{"id":25886,"date":"2020-07-25T23:25:43","date_gmt":"2020-07-26T02:25:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25886"},"modified":"2020-08-03T18:09:29","modified_gmt":"2020-08-03T21:09:29","slug":"a-luta-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25886","title":{"rendered":"A luta da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3ezSdex-J4l3dzWdK1O_vE-pjmolOSIg1CgSDHsxyDH5soMUmRifziUA0XCVd3cfFrxg02cbKxlQJtN8Yhfl8tJ7LEpHkH9FWF2jOzKdjZ2YNpcqfczpzdVKzYGFGcsu23CttzCKSW8h3o_LrWkqXtk=s951-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro<\/p>\n<p>O Dia 25 de julho demarca o primeiro encontro de mulheres negras de mais de setenta pa\u00edses que se reuniram na Rep\u00fablica Dominicana em 1992. A data se tornou marco simb\u00f3lico da luta e resist\u00eancia a contra opress\u00e3o \u00e0s mulheres negras. Para compreender a urg\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o dessa data, \u00e9 preciso entender o contexto latino americano e caribenho e como as mulheres negras se encaixaram nesse contexto em que a explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o cercearam suas vidas.<\/p>\n<p>Esse complexo e extenso territ\u00f3rio possui caracter\u00edsticas hist\u00f3ricas, econ\u00f4micas e culturais marcadas por invas\u00f5es, explora\u00e7\u00e3o das riquezas naturais, profundo exterm\u00ednio de nativos ind\u00edgenas e tr\u00e1fico de africanos que foram coisificados. \u00c9 importante enfatizar as condi\u00e7\u00f5es em que negras e negros escravizados sobreviviam. Tinham uma carga de trabalho compuls\u00f3ria e desumanizante, alimenta\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, fam\u00edlias separadas, viola\u00e7\u00e3o sexual dos corpos das mulheres, que al\u00e9m de produzir eram obrigadas a reproduzir vidas com frequ\u00eancia que futuramente seriam tomadas como for\u00e7a de trabalho escravizada e o tr\u00e1fico de escravizados serviu como ac\u00famulo de riquezas para desenvolvimento do capitalismo. A hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina est\u00e1 marcada intensamente pela luta contra a escraviza\u00e7\u00e3o, contra a coloniza\u00e7\u00e3o e \u00e9 tamb\u00e9m permeada de lutas contra o imperialismo.<\/p>\n<p>\u00c9 v\u00e1lido pontuar tamb\u00e9m parte da hist\u00f3ria caribenha relembrando fatos ocorridos em algumas das suas ilhas n\u00e3o t\u00e3o conhecidas, como a de S\u00e3o Domingos, que fez sua revolu\u00e7\u00e3o pelas m\u00e3os de negras e negros que lutavam contra a escraviza\u00e7\u00e3o. O Oeste da Ilha de S\u00e3o Domingos, posteriormente independente como Haiti, era uma col\u00f4nia francesa. Tinha meio milh\u00e3o de africanos escravizados, estes, assim como os africanos traficados para outros territ\u00f3rios americanos, n\u00e3o foram sujeitos passivos. Suas hist\u00f3rias foram marcadas pelas rebeli\u00f5es, destrui\u00e7\u00e3o de engenhos, envenenamento de propriet\u00e1rios, cria\u00e7\u00e3o de comunidades independentes como as que conhecemos como quilombos, que eram os chamados maroons. Ao todo foram doze anos de embates intensos que durante seu processo de liberta\u00e7\u00e3o tiveram lideran\u00e7as pouco conhecidas na hist\u00f3ria oficial.<\/p>\n<p>Se raramente ouvimos falar sobre Vicent Og\u00e9 e Toussaint Louverture, lideran\u00e7as expressivas no que culminou \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o do Haiti, o silenciamento fica mais gritante quando pensamos sobre as mulheres na articula\u00e7\u00e3o desse processo. Elas existiram, desempenharam pap\u00e9is fundamentais para a liberta\u00e7\u00e3o do colonialismo e s\u00e3o ainda menos recordadas que as lideran\u00e7as masculinas. Alguns nomes de destaque foram: C\u00e9cile Fatiman, Suzanne Sanit\u00e9 B\u00e9lair, Marie Jeanne Lamartiniere, Marie Sainte D\u00e9d\u00e9e Bazile, Henriette Saint Marc, Marie Claire Heureuse Felicit\u00e9 Bonheur e Catherine Flon.<\/p>\n<p>A mulher negra, comumente secundarizada e por vezes at\u00e9 apagada dos processos de liberta\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria, ocupa a base da pir\u00e2mide social na opress\u00e3o estrutural que tem a origem no patriarcado, na propriedade privada e no Estado que legitima as desigualdades, a divis\u00e3o de classes sociais e as opress\u00f5es. O patriarcado foi base da cria\u00e7\u00e3o da propriedade privada e do Estado e essa foi a base para a sociedade dividida em classes. Os estudos sobre o desenvolvimento humano nas sociedades primitivas comprovaram que existiram comunidades que tinham outro tipo de sociabilidade na qual a mulher n\u00e3o ocupava papel inferior. Com o desenvolvimento dessas comunidades, o maior dom\u00ednio da agricultura, o ac\u00famulo de bens e as modifica\u00e7\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es que estabeleciam normas entre o novo modelo de fam\u00edlia, a mulher foi relegada ao espa\u00e7o dom\u00e9stico, privado, \u00e0 monogamia que s\u00f3 era v\u00e1lida para ela e o homem passou a ser o patriarca, dono da fam\u00edlia e da propriedade, assumindo o poder pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p>Em todas as sociedades com divis\u00e3o de classes, essa condi\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o da mulher pelo homem predominou em diferentes graus. Na sociedade onde o trabalho era marcado pela desumaniza\u00e7\u00e3o de negros, a mulher negra ocupou a base e como n\u00e3o houve pol\u00edtica p\u00fablica de integra\u00e7\u00e3o das negras e dos negros ap\u00f3s as aboli\u00e7\u00f5es, carregamos as consequ\u00eancias de s\u00e9culos de opress\u00e3o colonial como a ocupa\u00e7\u00e3o massiva em trabalho dom\u00e9stico, falta de acesso a terra, e minoria em institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, diante da crise pol\u00edtica e sanit\u00e1ria a qual nos deparamos, que escancara violentamente a disparidade das desigualdades sociais, \u00e9 imprescind\u00edvel denunciar como mulheres negras s\u00e3o atingidas e a necessidade da luta por pol\u00edticas p\u00fablicas para garantia de direitos necess\u00e1rios a sua sobreviv\u00eancia. O trabalho dom\u00e9stico remunerado \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o feminina mais numerosa na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, composto amplamente por ind\u00edgenas e negras. Segundo as est\u00e1ticas feitas pela Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (CEPAL), em 2008, aproximadamente 14 milh\u00f5es de mulheres dessa regi\u00e3o eram trabalhadoras dom\u00e9sticas. Enfatizamos que muitas dessas mulheres trabalham na informalidade sem carteira assinada, dificultando o acesso a aposentadoria. Esse condicionamento estrutural fica ainda mais grave ap\u00f3s a Reforma da Previd\u00eancia em nosso pa\u00eds. O Brasil apresentava um n\u00famero alt\u00edssimo com 18% de trabalhadoras, ficando atr\u00e1s apenas do Paraguai que registrava 21%. Ao falar sobre as trabalhadoras dom\u00e9sticas no contexto em que atualmente vivenciamos, \u00e9 necess\u00e1rio considerar que essas trabalhadoras conquistaram direitos trabalhistas no Brasil apenas poucos anos atr\u00e1s e durante a pandemia a maior parte delas ficaram sem direito a quarentena. Relembramos tamb\u00e9m o caso da trabalhadora Mirtis e da morte de seu filho Miguel, v\u00edtima de neglig\u00eancia da patroa burguesa, de origem e at\u00e9 nome colonial, Sari Corte Real.<\/p>\n<p>Precisamos expor as opress\u00f5es que atingem massivamente as mulheres negras, como a falta de rede de apoio que \u00e9 consequ\u00eancia de uma ideologia dominante patriarcal na qual o Estado e a sociedade em peso responsabilizam a m\u00e3e pelos cuidados dedicados \u00e0 crian\u00e7a e ao trabalho dom\u00e9stico, seja ele remunerado ou n\u00e3o, a trucul\u00eancia policial nos bairros perif\u00e9ricos, a superlota\u00e7\u00e3o de leitos nos hospitais p\u00fablicos, o ensino remoto que exclui a camada que n\u00e3o tem acesso integral a internet, o auxilio emergencial negado ou que demora meses pra sair, o aumento da informalidade trabalhista, o encarceramento massivo da popula\u00e7\u00e3o negra e a pol\u00edtica de exterm\u00ednio nos pres\u00eddios e unidades de interna\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia obst\u00e9trica contra as mulheres negras, assim como o adoecimento mental causado por in\u00fameros fatores ligados ao tipo de sociedade em que vivemos. Devemos exigir do Estado que cumpra o que deve. No entanto, tamb\u00e9m devemos ter em mente que as pol\u00edticas p\u00fablicas, extremamente necess\u00e1rias para n\u00f3s, existem porque vivemos sob a \u00e9gide de uma sociedade desigual, dividida em classes sociais no sistema capitalista.<\/p>\n<p>N\u00f3s, do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, acreditamos que a ameniza\u00e7\u00e3o dessas viol\u00eancias estruturais n\u00e3o bastam. Queremos a destrui\u00e7\u00e3o total dessas viol\u00eancias e a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade radicalmente diferente onde mulheres como Mirtis n\u00e3o sejam encurraladas a exercer um trabalho precarizado de origem escravista, que n\u00e3o tenham seus filhos assassinados pela crueldade esmagadora da burguesia, uma sociedade onde n\u00e3o sejamos intimidadas pelas batidas policiais em revistas abusivas pelo nosso perfil \u00e9tnico, que n\u00e3o tenhamos que crescer ouvindo coment\u00e1rios negativos sobre nossa est\u00e9tica e pr\u00e1ticas culturais, algo que interfere profundamente na constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria das mulheres negras, refletindo em falta de confian\u00e7a em n\u00f3s mesmas, em barreiras para coloca\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os p\u00fablicos, em dificuldade de nos impor e em n\u00e3o aceitar menos do que merecemos.<\/p>\n<p>Queremos uma sociedade na qual a nossa identidade est\u00e9tica e ancestral seja fortalecida pelo orgulho de sermos descendentes de mulheres que constru\u00edram quilombos, levantes, guerras de independ\u00eancia nacional, revolu\u00e7\u00f5es, greves e protestos reafirmando que somos protagonistas de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25886\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,20],"tags":[226],"class_list":["post-25886","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-c1-popular","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Jw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25886"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25886\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}