema nos leva por sua for\u00e7a at\u00e9 o sublime, fora dele n\u00e3o passa de uma palavra, como se eu pronunciasse a palavra \u201cverde\u201d e esperasse alguma rea\u00e7\u00e3o parecida com aquela que sentimos ao ouvir os versos \u201cVerde que te quiero verde, verde viento verde rama, el barco sobre la mar, el caballo en la monta\u00f1a\u201d, costurados pela sensibilidade de Frederico Garcia Lorca. Da mesma maneira, o compositor tece suas imagens associando numa cadeia de sons as notas musicais de forma que juntas constituem algo que dispersas n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>O que a m\u00fasica instrumental tem de extraordin\u00e1rio \u00e9 que esse poema emerge de um trabalho entre dois seres sociais que se completam \u00e0 dist\u00e2ncia e no qual um n\u00e3o pode antecipar a contribui\u00e7\u00e3o do outro. Evidente que o trabalho de base \u00e9 o do compositor. \u00c9 ele que tece os fios que constituem a melodia, o andamento, o ritmo. Mas se vamos correr em fuga pela floresta europeia e fria ou entre estrelas de um futuro universo em plena guerra contra o Imp\u00e9rio, isso cabe ao ouvinte. O mesmo ocorre com a poesia, como j\u00e1 vaticinou Haroldo de Campos atrav\u00e9s de sua met\u00e1fora sobre os dois lados da laranja que se completam quando o leitor encontra o poeta. E tamb\u00e9m com a vida, essa uni\u00e3o improv\u00e1vel entre seres sociais dispersos numa fria divis\u00e3o social do trabalho e que no conjunto constituem o que chamamos de sociedade.<\/p>\n<p>Meu outro filho, instrumentista sens\u00edvel que compensa por realiza\u00e7\u00e3o externa a impot\u00eancia musical do pai, em uma bela m\u00fasica composta em homenagem ao av\u00f4, \u201cNani\u201d, nos apresenta um canto f\u00fanebre, mas que consegue trazer toda a gentileza e for\u00e7a da pessoa homenageada. Quando a m\u00fasica encontra a voz de Pedro Iaco somos preenchidos por uma tristeza t\u00e3o profunda que se proclama como fosse uma pletora de alegria e renascimento. A voz, esse instrumento prim\u00e1rio e fundante, que vibra numa dan\u00e7a com as cordas precisas do viol\u00e3o, como por m\u00e1gica nos conduz como um pequeno papel mantido por uma brisa, ou aquelas part\u00edculas de poeira cruzando o raio de sol matinal que invade a janela. Para mim, tudo isto ocorre no quarto de costura de minha tia. Mas esta \u00e9 minha parte, o pai para mim n\u00e3o \u00e9 a mesma pessoa que o av\u00f4 do Giovanni, assim como a dor da voz \u00e9 de um outro pai ausente.<\/p>\n<p>Assim, uma m\u00fasica e tr\u00eas poemas que podem ser milhares de outros quartos de costura, pais e av\u00f4s ou simplesmente finais e separa\u00e7\u00f5es que deixam lembran\u00e7as a preencherem seu rastro de aus\u00eancia. Pode ser um irm\u00e3o que parte deixando um vazio imenso, ou ent\u00e3o um irm\u00e3o que a dist\u00e2ncia me impede o abra\u00e7o, mas algo na m\u00fasica faz com aquela press\u00e3o na base da garganta encontre sua nascente no canto do olho. Para a m\u00fasica, \u00e9 indiferente se carrega a morte, o encontro ou a manh\u00e3 quente e seus raios de sol. Assim como o rio \u00e9 indiferente \u00e0s folhas que carrega; e o vento \u00e0s suas pequenas naves de poeira ou peda\u00e7os de papel. A l\u00e1grima, indiferente ao conte\u00fado concreto, tr\u00e1s uma dor, s\u00f3 isso \u2013 uma dor \u2013 a gelatinosa subst\u00e2ncia impalp\u00e1vel abstra\u00edda de seus conte\u00fados concretos pode, desta forma, tornar-se\u2026 universal.<\/p>\n<p>O arranjo de Sarau o que feito para a Orquestra Mundana, uma das iniciativas e realiza\u00e7\u00f5es de Carlinhos Antunes, \u00e9 um desafio. Quando conheci esta m\u00fasica, anos atr\u00e1s, somente no viol\u00e3o de Carlinhos, era claramente um sarau antigo, uma reminisc\u00eancia que me remetia a sal\u00f5es de baile e serestas com pessoas de ternos justos e gravatas finas pendendo de colarinhos engomados, damas com vestidos longos e rodados com decotes de renda e sombrinhas. Na vers\u00e3o da orquestra, sem deixar de ser isso tudo, convida Piazzolla para bailar um tango, explode fronteiras, os homens t\u00eam sotaque portenho e as damas saltam de um quadro de Toulouse-Lautrec em Paris.<\/p>\n<p>Toda m\u00fasica, assim como todo poema e a pr\u00f3pria vida, \u00e9 sempre uma obra inacabada. Cantamos a Internacional em um mundo diferente dos camaradas que a entoavam no s\u00e9culo XIX, mas seu rio nos carrega no mesmo sentido universal indiferente \u00e0 cor das folhas levadas, das part\u00edculas de poeira que dan\u00e7am no ar, do nome de nossos mortos e diante dos seus primeiros acordes nos sentimos vagamente uma classe que pode mudar o mundo.<\/p>\n<p>Uma brisa entra pela janela numa manh\u00e3 em que o sol de inverno nos convida a acreditar que, depois do frio e da noite, estaremos aqui para que nosso olhar triste lembre a todos que sobrevivemos \u00e0 dor. Uma afirma\u00e7\u00e3o insensata e descabida que a tristeza n\u00e3o pode ser mais forte que a vida. Ent\u00e3o nos pomos a dan\u00e7ar, rodopiar, como um pequeno peda\u00e7o de papel no vento, como part\u00edculas de poeira em um raio de sol\u2026 como um catavento.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n<p>\u00c1rea de anexos<br \/>\nVisualizar o v\u00eddeo Bolsonaro e o fetiche da mercadoria | Caf\u00e9 Bolchevique #1, com Mauro Iasi do YouTube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25841\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[225],"class_list":["post-25841","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6IN","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25841"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25841\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}