{"id":25915,"date":"2020-08-02T00:35:07","date_gmt":"2020-08-02T03:35:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25915"},"modified":"2020-08-02T00:35:07","modified_gmt":"2020-08-02T03:35:07","slug":"o-lugar-de-marx-e-engels-na-modernidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25915","title":{"rendered":"O lugar de Marx e Engels na modernidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/07\/marx-engels-racismo-jones.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Ra\u00e7a, colonialismo e eurocentrismo<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>O materialismo hist\u00f3rico, na \u00e9poca de Marx e Engels, n\u00e3o combatia apenas o idealismo e outras formas filos\u00f3ficas burguesas. Batia de frente com as teorias racialistas. O marxismo, antes de qualquer \u201cadapta\u00e7\u00e3o nacional\u201d nos pa\u00edses dependentes, coloniais e semicoloniais da \u00c1frica, \u00c1sia ou Am\u00e9rica Latina e Caribe, j\u00e1 estava inclinado a transformar-se numa indispens\u00e1vel arma na luta antirracista e anticolonial.<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o: o chamado \u00e0 historicidade<\/p>\n<p>O anacronismo \u00e9 um dos perigos que espreitam a pesquisa hist\u00f3rica. Um dos principais problemas do debate se Marx e Engels seriam racistas ou euroc\u00eantricos \u00e9 justamente o anacronismo. Na imensa maioria dos casos, parte-se do debate atual sobre o que \u00e9 o racismo. Sim, pelos crit\u00e9rios atuais, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que Marx e Engels poderiam ser considerados racistas em certas dimens\u00f5es. Por\u00e9m, o conceito de ra\u00e7a, o processo de racializa\u00e7\u00e3o e o sentido do que \u00e9 ser racista muda historicamente, tem portanto historicidade. H\u00e1, ali\u00e1s, essa historicidade se d\u00e1 em dois sentidos interligados: da coisa em si, isto \u00e9, da realidade a ser analisada, e das categorias que buscam captar na teoria a coisa em si. Uma hist\u00f3ria do objeto de an\u00e1lise e das teorias de an\u00e1lise do objeto.<\/p>\n<p>O argumento que venho defendendo faz tempo, seja em curso online (como o meu sobre o marxismo anticolonial), livro, artigo, entrevista, podcast, confer\u00eancia e afins \u00e9 que, na cultura brasileira, n\u00e3o compreendemos na qualidade necess\u00e1ria o processo de racializa\u00e7\u00e3o da modernidade e a dimens\u00e3o colonial inscrita em toda hist\u00f3ria dos \u00faltimos s\u00e9culos \u2013 tal como as muta\u00e7\u00f5es nas formas de nega\u00e7\u00e3o do Outro e desumaniza\u00e7\u00e3o a partir da ra\u00e7a e dos padr\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o colonial e neocolonial. A partir desse argumento (demonstrado em v\u00e1rias oportunidades), afirmo que chamar Marx e Engels de euroc\u00eantricos e racistas \u00e9 prova de desconhecimento hist\u00f3rico da modernidade e, ironicamente, de como o marxismo foi fundamental no recuo das barreiras coloniais e raciais.<\/p>\n<p>Em suma, se hoje n\u00e3o h\u00e1 de forma generalizada escravid\u00e3o, regimes de segrega\u00e7\u00e3o racial, colonialismo no estilo cl\u00e1ssico, se hoje a eugenia n\u00e3o goza de prest\u00edgio cient\u00edfico, isso se deve tamb\u00e9m ao marxismo que, a partir dos seus fundadores, combateram os padr\u00f5es de racismo e eurocentrismo de sua \u00e9poca, permitindo avan\u00e7os que, em nosso tempo hist\u00f3rico, cria quadros de refer\u00eancia que permitem olhar para os fundadores do materialismo hist\u00f3rico e apontar falas hodiernamente consideradas racistas.<\/p>\n<p>Esse ponto \u00e9 importante, pois, pelos crit\u00e9rios atuais, fervorosos abolicionistas e lutadores e lutadoras antirracistas do s\u00e9culo XIX poderiam ser acusados de racismo. Um exemplo b\u00e1sico do problema do anacronismo: a direita atual ainda n\u00e3o descobriu o flerte da Frente Negra Brasileira com o integralismo no come\u00e7o do s\u00e9culo passado. No dia que descobrir, vai come\u00e7ar a apontar que o movimento negro brasileiro \u00e9 ou tem potencial fascista. A direita estar\u00e1 certa? N\u00e3o, e s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel apontar raz\u00e3o nesse discurso se, ao inv\u00e9s de uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-concreta dos sentidos e papel do integralismo na luta pol\u00edtica e suas formas de apropria\u00e7\u00e3o pela Frente Negra no per\u00edodo, fizermos t\u00e3o somente uma \u201can\u00e1lise\u201d tomando os termos e sentidos estritamente atuais do debate.<\/p>\n<p>O mesmo serve para mitos como \u201cZumbi tinha escravos\u201d, ou outro, muito bem aceito por certa esquerda, de que as organiza\u00e7\u00f5es de luta armada contra a ditadura empresarial-militar n\u00e3o defendiam democracia e queriam apenas colocar \u201csua pr\u00f3pria ditadura no lugar\u201d. Como se pode ver por esses tr\u00eas exemplos, a defesa integral de uma historicidade cr\u00edtica (da coisa em si e das teorias que se prop\u00f5em ser a representa\u00e7\u00e3o ideal de um movimento real) \u00e9 uma arma fundamental na luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O objetivo deste escrito n\u00e3o \u00e9 fazer um balan\u00e7o completo do tema com foco no debate sobre ra\u00e7a, colonialismo e eurocentrismo na obra de Marx e Engels. Isso j\u00e1 foi feito por n\u00f3s (junto com Gabriel Landi) no livro Revolu\u00e7\u00e3o africana: uma antologia do pensamento marxista (Autonomia Liter\u00e1ria, 2019), no livro de Domenico Losurdo A luta de classes: uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica (Boitempo, 2015) e no livro de Kevin B. Anderson Marx nas margens: nacionalismo, etnia e sociedades n\u00e3o ocidentais (Boitempo, 2019). Meu objetivo nesta coluna \u00e9 apresentar o problema e os argumentos de forma mais sint\u00e9tica visando sua utilidade no debate te\u00f3rico sobre a cria\u00e7\u00e3o de uma cultura pol\u00edtica antirracista revolucion\u00e1ria com os p\u00e9s radicalmente presos na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Modernidade, colonialismo e racismo<br \/>\nA partir do final dos anos 1970 do s\u00e9culo passado, virou moda o debate sobre modernidade e p\u00f3s-modernidade. Esse debate, difundido a partir do mundo acad\u00eamico europeu e estadunidense, reproduz uma tend\u00eancia de longa dura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica na formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do pensamento ocidental dominante: considerar o nascimento da modernidade como um processo id\u00edlico de vit\u00f3ria da raz\u00e3o, autonomia do indiv\u00edduo, livre mercado, democracia e surgimento do sujeito. A hist\u00f3ria da modernidade \u00e9 contada como um acontecimento essencialmente intraeuropeu, um cap\u00edtulo que come\u00e7a com o Renascimento (ou com a Antiguidade Cl\u00e1ssica greco-romana), passa pela Reforma Protestante, percorrendo o Iluminismo, o surgimento do liberalismo, e as Revolu\u00e7\u00f5es Inglesa e Francesa, o desenvolvimento do parlamentarismo e assim por diante.<\/p>\n<p>Dentro dessa abordagem, elementos inc\u00f4modos, como a escravid\u00e3o, s\u00e3o tratados quase que como uma reminisc\u00eancia de um tempo passado que sobreviveu paralelamente e fora do reino da modernidade e da raz\u00e3o at\u00e9 que um dia, finalmente, a Hist\u00f3ria se adaptou \u00e0 Ideia e a escravid\u00e3o foi superada. \u00c9 a partir de vis\u00f5es como essa que, contrafactualmente, se considera que o liberalismo \u00e9 antag\u00f4nico \u00e0 escravid\u00e3o e defensor por ess\u00eancia dos direitos individuais1. A com\u00e9dia de erros chega a tal ponto que intelectuais \u201ccr\u00edticos\u201d, com inten\u00e7\u00e3o de combater ou melhorar o liberalismo, falam que no Brasil o liberalismo seria incompleto e contradit\u00f3rio, dada a sua compatibilidade com a escravid\u00e3o e, posteriormente, com a domina\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica das primeiras d\u00e9cadas da rep\u00fablica brasileira2.<\/p>\n<p>Se o liberalismo \u00e9 tratado como um mito, configurando uma verdadeira hagiografia, outros aspectos fundamentais da modernidade, como o v\u00ednculo indissoci\u00e1vel entre modernidade burguesa, capitalismo, formas de trabalho n\u00e3o livres (no sentido burgu\u00eas) e a quest\u00e3o colonial, s\u00e3o apagadas. Aqui, mais uma vez, o processo de ocultamento acontece em v\u00e1rios quadrantes: na esquerda e na direita. Um exemplo bastante ilustrativo \u00e9 o debate entre Norberto Bobbio e Palmiro Togliatti.<\/p>\n<p>Bobbio, em 1954, afirmava que os \u201cEstados socialistas\u201d tinham realizado uma nova fase de \u201cprogresso civil em pa\u00edses politicamente atrasados, introduzindo institutos tradicionalmente democr\u00e1ticos [\u2026] e a coletiviza\u00e7\u00e3o dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o\u201d, mas que faltava a esses Estados, \u201cuma gota de \u00f3leo liberal nas m\u00e1quinas da revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 realizadas\u201d. O racioc\u00ednio de Bobbio \u00e9 n\u00edtido: liberalismo significa por ess\u00eancia limita\u00e7\u00e3o do poder central, Estado de Direito e direitos individuais. Togliatti, o grande dirigente do Partido Comunista Italiano, responde assim \u00e0 cr\u00edtica de Bobbio:<\/p>\n<p>\u201cMas quando, e em que medida, foram aplicadas aos povos coloniais os princ\u00edpios liberais nos quais se disse fundado o Estado ingl\u00eas do s\u00e9culo XIX, modelo, creio, de regime liberal perfeito para aqueles que pensam como Bobbio? A verdade \u00e9 que a doutrina liberal [\u2026] fundamenta-se numa b\u00e1rbara discrimina\u00e7\u00e3o entre as criaturas humanas. Al\u00e9m das col\u00f4nias, tal discrimina\u00e7\u00e3o se alastra tamb\u00e9m na pr\u00f3pria metr\u00f3pole capitalista, como demonstra o caso dos negros estadunidenses, em grande parte desprovidos de direitos elementares, discriminados e perseguidos.\u201d<\/p>\n<p>Citado em Domenico Losurdo, 2008, p. 72.<\/p>\n<p>Aliados a isso, os questionamentos pr\u00e1tico-pol\u00edticos dessa vis\u00e3o idealizada do surgimento da modernidade s\u00e3o combatidos ou relegados ao esquecimento. Domenico Losurdo mostra como a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa foi banida do pante\u00e3o das gl\u00f3rias liberais-modernas a partir de um revisionismo hist\u00f3rico que exalta a Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa e Americana e repudia os ventos da \u201cMarselhesa\u201d3. Um exemplo caracter\u00edstico desse revisionismo hist\u00f3rico \u00e9 o livro Sobre a revolu\u00e7\u00e3o, da fil\u00f3sofa Hannah Arendt, que considera que a Revolu\u00e7\u00e3o Americana, ao contr\u00e1rio da Francesa, garantiu a liberdade e a liberta\u00e7\u00e3o e foi um processo pol\u00edtico essencialmente pac\u00edfico, uma vez que n\u00e3o trazia a quest\u00e3o social no centro de sua agenda revolucion\u00e1ria \u2013 caminho irremedi\u00e1vel ao terror e o fracasso, segundo a fil\u00f3sofa. O car\u00e1ter plebeu da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e o conte\u00fado igualit\u00e1rio, assim como a apropria\u00e7\u00e3o feita do jacobinismo pelo movimento oper\u00e1rio socialista, n\u00e3o explicam por si s\u00f3 o expurgo da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Existe outra raz\u00e3o, talvez at\u00e9 mais forte que as anteriores.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa foi a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o burguesa que p\u00f4s em quest\u00e3o a escravid\u00e3o4. A liberta\u00e7\u00e3o nacional das Prov\u00edncias Unidas (Holanda), a Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa e a Revolu\u00e7\u00e3o Americana deram um impulso gigantesco \u00e0 escravid\u00e3o, ao exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios (chamados genericamente de \u201c\u00edndios\u201d) e ao colonialismo. J\u00e1 os jacobinos ousaram estender os direitos naturais do homem e do cidad\u00e3o para al\u00e9m do pequeno ciclo de homens, propriet\u00e1rios, brancos e europeus.<\/p>\n<p>Esse, contudo, n\u00e3o foi o \u00fanico pecado de Robespierre e seu grupo. Eles influenciaram os negros e negras do outro lado do Atl\u00e2ntico a achar que podiam ser inclu\u00eddos nos direitos universais do homem \u2013 e os jacobinos negros, evidentemente, foram bem mais longe na cr\u00edtica pr\u00e1tica \u00e0 escravid\u00e3o que os jacobinos brancos. Numa das col\u00f4nias francesas mais lucrativas do mundo, S\u00e3o Domingos, os ex-escravos se rebelaram, combateram a metr\u00f3pole e a elite nativa, tomaram o poder, aboliram a escravid\u00e3o e ousaram ser donos do seu destino<\/p>\n<p>\u201cMas, enquanto isso, e os escravos? Eles ouviram falar da Revolu\u00e7\u00e3o [Francesa]e conceberam-na \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem: os escravos brancos da Fran\u00e7a se levantaram e mataram os seus senhores e, assim, passaram a gozar os frutos da terra. Isso era grosseiramente impreciso, de fato, mas eles haviam apanhado o esp\u00edrito da coisa. Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Antes do final do ano de 1789, houve levantes em Guadalupe e na Martinica. J\u00e1 em outubro, em Forte Dauphin, um dos futuros centros da insurrei\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Domingos, os escravos estavam se agitando e realizando reuni\u00f5es de massas nas florestas durante a noite. Na Prov\u00edncia do Sul, observando a luta entre os seus senhores a favor e contra a Revolu\u00e7\u00e3o, eles mostraram sinais de inquieta\u00e7\u00e3o [\u2026] Nenhum dos homens que deveriam liderar seus irm\u00e3os para a liberdade estava em atividade nesse momento, at\u00e9 onde sabemos. Dessalines, j\u00e1 com quarenta anos, servia como escravo para seu senhor negro. Christophe ouvia as conversas no hotel onde trabalhava mas n\u00e3o tinha ideias construtivas. Toussaint lia sozinho seu Raynal: \u201cUm chefe corajoso \u00e9 tudo o que \u00e9 preciso\u201d. Ele diria mais tarde que, desde a \u00e9poca em que os problemas surgiram, sentia-se destinado \u00e0s grandes coisas.\u201d<\/p>\n<p>C. L. R. James, Os jacobinos negros (Boitempo, 2016, p. 87-8)<\/p>\n<p>Naturalmente, os jacobinos negros,Toussaint L\u2019Ouverture e Jacques Dessaline t\u00eam que ser exclu\u00eddos da hist\u00f3ria e, como derrotados, banidos para sempre da mem\u00f3ria. A partir desse processo de exclus\u00e3o dos aspectos inc\u00f4modos da modernidade burguesa, fica dif\u00edcil lembrar que ra\u00e7a e hierarquiza\u00e7\u00e3o dos povos (b\u00e1rbaros versus civilizados) n\u00e3o \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o eterna, imut\u00e1vel, mas nasce justamente quando surge pela primeira vez uma hist\u00f3ria universal, o sistema-mundo. Pois \u00e9, at\u00e9 o s\u00e9culo XVI, n\u00e3o era poss\u00edvel falar de uma hist\u00f3ria do mundo. Com a estabelecimento do com\u00e9rcio tricontinental centrado na Europa, possibilitado pela invas\u00e3o colonial na regi\u00e3o posteriormente conhecida como Am\u00e9rica, um dos maiores genoc\u00eddios de todos os tempos, surge uma nova constru\u00e7\u00e3o social, hist\u00f3rica e ideol\u00f3gica que fundamenta o sistema de explora\u00e7\u00e3o colonial e o tr\u00e1fico de seres humanos escravizados: a ra\u00e7a5.<\/p>\n<p>Antes do in\u00edcio da modernidade, ao contr\u00e1rio do pensamento de te\u00f3ricos identitaristas e naturalistas do movimento negro, a ra\u00e7a tal como conhecemos hoje n\u00e3o existia. As diferen\u00e7as de cor de pele e tra\u00e7os fenot\u00edpicos n\u00e3o conformaram um sistema de significados sociais com deriva\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas estruturantes nas formas de sociabilidade. Se \u00e9 poss\u00edvel achar, desde o come\u00e7o da hist\u00f3ria humana, coment\u00e1rios referentes a um processo de estranhamento do Outro a partir de tra\u00e7os fenot\u00edpicos diferenciados, s\u00f3 com a modernidade esses tra\u00e7os ganham contornos estruturais de marcadores sociais.<\/p>\n<p>Se durante muito tempo esse idealismo da ra\u00e7a teve uma forma de explica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, com a laiciza\u00e7\u00e3o do pensamento ocidental, no bojo do Iluminismo e da Revolu\u00e7\u00e3o Burguesa, a ci\u00eancia entrou em cena para legitimar a metaf\u00edsica racial a partir de disciplinas como a biologia, a antropologia criminal e a sociologia. \u00c9 curioso como h\u00e1 um sistem\u00e1tico ocultamento da racializa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica burguesa moderna. O livro did\u00e1tico que trabalho em sala de aula \u00e9 um bom exemplo disso: ao apresentar o Liberalismo e o Iluminismo, buscando sumarizar as principais ideias de alguns dos pensadores mais destacados desses movimentos, como John Locke, Adam Smith, Bar\u00e3o de Montesquieu, Alexis de Tocqueville, John Stuart Mill e outros, nenhuma palavra \u00e9 dita sobre o apoio desses homens \u00e0 escravid\u00e3o e\/ou ao colonialismo a partir de no\u00e7\u00f5es naturalistas de ra\u00e7a6.<\/p>\n<p>A ra\u00e7a enquanto chave de estruturas sociais e significante simb\u00f3lico \u00e9 um componente central em todas as correntes te\u00f3rico-filos\u00f3ficas e em quase todos os autores do pensamento ocidental na modernidade burguesa. Por\u00e9m, existe uma tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica que tenta escapar a essa tend\u00eancia hist\u00f3rica de longa dura\u00e7\u00e3o: o marxismo.<\/p>\n<p>O lugar de Marx e Engels na modernidade burguesa<br \/>\nDomenico Losurdo afirma, corretamente, que existe na modernidade burguesa uma filosofia da hist\u00f3ria constitu\u00edda por um universalismo agressivo e colonizante que tende a ver o Ocidente como o m\u00e1ximo da civiliza\u00e7\u00e3o em uma miss\u00e3o eterna e inescap\u00e1vel de extirpa\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie e do atraso nos quatro cantos do mundo. O \u201cfardo civilizat\u00f3rio\u201d do homem branco \u00e9 apenas um dos epis\u00f3dios mais caricatos dessa hist\u00f3ria, mas de forma alguma o \u00fanico (Contra-hist\u00f3ria do liberalismo, p. 6-65). Nos dias atuais, essa filosofia da hist\u00f3ria se expressa nas diversas formas de agress\u00e3o que os Estados Unidos e sua m\u00e1quina de guerra (seguidos de perto pelos seus s\u00f3cios menores como a Uni\u00e3o Europeia) imp\u00f5em \u00e0 Venezuela, Cuba, Coreia Popular, Ir\u00e3, China, Vietn\u00e3 e outros pa\u00edses \u201cincivilizados\u201d.<\/p>\n<p>Em um balan\u00e7o cr\u00edtico da obra de Marx e Engels, Losurdo mostra como os dois fundadores do materialismo-hist\u00f3rico em alguns momentos acabaram deslizando nessa ideologia burguesa. \u00c9 conhecida, por exemplo, a exalta\u00e7\u00e3o chauvinista do roubo da Calif\u00f3rnia dos mexicanos feita por Engels; ou algumas an\u00e1lises de Marx sobre os Estados Unidos que pareciam desconsiderar a escravid\u00e3o e a sorte dos povos origin\u00e1rios (\u201cpeles vermelhas\u201d) ao afirmar que no pa\u00eds a \u201cemancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica j\u00e1 foi realizada\u201d7. Uma an\u00e1lise sistem\u00e1tica e da totalidade do pensamento de Marx e Engels, por\u00e9m, mostrar\u00e1 que no decorrer da sua evolu\u00e7\u00e3o esses dois pensadores conseguiram recusar completamente, considerando seu lugar hist\u00f3rico, essa filosofia da hist\u00f3ria burguesa8.<\/p>\n<p>Demonstremos isso a partir de quatro quest\u00f5es. Primeiro, Marx e Engels, ao contr\u00e1rio de toda tradi\u00e7\u00e3o dominante de sua \u00e9poca, negaram qualquer paradigma naturalista e racialista na constru\u00e7\u00e3o de sua cr\u00edtica da economia pol\u00edtica e teoria social centrada no conflito de classes. A an\u00e1lise marxiana \u00e9 radicalmente hist\u00f3rica. Quando Marx diz em \u201cTrabalho assalariado e capital\u201d, por exemplo, que um negro \u00e9 apenas um negro e que ele s\u00f3 se torna escravo em condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas determinadas, a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o uma coisifica\u00e7\u00e3o do negro, mas uma nega\u00e7\u00e3o radical de qualquer idealismo da ra\u00e7a (ou naturaliza\u00e7\u00e3o racialista da escravid\u00e3o), chamando aten\u00e7\u00e3o para as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-concretas do desenvolvimento do tr\u00e1fico de seres humanos escravizados na l\u00f3gica mercantil9 \u2013 Marx e Engels tamb\u00e9m combateram as explica\u00e7\u00f5es psicopatol\u00f3gicas dos processos sociais, tend\u00eancia em voga nos pensadores do s\u00e9culo XIX para \u201cexplicar\u201d os processos revolucion\u00e1rios10.<\/p>\n<p>Hoje foi quase banido da hist\u00f3ria um dado b\u00e1sico da cultura ocidental hegem\u00f4nica at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo XX. Qual dado? A leitura racial da sociedade n\u00e3o era privil\u00e9gio da Alemanha Nazista (nunca \u00e9 demais lembrar que o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial nos Estados Unidos durou, oficialmente, at\u00e9 1965), era um consenso dominante no Ocidente, tendo inclusive servido de espelho para as classes dominantes locais de toda periferia, a ponto de existirem, nos quatro cantos do mundo, regimes de supremacia racial ou Estados com pol\u00edticas eugenistas. A pr\u00f3pria palavra \u201cracismo\u201d n\u00e3o tinha uma conota\u00e7\u00e3o negativa: significava a justa e necess\u00e1ria separa\u00e7\u00e3o entre as ra\u00e7as para evitar a degrada\u00e7\u00e3o da \u201cra\u00e7a branca\u201d, \u201cariana\u201d ou \u201cn\u00f3rdico-germ\u00e2nica\u201d. Quando em 1936 a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica criminalizou o racismo e refor\u00e7ou ainda mais a pol\u00edtica cultural, educacional e cient\u00edfica de igualdade racial, ela estava isolada11. Nadava contra a corrente.<\/p>\n<p>O termo \u201cracismo\u201d s\u00f3 passou a ter uma conota\u00e7\u00e3o universalmente negativa ao final da Segunda Guerra Mundial, depois da vit\u00f3ria da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sobre o nazismo e o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o anticolonial no mundo \u2013 acontecimento que tamb\u00e9m marcou o abandono das teorias sociais de chave explicitamente racialista. O materialismo hist\u00f3rico, na \u00e9poca de Marx e Engels, n\u00e3o combatia apenas o idealismo e outras formas filos\u00f3ficas burguesas. Batia de frente com as teorias racialistas. Este trecho cl\u00e1ssico de Marx, se bem lido no seu contexto hist\u00f3rico, revela uma revolu\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica:<\/p>\n<p>\u201cO resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos pode ser formulado, resumidamente, assim: na produ\u00e7\u00e3o social da pr\u00f3pria exist\u00eancia, os homens entram em rela\u00e7\u00f5es determinadas, necess\u00e1rias, independentes de sua vontade; essas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas for\u00e7as produtivas materiais. A totalidade dessas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o constitui a estrutura econ\u00f4mica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jur\u00eddica e pol\u00edtica e \u00e0 qual correspondem formas sociais determinadas de consci\u00eancia. O modo de produ\u00e7\u00e3o da vida material condiciona o processo de vida social, pol\u00edtica e intelectual. N\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia dos homens que determina o seu ser; ao contr\u00e1rio, \u00e9 o seu ser social que determina sua consci\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Karl Marx, Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica (Express\u00e3o Popular, 2008)\/Emir Sader e Ivana Jinkings (orgs.) As armas da cr\u00edtica: antologia do pensamento de esquerda.<\/p>\n<p>Note a aus\u00eancia de qualquer paradigma de determinismo racial, clim\u00e1tico ou psicopatologizante. O que hoje \u00e9 normal e trivial \u2013 isto \u00e9, explicar as rela\u00e7\u00f5es sociais a partir do estudo de rela\u00e7\u00f5es sociais constru\u00eddas historicamente \u2013, n\u00e3o era no per\u00edodo de Marx e Engels. O materialismo expresso no trecho acima n\u00e3o \u00e9 apenas o sintoma de uma luta contra o idealismo, mas tamb\u00e9m contra paradigmas racializantes, como o de um dos pensadores mais prestigiados da Europa no s\u00e9culo XIX, o liberal Herbert Spencer (contempor\u00e2neo de Marx e Engels e famoso pelo chamado \u201cdarwinismo social\u201d).<\/p>\n<p>O segundo aspecto \u00e9 que Marx e Engels s\u00e3o cr\u00edticos do colonialismo. Essa cr\u00edtica ao colonialismo opera em duas dimens\u00f5es. Os dois pensadores foram ardentes defensores da emancipa\u00e7\u00e3o nacional da Irlanda e Pol\u00f4nia, os dois principais s\u00edmbolos europeus da pol\u00edtica colonial (importante destacar que mesmo \u201cbrancos\u201d, numa perspectiva biol\u00f3gica, esses povos eram racializados e tratados como n\u00e3o-brancos pelo colonialismo do per\u00edodo). Essa defesa da Pol\u00f4nia e da Irlanda, inclusive, \u00e9 feita contra membros da Internacional dos Trabalhadores que consideravam, assim como alguns \u201cmarxistas\u201d posteriores, que essas lutas nacionais eram desvios da luta de classes.<\/p>\n<p>Marx e Engels mostraram com precis\u00e3o que, nesses pa\u00edses, a quest\u00e3o social assume uma dimens\u00e3o nacional e, em v\u00e1rios momentos de suas obras e atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, instigavam o proletariado ingl\u00eas a combater o colonialismo de \u201csua\u201d burguesia12.<\/p>\n<p>Marx e Engels foram ainda mais fundo. Adiantando a indispens\u00e1vel formula\u00e7\u00e3o de L\u00eanin sobre a aristocracia oper\u00e1ria e a quest\u00e3o colonial, os autores do Manifesto Comunista perceberam a dial\u00e9tica entre quest\u00e3o colonial e amoldamento \u00e0 ordem do proletariado ingl\u00eas, mostrando que os superlucros da burguesia inglesa auferidos com a coloniza\u00e7\u00e3o da Irlanda serviam como contraponto \u00e0s vit\u00f3rias da economia pol\u00edtica do trabalho sobre o capital. N\u00e3o poucas vezes, os dois revolucion\u00e1rios ligaram diretamente o persistente reformismo dos trabalhadores ingleses ao mart\u00edrio dos irlandeses, constatando que a revolu\u00e7\u00e3o socialista na Inglaterra e a liberta\u00e7\u00e3o nacional irlandesa eram duas faces da mesma moeda \u2013 ainda \u00e9 \u00fatil pontuar que an\u00e1lise parecida foi desenvolvida em rela\u00e7\u00e3o ao Sul escravagista dos Estados Unidos e o movimento oper\u00e1rio do Norte, onde o trabalhador de pele clara se comportava como um \u201csenhor\u201d frente ao trabalhador de pele negra.<\/p>\n<p>\u201cO trabalhador ingl\u00eas comum odeia o trabalhador irland\u00eas como um concorrente que rebaixa seu sal\u00e1rio e seu padr\u00e3o de vida; tamb\u00e9m alimenta contra ele antipatias nacionais e religiosas. \u00c9 exatamente o mesmo modo como os brancos pobres dos estados sulistas da Am\u00e9rica do Norte se comportavam em rela\u00e7\u00e3o aos escravos negros. Esse antagonismo entre os dois grupos de prolet\u00e1rios no interior da pr\u00f3pria Inglaterra \u00e9 artificialmente mantido e alimentado pela burguesia, que sabe muito bem que essa cis\u00e3o \u00e9 o verdadeiro segredo da preserva\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio poder.\u201d<\/p>\n<p>Algumas linhas depois, Marx conclui:<\/p>\n<p>\u201cFinalmente, o que a Roma Antiga demonstrou numa escala gigantesca pode ser observado na Inglaterra de hoje. Um povo que subjuga outro povo forja suas pr\u00f3prias cadeias.\u201d<\/p>\n<p>Karl Marx, \u201cA Irlanda e a classe trabalhadora inglesa 1864\u201d, em Marcelo Musto (org.) Trabalhadores uni-vos: antologia pol\u00edtica da I Internacional (Boitempo, 2014, p. 276)13<\/p>\n<p>Fora da Europa, a cr\u00edtica ao colonialismo tamb\u00e9m foi mordaz. Se, no Manifesto Comunista e na Mis\u00e9ria da filosofia, o colonialismo n\u00e3o aparece \u00e0s vezes com ares de condena\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e, em alguns trechos, Marx e Engels tratam do tema com certo lirismo, na evolu\u00e7\u00e3o posterior dos dois pensadores, especialmente a partir da d\u00e9cada de 1860, a cr\u00edtica ao colonialismo \u00e9 devastadora. \u00c9 bastante conhecido o cap\u00edtulo do Livro I d\u2019O capital sobre \u201ca assim chamada acumula\u00e7\u00e3o primitiva\u201d, no qual Marx refuta o mito liberal do surgimento do capitalismo a partir de um processo id\u00edlico e pac\u00edfico de uma \u201celite\u201d laboriosa e disciplinada que soube poupar e acumular riquezas. Marx liga de maneira indissoci\u00e1vel, a partir de um genial mapeamento hist\u00f3rico, o surgimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e0s barb\u00e1ries do colonialismo. Diz Marx:<\/p>\n<p>\u201cA descoberta das terras aur\u00edferas e argent\u00edferas na Am\u00e9rica, o exterm\u00ednio, a escraviza\u00e7\u00e3o e o soterramento da popula\u00e7\u00e3o nativa nas minas, o come\u00e7o da conquista e saqueio das \u00cdndias Orientais, a transforma\u00e7\u00e3o da \u00c1frica numa reserva para a ca\u00e7a comercial de peles-negras que caracterizam a aurora da era da produ\u00e7\u00e3o capitalista. Esses processos id\u00edlicos constituem momentos fundamentais da acumula\u00e7\u00e3o primitiva. \u2026 na Inglaterra, no fim do s\u00e9culo XVII, esses momentos foram combinados de modo sist\u00eamico, dando origem ao sistema colonial, ao sistema da d\u00edvida p\u00fablica, ao moderno sistema tribut\u00e1rio e ao sistema protecionista. Tais m\u00e9todos, como por exemplo, o sistema colonial, baseiam-se, em parte, na viol\u00eancia mais brutal.\u201d<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] Com o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o capitalista durante o per\u00edodo manufatureiro, a opini\u00e3o p\u00fablica europeia perdeu o que ainda lhe restava de pudor e consci\u00eancia. As na\u00e7\u00f5es se jactavam cinicamente de toda a inf\u00e2mia que constitu\u00edsse um meio para a acumula\u00e7\u00e3o de capital.\u201d<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] Enquanto introduzia a escravid\u00e3o infantil na Inglaterra, a ind\u00fastria do algod\u00e3o dava, ao mesmo tempo, o impulso para a transforma\u00e7\u00e3o da economia escravista dos Estados Unidos, antes mais ou menos patriarcal, num sistema comercial de explora\u00e7\u00e3o. Em geral, a escravid\u00e3o disfar\u00e7ada dos assalariados na Europa necessitava, como pedestal, da escravid\u00e3o sans phrase do Novo Mundo.\u201d<\/p>\n<p>Karl Marx, O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, Livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital (Boitempo, 2013, p. 820, p. 824, p. 829)<\/p>\n<p>Outro aspecto da cr\u00edtica marxiana que, por muito tempo, passou despercebida por alguns marxistas \u00e9 que Marx desenvolve uma reflex\u00e3o (nunca aprofundada devidamente, \u00e9 verdade) na qual afirma que as formas de domina\u00e7\u00e3o burguesas apresentam sutilezas na metr\u00f3pole, mas desfilam nuas com toda sua crueldade nas col\u00f4nias.14 Ou seja, Marx discorre sobre como a realidade colonial \u00e9 o capitalismo em seu estado de m\u00e1xima barb\u00e1rie, uma esp\u00e9cie de verdade do capital; essa reflex\u00e3o, posteriormente, tamb\u00e9m foi desenvolvida e aprofundada por L\u00eanin:<\/p>\n<p>\u201cA profunda hipocrisia, a intr\u00ednseca barb\u00e1rie da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa se apresentam diante de n\u00f3s sem disfarces, assim que das grandes metr\u00f3poles, onde elas assumem formas respeit\u00e1veis, voltamos os olhos para as col\u00f4nias, onde passeiam desnudas\u201d.<br \/>\nKarl Marx, \u201cOs resultados eventuais da domina\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica na \u00cdndia\u201d [1853].<\/p>\n<p>E, por \u00faltimo, ao analisar a comuna rural russa (mir), Marx e Engels, ainda que por caminhos um pouco diferentes, consideraram que ela poderia ser a base da constru\u00e7\u00e3o do socialismo russo, negando uma universalidade agressiva e colonizante a partir das formas sociais europeias. Ao faz\u00ea-lo, os fundadores do materialismo hist\u00f3rico colocam uma quest\u00e3o central para os movimentos revolucion\u00e1rios da periferia do capitalismo: mesmo com toda destrui\u00e7\u00e3o causada pelo colonialismo imperialista, sobrevivem formas sociais e pr\u00e1ticas culturais pr\u00e9-coloniza\u00e7\u00e3o que carregam tradi\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e igualit\u00e1rias que podem ser a base da constru\u00e7\u00e3o do socialismo com caracter\u00edsticas nacionais e pr\u00f3prias de cada povo15.<\/p>\n<p>Anos depois, Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui e Am\u00edlcar Cabral, por exemplo, adensaram essa reflex\u00e3o a partir de sua realidade nacional. Todavia, cabe ainda destacar que tanto Marx e Engels, como Mari\u00e1tegui, Cabral, Che Guevara e tantos outros, mesmo reconhecendo e defendendo um caminho m\u00faltiplo de desenvolvimento socioecon\u00f4mico para o socialismo, apropriando e valorizando as hist\u00f3ricas tradi\u00e7\u00f5es nacional-populares dos explorados, n\u00e3o negaram a necessidade de desenvolver as for\u00e7as produtivas na constru\u00e7\u00e3o da sociedade p\u00f3s-capitalista. Rela\u00e7\u00f5es sociais igualit\u00e1rias, na mis\u00e9ria, n\u00e3o formam o socialismo: apenas caricaturas e rudimentos dele.<\/p>\n<p>Por estes quatro aspectos, afirmamos que o marxismo, antes de qualquer \u201cadapta\u00e7\u00e3o nacional\u201d nos pa\u00edses dependentes, coloniais e semicoloniais da \u00c1frica, \u00c1sia ou Am\u00e9rica Latina e Caribe, j\u00e1 estava inclinado para transformar-se numa indispens\u00e1vel arma na luta antirracista e anticolonial. Considerar o marxismo como essencialmente euroc\u00eantrico \u00e9 um erro que percorre dois caminhos. Primeiro, apegar-se a algum trecho ou texto de Marx e Engels \u2013 e como falamos acima, alguns deles, realmente, s\u00e3o terr\u00edveis, como os coment\u00e1rios de Engels sobre o M\u00e9xico ou o pequeno panfleto de Marx sobre Simon Bol\u00edvar \u2013, ignorando o conjunto de sua obra e deixando de fazer uma an\u00e1lise da globalidade de sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Segundo, tomar como premissa da cr\u00edtica uma an\u00e1lise idealizada das formas sociais pr\u00e9-coloniza\u00e7\u00e3o numa tentativa infantilizada de retornos a sociedades j\u00e1 destru\u00eddas (como o misticismo em torno de uma \u00c1frica pr\u00e9-coloniza\u00e7\u00e3o, algo de muito sucesso no movimento negro brasileiro).<\/p>\n<p>A partir dessa perspectiva de retorno idealizado, caricata o suficiente ao ponto de idolatrar monarquias de bases socioecon\u00f4micas feudais, Marx e Engels seriam por ess\u00eancia euroc\u00eantricos, j\u00e1 que partem da realidade europeia, seu objeto de an\u00e1lise, dado ser nesse continente o centro din\u00e2mico do capitalismo mundial. Ora, \u00e9 evidente que Marx e Engels s\u00e3o europeus e, mesmo produzindo a contrapelo das tend\u00eancias ideol\u00f3gicas dominantes de sua \u00e9poca, n\u00e3o escapam totalmente \u00e0s determina\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-culturais e subjetivas de seu tempo.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 que a obra marxiana-engelsiana \u00e9, acima de tudo, uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, uma an\u00e1lise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em suas formas mais elementares com vistas \u00e0 supera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dessa sociedade. Nesse sentido, usando uma linguagem hegeliana, podemos dizer que o capitalismo \u00e9 um universal que se realiza na particularidade de cada pa\u00eds\/regi\u00e3o. Ou seja, enquanto existir capitalismo, a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx e Engels e, portanto, o materialismo hist\u00f3rico ser\u00e3o a filosofia insuper\u00e1vel do nosso tempo. Isso, contudo, n\u00e3o significa que essa cr\u00edtica seja um universal-abstrato coagulado de determina\u00e7\u00f5es mais concretas. O universal se realiza no particular. A grande tarefa do marxista na periferia do capitalismo \u00e9 analisar essa totalidade desde o ponto de vista da sua realidade nacional.<\/p>\n<p>Nada disso significa, contudo, que n\u00e3o tenha existido e que n\u00e3o existam at\u00e9 hoje marxistas euroc\u00eantricos. Eles existem. Assim como existem marxistas estruturalistas, anal\u00edticos, p\u00f3s-modernos, neopositivistas, existencialistas e assim por diante. Nenhuma dessas leituras s\u00e3o derivados necess\u00e1rios da obra marxiana-engelsiana, mas apropria\u00e7\u00f5es parciais de aspectos t\u00f3picos do materialismo hist\u00f3rico. Nesse sentido, o fato de haver marxistas euroc\u00eantricos e uma larga tradi\u00e7\u00e3o de eurocentrismo no marxismo (assim como uma tradi\u00e7\u00e3o anticolonial e antirracista, por n\u00f3s trabalhada em nosso curso online) n\u00e3o autoriza ningu\u00e9m com dois dedos de honestidade intelectual a descartar o marxismo como algo que s\u00f3 teria validade para Europa.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>1 \u201cA escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo que permane\u00e7a n\u00e3o obstante o sucesso das tr\u00eas revolu\u00e7\u00f5es liberais; ao contr\u00e1rio, ela conhece o seu m\u00e1ximo desenvolvimento em virtude desse sucesso: \u201co total da popula\u00e7\u00e3o escrava nas Am\u00e9ricas somava aproximadamente 330.000 no ano de 1700, chegou a quase tr\u00eas milh\u00f5es no ano de 1800, at\u00e9 alcan\u00e7ar o pico de mais de 6 milh\u00f5es nos anos 50 do s\u00e9c. XIX\u201d. O que contribui de forma decisiva para o crescimento desse instituto sin\u00f4nimo do poder absoluto do homem sobre o homem \u00e9 o mundo liberal. Na metade do s\u00e9c. XVIII a Gr\u00e3 Bretanha \u00e9 a que possui o maior n\u00famero de escravos (878.000)\u201d. Domenico Losurdo, Contra-hist\u00f3ria do liberalismo (Ideias &amp; Letras, S\u00e3o Paulo: 2006), p. 47.<br \/>\n2 Ser\u00e1 que o liberalismo tamb\u00e9m seria uma \u201cideia fora do lugar\u201d nos Estados Unidos, a primeira rep\u00fablica liberal das Am\u00e9ricas? \u201cEm trinta e dois anos dos primeiros trinta e seis de vida dos Estados Unidos, quem ocupa o cargo de Presidente s\u00e3o os propriet\u00e1rios de escravos provenientes da Virg\u00ednia. \u00c9 essa col\u00f4nia ou esse Estado, fundado sobre a escravid\u00e3o, que fornece ao pa\u00eds os seus estadistas mais ilustres; s\u00f3 para lembrar: George Washington (grande protagonista militar e pol\u00edtico da revolta anti-ingl\u00eas), James Madison e Thomas Jefferson (autores respectivamente da Declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia e da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1787), os tr\u00eas propriet\u00e1rios de escravos. Domenico Losurdo, Contra-hist\u00f3ria do liberalismo (Ideias &amp; Letras, S\u00e3o Paulo: 2006), p. 24.<br \/>\n3 \u201cE, no entanto, foi esse tipo de estudo comparativo que triunfou hoje e permitiu \u00e0 cr\u00f4nica pol\u00edtica revisionista ou neoliberal contrapor a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u00e0s demais, desacreditando-a como abstrata e produtora do Terror e do \u2018genoc\u00eddio\u2019 na Vendeia\u201d. Guerra e revolu\u00e7\u00e3o: o mundo um s\u00e9culo ap\u00f3s Outubro de 1917 (S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2017), p. 51.<br \/>\n4 \u201cA insist\u00eancia dos cr\u00edticos liberais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em atribuir \u00e0 \u2018revolu\u00e7\u00e3o americana\u2019 a iniciativa hist\u00f3rica da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem confirma a que ponto o liberalismo de hoje rebaixou-se a uma vulgar apologia do Imp\u00e9rio estadunidense. Afetam esquecer uma n\u00e3o pequena diferen\u00e7a entre a concep\u00e7\u00e3o de direitos humanos dos chamados \u201cPais Fundadores\u201d dos Estados Unidos e a dos revolucion\u00e1rios jacobinos: aqueles mantiveram os negros na escravid\u00e3o; estes aboliram-na imediatamente. Ela foi, entretanto, restabelecida nas col\u00f4nias francesas ap\u00f3s a queda de Robespierre\u2026\u201d (MORAES, 2001, p. 13).<br \/>\n5 \u201cA posterior constitui\u00e7\u00e3o da Europa como uma nova identidade depois da Am\u00e9rica e expans\u00e3o do colonialismo europeu sobre o resto do mundo levou \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o da perspectiva euroc\u00eantrica de conhecimento e com ela \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da ideia de ra\u00e7a como naturaliza\u00e7\u00e3o dessas rela\u00e7\u00f5es coloniais de domina\u00e7\u00e3o entre europeus e n\u00e3o-europeus. Historicamente, isso significou uma nova maneira de legitimar as j\u00e1 antigas ideias e pr\u00e1ticas de rela\u00e7\u00f5es de superioridade\/inferioridade entre dominados e dominantes [\u2026] Desse modo, ra\u00e7a se converteu no primeiro crit\u00e9rio fundamental para distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mundial nas classes, lugares e pap\u00e9is na estrutura de poder da nova sociedade. Em outros termos, no modo b\u00e1sico de classifica\u00e7\u00e3o social universal da popula\u00e7\u00e3o mundial\u201d (QUIJANO apud LANDER, 2006, p. 207).<br \/>\n6 Para um pequeno exemplo do \u201clado escondido\u201d desses grandes nomes do pensamento burgu\u00eas: \u201cal\u00e9m de acionista da Royal African Company, a sociedade que gerenciava o tr\u00e1fico de escravos negros, como observou um ilustre historiador da institui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o (D. B. Davis), Locke foi \u201co \u00faltimo grande fil\u00f3sofo que tentou justificar a escravid\u00e3o absoluta e perp\u00e9tua\u201d. No que se refere a Montesquieu, ele convidou a reconhecer a \u201cinutilidade da escravid\u00e3o entre n\u00f3s\u201d, \u201cnos nossos climas\u201d e, portanto, a pensar em limitar a escravid\u00e3o natural (servitude naturelle) a certos pa\u00edses em particular\u201d (LOSURDO, 2018, p. 73).<br \/>\n7 Domenico Losurdo, na cr\u00edtica \u00e0 filosofia burguesa da hist\u00f3ria presente em Marx e Engels, foca nos escritos desses pensadores at\u00e9 os anos 50 do s\u00e9culo XIX. Domenico Losurdo, Contra-hist\u00f3ria do liberalismo (Ideias &amp; Letras, S\u00e3o Paulo, 2006, p. 6-45). Em outra obra A luta de classes: uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica (Boitempo, 2015), ele aprofunda a an\u00e1lise buscando compreender a obra marxiana-engelsiana em sua globalidade.<br \/>\n8 Nesse ponto, existe uma pol\u00eamica interessante. Domenico Losurdo (2015) e Kevin Anderson (2019) discordam quanto a Engels. Para o primeiro, Engels, assim como Marx, conseguiu superar o eurocentrismo. Para o segundo, Engels n\u00e3o conseguiu acompanhar totalmente a evolu\u00e7\u00e3o de Marx. A despeito dessa pol\u00eamica, os dois autores concordam em um ponto: os coment\u00e1rios pouco cr\u00edticos sobre o colonialismo dos anos 1848-1852, foram, paulatinamente, passando por mudan\u00e7as importantes.<br \/>\n9 \u201cO capital consiste de mat\u00e9rias-primas, instrumentos de trabalho e meios de subsist\u00eancia de toda a esp\u00e9cie que s\u00e3o empregues para produzir novas mat\u00e9rias-primas, novos instrumentos de trabalho e novos meios de subsist\u00eancia. Todas estas suas partes constitutivas s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es do trabalho, produtos do trabalho, trabalho acumulado. Trabalho acumulado que serve de meio para nova produ\u00e7\u00e3o \u00e9 capital. \u00c9 o que dizem os economistas. Que \u00e9 um escravo negro? Um homem da ra\u00e7a negra. Uma explica\u00e7\u00e3o vale tanto como a outra. Um negro \u00e9 um negro. S\u00f3 em determinadas rela\u00e7\u00f5es \u00e9 que se torna escravo. Uma m\u00e1quina de fiar algod\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1quina para fiar algod\u00e3o. Apenas em determinadas rela\u00e7\u00f5es ela se torna capital\u201d. (MARX, 1982)<br \/>\n10 Em 1883, o mesmo ano da morte de Marx, v\u00ea a luz na \u00c1ustria um livro de Ludwig Gumplowicz que, j\u00e1 pelo t\u00edtulo (Der Rassenkampf, \u201cA luta de ra\u00e7as\u201d), se contrap\u00f5e \u00e0 tese da luta de classes como chave de leitura da hist\u00f3ria. Tr\u00eas d\u00e9cadas antes de Gumplowicz, na Fran\u00e7a, Arthur Gobineau publicou seu Ensaio sobre a desigualdade das ra\u00e7as humanas, uma obra cujo t\u00edtulo tamb\u00e9m fala por si s\u00f3. E, nesse mesmo per\u00edodo, na Inglaterra, Benjamin Disraeli argumenta de modo an\u00e1logo, enunciando a tese de que a ra\u00e7a \u00e9 \u201ca chave da hist\u00f3ria\u201d e que \u201ctudo \u00e9 ra\u00e7a e n\u00e3o h\u00e1 outra verdade\u201d, e \u201c\u00e9 somente uma coisa, o sangue\u201d que define e constitui uma ra\u00e7a. O ciclo hist\u00f3rico inteiro, que vai desde a conquista da Am\u00e9rica at\u00e9 as guerras do \u00f3pio e a ascens\u00e3o e o triunfo do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico\u201d (LOSURDO, 2015, p. 45).<br \/>\n11 \u201cArtigo 123 \u2014 Direitos iguais para todos os cidad\u00e3os da URSS, independentemente de sua nacionalidade ou ra\u00e7a, em todas as esferas do Estado, seja economicamente, na vida cultural, social ou pol\u00edtica, constituem lei irrevog\u00e1vel. Qualquer limita\u00e7\u00e3o direta ou indireta desses direitos ou inversamente, qualquer estabelecimento de privil\u00e9gios, direta ou indiretamente por causa de sua ra\u00e7a ou nacionalidade, assim como qualquer propaganda de exclusividade nacional ou racial, de \u00f3dio ou desprezo ser\u00e3o punidos pela lei\u201d. Constitui\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica de 1936.<br \/>\n12 Na resolu\u00e7\u00e3o do Conselho Geral da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, diz Marx \u201cPortanto, a atitude da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o irlandesa \u00e9 absolutamente clara. Sua primeira necessidade \u00e9 impulsionar a realiza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o social na Inglaterra, e, para esse objetivo, o grande golpe deve ser dado na Irlanda. As resolu\u00e7\u00f5es do Conselho Geral sobre a anistia irlandesa buscam apenas conduzir as outras resolu\u00e7\u00f5es, nas quais se declara que, independentemente das demandas por justi\u00e7a internacional, uma precondi\u00e7\u00e3o essencial para emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora inglesa \u00e9 transformar a atual uni\u00e3o for\u00e7ada (em outras palavras, a escraviza\u00e7\u00e3o da Irlanda) numa confedera\u00e7\u00e3o livre e igual, se poss\u00edvel, e efetuar uma separa\u00e7\u00e3o total, se necess\u00e1rio [\u2026]\u201d. Esse escrito de Marx \u00e9 de 1864. Engels, por sua vez, em 1872, diz o seguinte (escrito que serviu de base para reuni\u00e3o do Conselho Geral da Internacional): \u201cOs irlandeses, assim como outras nacionalidades oprimidas, s\u00f3 podem entrar na Associa\u00e7\u00e3o como iguais aos membros da na\u00e7\u00e3o conquistadora, e sob protesto contra a conquista. As se\u00e7\u00f5es irlandesas, portanto, n\u00e3o apenas est\u00e3o justificadas, mas podem inclusive adotar como pre\u00e2mbulo de seus estatutos a regra de que seu primeiro e mais urgente dever, como irlandeses, \u00e9 estabelecer sua pr\u00f3pria independ\u00eancia nacional. O antagonismo entre trabalhadores irlandeses e ingleses foi sempre um dos mais poderosos meios pelas quais a domina\u00e7\u00e3o de classe foi exercida na Inglaterra\u201d. Textos presentes em Marcello Musto (org.). Trabalhadores, uni-vos \u2013 antologia pol\u00edtica da I Internacional. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2014.<br \/>\n13 Refor\u00e7ando: \u201cEle [o trabalhador ingl\u00eas] aprecia os preconceitos sociais, religiosos e nacionais contra os trabalhadores irlandeses. A sua atitude \u00e9 muito parecida a dos \u2018brancos pobres\u2019 em rela\u00e7\u00e3o aos negros nos antigos estados escravistas dos EUA. Este antagonismo \u00e9 mantido vivo artificialmente, e \u00e9 intensificado pela imprensa, o p\u00falpito, os jornais c\u00f4micos, em resumo por todos os meios \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das classes dominantes. Este \u00e9 o segredo da impot\u00eancia da classe trabalhadora [\u2026]. \u00c9 o segredo pelo qual a classe capitalista mant\u00e9m seu poder. E essa classe \u00e9 plenamente consciente disso\u201d. Carta de 9 de abril de 1870 a Meyer e Vogt, escrita por Marx (MARX, 1975).<br \/>\n14 \u201cOs povos modernos souberam apenas disfar\u00e7ar a escravid\u00e3o em seus pr\u00f3prios pa\u00edses e impuseram-na sem v\u00e9us no novo mundo.\u201d Karl Marx, Mis\u00e9ria da filosofia (trad. Jos\u00e9 Paulo Netto, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2017, p. 104).<br \/>\n15 Os escritos com essas reflex\u00f5es de Marx e Engels foram publicados no Brasil pela Boitempo com o t\u00edtulo Lutas de classes na R\u00fassia, em 2013). A organiza\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o do volume \u00e9 de Michael L\u00f6wy.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>ARENDT, Hannah. Sobre a revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<br \/>\nJAMES, C. L. R. Os jacobinos negros: Toussaint L\u2019Ouverture e a revolu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Domingos. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2016.<br \/>\nLOSURDO, Domenico. Contra-hist\u00f3ria do liberalismo. Ideias &amp; Letras, S\u00e3o Paulo: 2006.<br \/>\n______. Guerra e revolu\u00e7\u00e3o: o mundo um s\u00e9culo ap\u00f3s Outubro de 1917. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2017.<br \/>\n______. A luta de classes: uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2015.<br \/>\n______. O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu e como pode renascer. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2018.<br \/>\n______. Liberalismo: entre a civiliza\u00e7\u00e3o e a barb\u00e1rie. S\u00e3o Paulo: Anita Garibaldi, 2006.<br \/>\nMARX, Karl. Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2008.<br \/>\n_______. \u201cTrabalho assalariado e capital\u201d, em: Obras Escolhidas de Marx e Engels. Lisboa: Editora \u201cAvante!\u201d, 1982,<br \/>\n_______. \u201cCarta de 9 de abril de 1870 a Meyer e Vogt\u201d. Londres: Progress Publisher, 1975, p. 220-4.<br \/>\n_______. O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2013.<br \/>\n_______. \u201cOs resultados eventuais da domina\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica na \u00cdndia\u201d, 2003.<br \/>\nMARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alem\u00e3. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2007.<br \/>\n__________. Lutas de classes na R\u00fassia. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2013.<br \/>\nMORAES, Jo\u00e3o Quartim de. \u201cContra a canoniza\u00e7\u00e3o da democracia\u201d. Cr\u00edtica Marxista, n. 12, p. 9-40. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2001.<br \/>\nMUSTO, Marcello (org.). Trabalhadores, uni-vos! Antologia pol\u00edtica da I Internacional. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2014.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dicas de leitura<\/p>\n<p>Crise e pandemia, de Alysson Leandro Mascaro.<br \/>\nO marxismo ocidental, de Domenico Losurdo.<br \/>\nMarx nas margens: nacionalismo, etnias e sociedades n\u00e3o ocidentais, de Kevin B. Anderson.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p>\u00c1rea de anexos<br \/>\nVisualizar o v\u00eddeo O que \u00e9 revisionismo hist\u00f3rico? | DOMENICO LOSURDO [legendado] do YouTube<\/p>\n<p>Visualizar o v\u00eddeo O que \u00e9 ACUMULA\u00c7\u00c3O PRIMITIVA? | L\u00e9xico Marx, com Virg\u00ednia Fontes do YouTube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25915\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[224],"class_list":["post-25915","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6JZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25915","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25915"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25915\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}