{"id":25860,"date":"2020-07-21T00:06:33","date_gmt":"2020-07-21T03:06:33","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25860"},"modified":"2020-07-21T00:06:33","modified_gmt":"2020-07-21T03:06:33","slug":"chile-as-devastacoes-da-extracao-de-litio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25860","title":{"rendered":"Chile: as devasta\u00e7\u00f5es da extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/109156-311932-raikfcquaxqncofqfm.stackpathdns.com\/dw-content\/uploads\/2019\/11\/Lithium-chain-EN.svg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Yanis Iqbal [*]<\/p>\n<p>No Chile, a pandemia do Covid-19 ocorre a uma velocidade sem precedentes. Existem mais de 300 000 casos confirmados com uma das mais altas taxas de infec\u00e7\u00e3o per capita: 13 000 casos por milh\u00e3o de pessoas. A economia sofre severamente as consequ\u00eancias das restri\u00e7\u00f5es causadas pelo Coronav\u00edrus e a taxa de desemprego nacional, historicamente alta, de 11,2% \u00e9 um indicador desses danos. Os chilenos foram \u00e0s ruas para protestar contra o mau funcionamento do governo de direita do presidente multimilion\u00e1rio Sebastian Pi\u00f1era e a for\u00e7a policial respondeu agressivamente matando a tiro um jovem manifestante.<\/p>\n<p>Apesar do caos do Coronav\u00edrus, o setor do l\u00edtio chileno est\u00e1 prestes a expandir-se economicamente devido a um aumento antecipado da procura. Albemarle, uma grande empresa da Carolina do Norte e uma das duas empresas que extraem l\u00edtio da salina chilena Salar de Atacama com a Sociedad Qu\u00edmica y Minera (SQM) ou Chemical and Mining Society, disse que &#8220;a atual queda nos pre\u00e7os est\u00e1 impedindo que surja um d\u00e9ficit na oferta, principalmente porque os projetos de expans\u00e3o est\u00e3o sendo adiados devido \u00e0 crise&#8221;.<\/p>\n<p>A TDK, uma multinacional japonesa da eletr\u00f4nica e gigante em baterias, prev\u00ea que o mercado global testemunhar\u00e1 um aumento na procura de l\u00edtio. Shigenao Ishiguro, CEO da empresa, disse numa entrevista que &#8220;a transforma\u00e7\u00e3o digital \u00e9 uma grande oportunidade para n\u00f3s e n\u00e3o tenho d\u00favidas de que o Coronav\u00edrus levar\u00e1 o mundo a seguir nessa direc\u00e7\u00e3o num ritmo mais r\u00e1pido&#8221;.<\/p>\n<p>Apesar da pandemia de Covid-19, o mercado de baterias deve crescer &#8220;a uma taxa de anual de cerca de 7% no per\u00edodo 2019-2024. O mercado de catodos para baterias de l\u00edtio \u2013 a bateria recarreg\u00e1vel mais comum para carros el\u00e9tricos, \u2013 deve saltar de 7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2018 para 58,8 bilh\u00f5es em 2024.<\/p>\n<p>Segundo a Bloomberg, a pandemia pode vir a ser uma oportunidade para o mercado de l\u00edtio &#8220;com alguns governos, incluindo os da Alemanha e da Fran\u00e7a, a usarem os fundos de recupera\u00e7\u00e3o do v\u00edrus para acelerar a transi\u00e7\u00e3o de motores de combust\u00e3o interna para alternativas acionadas por baterias. A Fran\u00e7a proporcionar\u00e1 cerca de 8 bilh\u00f5es de euros ao seu setor automobil\u00edstico para refor\u00e7ar o apoio a ve\u00edculos el\u00e9tricos. O pacote de est\u00edmulo da Alemanha inclui cerca de 5,6 bilh\u00f5es de euros para o setor exigindo que os postos de gasolina instalem unidades de carregamento&#8221;.<\/p>\n<p>Uma prov\u00e1vel intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de l\u00edtio no Chile n\u00e3o \u00e9 um bom press\u00e1gio para a classe trabalhadora e as comunidades ind\u00edgenas como os Atacame\u00f1os, Licanantay, Colla, Aymara e Quechua que vivem no deserto de Atacama. O exemplo mais recente das pr\u00e1ticas de explora\u00e7\u00e3o das empresas de extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio tem sido a manuten\u00e7\u00e3o da continuidade operacional&#8221; para obter um impacto m\u00ednimo na produ\u00e7\u00e3o. Isso basicamente traduz-se numa pol\u00edtica de maximiza\u00e7\u00e3o do lucro, brutalmente indiferente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia dos trabalhadores. Na regi\u00e3o de minera\u00e7\u00e3o de l\u00edtio de Antofagasta, a taxa de positividade do Coronav\u00edrus atingiu uns espantosos 46,1% .<\/p>\n<p>Juntamente com esta imposi\u00e7\u00e3o violenta de absoluta pol\u00edtica de morte para classe trabalhadora, os povos ind\u00edgenas tamb\u00e9m est\u00e3o sofrendo as press\u00f5es da extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio na forma de uma crise h\u00eddrica. Embora um foco tenha sido colocado nas quest\u00f5es de uma crise de \u00e1gua nas \u00e1reas urbanas, \u00e9 importante lembrar que as comunidades ind\u00edgenas que vivem no Salar de Atacama tamb\u00e9m enfrentam uma escassez aguda de \u00e1gua, causada artificialmente pelas opera\u00e7\u00f5es de l\u00edtio. Na regi\u00e3o de minera\u00e7\u00e3o acima mencionada, 65% da \u00e1gua foi consumida pelas atividades de l\u00edtio. Este \u00e9 um dos muitos danos ambientais sofridos pelo ecossistema do deserto de Atacama devido ao funcionamento sem controle ou restri\u00e7\u00f5es do imperialismo do l\u00edtio.<\/p>\n<p>Em vez de ver a opress\u00e3o em curso sobre a classe trabalhadora e as comunidades ind\u00edgenas no Chile como um fen\u00f4meno pontual, \u00e9 necess\u00e1rio ser contextualizada na estrutura global do imperialismo do l\u00edtio. O imperialismo do l\u00edtio instalou-se como uma parcela do capital global e da produ\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios devido a dois grandes desenvolvimentos: &#8220;mina planet\u00e1ria&#8221; e minera\u00e7\u00e3o verde. Em primeiro lugar, a &#8220;mina planet\u00e1ria&#8221;, como disse Martin Arboleda, &#8220;designa um terreno rodeado por cercas, muros e fronteiras militarizadas onde coexistem amplas cadeias de fornecimentos e complexas infraestruturas&#8221;. Isto denota o estabelecimento de um exo-esqueleto econ\u00f4mico extrativo atrav\u00e9s do uso simult\u00e2neo de t\u00e9cnicas violentas e militarizadas de opress\u00e3o e policiamento.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o extrativismo verde corresponde \u00e0 &#8220;subordina\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e dos ecossistemas \u00e0 extra\u00e7\u00e3o sem fim, em nome da &#8220;solu\u00e7\u00e3o&#8221; das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221;. O l\u00edtio serve como modalidade importante para substituir o extrativismo de combust\u00edveis f\u00f3sseis pelo extrativismo verde e manter consistentemente um sistema implac\u00e1vel de mercantiliza\u00e7\u00e3o. Em vez de &#8220;combater o crescimento sistem\u00e1tico das economias do norte e a procura excessiva que isso imp\u00f5e aos recursos do mundo&#8221;. O extrativismo verde de l\u00edtio permite que os capitalistas estabilizem a arquitetura imperialista de desigualdade relativamente aos pa\u00edses perif\u00e9ricos. A Tesla, por exemplo, usa o discurso dos ve\u00edculos eletr\u00f4nicos para encobrir a sua carnificina capitalista na Am\u00e9rica Latina com a cosm\u00e9tica das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221;.<\/p>\n<p>O imperialismo do l\u00edtio representa a fus\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria com um discurso de extrativismo sob o argumento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A fus\u00e3o dessas duas estrat\u00e9gias inicia um reino de hiperexplora\u00e7\u00e3o, extra\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e expropria\u00e7\u00e3o em nome das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Mas este lado opressivo dos neg\u00f3cios de l\u00edtio \u00e9 obscurecido de maneira s\u00f3rdida pela adula\u00e7\u00e3o propagandista de uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica que realmente se alimenta do corpo dos trabalhadores oprimidos do Sul Global. O imperialismo do l\u00edtio, portanto, envolve o perpetuar das rela\u00e7\u00f5es centro-periferia sob o regime discursivo das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O Chile \u00e9 v\u00edtima do imperialismo do l\u00edtio devido \u00e0s vastas reservas que possui. O pa\u00eds possui 48% do total de reservas de l\u00edtio no mundo, o que equivale a 7,5 milh\u00f5es de toneladas de l\u00edtio, das quais 6 milh\u00f5es se encontram no Salar de Atacama. O Chile faz parte da \u00e1rea rica em l\u00edtio batizada e mercantilizada pela burguesia como o &#8220;Tri\u00e2ngulo do L\u00edtio&#8221;, formado pelo norte do Chile, norte da Argentina e sul da Bol\u00edvia, possuindo 70% dos dep\u00f3sitos de l\u00edtio de salmoura do mundo. Al\u00e9m da abund\u00e2ncia de l\u00edtio, o Chile tamb\u00e9m \u00e9 atrativo para os novos conquistadores do l\u00edtio &#8220;porque custa entre 2 000 a 3 800 d\u00f3lares por tonelada para extrair l\u00edtio da salmoura, em compara\u00e7\u00e3o com 4 000 a 6 000 por tonelada na Austr\u00e1lia, onde \u00e9 extra\u00eddo da rocha&#8221;.<\/p>\n<p>O custo de capital para explora\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o \u00e9 mais baixo na extra\u00e7\u00e3o de salmoura do que na extra\u00e7\u00e3o em rochas duras, devido \u00e0s diferentes localiza\u00e7\u00f5es dos lagos de salmoura e das reservas de l\u00edtio em rochas duras: estas requerem muito mais investimentos de explora\u00e7\u00e3o do que um lago de salmoura em terreno plano com estradas mineiras bem estabelecidas e linhas el\u00e9ctricas. &#8220;Em termos de qualidade, o Salar de Atacama &#8220;possui as melhores reservas quanto \u00e0 qualidade em termos de concentra\u00e7\u00e3o de pot\u00e1ssio, bem como de magn\u00e9sio, em rela\u00e7\u00e3o ao l\u00edtio&#8221;.<\/p>\n<p>Os dep\u00f3sitos de salmoura de l\u00edtio, de baixo custo e alto grau, representaram uma senten\u00e7a de morte para os povos ind\u00edgenas que vivem nas Salinas de Atacama. Embora a extra\u00e7\u00e3o de salmoura de l\u00edtio seja economicamente vi\u00e1vel para os capitalistas, ela tem efeitos delet\u00e9rios na disponibilidade de \u00e1gua e, portanto, \u00e9 prejudicial ao metabolismo social das comunidades ind\u00edgenas. Na extrac\u00e7\u00e3o, &#8220;at\u00e9 95% da \u00e1gua extra\u00edda \u00e9 perdida por evapora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o recuperada&#8221;. Al\u00e9m disso, para extrair uma tonelada de l\u00edtio da salmoura, s\u00e3o necess\u00e1rios 1,9 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua . As duas empresas, Albemarle e SQM, operando em Salar de Atacama, receberam &#8220;licen\u00e7as para extrair quase 2 000 litros de salmoura por segundo&#8221;. Al\u00e9m da \u00e1gua salgada, as empresas de minera\u00e7\u00e3o &#8220;precisam de \u00e1gua fresca para limpar m\u00e1quinas e tubos e tamb\u00e9m para produzir um produto secund\u00e1rio a partir da salmoura \u2013 pot\u00e1ssio \u2013 que \u00e9 usado como fertilizante&#8221;. O uso de \u00e1gua doce pelas empresas de minera\u00e7\u00e3o revela-se pelo fato de que, entre 2000 e 2015, a quantidade de \u00e1gua extra\u00edda de Atacama foi 21% maior que o fluxo de \u00e1gua para essa \u00e1rea.<\/p>\n<p>De acordo com um relat\u00f3rio produzido pelo Observat\u00f3rio de Conflitos de Minera\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina: &#8220;O maior impacto socioambiental da minera\u00e7\u00e3o de l\u00edtio est\u00e1 no gasto indiscriminado de \u00e1gua na evapora\u00e7\u00e3o da salmoura e na produ\u00e7\u00e3o das tarefas necess\u00e1rias. Considerando que a salmoura de Atacama est\u00e1 localizada numa das regi\u00f5es mais \u00e1ridas do mundo, o deserto de Atacama, a extra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua em larga escala e o processamento b\u00e1sico da salmoura de l\u00edtio geram graves danos aos fr\u00e1geis ecossistemas que dependem dessas fontes&#8221;. No mesmo relat\u00f3rio, est\u00e1 escrito que &#8220;as comunidades origin\u00e1rias das altas salinas andinas sofrem graves danos ambientais devido \u00e0 extra\u00e7\u00e3o indiscriminada e mal controlada dos dep\u00f3sitos h\u00eddricos das salinas, refor\u00e7ando a sua situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de marginaliza\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Isso mostra que a escassez de \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno localizado, restrito a um mero esgotamento dos n\u00edveis da \u00e1gua. Pelo contr\u00e1rio, a escassez de \u00e1gua contribui para o empobrecimento generalizado dos povos ind\u00edgenas e degrada drasticamente sua vida quotidiana. A degeneresc\u00eancia das suas condi\u00e7\u00f5es de vida ocorre, entre outras coisas, pela degrada\u00e7\u00e3o das coberturas do solo e da vegeta\u00e7\u00e3o. Na regi\u00e3o de Atacama, as coletividades ind\u00edgenas cultivam quinoa e cuidam de lhamas. Para o crescimento das plantas de quinoa, se requer um solo uniformemente \u00famido e, para a cria\u00e7\u00e3o de lhamas, \u00e9 necess\u00e1rio que haja uma cobertura vegetal adequada na qual elas possam alimentar-se. Mas as opera\u00e7\u00f5es de l\u00edtio minaram estes dois pr\u00e9-requisitos. Como relata a Escola de Sustentabilidade da Universidade Estadual do Arizona: &#8220;Verificou-se que uma expans\u00e3o da \u00e1rea de minera\u00e7\u00e3o de salmoura de l\u00edtio em um quil\u00f3metro quadrado corresponde a uma diminui\u00e7\u00e3o significativa do n\u00edvel m\u00e9dio da vegeta\u00e7\u00e3o e da umidade do solo&#8221;.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da deliberada desestrutura\u00e7\u00e3o das atividades tradicionais, as empresas de l\u00edtio puderam colonizar culturalmente e proletarizar as pr\u00e1ticas espirituais e de pastoreio da identidade ind\u00edgena comunit\u00e1ria. Nas cadeias de valor internacionais do l\u00edtio, a total subjuga\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas \u00e0s l\u00f3gicas deformadas da mobilidade eletr\u00f4nica \u00e9 cruelmente escondida, como disse o Observat\u00f3rio Plurinacional dos Andes Salares. &#8221; A produ\u00e7\u00e3o incessante de dispositivos eletr\u00f4nicos descart\u00e1veis e o crescente mercado de carros el\u00e9tricos para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica dos pa\u00edses do Norte Global&#8230; est\u00e1 se tornando a principal amea\u00e7a \u00e0 subsist\u00eancia de qualquer forma de vida nas bacias onde existem esses dep\u00f3sitos de minera\u00e7\u00e3o [de l\u00edtio] &#8220;.<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas chilenos n\u00e3o concordaram com as opera\u00e7\u00f5es economicamente destrutivas e culturalmente catastr\u00f3ficas das empresas de minera\u00e7\u00e3o e reagiram fortemente ao imperialismo do l\u00edtio. Em 2019, os povos ind\u00edgenas protestaram contra os processos de uso intensivo de \u00e1gua para extra\u00e7\u00e3o de salmoura de l\u00edtio. O Estado, em resposta, paradoxalmente acusou algumas comunidades de &#8220;roubo de \u00e1gua&#8221; [1]. Os protestos foram inicialmente desencadeados pelas negocia\u00e7\u00f5es secretas com a SQM, nas quais &#8220;a ag\u00eancia chilena de desenvolvimento econ\u00f4mico, CORFO, assinou um contrato que permitiu \u00e0 SQM triplicar a extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio nos pr\u00f3ximos anos e estendeu o seu acesso de minera\u00e7\u00e3o no Atacama at\u00e9 2030&#8221;. A triplica\u00e7\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio at\u00e9 2030 aumenta a cota de extra\u00e7\u00e3o para 350 000 toneladas. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, um m\u00eas ap\u00f3s o acordo, Eduardo Bitran, chefe da CORFO, reuniu-se com a Tesla para lhes propor &#8220;um projeto no qual a SQM forneceria salmoura, mat\u00e9ria-prima a partir da qual o l\u00edtio \u00e9 produzido, \u00e0 Tesla a fim de esta refinar no Chile o hidr\u00f3xido de l\u00edtio para a componente das baterias&#8221;.<\/p>\n<p>Foi em oposi\u00e7\u00e3o a este intrincado complexo do imperialismo do l\u00edtio que os povos ind\u00edgenas protestaram. Esses protestos foram sincronizados com os maiores protestos antineoliberais que ocorreram no Chile e refor\u00e7aram a alian\u00e7a da classe trabalhadora com a ind\u00edgena. Mas os movimentos da classe trabalhadora ind\u00edgena foram logo reprimidos pelo Estado chileno que, a fim de estabilizar o neoliberalismo e o imperialismo do l\u00edtio, reprimiu os protestos por meio de deten\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, a declara\u00e7\u00e3o de um estado de emerg\u00eancia e o envio de mais de 9 000 soldados. Devido \u00e0 prote\u00e7\u00e3o fornecida pelo Estado, Ricardo Ramos, CEO da SQM, p\u00f4de dizer que os protestos &#8220;n\u00e3o ser\u00e3o um problema forte para os nossos objetivos de neg\u00f3cios a m\u00e9dio e longo prazo&#8221;. Acrescentou ainda que &#8220;entregaremos os nossos produtos aos nossos clientes de acordo com a previs\u00e3o anterior, apesar da situa\u00e7\u00e3o no Chile&#8221;.<\/p>\n<p>Pela declara\u00e7\u00e3o de Ramos, verificamos que existe um arranjo estrutural para a consolida\u00e7\u00e3o do imperialismo do l\u00edtio: empresas como a SQM exploram economicamente e hegemonizam culturalmente \u00e1reas ricas em l\u00edtio. Os povos ind\u00edgenas enfrentam de maneira combativa os mecanismos predat\u00f3rios dessas empresas; o Estado chileno finalmente interv\u00e9m para regularizar as opera\u00e7\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da repress\u00e3o violenta dos protestos.<\/p>\n<p>Embora possa parecer que o protesto de 2019 contra a extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio tenha sido uma erup\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de raiva, \u00e9 necess\u00e1rio examinarmos o contexto hist\u00f3rico contra o qual ocorreu. Al\u00e9m de assinar um acordo obscuro sem qualquer consulta, a SQM &#8220;foi investigada por v\u00e1rios casos de sonega\u00e7\u00e3o de impostos, lavagem de dinheiro e financiamento ilegal de campanhas. Num grande esc\u00e2ndalo p\u00fablico em 2014, verificou-se que pol\u00edticos de todo o espectro receberam grandes somas de dinheiro para cuidar dos interesses da empresa&#8221;. A SQM tamb\u00e9m tem a distin\u00e7\u00e3o d\u00fabia de causar grandes conflitos e, em 2007, por exemplo, houve uma disputa entre a empresa e a comunidade de Toconao. O aumento da extra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de po\u00e7os n\u00e3o autorizados e a contamina\u00e7\u00e3o das fontes de \u00e1gua por descargas poluentes, foram as causas que desencadearam o conflito entre a SQM e a comunidade de Toconao.<\/p>\n<p>A Albemarle tamb\u00e9m est\u00e1 a progredir na sua marcha rumo ao imperialismo do l\u00edtio sem luta de classes. Em 2017 a CORFO alterou o acordo com a empresa pelo qual a Albemarle obter\u00e1 &#8220;l\u00edtio suficiente para produzir mais de 80 000 toneladas por ano de sais de l\u00edtio com grau t\u00e9cnico para baterias nos pr\u00f3ximos 27 anos, expandindo as instala\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de baterias em La Negra, Antofagasta. &#8221;<\/p>\n<p>O r\u00e1pido aumento da produ\u00e7\u00e3o de l\u00edtio no Chile beneficiou grandes empresas eletr\u00f4nicas como Samsung, Apple e Panasonic. No setor automobil\u00edstico, Toyota, General Motors, Tesla, Volkswagen e BMW s\u00e3o algumas das empresas que colhem vantagens econ\u00f4micas das fontes de l\u00edtio do Chile. As figuras 1 e 2 representam o circuito complexo e labir\u00edntico de l\u00edtio no mercado internacional.<\/p>\n<p>Para saciar a sede de l\u00edtio de v\u00e1rias empresas, semelhantes a vampiros, houve um aumento global na produ\u00e7\u00e3o e o papel do Chile em corresponder \u00e0 fome de l\u00edtio, a &#8220;corrida ao ouro branco&#8221; \u00e9 indicado pela expans\u00e3o atual da produ\u00e7\u00e3o de l\u00edtio chileno em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o mundial: &#8220;O valor da produ\u00e7\u00e3o de carbonato de l\u00edtio do Chile subiu de 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2007, para 500 milh\u00f5es em 2012 e para mais de 800 milh\u00f5es em 2017. Excedeu 1 bilh\u00e3o em 2018. Houve um aumento paralelo no valor da produ\u00e7\u00e3o mundial de l\u00edtio em primeiro est\u00e1gio \u2013 atingindo 484 milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2007, 998 milh\u00f5es em 2013 e 2 865 milh\u00f5es em 2017. &#8221;<\/p>\n<p>Com a expectativa que a procura de l\u00edtio cres\u00e7a no mercado global, os povos ind\u00edgenas e a classe trabalhadora come\u00e7ar\u00e3o a encontrar maiores dificuldades em se sustentar, \u00e0 medida que os ecossistemas ind\u00edgenas s\u00e3o destru\u00eddos e a produtividade do trabalho \u00e9 implacavelmente aumentada. Durante a Fastmarkets&#8217; 11th Lithium Supply and Markets Conference em Santiago, &#8220;As empresas Albemarle, SQM e Tianqi [que t\u00eam uma participa\u00e7\u00e3o de 23,77% na SQM]&#8230; concordaram que a flexibilidade na produ\u00e7\u00e3o continua sendo vital para enfrentar os diversos desafios industriais e tecnol\u00f3gicos&#8221;.<\/p>\n<p>Era uma maneira coloquial de dizer que os trabalhadores precisam estar prontos para serem explorados, descartados e transformados em meras mercadorias. Para os povos ind\u00edgenas do Chile, a vida ser\u00e1 for\u00e7ada a secar economicamente \u00e0 medida que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica ocorra no Norte Global e os magn\u00edficos ve\u00edculos Tesla operem silenciosamente com as suas baterias de l\u00edtio manchadas de sangue.<\/p>\n<p>Precisamos lembrar que a distopia dos ve\u00edculos el\u00e9tricos, que de forma parasit\u00e1ria procura o l\u00edtio nas veias abertas do Chile, \u00e9 evit\u00e1vel, como disse Thea Riofrancos: &#8220;Um mundo zumbindo com centenas de milh\u00f5es de Teslas, ou pior, e-Escalades, [2], feitos com materiais avidamente extra\u00eddos sem o consentimento das comunidades locais, fabricados sob um regime de trabalho repressivo em f\u00e1bricas poluentes, um mundo n\u00e3o muito diferente do nosso, mas alimentado pelo vento e pelo sol, n\u00e3o \u00e9 uma inevitabilidade&#8221; .<\/p>\n<p>Para nos afastarmos deste imperialismo do l\u00edtio, precisamos ouvir as silenciadas vozes do Sul Global. Um modelo econ\u00f4mico e ecol\u00f3gico baseado nos fundamentos anti-imperialistas do Sul Global, radicalmente diferente dos modelos capitalistas da extrac\u00e7\u00e3o. Em vez de pensarem numa &#8220;alternativa de desenvolvimento&#8221;, as massas oprimidas do Sul Global imaginam uma &#8220;alternativa ao desenvolvimento&#8221;. No seio dessa &#8220;alternativa ao desenvolvimento&#8221;, podem encontrar-se as sementes da resist\u00eancia ao imperialismo do l\u00edtio.<\/p>\n<p>12\/Julho\/2020<\/p>\n<p>NT<br \/>\n[1] No Chile quase 100% dos recursos h\u00eddricos est\u00e3o privatizados. A comunidade ind\u00edgena arrisca o pagamento de multas &#8220;por utilizar \u00e1gua que n\u00e3o lhe pertence&#8221;. (!!)<br \/>\n[2] O e-Escalade \u00e9 um Cadillac SUV de luxo, el\u00e9trico, concebido e fabricado pela General Motors<\/p>\n<p>Ver tamb\u00e9m:<br \/>\nBenvindos ao inferno: A cidade mineira peruana de La Rinconada<br \/>\nCausar\u00e3o os autom\u00f3veis el\u00e9tricos uma nova cat\u00e1strofe ambiental<\/p>\n<p>[*] Redator freelancer. Reside em Aligarh, \u00cdndia.<\/p>\n<p>O original encontra-se em dissidentvoice.org\/2020\/07\/the-ravages-of-lithium-extraction-in-chile\/<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25860\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87],"tags":[233],"class_list":["post-25860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6J6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}