{"id":25974,"date":"2020-08-10T21:33:06","date_gmt":"2020-08-11T00:33:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25974"},"modified":"2020-08-10T21:33:06","modified_gmt":"2020-08-11T00:33:06","slug":"se-encanta-o-bispo-da-libertacao-dom-pedro-casaldaliga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25974","title":{"rendered":"Se encanta o bispo da liberta\u00e7\u00e3o, Dom Pedro Casald\u00e1liga"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/racismoambiental.net.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pedro-casaldaliga-750x410.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por<\/p>\n<p>Roberto Arrais*<\/p>\n<p>BLOG FALOU E DISSE<\/p>\n<p>Natural de Balsareny, na brava regi\u00e3o da Catalunha, Espanha, onde nasceu em 16 de fevereiro de 1928, o padre Pedro Casald\u00e1liga chegou ao Brasil em janeiro de 1968, em plena ditadura civil-militar implantada em 1964 e referendada de forma ainda mais monstruosa no ano de sua chegada, com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00famero 05, o AI-5, que endureceu o regime, mas que alguns saudosistas do fascismo teimam em vangloriar, o que significa aplaudir a tortura e a viol\u00eancia contra as liberdades.<\/p>\n<p>Foi consagrado bispo de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia (MT) pelo papa Paulo VI, em 1971. Na sua Carta Pastoral, afirmou: \u201cUma Igreja da Amaz\u00f4nia em conflito com o latif\u00fandio e a marginaliza\u00e7\u00e3o social\u201d. Nessa Carta ele mostrou seu compromisso com os povos da floresta, com os ind\u00edgenas, quilombolas, pe\u00f5es, agricultores e escravizados.<\/p>\n<p>Dom Pedro Casald\u00e1liga assumiu com todas as letras a denominada Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, transformando-se num problema para os latifundi\u00e1rios, madeireiros e os senhores representantes da ditadura, que davam abrigo a esses exploradores da regi\u00e3o. Ele tornou-se a voz dos \u00edndios, dos ribeirinhos, dos povos da floresta, unindo sua vis\u00e3o evangelizadora com a voz da classe.<\/p>\n<p>Com isso, foi se transformando numa voz nacional e que repercutia internacionalmente ao denunciar as persegui\u00e7\u00f5es e os crimes cometidos contra as lideran\u00e7as dos povos trabalhadores e ind\u00edgenas. A esse mesmo tempo, compunha versos na terra que ele passou a amar profundamente. \u201c(\u2026) No ventre de Maria\/ Deus se fez homem.\/ Mas, na oficina de Jos\u00e9\/ Deus tamb\u00e9m se fez classe (\u2026).\u201d Nesse verso ele se coloca como igreja que assume o lado dos trabalhadores na hist\u00f3rica luta de classes.<\/p>\n<p>\u201cFui naturalizado pela mal\u00e1ria\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Ao se transformar num dos mais destacados l\u00edderes da Igreja dos Oprimidos, o religioso come\u00e7a a sofrer amea\u00e7as dos latifundi\u00e1rios e mandantes da regi\u00e3o em conflito. Em 1977 ele \u00e9 convocado para depor na CPI da Terra e um dos deputados ligados ao latif\u00fandio levantou a seguinte quest\u00e3o: \u201cO que tinha a ver um bispo estrangeiro com conflitos de terra?\u201d E ele respondeu da seguinte forma: \u201cFui naturalizado pela mal\u00e1ria\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Ele foi construindo sua trajet\u00f3ria com coer\u00eancia e sempre em defesa dos mais sofridos e enfrentando as amea\u00e7as constantes que chegavam a ele atrav\u00e9s de recados e mensagens de que ele era um \u2018cabra marcado para morrer\u2019.<\/p>\n<p>Ele tinha uma vis\u00e3o de mundo bem coerente com a vis\u00e3o de outros bispos como Dom Evaristo Arns, em S\u00e3o Paulo; Dom Pel\u00e9, Jo\u00e3o Pessoa e Dom Helder C\u00e2mara, em Recife e Olinda. Todos esses religiosos ajudaram a organizar a luta da classe trabalhadora, abrindo suas dioceses para os movimentos e criando espa\u00e7os de evangeliza\u00e7\u00e3o como \u2018Encontro de Irm\u00e3os\u2019, \u2018Comunidades Eclesiais de Base\u2019, \u2018Pastoral da Terra\u2019, \u2018Pastoral Oper\u00e1ria\u2019, \u2018Pastoral da Juventude\u2019. Tamb\u00e9m abriram a Igreja de Jesus Oper\u00e1rio, para que as for\u00e7as de luta e resist\u00eancia pudessem adentrar e participar ativamente da luta cotidiana pelo direito a uma vida digna.<\/p>\n<p>Nos anos 70 militei \u2013 no bairro em que morava, Casa Amarela \u2013 na luta do Movimento \u2018Terras de Ningu\u00e9m\u2019, junto com camaradas que estavam tendo uma a\u00e7\u00e3o clandestina pelo PCB. Eram eles Jo\u00e3o do Cigarro, Manoel Marques e Vital. Atu\u00e1vamos junto com a Igreja da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, representada pelos padres Reginaldo Veloso, Humberto Plumem e Geraldo. Desse processo comecei a atuar como militante na A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Oper\u00e1ria (ACO), a convite de Arnaldo, desse movimento, e Padre Romano Zufferey, assistente da ACO em Pernambuco.<\/p>\n<p>Padre Romano sofreu um processo de expuls\u00e3o do Brasil, pois era su\u00ed\u00e7o, e o bispo Dom Pedro Casald\u00e1liga publicou carta e fez pronunciamentos contra essa persegui\u00e7\u00e3o, se solidarizando com a luta de resist\u00eancia que se processou aqui e no mundo. E finalmente o processo foi arquivado.<\/p>\n<p>Noutro poema o bispo-poeta Casald\u00e1liga escreve e descreve a \u201cConfiss\u00e3o do Latif\u00fandio\u201d: \u201cPor onde passei,\/ plantei\/ a cerca farpada,\/plantei a queimada.\/ Por onde passei,\/ plantei\/ a morte matada.\/ Por onde passei,\/ matei\/ a tribo calada,\/ a ro\u00e7a suada,\/ a terra esperada\u2026\/ Por onde passei,\/ tendo tudo em lei,\/ eu plantei o nada\u201d. Versos que demonstram sua vis\u00e3o firme de combate ao latif\u00fandio, um dos grandes respons\u00e1veis pela viol\u00eancia e injusti\u00e7a social.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do compromisso social com a luta dos povos da floresta ele tinha uma a\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica na defesa dos rios e da floresta amaz\u00f4nica. Num dos versos em que faz uma \u2018Louva\u00e7\u00e3o a comadre chuva\u2019, ele dizia: \u201c(\u2026) Para os compadres, vistosa:\/ respeitada at\u00e9 do sol,\/ Vens, por gra\u00e7a do Divino;\/ Faltas, por culpa de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m dedicou um poema ao capit\u00e3o Carlos Lamarca, reconhecendo sua luta guerrilheira pela liberta\u00e7\u00e3o do povo brasileiro. O poema intitulado \u201cSerra Lamarca\u201d destaca, em alguns de seus versos: \u201c(\u2026) Nos campos calados,\/ a muita pobreza\/ gritava.\/ Lamarca!\/ E a Serra Lamarca,\/ proa de futuro,\/ a noite rasgava\u201d.<\/p>\n<p>Ganhou destaque na constru\u00e7\u00e3o de frases com poesia e conte\u00fados relacionados \u00e0 vida e \u00e0 luta libert\u00e1ria, que denominou de \u201cNoemas\u201d. Destacamos algumas delas que ilustram muito bem a sua identidade, o seu jeito de pensar e de agir diante dos desafios do cotidiano: \u201cFazer do povo submisso\/ um povo impaciente.\/ Fundir os muitos c\u00f3rregos\/ numa torrente\u201d; Outra: \u201cSomos a solid\u00e3o que suportamos\/ que acolhemos,\/ que partilhamos,\/ que transcendemos\u201d; E mais outra: \u201cQuem souber somar conflitos\/ \u2013 e dividi-los por dois -\/ ganha consci\u00eancia de classe\u201d.<\/p>\n<p>O grande romancista sertanejo Guimar\u00e3es Rosa disse em sua obra \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d \u201c(\u2026) que os homens especiais n\u00e3o morrem, eles se encantam (\u2026)\u201d.<\/p>\n<p>Dom Pedro Casald\u00e1liga se encantou neste dia 08 de agosto de 2020 pela floresta amaz\u00f4nica, pelo rio Araguaia e seus c\u00f3rregos, pelas comunidades ind\u00edgenas e ribeirinhas, para continuar semeando a liberta\u00e7\u00e3o do povo trabalhador brasileiro e do mundo.<\/p>\n<p>Perde o Brasil um de seus filhos de cora\u00e7\u00e3o, que mesmo n\u00e3o nascendo em terras brasileiras, aqui viveu sua paix\u00e3o pela terra, pelos rios, pela hist\u00f3ria e pela gente, especialmente da regi\u00e3o de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia.<\/p>\n<p>Roberto Arrais \u00e9 jornalista (rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico) e mestre em Gest\u00e3o P\u00fablica.<\/p>\n<p>Foto destaque: Jo\u00e3o Guerrero\/Revista CPT<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25974\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20],"tags":[222],"class_list":["post-25974","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6KW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25974"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25974\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}