{"id":2605,"date":"2021-07-08T22:44:26","date_gmt":"2021-07-09T01:44:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2605"},"modified":"2021-07-08T22:44:26","modified_gmt":"2021-07-09T01:44:26","slug":"a-fracassada-recuperacao-imperial-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2605","title":{"rendered":"A fracassada recupera\u00e7\u00e3o imperial dos EUA"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/the-american-flag-american-flag-imperialism.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->LavraPalavra<\/p>\n<p>Por Claudio Katz, via blog do autor, traduzido por Jo\u00e3o Pedro Noronha Ritter<\/p>\n<p>A ideologia imperial dos Estados Unidos enfrenta as mesmas dificuldades da concep\u00e7\u00e3o americanista do mundo. Ambos exaltam os valores do capitalismo, priorizam o individualismo, idealizam a competi\u00e7\u00e3o, glorificam o lucro, mistificam o risco, elogiam o enriquecimento e justificam a desigualdade.<\/p>\n<p>EM BUSCA DA SUPREMACIA<\/p>\n<p>A tentativa americana de recuperar o dom\u00ednio mundial \u00e9 a principal caracter\u00edstica do imperialismo do s\u00e9culo XXI. Washington pretende recuperar essa primazia diante das adversidades geradas pela globaliza\u00e7\u00e3o e pela multipolaridade. Enfrenta a ascens\u00e3o de um grande rival e a insubordina\u00e7\u00e3o de seus antigos aliados.<\/p>\n<p>A primeira pot\u00eancia perdeu autoridade e capacidade de interven\u00e7\u00e3o. Procura neutralizar a expans\u00e3o do poder mundial e a eros\u00e3o sistem\u00e1tica de sua lideran\u00e7a. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ele tentou v\u00e1rios caminhos sem sucesso para reverter seu decl\u00ednio e continua a sondar essa ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o baseadas no uso da for\u00e7a. Os Estados Unidos perderam o controle da pol\u00edtica internacional que exibiam no passado, mas mant\u00eam grande poder de fogo. Expande um arsenal destrutivo para for\u00e7ar sua pr\u00f3pria recomposi\u00e7\u00e3o. Esse comportamento confirma a aterrorizante din\u00e2mica do imperialismo como mecanismo de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na primeira metade do s\u00e9culo XX, as grandes pot\u00eancias contestaram a lideran\u00e7a mundial por meio da guerra. No per\u00edodo subsequente, os Estados Unidos exerceram essa lideran\u00e7a com interven\u00e7\u00f5es armadas na periferia para enfrentar a amea\u00e7a socialista. Atualmente, o capitalismo ocidental enfrenta uma crise muito severa com seu timoneiro danificado.<\/p>\n<p>Washington procura recuperar a supremacia em tr\u00eas \u00e1reas que definem o dom\u00ednio imperial: a gest\u00e3o dos recursos naturais, a subjuga\u00e7\u00e3o dos povos e a neutraliza\u00e7\u00e3o dos rivais. Todas as suas opera\u00e7\u00f5es visam capturar riquezas, reprimir rebeli\u00f5es e dissuadir concorrentes.<\/p>\n<p>O controle das mat\u00e9rias-primas \u00e9 essencial para sustentar a primazia militar e garantir suprimentos que impactam o curso da economia. A conten\u00e7\u00e3o das revoltas populares \u00e9 fundamental para estabilizar a ordem capitalista que o Pent\u00e1gono assegurou por d\u00e9cadas. Os Estados Unidos procuram manter a for\u00e7a com que tradicionalmente intervieram na Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica, Oriente M\u00e9dio e Sul da \u00c1sia. Ele tamb\u00e9m precisa lidar com o desafio chin\u00eas para derrotar outros rivais. Nessas batalhas s\u00e3o resolvidas o \u00eaxito ou naufr\u00e1gio da ressurrei\u00e7\u00e3o imperial dos EUA.<\/p>\n<p>A CENTRALIDADE B\u00c9LICA<\/p>\n<p>Imperialismo \u00e9 sin\u00f4nimo de poder militar. Todas as pot\u00eancias dominaram atrav\u00e9s desta carta, sabendo que o capitalismo n\u00e3o sobreviveria sem ex\u00e9rcitos. \u00c9 verdade que o sistema tamb\u00e9m recorre \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o, engano e desinforma\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o substitui a amea\u00e7a coercitiva pela simples proemin\u00eancia ideol\u00f3gica. Combina viol\u00eancia com consentimento e afirma um poder impl\u00edcito (soft power) que se baseia no poder expl\u00edcito (hard power).<\/p>\n<p>Esses fundamentos devem ser lembrados, diante das teorias que substituem o imperialismo pela hegemonia como um conceito ordenador da geopol\u00edtica contempor\u00e2nea. Certamente os poderosos refor\u00e7am sua prega\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da m\u00eddia. Eles desenvolvem um trabalho sistem\u00e1tico de desinforma\u00e7\u00e3o e oculta\u00e7\u00e3o da realidade. Eles tamb\u00e9m aperfei\u00e7oaram o uso das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e judiciais do Estado para garantir seus privil\u00e9gios. Mas, na ordem internacional, a supremacia das grandes pot\u00eancias se resolve por meio de amea\u00e7as militares.<\/p>\n<p>O sistema global opera com uma guerra comandada pelos Estados Unidos. Desde 1945, a primeira pot\u00eancia realizou 211 interven\u00e7\u00f5es em 67 pa\u00edses. Atualmente mant\u00e9m 250.000 soldados estacionados em 700 bases militares distribu\u00eddas em 150 na\u00e7\u00f5es (Chac\u00f3n, 2019). Essa megaestrutura tem guiado a pol\u00edtica americana desde o lan\u00e7amento das bombas at\u00f4micas em Nagasaki e Hiroshima e a forma\u00e7\u00e3o da OTAN como bra\u00e7o auxiliar do Pent\u00e1gono.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas principais ataques da guerra fria (Coreia em 1950-1953, Vietn\u00e3 em 1955-1975 e Afeganist\u00e3o em 1978-1989) demonstraram o alcance mortal desse poder. Washington construiu uma estrutura internacional de instala\u00e7\u00f5es militares sem precedentes na hist\u00f3ria (Mancillas, 2018).<\/p>\n<p>O controle das mat\u00e9rias-primas tem sido um fator determinante em muitas opera\u00e7\u00f5es militares e os massacres sofridos pelo Oriente M\u00e9dio para determinar quem det\u00e9m o petr\u00f3leo ilustram essa centralidade. Essa disputa iniciou a sangria do Iraque e da L\u00edbia e influenciou as incurs\u00f5es do Afeganist\u00e3o e da S\u00edria. As reservas de petr\u00f3leo bruto s\u00e3o tamb\u00e9m os saques cobi\u00e7ados pelos generais que organizam o ass\u00e9dio ao Ir\u00e3 e o cerco \u00e0 Venezuela.<\/p>\n<p>ECONOMIA ARMAMENTISTA<\/p>\n<p>A pol\u00edtica externa americana \u00e9 condicionada pela rede de empres\u00e1rios que se enriquecem com a guerra. Eles lucram com a fabrica\u00e7\u00e3o de explosivos que devem ser testados em algum canto do planeta. O aparato industrial-militar precisa desses conflitos. Ele prospera com gastos que aumentam n\u00e3o apenas em per\u00edodos de guerra intensa, mas tamb\u00e9m em fases de afrouxamento.<\/p>\n<p>Grande parte da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica ocorre na \u00f3rbita militar, sendo a ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o, a aeron\u00e1utica e a atividade espacial os epicentros dessa inova\u00e7\u00e3o. Os grandes fornecedores do Pent\u00e1gono aproveitam a prote\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento do Estado para fabricar aparelhos vinte vezes mais caros que seus equivalentes civis. Operam com grandes somas, em um setor aut\u00f4nomo das restri\u00e7\u00f5es competitivas do mercado (Katz, 2003).<\/p>\n<p>Este modelo de armas est\u00e1 se desenvolvendo em sintonia com as exporta\u00e7\u00f5es. As 48 grandes empresas do complexo militar-industrial controlam 64% da manufatura da guerra mundial. Entre 2015 e 2019, o volume de suas vendas cresceu 5,5% em rela\u00e7\u00e3o ao quinqu\u00eanio anterior e 20% em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo 2005-2009.<\/p>\n<p>Em 2017, os gastos militares globais atingiram seu n\u00edvel mais alto desde o fim da guerra fria (1,74 trilh\u00e3o de d\u00f3lares), com os Estados Unidos liderando todas as transa\u00e7\u00f5es (Ferrari, 2020). A primeira pot\u00eancia concentra metade dos gastos e patrocina as cinco principais empresas dessa atividade.<\/p>\n<p>A lideran\u00e7a tecnol\u00f3gica norte-americana depende dessa primazia internacional no setor b\u00e9lico. O desenvolvimento do capitalismo digital na \u00faltima d\u00e9cada passou por fabrica\u00e7\u00f5es militares pr\u00e9vias e \u00e9 congruente com o uso de armas dentro do pa\u00eds. Os Estados Unidos s\u00e3o o principal mercado para os 12 bilh\u00f5es de balas fabricadas anualmente. A Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Rifles oferece apoio material e cultural \u00e0 cont\u00ednua centralidade do Pent\u00e1gono.<\/p>\n<p>Mas essa centralidade da economia armamentista tamb\u00e9m gera muitas adversidades ao sistema produtivo. Requer um volume de financiamento que o pa\u00eds n\u00e3o pode prover com seus pr\u00f3prios recursos. O buraco est\u00e1 coberto por um d\u00e9ficit fiscal e endividamento externo que amea\u00e7am a domin\u00e2ncia do d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos sustentaram seu andaime militar desde o p\u00f3s-guerra com a grande d\u00edvida que imp\u00f4s a seus parceiros. Esse fardo encontra resist\u00eancia atualmente por aliados europeus e desencadeou uma crise de financiamento da OTAN. Com o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o Velho Continente se op\u00f5e \u00e0 utilidade de um dispositivo que Washington usa para seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>A economia militar dos Estados Unidos \u00e9 baseada em um modelo de altos custos e baixa competitividade. O gendarme do capitalismo conseguiu por muito tempo for\u00e7ar a subordina\u00e7\u00e3o de seus rivais desarmados. Mas ele n\u00e3o tem mais a mesma margem para administrar suas inova\u00e7\u00f5es onerosas na \u00e1rea militar. Outros pa\u00edses desenvolvem as mesmas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas com opera\u00e7\u00f5es mais baratas e eficientes na esfera civil.<\/p>\n<p>Os gastos com a guerra t\u00eam uma influ\u00eancia muito contradit\u00f3ria no ciclo da economia norte-americana. Ele direciona o n\u00edvel de atividade quando o Estado canaliza impostos para uma demanda cativa. Tamb\u00e9m absorve capital excedente que n\u00e3o encontra investimentos lucrativos em outros ramos. Mas em tempos adversos, aumenta o d\u00e9ficit fiscal e captura por\u00e7\u00f5es dos gastos p\u00fablicos que poderiam ser usados para numerosas aloca\u00e7\u00f5es produtivas. Em tais momentos, as receitas geradas pelos gastos militares com tecnologia e exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o compensam a deteriora\u00e7\u00e3o (e direcionamento desastroso) dos recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>AS GUERRAS DE NOVO TIPO<\/p>\n<p>A atual interven\u00e7\u00e3o externa dos Estados Unidos recria os velhos padr\u00f5es da a\u00e7\u00e3o imperial, mas a conspira\u00e7\u00e3o persiste como componente central dessas modalidades. A velha tradi\u00e7\u00e3o da CIA em golpes contra governos progressistas reapareceu em muitos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Washington tamb\u00e9m assume a \u201cguerra por procura\u00e7\u00e3o\u201d em \u00e1reas priorit\u00e1rias para perseguir as na\u00e7\u00f5es crucificadas pelo Departamento de Estado (China, R\u00fassia, Ir\u00e3, Cor\u00e9ia do Norte, Venezuela) (Petras, 2018).<\/p>\n<p>Mas o fracasso do Iraque marcou uma mudan\u00e7a nas modalidades de interven\u00e7\u00e3o. Esta ocupa\u00e7\u00e3o levou a um grande fracasso devido \u00e0 resist\u00eancia enfrentada no pa\u00eds e devido \u00e0 inconsist\u00eancia da pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o, este fiasco levou \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o das invas\u00f5es tradicionais por uma nova variedade de guerras h\u00edbridas (VVAA, 2019).<\/p>\n<p>Nessas incurs\u00f5es as atuais a\u00e7\u00f5es militares s\u00e3o substitu\u00eddas por um am\u00e1lgama de a\u00e7\u00f5es n\u00e3o convencionais, com maior peso de for\u00e7as paraestatais e uso crescente do terrorismo. Esse tipo de opera\u00e7\u00e3o predominou nos B\u00e1lc\u00e3s, S\u00edria, I\u00eamen e L\u00edbia (Korybko, 2020).<\/p>\n<p>Nestes casos, a a\u00e7\u00e3o imperial assume uma conota\u00e7\u00e3o policial de ass\u00e9dio, que privilegia a submiss\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria expl\u00edcita sobre os advers\u00e1rios. Essas interven\u00e7\u00f5es ampliam as opera\u00e7\u00f5es que a DEA aperfei\u00e7oou em sua batalha contra o tr\u00e1fico de drogas. O controle do pa\u00eds violado torna-se mais relevante (ou fact\u00edvel) do que a sua derrota, e a agress\u00e3o com alta tecnologia ocupa um lugar de destaque (\u201cguerras de quinta gera\u00e7\u00e3o\u201d).<\/p>\n<p>Em in\u00fameros casos, o componente terrorista dessas a\u00e7\u00f5es ultrapassou o curso tra\u00e7ado pela Casa Branca, gerando uma sequ\u00eancia aut\u00f4noma de a\u00e7\u00f5es destrutivas. Essa falta de controle foi verificada com o Taliban, inicialmente treinado no Afeganist\u00e3o para perseguir um governo pr\u00f3-sovi\u00e9tico. O mesmo aconteceu com os jihadistas, formados na Ar\u00e1bia Saudita para erodir os governos seculares do mundo \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Por meio de guerras h\u00edbridas, os Estados Unidos tentam controlar seus rivais, sem necessariamente realizar interven\u00e7\u00f5es b\u00e9licas. Combina o cerco econ\u00f4mico e a provoca\u00e7\u00e3o terrorista, com a promo\u00e7\u00e3o de conflitos \u00e9tnicos, religiosos ou nacionais em pa\u00edses estigmatizados. Tamb\u00e9m encoraja a canaliza\u00e7\u00e3o do descontentamento da direita por meio de l\u00edderes autorit\u00e1rios que lucraram com as \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d. Estas opera\u00e7\u00f5es permitiram que v\u00e1rios pa\u00edses do Leste Europeu se juntassem ao cerco da OTAN contra a R\u00fassia.<\/p>\n<p>As guerras h\u00edbridas incluem campanhas de m\u00eddia mais difundidas do que a velha muni\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra contra o comunismo. Com novos inimigos (terrorismo, islamistas, narcotr\u00e1fico), amea\u00e7as (Estados falidos) e perigos (expansionismo chin\u00eas), Washington desenvolve suas campanhas, por meio de uma extensa rede de funda\u00e7\u00f5es e ONGs. Ele tamb\u00e9m usa a guerra de informa\u00e7\u00e3o nas redes sociais.<\/p>\n<p>Os ataques imperialistas incluem uma nova variedade de recursos. Basta observar o que aconteceu na Am\u00e9rica do Sul com a opera\u00e7\u00e3o implementada por diversos ju\u00edzes e meios de comunica\u00e7\u00e3o contra lideran\u00e7as progressistas (lawfare), para medir o alcance dessas conspira\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, essas agress\u00f5es causam como\u00e7\u00f5es sem precedentes em in\u00fameros n\u00edveis.<\/p>\n<p>CEN\u00c1RIOS CA\u00d3TICOS<\/p>\n<p>Durante a primeira metade do s\u00e9culo XX, as guerras assumiram uma escala industrial, com massas de soldados exterminados pela m\u00e1quina de guerra \u2013 e tantos mortos an\u00f4nimos sepultados que essas guerras sem fim s\u00e3o rememoradas em tumbas de \u201csoldados desconhecidos\u201d (Traverso, 2019).<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, outra modalidade de atua\u00e7\u00e3o na guerra tem prevalecido com a diminui\u00e7\u00e3o do destacamento das tropas nos campos de batalha. Os Estados Unidos t\u00eam aperfei\u00e7oado essa abordagem, usando bombardeios a\u00e9reos que destroem aldeias sem a presen\u00e7a direta dos fuzileiros navais. Este tipo de interven\u00e7\u00e3o consolidou-se com o uso generalizado de drones e sat\u00e9lites.<\/p>\n<p>Com essas modalidades, o imperialismo do s\u00e9culo XXI destr\u00f3i ou balcaniza os pa\u00edses que impedem o ressurgimento da domina\u00e7\u00e3o norte-americana. O aumento do n\u00famero de membros das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u00e9 um indicador dessa remodela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o desarmada tem sido a principal afetada pelas incurs\u00f5es que desfizeram a antiga distin\u00e7\u00e3o entre combatentes e civis. Apenas 5% das v\u00edtimas da Primeira Guerra Mundial eram civis. Este n\u00famero subiu para 66% na Segunda Guerra Mundial e \u00e9 em m\u00e9dia de 80-90% nos conflitos atuais (Hobsbawm, 2007: Cap. 1).<\/p>\n<p>As opera\u00e7\u00f5es apoiadas pelo Pent\u00e1gono varreram definitivamente todas as normas das Conven\u00e7\u00f5es de Haia (1899 e 1907), que distinguiam fardados de civis. A mesma dissolu\u00e7\u00e3o ocorre nos conflitos externos e internos de v\u00e1rios estados nacionais. A fronteira entre paz e guerra se turvou, aumentando o sofrimento indescrit\u00edvel dos refugiados. A ag\u00eancia que calcula o n\u00famero de pessoas sem abrigo registrou em 2019 um total de 79,5 milh\u00f5es de pessoas desalojadas.<\/p>\n<p>Este n\u00famero monumental de transfer\u00eancias for\u00e7adas ilustra o grau de viol\u00eancia elevada. Embora os conflitos n\u00e3o alcancem a escala generalizada do passado, as suas consequ\u00eancias sobre os civis s\u00e3o proporcionalmente maiores.<\/p>\n<p>A agress\u00e3o imperialista rompe sistematicamente as fronteiras entre os pa\u00edses. Ela imp\u00f5e uma reformula\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica que contrasta com as r\u00edgidas barreiras das fronteiras da Guerra Fria. Essas linhas definiam campos estritos de enfrentamento e continham rigidamente as popula\u00e7\u00f5es em suas localidades de origem.<\/p>\n<p>Os atuais surtos de guerra elevam os efeitos da crescente press\u00e3o da emigra\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o aos centros do hemisf\u00e9rio norte. A fuga da guerra converge com a fuga em massa da devasta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sofrida por v\u00e1rios pa\u00edses da periferia.<\/p>\n<p>O imperialismo dos EUA \u00e9 a principal causa das trag\u00e9dias das guerras contempor\u00e2neas. Ele fornece armas, promove tens\u00f5es raciais, religiosas ou \u00e9tnicas e promove pr\u00e1ticas terroristas que destroem os pa\u00edses afetados (Armanian, 2017).<\/p>\n<p>O que aconteceu no mundo \u00e1rabe ilustra essa sequ\u00eancia de eventos. Sob as ordens de sucessivos presidentes, os Estados Unidos implementaram a demoli\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o (Reagan-Carter), do Iraque (Bush) e da S\u00edria (Obama). Esses massacres envolveram 220.000 mortes no primeiro pa\u00eds, 650.000 no segundo e 250.000 no terceiro. A desintegra\u00e7\u00e3o social e o ressentimento pol\u00edtico gerado por esses massacres, por sua vez, desencadearam ataques suicidas nos pa\u00edses centrais. O terror levou a respostas cegas de mais terror.<\/p>\n<p>Atrocidades imperiais minaram os pr\u00f3prios objetivos iniciais dessas incurs\u00f5es. Para deslocar Gaddafi, o imperialismo pulverizou a integridade territorial da L\u00edbia e desfez o sistema de comunica\u00e7\u00f5es constru\u00eddo no Norte da \u00c1frica para conter a emigra\u00e7\u00e3o para a Europa. O pa\u00eds se tornou um centro de explora\u00e7\u00e3o de migrantes, dirigido pelas m\u00e1fias que o Ocidente financiou para assumir o controle da L\u00edbia. Diante desse caos, as antigas metr\u00f3poles coloniais n\u00e3o projetam mais novas fronteiras formais. Eles apenas improvisam mecanismos de conten\u00e7\u00e3o de refugiados (Buxton; Akkerman, 2018).<\/p>\n<p>O Pent\u00e1gono tamb\u00e9m implantou cerca de 50 bases escondidas na \u00c1frica, enquanto as empresas petrol\u00edferas ocidentais controlam com a\u00e7\u00e3o armada seus campos na Nig\u00e9ria, Sud\u00e3o e N\u00edger (Armanian, 2018). Esse apetite por recursos naturais \u00e9 o pano de fundo das trag\u00e9dias no continente negro. A a\u00e7\u00e3o imperial encorajou confrontos \u00e9tnicos ancestrais para aumentar a gest\u00e3o desses recursos.<\/p>\n<p>A FRATURA INTERNA<\/p>\n<p>O principal obst\u00e1culo para a recomposi\u00e7\u00e3o imperial dos EUA \u00e9 o colapso da coes\u00e3o interna no pa\u00eds. Durante d\u00e9cadas, esse foi o alicerce que sustentou a interven\u00e7\u00e3o da primeira pot\u00eancia no resto do mundo. Mas o gigante do Norte passou por uma mudan\u00e7a radical em consequ\u00eancia de retrocessos econ\u00f4micos, polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tens\u00f5es raciais e sua nova composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-populacional. A uniformidade cultural que alimentou o \u201csonho americano\u201d desapareceu, e os Estados Unidos enfrentam uma divis\u00e3o interna sem precedentes.<\/p>\n<p>As divis\u00f5es corroeram as condi\u00e7\u00f5es de sustenta\u00e7\u00e3o da interfer\u00eancia norte-americana no exterior. As opera\u00e7\u00f5es militares n\u00e3o t\u00eam o respaldo do passado e foram afetadas pelo fim do recrutamento obrigat\u00f3rio. Washington n\u00e3o embarca mais em suas incurs\u00f5es com um ex\u00e9rcito de alistados involuntariamente, nem justifica suas a\u00e7\u00f5es com mensagens de fidelidade cega \u00e0 bandeira. Para realizar opera\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, optou pelo uso de armamentos mais limitados e precisos. Prioriza o impacto na m\u00eddia e a conten\u00e7\u00e3o de baixas em suas pr\u00f3prias fileiras.<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o da guerra sintetiza essas tend\u00eancias. O uso de mercen\u00e1rios e mil\u00edcias contratadas para negociar o pre\u00e7o de cada massacre se generalizou. Esta forma de beliger\u00e2ncia sem o compromisso da popula\u00e7\u00e3o explica a perda de interesse geral nas a\u00e7\u00f5es imperialistas. Guerras sem recrutas exigem gastos maiores, mas atenuam a resist\u00eancia interna. Elas inclusive evitam a percep\u00e7\u00e3o das falhas em territ\u00f3rios distantes (Iraque, Afeganist\u00e3o) como adversidades pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>No entanto, a contrapartida dessa ruptura \u00e9 a crescente dificuldade imperial em se aventurar em projetos mais ambiciosos. \u00c9 muito dif\u00edcil reconquistar a lideran\u00e7a global sem a ades\u00e3o de segmentos significativos da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O imperialismo do p\u00f3s-guerra foi baseado em uma autoridade oficial que se dissipou. O fim do alistamento em massa introduziu um novo direito democr\u00e1tico, que paradoxalmente prejudica a capacidade do estado dos EUA de recuperar seu poder imperial decadente (Hobsbawm, 2007: cap. 5).<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o da guerra acentua, por sua vez, os efeitos traum\u00e1ticos da separa\u00e7\u00e3o entre os militares e a popula\u00e7\u00e3o. O trauma dos regressos do Iraque ou Afeganist\u00e3o ilustra esse efeito. O uso de mercen\u00e1rios tamb\u00e9m expande a militariza\u00e7\u00e3o interna e a explos\u00e3o incontrol\u00e1vel de viol\u00eancia causada pelo livre porte de armas.<\/p>\n<p>Essa sequ\u00eancia de corros\u00f5es assume um alcance maior com a canaliza\u00e7\u00e3o de descontentamento social da direita. Manifestado no Tea Party, consolidou-se com o trumpismo.<\/p>\n<p>Xenofobia, chauvinismo e supremacia branca se espalharam com discursos racistas que culpam minorias, migrantes e estrangeiros pelo decl\u00ednio dos Estados Unidos. Mas essa f\u00faria nacionalista apenas aprofunda a fratura interna, sem recriar a extensa base social que o imperialismo norte-americano usou para invadir no exterior.<\/p>\n<p>OS FRACASSOS DE TRUMP<\/p>\n<p>Os \u00faltimos quatro anos forneceram um retrato n\u00edtido da tentativa fracassada dos EUA de reconquistar o dom\u00ednio imperial. Trump priorizou a recomposi\u00e7\u00e3o da economia nacional e esperava usar a superioridade militar do pa\u00eds para impulsionar um novo arranque produtivo.<\/p>\n<p>Apesar deste suporte, ele enfrentou negocia\u00e7\u00f5es externas muito duras no esfor\u00e7o de estender ao plano comercial as vantagens monet\u00e1rias que o d\u00f3lar mant\u00e9m. Ele promoveu acordos bilaterais e questionou o livre com\u00e9rcio para tirar vantagem da primazia financeira de Wall Street e do Federal Reserve.<\/p>\n<p>Trump tentou preservar a supremacia tecnol\u00f3gica por meio de demandas crescentes de pagamento de propriedade intelectual. Com o controle da financeiriza\u00e7\u00e3o e do capitalismo digital, ele esperava forjar um novo equil\u00edbrio entre os setores globais e americanos da classe dominante. Ele apostou em combinar protecionismo local com neg\u00f3cios globais.<\/p>\n<p>O bilion\u00e1rio priorizou a conten\u00e7\u00e3o da China. Ele lutou brutalmente para reduzir o d\u00e9ficit comercial, para repetir a submiss\u00e3o que Reagan imp\u00f4s ao Jap\u00e3o na d\u00e9cada de 1980. Ele tamb\u00e9m buscou consolidar uma primazia sobre a Europa, aproveitando a exist\u00eancia de um aparato estatal unificado em oposi\u00e7\u00e3o aos concorrentes transatl\u00e2nticos que n\u00e3o conseguiram estender sua unifica\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria ao plano fiscal e banc\u00e1rio. Sob o pretexto de uma desordem improvisada, o ocupante da Casa Branca concebeu um ambicioso plano de recupera\u00e7\u00e3o dos EUA (Katz, 2020).<\/p>\n<p>Mas sua estrat\u00e9gia dependia do aval de aliados (Austr\u00e1lia, Ar\u00e1bia Saudita, Israel), da subordina\u00e7\u00e3o dos s\u00f3cios (Europa, Jap\u00e3o) e da complac\u00eancia de um advers\u00e1rio (R\u00fassia) para for\u00e7ar a capitula\u00e7\u00e3o de outro (China). Trump n\u00e3o conseguiu esses alinhamentos e o novo arranque norte-americano falhou desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>O confronto com a China foi seu principal fracasso. As amea\u00e7as n\u00e3o intimidaram o drag\u00e3o asi\u00e1tico, que aceitou mais importa\u00e7\u00f5es e menos exporta\u00e7\u00f5es sem validar a abertura financeira e o freio aos investimentos tecnol\u00f3gicos. A China n\u00e3o acomodou sua pol\u00edtica monet\u00e1ria \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de um devedor que colocou a maior parte de seus t\u00edtulos em bancos asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Nem os s\u00f3cios dos Estados Unidos desistiram de neg\u00f3cios com o grande cliente asi\u00e1tico. A Europa n\u00e3o aderiu ao confronto com a China, e a Inglaterra continuou a jogar seu pr\u00f3prio jogo no mundo. Para finalizar, a China aumentou seu com\u00e9rcio com todos os pa\u00edses do hemisf\u00e9rio americano (Merino, 2020).<\/p>\n<p>Trump s\u00f3 conseguiu induzir um al\u00edvio econ\u00f4mico, sem reverter nenhum desequil\u00edbrio significativo da economia norte-americana. Essa falta de resultados veio \u00e0 tona na crise precipitada pela pandemia e em sua pr\u00f3pria expuls\u00e3o da Casa Branca.<\/p>\n<p>As mesmas adversidades foram constatadas na \u00f3rbita geopol\u00edtica. Trump tentou neutralizar o pesado legado de fracassos militares. Ele foi favor\u00e1vel a uma abordagem mais cautelosa das aventuras de guerra em face do fiasco do Iraque, da degrada\u00e7\u00e3o da Som\u00e1lia e dos debates sobre a S\u00edria.<\/p>\n<p>Para reverter as campanhas malsucedidas de Bush, ele ordenou a retirada das tropas nos locais mais expostos. Ele transferiu as opera\u00e7\u00f5es para seus parceiros sauditas e israelenses e reduziu o protagonismo pr\u00e9vio das tropas norte-americanas. Ele apoiou a anexa\u00e7\u00e3o da Cisjord\u00e2nia e os massacres dos iemenitas, mas n\u00e3o comprometeu o Pent\u00e1gono a outra interven\u00e7\u00e3o. Ele retirou os fuzileiros navais da crise na L\u00edbia, retirou tropas da S\u00edria e abandonou os aliados curdos. Naquela regi\u00e3o, ele endossou a crescente interven\u00e7\u00e3o da Turquia e consentiu com a preemin\u00eancia da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Trump novamente experimentou a mesma impot\u00eancia de seus predecessores no controle da prolifera\u00e7\u00e3o do poder nuclear. Essa incapacidade de restringir a posse de bombas at\u00f4micas a um seleto clube de pot\u00eancias ilustra as limita\u00e7\u00f5es norte-americanas. Os Estados Unidos n\u00e3o podem ditar o curso do planeta se uma determinada quantidade de pa\u00edses compartilha o poder de convencimento via amea\u00e7a concedida pela sua capacidade nuclear.<\/p>\n<p>Os acordos fracassados com a Coreia do Norte confirmaram essas fraquezas de Washington. Kim aperfei\u00e7oou a estrutura dos m\u00edsseis e rejeitou a oferta de desarmamento em troca de suprimentos de energia ou alimentos. Ele sabe que s\u00f3 o poder nuclear impede que se repita em seu pa\u00eds o que aconteceu no Iraque, na L\u00edbia ou na Iugosl\u00e1via.<\/p>\n<p>Esse abrigo at\u00f4mico \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o contra um imp\u00e9rio que imp\u00f4s a divis\u00e3o da pen\u00ednsula coreana e rejeita qualquer acordo de reunifica\u00e7\u00e3o. Os Estados Unidos vetam constantemente avan\u00e7os na proposta russo-chinesa de frear a militariza\u00e7\u00e3o de ambos os lados (Gand\u00e1segui, 2017). Mas depois de v\u00e1rias amea\u00e7as, Trump guardou sua pose arrogante e aceitou a simples continuidade das negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma barreira muito semelhante foi encontrada no Ir\u00e3. Tamb\u00e9m a\u00ed a prioridade imperialista tem sido travar o desenvolvimento nuclear para garantir o monop\u00f3lio at\u00f4mico regional de Israel. Trump quebrou o acordo de desarmamento assinado por Obama que o reconhecimento internacional tornou vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ele redobrou as provoca\u00e7\u00f5es com embargos e ataques. O assassinato do general Soleimani foi o cl\u00edmax dessa agress\u00e3o. Foi um flagrante ato de terrorismo contra o chefe de gabinete de um pa\u00eds que n\u00e3o praticou nenhuma agress\u00e3o contra os Estados Unidos. Mas esse tipo de crime \u2013 seguido da elimina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios cientistas de alto escal\u00e3o \u2013 falhou em impedir a incorpora\u00e7\u00e3o gradual do Ir\u00e3 ao clube de pa\u00edses protegidos pela armadura at\u00f4mica.<\/p>\n<p>Essa mesma dissemina\u00e7\u00e3o do poder nuclear impede que Washington imponha sua arbitragem em outros conflitos regionais. As tens\u00f5es entre Paquist\u00e3o e \u00cdndia, por exemplo, ocorrem entre dois ex\u00e9rcitos com este tipo de armamento e uma consequente capacidade de se tornarem aut\u00f4nomos da tutela imperialista.<\/p>\n<p>Trump tamb\u00e9m falhou em seus ataques contra a Venezuela. Ele promoveu todas as conspira\u00e7\u00f5es imagin\u00e1veis para recuperar o controle da principal reserva de petr\u00f3leo do hemisf\u00e9rio, mas foi incapaz de subjugar o Chavismo. Suas amea\u00e7as esbarraram na impossibilidade de repetir as antigas interven\u00e7\u00f5es militares na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A NOVA ESTRAT\u00c9GIA DE REARMAMENTO<\/p>\n<p>Trump n\u00e3o se limitou em conter a presen\u00e7a militar no exterior na esperan\u00e7a de real\u00e7ar a economia. Ele aumentou drasticamente o or\u00e7amento militar para descartar qualquer sugest\u00e3o de uma retirada imperial efetiva. Essas despesas saltaram de $ 580 bilh\u00f5es (2016) para $ 713 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (2020). Ele garantiu lucros recordes aos fabricantes de m\u00edsseis e testou uma megabomba de alcance sem precedentes no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Trump relan\u00e7ou o programa Star Wars[1] e quebrou os tratados de desarmamento nuclear. Ele tamb\u00e9m endossou a mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cGrande Competi\u00e7\u00e3o de Pot\u00eancia\u201d (GPC), substituindo a \u201cGuerra Global contra o Terrorismo\u201d (GWOT). Essa mudan\u00e7a tende a substituir a identifica\u00e7\u00e3o, rastreamento e destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as adversas em \u00e1reas remotas da \u00c1sia, \u00c1frica ou Oriente M\u00e9dio por um rearmamento preparat\u00f3rio de conflitos mais convencionais. Essa reviravolta encerrou o cap\u00edtulo das incurs\u00f5es de Bush em \u00e1reas remotas, para retomar o confronto tradicional com os inimigos do Pent\u00e1gono (Klare, 2020).<\/p>\n<p>Com essa perspectiva, Trump complementou a press\u00e3o comercial sobre a China com um grande deslocamento da frota no Pac\u00edfico. Ele exigiu a desmilitariza\u00e7\u00e3o da costa do mar do Sul da China para quebrar o escudo defensivo de seu rival. Ele refor\u00e7ou drasticamente o movimento de tropas, iniciado por Obama, do Oriente M\u00e9dio para o continente asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>A press\u00e3o sobre a China aumentou com a expans\u00e3o da marinha e a aquisi\u00e7\u00e3o de um n\u00famero impressionante de navios e submarinos. A For\u00e7a A\u00e9rea foi modernizada em sintonia com todas as inova\u00e7\u00f5es em intelig\u00eancia artificial e treinamento de guerra cibern\u00e9tica.<\/p>\n<p>Para atormentar a China, Trump refor\u00e7ou o bloco formado com \u00cdndia, Jap\u00e3o, Austr\u00e1lia e Coreia do Sul (o Quad). Esse alinhamento militar pressup\u00f5e que eventuais confrontos com Pequim ser\u00e3o travados nos oceanos Pac\u00edfico e \u00cdndico. Um conhecido conselheiro do Departamento de Estado localiza o resultado do confronto sino-americano naquela regi\u00e3o (Mearsheimer, 2020).<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia contra a R\u00fassia foi mais cautelosa e moldada \u00e0 tentativa inicial de atrair Putin para um acordo contra Xi Jinping. Do fracasso dessa opera\u00e7\u00e3o surgiram as iniciativas de refor\u00e7ar os ex\u00e9rcitos terrestres no continente europeu. A Casa Branca continuou seu trabalho de coopta\u00e7\u00e3o militar dos pa\u00edses vizinhos \u00e0 R\u00fassia e estendeu a rede de m\u00edsseis da OTAN das Rep\u00fablicas B\u00e1lticas e da Pol\u00f4nia at\u00e9 a Rom\u00eania.<\/p>\n<p>Com essa nova estrat\u00e9gia, o desenvolvimento de armas nucleares retomou sua antiga centralidade. Trump aprovou o desenvolvimento de muni\u00e7\u00f5es at\u00f4micas baseadas em ogivas de alcance limitado e m\u00edsseis bal\u00edsticos lan\u00e7ados pelo mar. A primeira s\u00e9rie dessas bombas j\u00e1 foi fabricada e entregue ao alto comando.<\/p>\n<p>Para desenvolver esses dispositivos explosivos, Trump quebrou os diversos tratados de racionaliza\u00e7\u00e3o nuclear conclu\u00eddos em 1987. Ele p\u00f4s fim ao mecanismo compat\u00edvel com a R\u00fassia de tornar a destrui\u00e7\u00e3o de armas obsoletas. Ele tamb\u00e9m patrocinou o primeiro teste de um m\u00edssil de m\u00e9dio alcance desde o fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>A nova estrat\u00e9gia de guerra explica a demanda brutal de maior financiamento europeu para a OTAN. O valent\u00e3o da Casa Branca lembrou ao Ocidente que ele deve pagar pela ajuda fornecida pelos Estados Unidos. Essa demanda gerou a maior tens\u00e3o transatl\u00e2ntica desde o p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>Trump tentou arrastar seus aliados para conflitos com a China e a R\u00fassia, que minam os neg\u00f3cios no Velho Continente. Nessa regi\u00e3o existe uma forte resist\u00eancia \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o promovida pelos Estados Unidos. Mas o capitalismo europeu n\u00e3o foi capaz de se emancipar da guerra belicista norte-americana e por isso acompanhou as incurs\u00f5es no Iraque e na Ucr\u00e2nia. Rejeitam a exig\u00eancia de mais gastos com a OTAN, mas sem romper com sua subordina\u00e7\u00e3o a Washington.<\/p>\n<p>O imperialismo alternativo da Europa concebe seu pr\u00f3prio sistema de defesa em estreita liga\u00e7\u00e3o com o Pent\u00e1gono e, por essa raz\u00e3o, n\u00e3o consegue a unifica\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio ex\u00e9rcito. H\u00e1 um div\u00f3rcio entre a supremacia militar da Fran\u00e7a e o poder econ\u00f4mico da Alemanha que impede a materializa\u00e7\u00e3o dessa iniciativa (Serfati, 2018).<\/p>\n<p>Trump foi incapaz de subjugar a Europa, mas seus interlocutores em Bruxelas, Paris e Berlim continuaram a n\u00e3o ter uma orienta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Essa indefini\u00e7\u00e3o aumentou a capacidade exibida pela R\u00fassia de conter a recomposi\u00e7\u00e3o imperial norte-americana. Putin refor\u00e7ou o dique defensivo que estabeleceu com Xi Jinping e saiu impune da queda de bra\u00e7o geopol\u00edtica na S\u00edria, na Crimeia e em Nagorno-Karabakh. O abismo cont\u00ednuo entre esses resultados e a desintegra\u00e7\u00e3o que prevaleceu na era Yeltsin \u00e9 muito vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Como a China n\u00e3o disputa com a mesma frontalidade geopol\u00edtica, suas conquistas s\u00e3o menos vis\u00edveis, mas exibe resultados econ\u00f4micos impressionantes na competi\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos. No final, Trump retratou a incapacidade americana de recuperar a primazia imperial.<\/p>\n<p>O ASSALTO AO CAPIT\u00d3LIO<\/p>\n<p>Trump se despediu com uma aventura que retrata a magnitude da crise pol\u00edtica americana. A invas\u00e3o do Congresso n\u00e3o foi um ato improvisado. Os grupos de extrema direita divulgaram o plano com anteced\u00eancia, financiaram viagens, reservaram hot\u00e9is e transportaram armas. Dentro do recinto, seguiram as vias de acesso aos escrit\u00f3rios indicados pelos congressistas c\u00famplices.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia criou uma zona de libera\u00e7\u00e3o e garantiu a presen\u00e7a dos agressores por horas. Se um grupo de afro-americanos tivesse tentado tal a\u00e7\u00e3o, eles teriam sido instantaneamente abatidos. Manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas neste mesmo lugar terminaram, nos \u00faltimos anos, com centenas de feridos e detidos.<\/p>\n<p>Trump participou diretamente do golpe. Ele instigou os manifestantes, manteve comunica\u00e7\u00e3o com seus l\u00edderes e prometeu apoi\u00e1-los. O objetivo da a\u00e7\u00e3o foi pressionar parlamentares republicanos que questionaram a contesta\u00e7\u00e3o do resultado eleitoral. Isso incluiu amea\u00e7as para for\u00e7\u00e1-los a seguir as instru\u00e7\u00f5es do presidente. Com a provoca\u00e7\u00e3o no Capit\u00f3lio, Trump tentou apoiar sua alega\u00e7\u00e3o absurda de fraude. Ele conseguiu manter a lealdade de uma centena de legisladores e atrasar o despejo, mas, no final, abandonou o jogo e condenou os ocupantes.<\/p>\n<p>O ataque foi t\u00e3o surreal quanto os esp\u00e9cimes que o perpetraram. O grupo de alucinados que foi fotografado nas poltronas do Congresso parecia extra\u00eddo de uma s\u00e9rie de fantasia da TV. Mas sua a\u00e7\u00e3o bizarra n\u00e3o apaga a marca fascista da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos os insanos que participaram do assalto fazem parte de uma ou de outra das mil\u00edcias da supremacia branca. Eles operam em seitas fan\u00e1ticas (QAnon Shaman) ou referem-se \u00e0 congressista que ganhou seu mandato com o s\u00edmbolo da metralhadora (Marjorie Taylor Greene). A pol\u00edcia que abriu as portas do Congresso tamb\u00e9m participa dessas forma\u00e7\u00f5es ultradireitistas.<\/p>\n<p>Os grupos paramilitares t\u00eam 50.000 membros bem equipados. Eles se especializam em atacar a juventude ou em manifesta\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e, h\u00e1 alguns meses, eles ensaiaram um tribunal do golpe na frente da legislatura de Michigan. Um quarto dessas mil\u00edcias \u00e9 formado por militares ou policiais, e essa filia\u00e7\u00e3o foi confirmada na lista dos presos pelo ataque ao Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p>A grande presen\u00e7a militar nos pelot\u00f5es fascistas for\u00e7ou dois pronunciamentos do alto comando rejeitando o envolvimento das for\u00e7as armadas nas aventuras do trumpismo. Dez ex-secret\u00e1rios de defesa assinaram esse aviso, e o FBI organizou a inaugura\u00e7\u00e3o de Biden com uma opera\u00e7\u00e3o sem precedentes para desmantelar poss\u00edveis ataques. Depois de muitos anos de liberdade de movimento e prega\u00e7\u00e3o, os grupos fascistas se tornaram a principal amea\u00e7a terrorista. Os supremacistas (e n\u00e3o os herdeiros de Bin Laden) s\u00e3o apontados como o grande perigo em ascens\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do que aconteceu com as Torres G\u00eameas, desta vez o inimigo \u00e9 interno.<\/p>\n<p>Esses grupos s\u00e3o sustentados por uma base social racista que atualizou os emblemas neo-confederados. Eles s\u00e3o uma retomada de ondas peri\u00f3dicas de rea\u00e7\u00e3o contra as conquistas democr\u00e1ticas. No passado, eles executaram escravos libertos ou violaram os direitos civis. Agora eles rejeitam a integra\u00e7\u00e3o racial, o multiculturalismo e a a\u00e7\u00e3o afirmativa.<\/p>\n<p>Os afro-americanos continuam a ser o principal alvo de um ressentimento que se estende aos imigrantes. Por esse motivo, o desafio ao resultado da elei\u00e7\u00e3o anti-Trump foi t\u00e3o intenso em estados com eleitores negros e latinos. Extremistas evang\u00e9licos acrescentam sua cruzada contra o aborto e o feminismo \u00e0 campanha ultraconservadora.<\/p>\n<p>O ataque ao Capit\u00f3lio n\u00e3o era a ant\u00edtese da realidade americana que Biden imaginou. Expressa o estado de agonia do sistema pol\u00edtico e complementa todas as anomalias que surgiram durante as elei\u00e7\u00f5es. A irrup\u00e7\u00e3o de fascistas armados no Congresso n\u00e3o \u00e9 estranha ao sistema eleitoral antidemocr\u00e1tico que a plutocracia governante criou.<\/p>\n<p>Tentativas de golpe era o \u00fanico ingrediente que faltava naquele esquema infame. As hordas de trumpianos preencheram esse vazio, enterrando toda a zombaria contra os regimes pol\u00edticos da Am\u00e9rica Latina. Desta vez, o epis\u00f3dio t\u00edpico de uma Rep\u00fablica das Bananas aconteceu em Washington. Os bandidos n\u00e3o invadiram os parlamentos de Honduras, Bol\u00edvia ou El Salvador. A opera\u00e7\u00e3o que o Departamento de Estado exporta e a embaixada ianque organiza foi feita em casa.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias pol\u00edticas desse epis\u00f3dio s\u00e3o incomensur\u00e1veis. Elas afetam diretamente a capacidade de interven\u00e7\u00e3o imperialista. A OEA ter\u00e1 que reinventar seus roteiros para condenar \u201cviola\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d em pa\u00edses que simplesmente imitam o que aconteceu em Washington. Deve tamb\u00e9m explicar por que a lideran\u00e7a dos republicanos e democratas tolerou essa incurs\u00e3o, sem qualquer retalia\u00e7\u00e3o contundente contra os respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os efeitos mais duradouros ainda s\u00e3o nebulosos, mas as compara\u00e7\u00f5es feitas com a captura de Roma pelos b\u00e1rbaros ou com as marchas de Mussolini ilustram a gravidade do ocorrido. V\u00e1rios historiadores avaliam que o pa\u00eds enfrenta o maior confronto interno desde a guerra civil do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>No futuro imediato, existem dois cen\u00e1rios opostos ao decl\u00ednio ou ressurgimento de Trump. Os expoentes da primeira notam, em particular, que a aventura do golpe acentuou uma deteriora\u00e7\u00e3o j\u00e1 sofrida pelo magnata, em consequ\u00eancia da pandemia e da derrota eleitoral (PSL, 2021; Na\u00edm, 2021). Ele foi liberado do cargo (Emenda 25), mas n\u00e3o de um impeachment que poderia desqualific\u00e1-lo no futuro. Ele acenou para funcion\u00e1rios desertores, rejei\u00e7\u00e3o de congressistas republicanos e um vergonhoso perd\u00e3o de seus c\u00famplices. A inaugura\u00e7\u00e3o militarizada dissuadiu as marchas planejadas para apoiar seu governo.<\/p>\n<p>Trump foi abandonado por setores financeiros e industriais que apoiaram sua campanha, e o setor de tecnologia o repudiou cortando suas contas no Twitter e no Facebook. O establishment teme os efeitos incontrol\u00e1veis das a\u00e7\u00f5es do ex-presidente. Se o decl\u00ednio de Trump for confirmado, o ataque ao Capit\u00f3lio ser\u00e1 comparado ao \u201cTejerazo\u201d da Espanha em 1981 (a tentativa final e fracassada do regime de Franco de reter o poder).<\/p>\n<p>Mas uma quantidade oposta de analistas estima que o que aconteceu n\u00e3o modificar\u00e1 a s\u00f3lida inser\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do trumpismo (Vandepitte, 2021; Farber, 2021; Post, 2020). O milion\u00e1rio tem uma base social que reuniu 47% dos eleitores e sujeitou o Partido Republicano \u00e0 sua lideran\u00e7a. Muitos legisladores repetiram sua f\u00e1bula de fraude eleitoral, com a adi\u00e7\u00e3o louca de que foi perpetrada por um grupo de esquerda fantasma (Antifas).<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o postula que o trumpismo se consolidou na estrutura do Estado (pol\u00edcia, ju\u00edzes, burocracia) e poderia construir uma terceira coluna para desafiar o bipartidarismo, caso n\u00e3o consiga domar o caldeir\u00e3o republicano. A desqualifica\u00e7\u00e3o de Trump seria neutralizada pelo protagonismo de seus filhos ou de algum outro sucessor. E a animosidade dos financistas seria compensada por outros contribuintes.<\/p>\n<p>Mas as duas op\u00e7\u00f5es de queda ou continuidade do trumpismo n\u00e3o dependem apenas do comportamento das elites e dos realinhamentos dos republicanos. Ainda pendente no p\u00f3lo oposto est\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o dos jovens, dos trabalhadores prec\u00e1rios, afro-americanos, feministas e latinos, que, antes do per\u00edodo eleitoral, ocupavam as ruas com grandes manifesta\u00e7\u00f5es. Se essas vozes voltarem a estar presentes \u2013 com a reivindica\u00e7\u00e3o de democratiza\u00e7\u00e3o do sistema eleitoral \u2013 o futuro do magnata se estabelecer\u00e1 em outro cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>CONTINUIDADES E QUEST\u00d5ES<\/p>\n<p>A sa\u00edda de Trump ir\u00e1 diminuir o tom da ret\u00f3rica imperial, mas n\u00e3o a intensidade da agress\u00e3o dos EUA. Com maior uso da diplomacia e da hipocrisia, Biden compartilha as pol\u00edticas de estado de seu antecessor.<\/p>\n<p>Os dois partidos do establishment alternaram-se na gest\u00e3o das estruturas que sustentam a preemin\u00eancia militar da pot\u00eancia dirigente. A evid\u00eancia desse belicismo compartilhado est\u00e1 al\u00e9m da conta. Os democratas n\u00e3o apenas iniciaram as grandes guerras na Coreia e no Vietn\u00e3, como Clinton e Obama autorizaram mais incurs\u00f5es externas do que Trump, e o pr\u00f3prio Biden apoiou a invas\u00e3o do Iraque em 2002, supervisionou a interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia e endossou o golpe em Honduras (Luzzani, 2020).<\/p>\n<p>O sistema imperial dos EUA \u00e9 baseado em um sistema pol\u00edtico n\u00e3o democr\u00e1tico que garante a distribui\u00e7\u00e3o regular de cargos p\u00fablicos entre os dois partidos tradicionais. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, foi particularmente vis\u00edvel como funcionam esses mecanismos de manipula\u00e7\u00e3o. Nos Estados Unidos, o princ\u00edpio elementar de uma pessoa-um voto n\u00e3o funciona. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 registro eleitoral federal ou uma \u00fanica autoridade eleitoral. Voc\u00ea tem que se registrar, e o vencedor de cada estado obt\u00e9m o voto do Col\u00e9gio Eleitoral.<\/p>\n<p>A plutocracia que administra esse sistema garante sua continuidade com o enorme financiamento de campanha fornecido por grandes empresas (US $ 10,8 bilh\u00f5es em 2020). Os 50 americanos mais ricos \u2013 que possuem uma riqueza equivalente a metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u2013 t\u00eam o controle do regime garantido. Apoiados nesta base, eles definem as estrat\u00e9gias imperiais usadas para ditar li\u00e7\u00f5es de democracia para o resto do mundo.<\/p>\n<p>Biden retoma a pol\u00edtica externa tradicional maculada pela c\u00f3lera do seu antecessor. Ele tenta naquele ambiente o mesmo retorno \u00e0 \u201cnormalidade\u201d que promete internamente. A m\u00eddia concorda com essa maquiagem.<\/p>\n<p>O novo residente da Casa Branca sustenta o neoliberalismo com alguns toques de progressismo na agenda das minorias, feminismo e mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Essa mesma mistura \u00e9 instrumental na arena estrangeira, cercando as diretrizes b\u00e1sicas do imp\u00e9rio com mais ornamentos de ret\u00f3rica amig\u00e1vel. Essa linha foi sugerida por consultores tradicionais do Departamento de Estado (Nye, 2020). Biden implementa essa combina\u00e7\u00e3o com base em sua longa experi\u00eancia de meio s\u00e9culo nos interst\u00edcios de Washington.<\/p>\n<p>Ele j\u00e1 colocou a mesma equipe de funcion\u00e1rios de Obama em cargos-chave da pol\u00edtica externa, mas n\u00e3o poder\u00e1 simplesmente repetir o globalismo multilateral desse governo. Com os acordos de livre com\u00e9rcio transpac\u00edfico e transatl\u00e2ntico, Obama fomentou uma rede de alian\u00e7as asi\u00e1ticas para cercar a China e uma estrutura de acordos com a Europa para isolar a R\u00fassia. Nenhum desses acordos p\u00f4de ser finalizado antes de seu sepultamento brutal pelo bilateralismo mercantilista de Trump. \u00c9 altamente improv\u00e1vel que Biden consiga retomar a abordagem anterior como o pilar econ\u00f4mico de sua estrat\u00e9gia imperial.<\/p>\n<p>Comandar os mega-acordos comerciais com a Europa e a \u00c1sia requer uma economia altamente eficiente que os Estados Unidos n\u00e3o administram mais. O d\u00f3lar, a alta tecnologia e o Pent\u00e1gono j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Nem mesmo no pr\u00f3prio hemisf\u00e9rio americano Washington conseguiu implementar uma estrat\u00e9gia de livre com\u00e9rcio. S\u00f3 alcan\u00e7ou o NAFTA 2.0 (CUSMA \/ USMCA \/ T-MEC[2]) sem restabelecer nenhuma variante da ALCA no resto da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a crise da globaliza\u00e7\u00e3o persiste e a prega\u00e7\u00e3o de Trump para confrontar advers\u00e1rios comerciais tem conquistado o eleitorado. H\u00e1 uma forte corrente de opini\u00e3o que \u00e9 hostil ao globalismo tradicional das elites costeiras. Somado a esse mal-estar est\u00e1 o Grande Confinamento gerado pela pandemia e a paralisia sem precedentes do transporte e do com\u00e9rcio internacional. A conflu\u00eancia de obst\u00e1culos para a retomada do multilateralismo \u00e9 muito significativa.<\/p>\n<p>Biden ter\u00e1 que conceber um novo pilar para seu programa externo com outro equil\u00edbrio entre americanistas e globalistas. Da mesma forma que Trump se distanciou do intervencionismo de Bush, Biden ter\u00e1 que propor uma receita mais distante do formato democrata tradicional.<\/p>\n<p>Seus primeiros passos visam reconstruir rela\u00e7\u00f5es tradicionais com aliados da OTAN. Ele tentar\u00e1 curar as feridas deixadas por seu antecessor, assumindo projetos para lidar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas (Acordo de Paris). Ele buscar\u00e1 \u201cdescarbonizar\u201d o setor de energia com incentivos para energias renov\u00e1veis e promo\u00e7\u00e3o de carros el\u00e9tricos. Mas essas iniciativas n\u00e3o resolvem o grande dilema da estrat\u00e9gia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China.<\/p>\n<p>Nesta \u00e1rea existem muitos sinais de continuidade. Biden intensifica a press\u00e3o por uma OTAN Pac\u00edfico-Indiana (Dohert, 2020). A Austr\u00e1lia j\u00e1 decidiu participar de exerc\u00edcios navais com o Jap\u00e3o e se tornar o grande porta-avi\u00f5es regional do Pent\u00e1gono. Por sua vez, Taiwan recebeu novas armas a\u00e9reas e a \u00cdndia est\u00e1 dando sinais de aprova\u00e7\u00e3o \u00e0 amea\u00e7a no Mar da China (Donnet, 2020).<\/p>\n<p>O novo presidente tentar\u00e1 trazer a Europa para esta campanha. Ele se prepara para suturar as feridas deixadas por Trump, aproveitando o novo clima de adversidade para a China que est\u00e1 surgindo entre as elites do Velho Continente. A Uni\u00e3o Europeia designou o gigante oriental como um \u201cconcorrente estrat\u00e9gico\u201d, e os governos da Alemanha, Fran\u00e7a e Inglaterra est\u00e3o negociando o veto da Huawei em suas redes 5G. Macron acaba de nomear um representante franc\u00eas para o quarteto belicista que o Pent\u00e1gono formou na \u00c1sia (o Quad).<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m sabe ainda como a OTAN ser\u00e1 financiada, e a lista das quest\u00f5es de conflito com a Europa \u00e9 muito extensa. Inclui a posi\u00e7\u00e3o dos EUA sobre o Brexit e esclarecimentos sobre o projeto de acordo de livre com\u00e9rcio anglo-americano de Trump. A posi\u00e7\u00e3o do Departamento de Estado em rela\u00e7\u00e3o ao gasoduto que ligar\u00e1 a Alemanha \u00e0 R\u00fassia tamb\u00e9m est\u00e1 pendente.<\/p>\n<p>Essas defini\u00e7\u00f5es influenciar\u00e3o a estrat\u00e9gia de guerra do presidente Biden. Ele ter\u00e1 que escolher entre a escassez de tropas que caracterizou Trump ou o intervencionismo favorecido por Obama-Clinton. Impulsionar guerras h\u00edbridas ou rearmamentos para grandes confrontos envolve outra decis\u00e3o importante. Mas em qualquer uma dessas variantes, ele est\u00e1 pronto para insistir no projeto imperial de recupera\u00e7\u00e3o americana.<\/p>\n<p>CONGESTIONAMENTO NA IDEOLOGIA<\/p>\n<p>Biden provavelmente retornar\u00e1 \u00e0 bandeira dos direitos humanos como justificativa para a pol\u00edtica imperial. Esta cobertura tem sido tradicionalmente usada para mascarar opera\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o. Trump abandonou essas mensagens e simplesmente optou por afirma\u00e7\u00f5es ultrajantes, sem pretens\u00e3o de credibilidade.<\/p>\n<p>A press\u00e3o sobre a China que Biden prev\u00ea certamente incluir\u00e1 alguma alus\u00e3o \u00e0 falta de democracia. Nesse caso, ele anunciar\u00e1 condena\u00e7\u00f5es \u00e0s mesmas ofensas que s\u00e3o perpetradas em pa\u00edses associados a Washington. O que n\u00e3o \u00e9 dito sobre Ar\u00e1bia Saudita, Col\u00f4mbia ou Israel ocuparia o primeiro plano das quest\u00f5es para Pequim.<\/p>\n<p>Biden substituiria as acusa\u00e7\u00f5es grosseiras de concorr\u00eancia desleal ou fabrica\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus por cr\u00edticas \u00e0 aus\u00eancia de liberdade de express\u00e3o e assembleia. Talvez ele tamb\u00e9m aponte para a responsabilidade chinesa na deteriora\u00e7\u00e3o do meio ambiente, para atrair seu subordinado c\u00famplice europeu.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil colocar a China na lista de pa\u00edses afetados por uma tirania. O imperialismo dos direitos humanos tem sido habitualmente usado para proteger na\u00e7\u00f5es pequenas (ou m\u00e9dias). Nestes casos, destaca-se a inefic\u00e1cia de um \u201cestado falido\u201d e a consequente necessidade de ajuda humanit\u00e1ria. Esse foi o cart\u00e3o postal dos ataques \u00e0 Som\u00e1lia, Haiti, S\u00e9rvia, Iraque, Afeganist\u00e3o ou L\u00edbia.<\/p>\n<p>Os invasores nunca explicam a seletividade desse patroc\u00ednio. Excluem in\u00fameros pa\u00edses sujeitos \u00e0s mesmas anomalias. Al\u00e9m disso, desqualificam a popula\u00e7\u00e3o \u201cresgatada\u201d, apresentando-a como uma multid\u00e3o incapaz de administrar o seu pr\u00f3prio destino.<\/p>\n<p>A conten\u00e7\u00e3o dos massacres decorrentes de confrontos \u00e9tnicos, religiosos ou tribais foi outro pretexto para a interven\u00e7\u00e3o. Tem sido usado na \u00c1frica e nos B\u00e1lc\u00e3s, alegando a necessidade de conter os massacres entre popula\u00e7\u00f5es distantes. Tamb\u00e9m nesses casos, foi assumido que somente uma for\u00e7a armada estrangeira pode pacificar os povos em conflito.<\/p>\n<p>Mas esse patroc\u00ednio imperial contrasta com a frequente incapacidade de arbitrar os pr\u00f3prios conflitos internos. Ningu\u00e9m sugere media\u00e7\u00e3o externa para resolver essas tens\u00f5es. A ess\u00eancia do imperialismo reside precisamente no direito auto-atribu\u00eddo de intervir em outro pa\u00eds, e de administrar problemas que s\u00e3o caseiros sem qualquer interfer\u00eancia externa.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com a acusa\u00e7\u00e3o do culpado. Os r\u00e9us de pa\u00edses perif\u00e9ricos est\u00e3o sujeitos \u00e0s regras do direito internacional, que n\u00e3o se aplicam aos seus pares do Primeiro Mundo. Milosevic pode encarar um tribunal, mas Kissinger est\u00e1 invariavelmente isento desse infort\u00fanio.<\/p>\n<p>Com essa conduta, os Estados Unidos atualizam o amontoado de hipocrisia herdado da Gr\u00e3-Bretanha. No s\u00e9culo 19, a frota inglesa atormentou o com\u00e9rcio internacional de escravos com argumentos libert\u00e1rios, encobrindo seu prop\u00f3sito de controlar a totalidade do transporte mar\u00edtimo. Washington hasteia uma bandeira semelhante e esquece os desastres monumentais produzidos pelos poderes que se concebem como salvadores da humanidade. Essas interven\u00e7\u00f5es geralmente pioram os cen\u00e1rios que prometeram corrigir.<\/p>\n<p>Se Biden tentar seguir aquele velho roteiro liberal, isso aumentar\u00e1 a perda de credibilidade que atualmente afeta os Estados Unidos. O discurso oficial dos direitos humanos est\u00e1 desgastado. Foi a grande bandeira da Segunda Guerra Mundial e perdeu consist\u00eancia durante o macarthismo. Reapareceu com a implos\u00e3o da URSS, mas foi novamente arrancado pelas agress\u00f5es de Bush e pelas cumplicidades de Obama.<\/p>\n<p>Isso se aplica tamb\u00e9m \u00e0 bandeira da democracia, que na variante imperial dos Estados Unidos sempre combinou universalismo com excepcionalidade. Com o primeiro pilar, o papel mission\u00e1rio salvador do poder primordial foi justificado, e com o segundo, o ocasional recuo isolacionista.<\/p>\n<p>A mitologia que Washington cultiva mistura um apelo \u00e0 lideran\u00e7a planet\u00e1ria (\u201co mundo est\u00e1 destinado a nos seguir\u201d) com mensagens de prote\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio (\u201cn\u00e3o envolva o pa\u00eds em causas externas\u201d). Dessa mistura emergiu a autoimagem dos Estados Unidos como uma for\u00e7a militar ativa, mas sujeita a opera\u00e7\u00f5es solicitadas, pagas ou imploradas pelo resto do mundo (Anderson, 2016).<\/p>\n<p>As facetas intervencionistas e isolacionistas sempre tiveram bases divergentes nas mistifica\u00e7\u00f5es das elites nos litorais e nos preconceitos no interior dos Estados Unidos. Ambas as correntes se complementam, se fundiram e se fraturaram novamente. Esse contraponto foi atualizado pelas for\u00e7as globais contra os americanistas, e agora, por Biden contra Trump.<\/p>\n<p>Mas ambos os lados s\u00e3o sustentados pela mesma obsess\u00e3o imemorial pela seguran\u00e7a, em um pa\u00eds curiosamente privilegiado pela prote\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. O medo da agress\u00e3o externa atingiu picos de paran\u00f3ia durante a tens\u00e3o com a URSS e ressurgiu com ondas de p\u00e2nico irracional durante a recente \u201cguerra ao terror\u201d.<\/p>\n<p>A ideologia imperial dos Estados Unidos enfrenta as mesmas dificuldades da concep\u00e7\u00e3o americanista do mundo. Ambos exaltam os valores do capitalismo, priorizam o individualismo, idealizam a competi\u00e7\u00e3o, glorificam o lucro, mistificam o risco, elogiam o enriquecimento e justificam a desigualdade.<\/p>\n<p>Esses princ\u00edpios consolidaram a hegemonia americana do p\u00f3s-guerra e alcan\u00e7aram certa sobreviv\u00eancia complementar sob o neoliberalismo. Mas eles n\u00e3o s\u00e3o mais sustentados pela primazia econ\u00f4mica da Am\u00e9rica do Norte e foram transformados por sua reconvers\u00e3o em ideais de outras classes capitalistas do mundo. Os mitos americanos n\u00e3o t\u00eam a preemin\u00eancia do passado (Boron, 2019).<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo 20, o imperialismo dos EUA suplementou a coer\u00e7\u00e3o com uma ideologia que ganhou destaque na linguagem e na cultura. Essa influ\u00eancia persiste, mas com modalidades mais aut\u00f4nomas da matriz norte-americana, portanto as tentativas de recomposi\u00e7\u00e3o imperial devem dar conta desse fato.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>Anderson, Perry (2016). Entrevista, sobre geopol\u00edtica imperial y resistencias, 16\/04, 2016.<br \/>\nArmanian, Nazan\u00edn (2017). EE.UU. y el 11-S, un inepto yihadismo y un fallido gaseoducto, 12 Sept.<br \/>\nArmanian, Nazan\u00edn (2018). El barco Aquarius y cinco muestras de la militarizaci\u00f3n.<br \/>\nBoron, Atilio (2019). La irreversible (pero laboriosa) construcci\u00f3n de un orden multipolar, 23 Sept.<br \/>\nBuxton, Nick; Akkerman, Mark (2018). \u00c1frica. El ascenso del imperialismo de las fronteras, 22-11.<br \/>\nChac\u00f3n, Rodrigo (2019). \u00bfImperios por doquier? Usos y abusos del concepto de imperio. Foreign Affairs Latinoamerica, vol 19, n 4.<br \/>\nDohert, Alex (2020) La guerra fr\u00eda con China no desaparecer\u00e1 si Joe Biden, 13 Oct.<br \/>\nDonnet, Pierre Antoine (2020). Con la Quad, EEUU trata de reunir una alianza contra China, 23-10.<br \/>\nFarber, Samuel (2021). EEUU: Las causas del trumpismo y por qu\u00e9 perdurar\u00e1, 10 Jan 2021.<br \/>\nFerrari, Sergio (2020). M\u00e1s balas que seres humanos. Un Far West denominado Tierra 25\/11.<br \/>\nGand\u00e1segui Marco A (2017). Corea del Norte: Paz, desmilitarizaci\u00f3n y unificaci\u00f3n, 14 Sept.<br \/>\nHobsbawm, Eric, (2007). 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Ele escreve em katz.lahaine.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2605\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165,38],"tags":[233],"class_list":["post-2605","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","category-c43-imperialismo","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-G1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2605"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2605\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}