{"id":26034,"date":"2020-08-24T14:25:55","date_gmt":"2020-08-24T17:25:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26034"},"modified":"2020-08-24T14:25:55","modified_gmt":"2020-08-24T17:25:55","slug":"nem-luto-nem-melancolia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26034","title":{"rendered":"Nem luto nem melancolia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/08\/nem-luto-nem-melancolia-iasi_dest.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>\u201cNa minha opini\u00e3o, a desorienta\u00e7\u00e3o e a paralisia<br \/>\nda nossa capacidade funcional, sob a qual penamos, s\u00e3o<br \/>\nessencialmente determinadas pela circunst\u00e2ncia de<br \/>\nn\u00e3o conseguirmos manter a nossa anterior atitude perante a<br \/>\nmorte e de ainda n\u00e3o termos achado outra nova\u201d<br \/>\nSIGMUND FREUD<\/p>\n<p>Mais de tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas infectadas. Mais de cem mil mortos. Os dados s\u00e3o estarrecedores por si mesmos, ainda mais se somarmos a esse quadro macabro os vinte milh\u00f5es de casos e os mais de setecentos mil mortos pela pandemia no mundo todo. Nossa rea\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 muito estranha. Parece-nos preocupar muito mais o andamento da vida, a suposta volta \u00e0 normalidade ou, pior, os efeitos econ\u00f4micos que podem se desencadear.<\/p>\n<p>Os seres humanos passaram a enterrar seus mortos, segundo os estudiosos1, h\u00e1 mais ou menos cento e trinta mil anos, associando ao evento formas ritual\u00edsticas e o uso de adornos corporais, urnas, artefatos e rituais f\u00fanebres. Para a famosa antrop\u00f3loga Margaret Mead, a primeira evid\u00eancia daquilo que seria a civiliza\u00e7\u00e3o humana poderia ser encontrado no f\u00f3ssil de um f\u00eamur cicatrizado, uma vez que isso indicaria que o grupo teria cuidado do ferido e n\u00e3o o abandonado para morrer.<\/p>\n<p>Parece haver uma rela\u00e7\u00e3o entre quantidade e qualidade no que tange a nossa rea\u00e7\u00e3o diante da morte. A morte de um ser distante costuma nos afetar pouco. Uma quantidade significativa, como em um acidente ou cat\u00e1strofe, pode gerar uma como\u00e7\u00e3o. No entanto, essa constata\u00e7\u00e3o nos deixa ainda mais incomodado uma vez que a atual pandemia parece indicar que em situa\u00e7\u00f5es em que esse n\u00famero ultrapassa cifras assustadoras acabamos por ficar diante de uma rea\u00e7\u00e3o de passividade e nega\u00e7\u00e3o anestesiante.<\/p>\n<p>A morte nos coloca diante de uma ambival\u00eancia. Ela \u00e9 vista como uma pura casualidade natural, como parte inevit\u00e1vel da exist\u00eancia, mas ao mesmo tempo como amea\u00e7a inexor\u00e1vel de destrui\u00e7\u00e3o da pessoa, como amea\u00e7a suprema e aterrorizante. Freud tendia a acreditar que a base de nossa atitude perante a morte residia nessa ambival\u00eancia: isto \u00e9, um mecanismo de defesa diante de uma amea\u00e7a de nossa pr\u00f3pria morte que ora a naturaliza como mera casualidade, ora nos serve de artif\u00edcio para contornar a culpa que adv\u00e9m do desejo inconsciente da morte de outra pessoa. Para ele, tal atitude desdobra-se no culto da separa\u00e7\u00e3o do corpo e da alma, fundamento de todo comportamento religioso.<\/p>\n<p>Freud acreditava que essa postura seria resultado de um processo civilizat\u00f3rio. Ou seja, seria inexistente no ser pulsional \u201cprimitivo\u201d movido por instintos e paix\u00f5es, em mais uma express\u00e3o da premissa freudiana da luta entre instinto (primitivo) e raz\u00e3o (civiliza\u00e7\u00e3o). \u00c9, no entanto, essa premissa que leva o pai da psican\u00e1lise ao espanto quando se defronta com a atitude dos povos que ele julgava \u201ccivilizados\u201d no exerc\u00edcio sistem\u00e1tico da matan\u00e7a na primeira grande guerra. Vejamos em suas palavras:<\/p>\n<p>\u201cEstava-se, pois, preparado para que a humanidade se visse ainda, por muito tempo, enredada em guerras entre os povos primitivos e os civilizados, entre ra\u00e7as humanas diferenciadas pela cor da pele e, inclusive, entre os povos menos evolu\u00eddos ou incultos da Europa. Mas das grandes na\u00e7\u00f5es da ra\u00e7a branca, dominadoras do mundo, \u00e0s quais coube a dire\u00e7\u00e3o da humanidade, que sabia estarem ocupadas com os interesses mundiais, e cujas cria\u00e7\u00f5es s\u00e3o os progressos t\u00e9cnicos no dom\u00ednio da natureza e os valores culturais, art\u00edsticos e cient\u00edficos, destes povos esperava-se que saberiam resolver de outro modo as suas disc\u00f3rdias e seus conflitos de interesses.\u201d<\/p>\n<p>Sigmund Freud, \u201cA nossa atitude diante da morte\u201d, Escritos sobre a guerra e a morte (Covilh\u00e3: Universidade de Beira Interior, 2009), p. 5.<\/p>\n<p>O texto \u00e9 de 1915 e trata da primeira guerra. Freud morreu em setembro de 1939, no mesmo m\u00eas e ano que Hitler invadia a Pol\u00f4nia e dava in\u00edcio \u00e0 Segunda Guerra Mundial, na qual as na\u00e7\u00f5es brancas a quem \u201ccoube a dire\u00e7\u00e3o da humanidade\u201d se mergulhariam de novo numa carnificina organizada a fim de resolver seus problemas na disputa dos \u201cinteresses mundiais\u201d. Acreditamos que sua rea\u00e7\u00e3o diante da Segunda Guerra n\u00e3o produziria no psicanalista o mesmo espanto que a primeira, ainda que o mesmo horror e avers\u00e3o. Freud era um homem da ci\u00eancia \u2013 e estes, como fica patente na frase apresentada, n\u00e3o s\u00e3o imunes ao preconceito. O tra\u00e7o distintivo \u00e9 que o cientista n\u00e3o procura esconder os fatos sob o ataque de argumentos e justificativas, mas se prop\u00f5e a entender aquilo que o confronta de forma inc\u00f4moda. Diante da eclos\u00e3o do conflito, Freud sentencia: \u201cA guerra, em que n\u00e3o quer\u00edamos acreditar, estalou e trouxe consigo a decep\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O problema, portanto, \u00e9 saber por que que as sociedades \u201ccivilizadas\u201d se entregavam \u00e0 barb\u00e1rie da guerra. O esfor\u00e7o das ditas na\u00e7\u00f5es civilizadas, prescrevendo aos indiv\u00edduos que dela participavam \u201celevadas normas morais\u201d, muitas vezes rigoros\u00edssimos, acabam por impor uma acentuada ren\u00fancia \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es. Imerso nisto que Freud denomina de \u201ccultura\u201d, o homem branco civilizado \u2013 contradizendo tudo aquilo que Maquiavel afirmou sobre o fen\u00f4meno pol\u00edtico moderno \u2013 estaria disposto a aceitar a ren\u00fancia das \u201cextraordin\u00e1rias vantagens que o uso da mentira e do engano proporcionam na luta contra os outros homens\u201d. Na guerra, no entanto, os mesmos Estados que se empenham em prescrever normas morais aos seus cidad\u00e3os se empenham em matar, mentir e promover o \u00f3dio contra outros povos, sobrepondo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de estrangeiro a de inimigo.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o nos alongarmos em demasia na an\u00e1lise do autor, bastaria dizer que para Freud o que a psican\u00e1lise chegou a constatar \u00e9 que os ditos instintos primitivos n\u00e3o desaparecem no ser civilizado, sendo antes, por assim dizer, canalizados em uma dire\u00e7\u00e3o positiva. Mais do que isso: que os seres humanos s\u00e3o constitu\u00eddos de instintos de natureza elementar, ligados \u00e0s necessidades primordiais que em si mesmos n\u00e3o s\u00e3o nem bons nem maus. Desta maneira, voltamos \u00e0 ambival\u00eancia, isto \u00e9, \u00e0 coexist\u00eancia numa mesma pessoa de um \u201cimenso amor e um intenso \u00f3dio\u201d. E, como sabemos, para a psican\u00e1lise esses impulsos frequentemente tomam a mesma pessoa por objeto \u2013 da\u00ed a ambival\u00eancia de amar quem tolhe seu desejo ou odiar quem \u00e9 objeto de seu afeto.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas os indiv\u00edduos como tamb\u00e9m as na\u00e7\u00f5es se edificam, segundo tal premissa, na ren\u00fancia dos instintos em nome da civiliza\u00e7\u00e3o. Ocorre que, diante das supostas vantagens de tal conduta, a sociedade torna-se o exerc\u00edcio sistem\u00e1tico de repress\u00e3o dos impulsos fundamentais, for\u00e7ando a maioria das pessoas a viver, nas palavras de Freud, \u201cmuito acima de seus meios\u201d, aceitando formalmente as imposi\u00e7\u00f5es morais e convivendo na pr\u00e1tica com seus impulsos, tornando-se pessoas hip\u00f3critas. Tal constata\u00e7\u00e3o leva a Freud a acreditar que uma determinada sociedade \u00e9 composta de fato muito mais por hip\u00f3critas do que por pessoas de cultura, de forma que chega a pensar se a hipocrisia n\u00e3o seria indispens\u00e1vel \u00e0 cultura. Quando vemos os horrores da guerra, diante da decep\u00e7\u00e3o com que se esperava da conduta civilizada, devemos nos lembrar que aqueles que praticam os horrores, de fato, \u201cn\u00e3o ca\u00edram t\u00e3o baixo como tem\u00edamos, porque n\u00e3o tinham subido t\u00e3o alto, como a seu respeito julg\u00e1vamos\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas o fato de multid\u00f5es se ocuparem em levar a cabo o horror da guerra, como tamb\u00e9m a constata\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 multid\u00f5es praticando uma esp\u00e9cie de \u201ccegueira l\u00f3gica\u201d (o termo \u00e9 do pr\u00f3prio Freud) faz com que cidad\u00e3os civilizados e cultos acabem por se apresentar com uma particular \u201cobstina\u00e7\u00e3o e credulidade acr\u00edtica perante afirma\u00e7\u00f5es mais discut\u00edveis\u201d. Interv\u00e9m aqui a racionaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como atitude cient\u00edfica, mas como mecanismo de defesa diante da emerg\u00eancia de impulsos que nos colocam diante de uma situa\u00e7\u00e3o de ambival\u00eancia. Por exemplo, uma vez dirigido meu \u00f3dio a um outro povo ou pa\u00eds, o desejo \u00e9 de sua aniquila\u00e7\u00e3o. No entanto, matar milhares de pessoas \u00e9 moralmente conden\u00e1vel\u2026 A menos que se trate de um povo \u201cperigoso\u201d, \u201cencarna\u00e7\u00e3o do mal\u201d, munido de \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d que podem atingir e pulverizar minha sala de estar e a garagem onde guardo meu carro de \u00faltimo tipo (mas para o qual ainda falta pagar quarenta e oito presta\u00e7\u00f5es) \u2013 a\u00ed sim, se torna justific\u00e1vel jogar bombas, destruir cidades, assassinar milhares de pessoas incluindo crian\u00e7as. Veja que o pr\u00f3prio Freud estaria disposto a aceitar que a guerra fosse o meio utilizado entre \u201cos povos primitivos e os civilizados, entre ra\u00e7as humanas diferenciadas pela cor da pele e, inclusive, entre os povos menos evolu\u00eddos ou incultos da Europa\u201d, mas se espanta quando a beliger\u00e2ncia se apresenta como recurso entre os \u201ccivilizados\u201d.<\/p>\n<p>Aqui, no entanto, entra de forma abrupta a morte na escala de um horror imensur\u00e1vel. Lembre-se que um dos primeiros mecanismos de defesa seria a naturaliza\u00e7\u00e3o da morte como mera casualidade inevit\u00e1vel, como parte da vida. Assim procedendo, todavia, operamos na verdade no sentido de \u201celimin\u00e1-la da vida\u201d, tentamos \u201csilenci\u00e1-la\u201d. A antiga atitude diante da morte n\u00e3o mais nos serve, mas ainda n\u00e3o se desenvolveu uma nova atitude, gerando desorienta\u00e7\u00e3o e paralisia. A matan\u00e7a em massa s\u00f3 pode ser racionalizada se for radicalmente atribu\u00edda a um outro, distante e distinto. No fundo, segue Freud, nos comportamos como se ningu\u00e9m acreditasse na pr\u00f3pria morte, ou, em outras palavras fosse imortal. A morte \u00e9 uma coisa que atinge os outros.<\/p>\n<p>Guardamos nossa atitude perante a morte para pessoas pr\u00f3ximas e queridas, ou para figuras her\u00f3icas que representam para n\u00f3s a interrup\u00e7\u00e3o que a morte configura, um aventureiro tentando subir ao cume de uma montanha, um time inteiro de jogadores mortos em um acidente de avi\u00e3o, um navio que se julgava imune a naufr\u00e1gios. A morte desse outro nos atinge por que nos colocamos catarticamente em seu lugar. A guerra e como veremos a pandemia, n\u00e3o comporta a atitude convencional diante da morte. As pessoas morrem, n\u00e3o como antes, mas aos milhares de forma que n\u00e3o podem ser consideradas acidente ou casualidade.<\/p>\n<p>Apesar de fen\u00f4meno distinto por sua natureza, o ser humano n\u00e3o pode reagir a ele a n\u00e3o ser com os meios psicol\u00f3gicos que disp\u00f5e. A morte da pessoa amada ou pr\u00f3xima, daqueles com que o indiv\u00edduo se identifica, ou mesmo uma abstra\u00e7\u00e3o qualquer que se coloque no lugar do objeto (como p\u00e1tria, liberdade ou algum outro valor), produz uma rea\u00e7\u00e3o que Freud descreve como luto. Em outras palavras, o trabalho ps\u00edquico que diante da constata\u00e7\u00e3o que o objeto amada n\u00e3o mais existe opera no sentido de retirar todo o investimento libidinal das liga\u00e7\u00f5es com este objeto3. A no\u00e7\u00e3o de trabalho aqui se apresenta uma vez que o psiquismo que tenta caminhar na dire\u00e7\u00e3o descrita enfrenta na verdade uma forte oposi\u00e7\u00e3o, pois ningu\u00e9m abandona o investimento da libido no objeto ainda que agora ausente. Resiste, se afasta da realidade, sofre, pode desenvolver o que Freud denomina de \u201cpsicose alucinat\u00f3ria do desejo\u201d. Mas o normal \u00e9 que a realidade acabe por se impor e o trabalho do luto est\u00e1 feito.<\/p>\n<p>Existiria um outro estado, que parte da mesma situa\u00e7\u00e3o de perda mas se caracteriza por um profundo esvaziamento do ego e um rebaixamento acentuado da autoestima, estado que Freud nomeia de melancolia. Diferente do luto, no qual o mundo se torna pobre e vazio, na melancolia \u00e9 o pr\u00f3prio ego que se esvazia levando a quadros de um profundo e doloroso des\u00e2nimo, a suspens\u00e3o do interesse pelo mundo externo, uma sentida perda da capacidade de amar, um rebaixamento muito mais acentuado da autoestima levando a autorrecrimina\u00e7\u00e3o e em casos mais agudos \u00e0 autopuni\u00e7\u00e3o. Outra diferen\u00e7a \u00e9 que na melancolia a perda do objeto parece se deslocar da consci\u00eancia, ao passo que no luto nada na perda \u00e9 propriamente inconsciente.<\/p>\n<p>Por mais interessantes que sejam as diferen\u00e7as entre os dois estados e certamente as implica\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas envolvidas, os que nos chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que ambos implicam num doloroso processo de desligamento do objeto. Ocorre, diz Freud em um coment\u00e1rio marginal (mas que para n\u00f3s assume car\u00e1ter determinante), que tal processo de desligamento envolve um custo psicol\u00f3gico muito grande, de tal forma que:<\/p>\n<p>\u201cSe o objeto n\u00e3o tiver para o ego um significado t\u00e3o grande, refor\u00e7ado por milhares de la\u00e7os, sua perda n\u00e3o se prestar\u00e1 a provocar um luto ou uma melancolia.\u201d<\/p>\n<p>A triste constata\u00e7\u00e3o que se nos imp\u00f5e e que remete \u00e0 primeira parte de nossa reflex\u00e3o sobre a guerra, \u00e9 que para boa parte de nossa popula\u00e7\u00e3o romperam-se os milhares de la\u00e7os e v\u00ednculos que os unia aos seus semelhantes. Os outros s\u00e3o apenas isso, outros. Mais que isso, inimigos e amea\u00e7as que se tornam objeto do \u00f3dio e n\u00e3o da identidade. O pa\u00eds fraturado racionalizou uma guerra interna que d\u00e1 vaz\u00e3o a um profundo ressentimento, como nos explicou Maria Rita Kehl em Ressentimento (Boitempo, 2020), de maneira que outro pode receber o investimento do \u00f3dio e sua aniquila\u00e7\u00e3o n\u00e3o se converter na ambiguidade que est\u00e1 na base tanto do luto como da melancolia. Sua morte \u00e9 somente isso, sua morte, seu desaparecimento. N\u00e3o diz respeito \u00e0quele que odiava, n\u00e3o remete \u00e0 sua pr\u00f3pria morte, nem move sua culpa por desej\u00e1-la. \u00c9 uma radical nega\u00e7\u00e3o da morte, o exerc\u00edcio supremo de silenci\u00e1-la e, portanto, uma brutal afirma\u00e7\u00e3o de imortalidade para aquele que a nega.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma mera fratura pol\u00edtica. Como imaginava Freud na defesa de sua desejada civiliza\u00e7\u00e3o, ela s\u00f3 poderia se impor por meio de um longo per\u00edodo de incid\u00eancia de uma cultura e dos meios de apresentar-se forte o suficiente diante das puls\u00f5es primordiais. Mas aquilo que se imp\u00f5e como civiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 nos alertava Walter Benjamin, pode se apresentar como barb\u00e1rie. Uma rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos que se apresenta como uma fantasmag\u00f3rica rela\u00e7\u00e3o entre coisas, seres humanos reificados e coisas fetichizadas. Uma sociabilidade em que pr\u00f3pria vida n\u00e3o \u00e9 mais que um meio de vida, em que os outros se degradam em meros meios de realiza\u00e7\u00e3o individual a serem usados e descartados. N\u00e3o nos surpreende, portanto, que os \u201cmilhares e la\u00e7os\u201d que se obliteram sob o manto mercantil das coisas acabem por fazer com que os outros n\u00e3o tenham um grande significado para muitos e suas morte n\u00e3o os toquem de forma alguma como uma perda.<\/p>\n<p>A pandemia, diferentemente da guerra, parece eliminar os tra\u00e7os inc\u00f4modos da intencionalidade, da defesa dos sagrados interesses mundiais, da defesa da civiliza\u00e7\u00e3o ou dos direitos de certos povos se afirmarem como dire\u00e7\u00e3o da humanidade. Na sua objetividade viral ela se espalha e mata, depois se espalha e volta a matar novamente. A racionaliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 a conhecida casualidade incontrol\u00e1vel, natural e inevit\u00e1vel. O outro que morre \u00e9 um ser descart\u00e1vel, n\u00e3o por ser o inimigo propriamente dito, mas por n\u00e3o ser aquele que se julga imortal. No in\u00edcio na pandemia da aids muitos a julgavam como um castigo que eliminaria os homossexuais, da mesma forma um rabino ortodoxo afirmou que a atual epidemia era a espada sagrada eliminando os pecadores at\u00e9 ser ceifado por ela. N\u00e3o nos esque\u00e7amos da \u201ccegueira l\u00f3gica\u201d e das extraordin\u00e1rias vantagens que a mentira proporciona na luta contra os outros. Nesse registro se inclui o \u201cv\u00edrus chin\u00eas\u201d, os rem\u00e9dios milagrosos, a relativiza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a (\u201cgripezinha\u201d, \u201cresfriadinho\u201d), a nega\u00e7\u00e3o do isolamento, o combate ao uso de m\u00e1scaras e outras manifesta\u00e7\u00f5es de irracionalidade (\u201cE da\u00ed?\u201d, \u201c\u00c9 a vida\u2026\u201d)<\/p>\n<p>Mais de tr\u00eas milh\u00f5es de casos e mais de cem mil mortes. Do meu ser s\u00e3o arrancados milhares de rostos, minhas m\u00e3os se tornam invis\u00edveis diante de meus olhos e a noite \u00e9 tomada por um rio de murm\u00farios que escapam dos corpos sem vida quando deito em minha cama. Hoje morreu uma pessoa que eu n\u00e3o conhecia, que nunca conhecerei e isso abre em mim um abismo que nem todas as palavras do mundo podem preencher. A indiferen\u00e7a e a nega\u00e7\u00e3o me apunhalam como uma segunda morte que segue as milhares de mortes e fico com a clara impress\u00e3o de que a senhora que cobre seu esqueleto com um manto escuro e segura a foice afiada em suas m\u00e3os levou muitas pessoas que j\u00e1 n\u00e3o estavam vivas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a vida que segue, \u00e9 a morte que segue em seu macabro trabalho ajudada pelas hordas daqueles que a amam mais do que a vida. Lutemos para que os arque\u00f3logos do futuro, quando escavarem os restos de nossa civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontrem como nossa principal realiza\u00e7\u00e3o a indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cToda tristeza do mundo<br \/>\nN\u00e3o cabe em meus olhos<br \/>\nPor isso a derramo neste rio<br \/>\nPara que outros matem sua sede\u201d<\/p>\n<p>Mauro Iasi<\/p>\n<p>NOTAS<br \/>\n1 Ver, por exemplo, BLUMRICH e NEVES em seu estudo \u2013 Quando passamos a enterrar nossos mortos \u2013 S\u00e3o Paulo: IEA da USP, 2020.<br \/>\n2 Sigmundo Freud, Luto e melancolia. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 33.<br \/>\n***<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n<p>\u00c1rea de anexos<br \/>\nVisualizar o v\u00eddeo Bolsonaro e o fetiche da mercadoria | Caf\u00e9 Bolchevique #1, com Mauro Iasi do YouTube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26034\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,197],"tags":[219],"class_list":["post-26034","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-saude","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6LU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26034","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26034"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26034\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26034"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26034"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26034"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}