{"id":2590,"date":"2012-03-27T04:11:13","date_gmt":"2012-03-27T04:11:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2590"},"modified":"2012-03-27T04:11:13","modified_gmt":"2012-03-27T04:11:13","slug":"critica-do-programa-de-gotha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2590","title":{"rendered":"Cr\u00edtica do Programa de Gotha"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1875, Marx encaminhou \u00e0 cidade de Gotha um conjunto de observa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas ao programa do futuro Partido Social-Democrata da Alemanha, resultado da unifica\u00e7\u00e3o dos dois partidos oper\u00e1rios alem\u00e3es: a Associa\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores Alem\u00e3es , dirigida por Ferdinand Lassalle, e o Partido Social-Democrata dos Trabalhadores, dirigido por Wilhelm Liebknecht, Wilhelm Bracke e August Bebel, socialistas pr\u00f3ximos de Marx.<\/p>\n<p>O projeto de programa proposto no congresso de uni\u00e3o privilegiava as teses de Lassalle, o que suscitou cr\u00edticas virulentas de Marx em forma de carta direcionada aos dirigentes. Sua oposi\u00e7\u00e3o devia-se n\u00e3o \u00e0 fus\u00e3o dos partidos \u2013 quanto a isso era da opini\u00e3o de que \u201ccada passo do movimento real \u00e9 mais importante do que uma dezena de programas\u201d \u2013, mas ao estatismo exacerbado que ganhara espa\u00e7o nas diretrizes do novo partido.<\/p>\n<p>Nem a favor do poder absoluto do Estado proposto por Lassalle, nem da aus\u00eancia de Estado proposta pelos anarquistas: a proposi\u00e7\u00e3o de Marx era a \u201cditadura revolucion\u00e1ria do proletariado\u201d, forma de Estado que teria lugar durante o per\u00edodo de transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que conduziria ao advento da sociedade comunista. Segundo ele, as cooperativas \u201cs\u00f3 t\u00eam valor na medida em que s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e independentes, n\u00e3o sendo protegidas nem pelos governos nem pelos burgueses\u201d.<\/p>\n<p>Essas glosas marginais sobre o Programa de Gotha somente foram publicadas em 1891, muito depois da morte de Marx, por Friedrich Engels, na revista socialista\u00a0<em>Die Neue Zeit<\/em>, dirigida por Karl Kautsky. Ao longo do s\u00e9culo XX, esse conjunto disperso de notas tornou-se documento coerente de combate contra o socialismo aliado ao Estado.<\/p>\n<p>Novas luzes tamb\u00e9m s\u00e3o lan\u00e7adas sobre outros temas: \u201cSe lermos esse documento \u00e0 luz dos debates do s\u00e9culo XXI, alguns de seus aspectos ganham novo interesse no contexto dos atuais debates sobre a ecologia. \u00c9 o caso da afirma\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica de que o trabalho n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico gerador de riqueza, a natureza o \u00e9 tanto quanto ele. Assim, a cr\u00edtica de muitos ecologistas a Marx \u2013 s\u00f3 o trabalho \u00e9 fonte de valor \u2013 revela-se um mal-entendido: o valor de uso, que \u00e9 a verdadeira riqueza, tamb\u00e9m \u00e9 um produto da natureza\u201d, afirma o soci\u00f3logo Michael L\u00f6wy no pref\u00e1cio da primeira edi\u00e7\u00e3o em l\u00edngua portuguesa de\u00a0<em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em>, a sair pela Boitempo.<\/p>\n<p>Com amplo material complementar, como diversas cartas de Karl Marx e Friedrich Engels, incluindo a famosa carta deste a August Bebel, de mar\u00e7o de 1875, analisada por Lenin\u00a0em\u00a0<em>O Estado<\/em><em> e a revolu\u00e7\u00e3o <\/em>(1917), esta edi\u00e7\u00e3o situa o texto em seu contexto hist\u00f3rico e traz um dos pronunciamentos mais detalhados de Marx sobre assuntos revolucion\u00e1rios, tendo em vista o comunismo. O volume inclui tamb\u00e9m as atas do Congresso de Gotha, documentos rar\u00edssimos e de grande valor para estudiosos do marxismo. Outra novidade \u00e9 a inclus\u00e3o dos coment\u00e1rios de Marx ao livro\u00a0<em>Estatismo e anarquia<\/em>, de Mikhail Bakunin, redigidos na mesma \u00e9poca de\u00a0<em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em>. Nesses escritos, Marx rebate as cr\u00edticas de Bakunin sobre o suposto estatismo marxista e sua proximidade com Lassalle.<\/p>\n<p><strong>Trecho das Atas do Congresso de Gotha<\/strong><\/p>\n<p>\u201cLiebknecht toma a palavra como relator da quest\u00e3o do programa. Na introdu\u00e7\u00e3o de seu discurso, explica que o programa apresentado para aprova\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um programa ideal, mas sim pr\u00e1tico, um programa de compromisso. Ele tem de contentar \u00e0s duas distintas correntes existentes no partido. Objetou-se que o programa n\u00e3o era detalhado; mas um programa deve ser curto e precisar, com o m\u00ednimo poss\u00edvel de palavras, os objetivos finais do partido. Com uma brochura, posteriormente ser\u00e1 poss\u00edvel tratar de modo mais minucioso cada ponto individual do programa; tamb\u00e9m a imprensa do partido desempenhar\u00e1 essa fun\u00e7\u00e3o. O orador passa ent\u00e3o aos pontos singulares do programa e, com a aquiesc\u00eancia da comiss\u00e3o [de reda\u00e7\u00e3o], incumbe-se de apresentar a parte inicial do programa, com as seguintes palavras:<\/p>\n<p><em>O trabalho \u00e9 a fonte de toda riqueza e toda cultura, e, como o trabalho universalmente \u00fatil s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio da sociedade, o produto total do trabalho pertence \u00e0 sociedade, isto \u00e9, a todos os seus membros, com obriga\u00e7\u00e3o universal ao trabalho, com igual direito, a cada um segundo suas necessidades razo\u00e1veis. Na sociedade atual, os meios de trabalho constituem monop\u00f3lio da classe capitalista; a depend\u00eancia da classe trabalhadora, condicionada por esse fato, \u00e9 a causa da mis\u00e9ria e da servid\u00e3o em todas as suas formas. A liberta\u00e7\u00e3o do trabalho requer a transforma\u00e7\u00e3o do meio de trabalho em patrim\u00f4nio comum da sociedade e a regula\u00e7\u00e3o cooperativa do trabalho total, com uma distribui\u00e7\u00e3o justa do fruto do trabalho e seu emprego para a utilidade comum.<\/em><\/p>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o sugerida, prossegue o relator, desvia-se em v\u00e1rios aspectos do esbo\u00e7o original, mas as mudan\u00e7as s\u00e3o todas necess\u00e1rias, sem exce\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Sobre a cole\u00e7\u00e3o Marx-Engels<\/strong><\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de<em> Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em> d\u00e1 continuidade ao ambicioso projeto da Boitempo de traduzir o legado de Karl Marx e Friedrich Engels, contando com o aux\u00edlio de especialistas renomados e sempre com base nas obras originais. Com 12 volumes publicados, a cole\u00e7\u00e3o Marx-Engels teve in\u00edcio com a edi\u00e7\u00e3o comemorativa dos 150 anos do\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>, em 1998. Em seguida foi publicada\u00a0<em>A sagrada fam\u00edlia <\/em>(2003), obra pol\u00eamica que assinala o rompimento definitivo de Marx e Engels com a esquerda hegeliana.\u00a0<em>Os Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos <\/em>(2004) vieram na sequ\u00eancia, ao qual se seguiram os lan\u00e7amentos de\u00a0<em>Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel<\/em> (2005);\u00a0<em>Sobre o suic\u00eddio <\/em>(2006);\u00a0<em>A ideologia alem\u00e3<\/em> (2007);\u00a0<em>A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra <\/em>(2008);\u00a0<em>Sobre a quest\u00e3o judaica <\/em>(2010);<em> Lutas de classes na Alemanha <\/em>(2010);\u00a0<em>O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte <\/em>(2011);\u00a0<em>A guerra civil na Fran\u00e7a <\/em>(2011), em comemora\u00e7\u00e3o aos 140 anos da Comuna de Paris;\u00a0<em>os Grundrisse<\/em> (2011) e agora\u00a0<em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em>. Ainda neste ano, a editora planeja publicar o\u00a0<em>Socialismo jur\u00eddico<\/em>, de Engels, e o primeiro volume de\u00a0<em>O capital<\/em>.<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2012\/02\/capa_crc3adtica-programa-gotha_alta.jpg\" target=\"_blank\">Boitempo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Boitempo\n\n\n\n\n\n\n\n\nKarl Marx\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2590\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2590","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-FM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2590"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2590\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}