{"id":25900,"date":"2020-07-29T10:43:25","date_gmt":"2020-07-29T13:43:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25900"},"modified":"2020-07-29T10:43:25","modified_gmt":"2020-07-29T13:43:25","slug":"novo-normal-a-banalizacao-do-genocidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25900","title":{"rendered":"\u201cNovo normal\u201d: a banaliza\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3emIk4t0kMKSCc1WslIBb4iMEBs1738EufGd7473s47med1BPHx-IlcVXfHevW6ARKyZfCKV-23tjo6Ye2QJLLIPmjLGrkYYHls19jCQrwWH37JgruHZEEfJwnjMtkmn4PbC7AmSKChiCiuksKsdJfM=w1024-h536-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Em frontal contradi\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o objetiva da epidemia de coronav\u00edrus, a burguesia brasileira ligou definitivamente o \u201cfoda-se\u201d e orientou seus agentes pol\u00edticos a decretar um \u201cnovo normal\u201d. Ao oficializarem a flexibiliza\u00e7\u00e3o de uma quarentena que, desde o in\u00edcio, nunca foi arquitetada para a totalidade dos brasileiros, os governantes, em nome do capital, come\u00e7am a convocar estudantes e trabalhadores para o abate.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de flexibilizar a quarentena n\u00e3o decorre do controle da epidemia. Com taxa de cont\u00e1gio superior ao \u00edndice 1 h\u00e1 mais de dez semanas, a circula\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus persiste, ainda que de maneira desigual, em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds. Com uma m\u00e9dia de mais de 1.000 \u00f3bitos por dia, o Brasil \u00e9 recordista em n\u00famero di\u00e1rio de mortos por COVID-19. E n\u00e3o h\u00e1 luz no fim do t\u00fanel. A expectativa do presidente do Conselho Nacional de Secret\u00e1rios da Sa\u00fade \u00e9 que, nos pr\u00f3ximos quatro meses, mais de 60.000 vidas sejam perdidas, totalizando cerca de 150.000 \u00f3bitos at\u00e9 o final de 2020.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do \u201cnovo normal\u201d tem como objetivo banalizar a barbaridade que significa o genoc\u00eddio sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A naturaliza\u00e7\u00e3o da morte requer manter a popula\u00e7\u00e3o na mais absoluta ignor\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gravidade da pandemia e \u00e0 falta de perspectiva de curto prazo para sua solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia de que algumas regi\u00f5es \u2013 como Manaus \u2013 teriam alcan\u00e7ado a imuniza\u00e7\u00e3o coletiva, defendida por alguns porta-vozes do capital, n\u00e3o passa pelo crivo da ci\u00eancia. Epidemiologistas s\u00e3o praticamente un\u00e2nimes em afirmar que ainda n\u00e3o se sabe qual seria o limiar de contamina\u00e7\u00e3o que garantiria a imuniza\u00e7\u00e3o de rebanho. E, mesmo que se soubesse, tal limite seria muito superior aos c\u00e1lculos de que, at\u00e9 o momento, n\u00e3o mais de 5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira teria sido contaminada pelo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>A propaganda de que o brasileiro deve aguentar firme, que a crise sanit\u00e1ria \u00e9 passageira, \u00e9 uma armadilha. N\u00e3o h\u00e1 nenhum ind\u00edcio de que a pandemia esteja pr\u00f3xima do fim. Ao contr\u00e1rio. A OMS preocupa-se com a possibilidade de uma segunda onda de cont\u00e1gio ainda mais virulenta. Enquanto n\u00e3o houver vacina efetiva e dispon\u00edvel para toda a popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 o que, se tudo correr bem, deve acontecer em um intervalo de 18 a 24 meses \u2013, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma possibilidade de que a amea\u00e7a do coronav\u00edrus seja debelada.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o do desastre da pol\u00edtica sanit\u00e1ria nacional pode ser auferida em termos comparativos, quando se constata que a propor\u00e7\u00e3o de infectados e mortos pelo coronav\u00edrus no Brasil em rela\u00e7\u00e3o ao total mundial \u00e9 cerca de cinco vezes superior \u00e0 fra\u00e7\u00e3o de brasileiros na popula\u00e7\u00e3o global. O desastre em curso n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0s consequ\u00eancias de pol\u00edticas equivocadas, incompet\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o ou insensatez. Tais fen\u00f4menos, sem d\u00favida, est\u00e3o presentes e devem ser pol\u00edtica e legalmente responsabilizados, mas n\u00e3o explicam a coniv\u00eancia criminosa do establishment com o descalabro sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de sa\u00fade brasileira obedece a uma l\u00f3gica perfeitamente coerente com a natureza extraordinariamente desigual da sociedade brasileira. Trata-se de administrar o genoc\u00eddio sanit\u00e1rio dos pobres a fim de preservar a vida dos ricos e de seus neg\u00f3cios. O objetivo real da pol\u00edtica sanit\u00e1ria brasileira n\u00e3o \u00e9 salvar a vida de todos, como seria de supor, mas sim a da ex\u00edgua parcela abastada.<\/p>\n<p>\u00c9 o que explica o crit\u00e9rio que rege a administra\u00e7\u00e3o da quarentena: graduar a flexibiliza\u00e7\u00e3o tendo como par\u00e2metro a necessidade de evitar que a demanda de leitos sobre os hospitais privados possa colocar em risco o atendimento da plutocracia. Sob tal orienta\u00e7\u00e3o, as mortes s\u00e3o toleradas e racionalizadas como fato inexor\u00e1vel.<\/p>\n<p>O argumento de que a flexibiliza\u00e7\u00e3o da quarentena \u00e9 um imperativo econ\u00f4mico para evitar que a popula\u00e7\u00e3o seja ainda mais castigada pelo desemprego \u00e9 um sofisma grosseiro. As evid\u00eancias indicam exatamente o contr\u00e1rio. Os pa\u00edses mais rigorosos na aplica\u00e7\u00e3o da quarentena, como a China e a Alemanha, por exemplo, s\u00e3o os que t\u00eam demonstrado maior capacidade de minimizar os efeitos da pandemia sobre a atividade econ\u00f4mica e o emprego. E, vice-versa, os Estados menos rigorosos no combate \u00e0 epidemia s\u00e3o aqueles que t\u00eam amargado maior crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Entre os dois grupos de pa\u00edses h\u00e1 uma diferen\u00e7a qualitativa na forma pela qual os governos articulam pol\u00edtica sanit\u00e1ria e pol\u00edtica econ\u00f4mica. Sem garantir renda \u00e0s fam\u00edlias e poder de gasto ao setor p\u00fablico, n\u00e3o h\u00e1 como assegurar condi\u00e7\u00f5es objetivas para que a quarentena seja cumprida pelo conjunto da popula\u00e7\u00e3o, nem a possibilidade de adotar pol\u00edticas antic\u00edclicas para atenuar o impacto da contra\u00e7\u00e3o da demanda agregada sobre o n\u00edvel de atividade e o mercado de trabalho.<\/p>\n<p>O elo entre darwinismo econ\u00f4mico e darwinismo sanit\u00e1rio \u00e9 indissol\u00favel. N\u00e3o por acaso, Estados Unidos, Brasil e Reino Unido, liderados por tr\u00eas expoentes da ultradireita, com pol\u00edticas econ\u00f4micas ultraliberais, s\u00e3o tamb\u00e9m os pa\u00edses que despontam como os recordistas em v\u00edtimas do COVID-19, contra\u00e7\u00e3o do PIB e escalada do desemprego. Enfim, na aus\u00eancia de uma profunda ruptura com os c\u00e2nones do neoliberalismo e da austeridade fiscal, \u00e9 simplesmente imposs\u00edvel evitar o genoc\u00eddio sanit\u00e1rio e a crise econ\u00f4mica catacl\u00edsmica.<\/p>\n<p>O \u201cnovo normal\u201d aumenta a urg\u00eancia de um grande movimento pol\u00edtico, articulado pelos trabalhadores, para derrubar Bolsonaro e Mour\u00e3o. Este \u00e9 o primeiro passo para uma profunda reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica da vida nacional. Sem a deposi\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro\/Mour\u00e3o e a completa destrui\u00e7\u00e3o do Estado neoliberal \u00e9 imposs\u00edvel evitar o genoc\u00eddio sanit\u00e1rio e a cat\u00e1strofe econ\u00f4mica em pleno curso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25900\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,197],"tags":[222],"class_list":["post-25900","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-saude","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6JK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25900"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25900\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}