{"id":26051,"date":"2020-08-28T22:43:42","date_gmt":"2020-08-29T01:43:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26051"},"modified":"2020-08-28T22:43:42","modified_gmt":"2020-08-29T01:43:42","slug":"belarus-nacionalismo-e-oposicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26051","title":{"rendered":"Belarus: nacionalismo e oposi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.mnnonline.org\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/pexels-artem-podrez-5119532.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Em Belarus, as manifesta\u00e7\u00f5es trazem muitas quest\u00f5es, incluindo sobre a hist\u00f3ria do pa\u00eds, o papel de nacionalistas e disputas geopol\u00edticas.<\/p>\n<p>Por Andr\u00e9 Ortega | Revista Opera<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es em Belarus est\u00e3o recebendo uma grande cobertura nos meios ocidentais, o que se reflete na imprensa brasileira, que se contenta em traduzir e repetir aquilo que \u00e9 dito em grandes ve\u00edculos europeus. A amplitude e at\u00e9 a paix\u00e3o dessa cobertura gera, por efeito de contraste, uma sensa\u00e7\u00e3o de falta de profundidade, j\u00e1 que em meio de tantas not\u00edcias, carecemos at\u00e9 mesmo de uma introdu\u00e7\u00e3o sobre aspectos espec\u00edficos do conflito e dos atores que participam dele. O que a cobertura nos oferece, no entanto, \u00e9 uma narrativa sobre manifestantes lutando contra um ditador em nome da liberdade, discurso fortalecido por uma certa abund\u00e2ncia de imagens. Na frente desta luta, a candidata derrotada \u2013 alegadamente v\u00edtima de fraude \u2013 Sviatlana Tsikhanouskaya, uma \u201cmulher simples\u201d, \u201capenas uma dona de casa\u201d, o s\u00edmbolo da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em alguns dos meios de esquerda e alternativos, este posicionamento da grande m\u00eddia j\u00e1 gera uma certa desconfian\u00e7a. Imediatamente surgem perguntas sobre quem forma essa oposi\u00e7\u00e3o e se podemos fazer compara\u00e7\u00f5es com a Ucr\u00e2nia em 2014, onde uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d foi acompanhada por grupos neofascistas, ultranacionalismo e chauvinismo antirrusso. Outros j\u00e1 se revoltam contra o reflexo condicionado e declaram que n\u00e3o podemos julgar os eventos de Belarus pela \u00f3tica dos eventos ucranianos, e que avalia\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveriam ser feitas na fun\u00e7\u00e3o inversa da grande m\u00eddia.<\/p>\n<p>Me deparando com a diversidade de problemas que podem ser desenvolvidos a partir do problema de Belarus, decidi come\u00e7ar com um problema simples de imagem e simbologia, mas que nos traz muitas informa\u00e7\u00f5es. As imagens que estampam os jornais s\u00e3o dominadas por duas cores: branco e vermelho.<\/p>\n<p>Uma disputa pela hist\u00f3ria<br \/>\nUma faixa branca em cima, uma faixa vermelha no meio e outra faixa branca embaixo \u2013 esta bandeira domina as manifesta\u00e7\u00f5es oposicionistas em Belarus. Ela surgiu primeiro em 1919, em uma breve experi\u00eancia pol\u00edtica chamada de Rep\u00fablica Popular Bielorrussa, \u00f3rg\u00e3o liderado por nacionalistas mas criado pela ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 no contexto do p\u00f3s-Primeira Guerra, Guerra Civil na R\u00fassia e interven\u00e7\u00e3o estrangeira que ocorreu naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Uma bandeira diferente do s\u00edmbolo oficial de Belarus: do lado esquerdo, uma faixa vertical reproduz um padr\u00e3o tradicional bielorrusso, como na costura, em vermelho e branco, do lado duas faixas horizontais, vermelho sobre verde (somente um ter\u00e7o em verde). Bandeira muito similar \u00e0 velha bandeira da Rep\u00fablica Socialista Sovi\u00e9tica de Belarus, com a diferen\u00e7a que na antiga o padr\u00e3o tradicional estava com as cores invertidas e na massa vermelha horizontal brilhava a foice-e-martelo amarela com uma estrela vermelha em cima.<\/p>\n<p>Os manifestantes tamb\u00e9m usam um bras\u00e3o de armas hist\u00f3rico do Gr\u00e3o Ducado da Litu\u00e2nia, a Pahonia, onde vemos um cavaleiro branco, brandindo sua espada e segurando um escudo adornado por uma cruz jaguel\u00f4nica. O emblema oficial de Belarus, no entanto, \u00e9 diferente, correspondendo \u00e0 simbologia sovi\u00e9tica, onde um sol que se levanta sobre o globo ilumina o mapa de Belarus, com bagos de trigo nos flancos e uma estrela vermelha coroando a imagem.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a entre s\u00edmbolos do governo e da oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma diferen\u00e7a pol\u00edtica moment\u00e2nea, mas remete a uma disputa pela identidade nacional de Belarus, a processos divergentes de forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia nacional, conforme exemplificados por Grigory Ioffe.<\/p>\n<p>Quando Belarus se tornou independente da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nos anos 90, isto aconteceu apesar da vontade popular, sem movimentos separatistas como os que ocorreram vigorosamente nas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas b\u00e1lticas, vizinhas de Belarus pelo norte, ou na parte ocidental da Ucr\u00e2nia, pa\u00eds que faz fronteira com Belarus pelo sul.<\/p>\n<p>Pelo menos at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a maioria dos cidad\u00e3os se identificava com a R\u00fassia e concebia a hist\u00f3ria de Belarus no marco de uma hist\u00f3ria sovi\u00e9tica. Para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, o evento mais importante da hist\u00f3ria de Belarus foi a Grande Guerra Patri\u00f3tica, isto \u00e9, a resist\u00eancia contra os invasores nazistas, o movimento partisan como primeiro ato de vontade coletiva. \u00c9 depois da guerra que os bielorrussos se tornam maioria nas cidades do pa\u00eds (antes de maioria judaica, polaca e russa), bem como dirigentes da rep\u00fablica sovi\u00e9tica \u2013 l\u00edderes partisans se tornaram l\u00edderes do partido.<\/p>\n<p>Esse discurso filossovi\u00e9tico tamb\u00e9m \u00e9 acompanhado pela ideia de proximidade com a cultura russa, inclusive a constata\u00e7\u00e3o de que \u00e9 dif\u00edcil fazer uma diferencia\u00e7\u00e3o nacional entre as duas culturas. Em termos de narrativa hist\u00f3rica, isso \u00e9 acompanhado por afirma\u00e7\u00f5es como a de que a R\u00fassia salvou o povo das \u201cterras de Belarus\u201d da opress\u00e3o nacional e religiosa dos poloneses. Ent\u00e3o, figuras hist\u00f3ricas da R\u00fassia s\u00e3o lembradas, como por exemplo o general Alexander Suvorov (1730 \u2013 1800), que \u00e9 celebrado como um her\u00f3i da luta contra a invas\u00e3o polonesa das \u201cterras de Belarus\u201d e da R\u00fassia em geral. Essa ideia de uni\u00e3o entre R\u00fassia e Belarus \u00e9 fundamental para o pan-eslavismo.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o em 1917 tamb\u00e9m \u00e9 considerada um epis\u00f3dio nacional, o come\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o nacional de Belarus dentro da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com sua pr\u00f3pria se\u00e7\u00e3o bolchevique e ades\u00e3o dos camponeses \u00e0 utopia comunista, mas nem isso e nem a hist\u00f3ria nacional russa superam a Segunda Guerra Mundial como fator de consci\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Contra esta vis\u00e3o surgiu uma alternativa ocidentalizante, que prop\u00f5e que Belarus \u00e9 um pa\u00eds completamente diferente da R\u00fassia, que foi dominado pela R\u00fassia e que precisa romper com Moscou para ser um pa\u00eds europeu. Essa tend\u00eancia tenta afirmar a exist\u00eancia de um componente bielorrusso espec\u00edfico na Comunidade Polaco-Lituana, identificando a elite pr\u00e9-nacional com nobres locais. Atribuem a \u201cfalta de consci\u00eancia nacional\u201d no pa\u00eds \u00e0 intrigas externas. Seus her\u00f3is de forma geral s\u00e3o her\u00f3is poloneses, e celebram quando os poloneses invadiram a R\u00fassia. Se esfor\u00e7am por fazer uma revis\u00e3o hist\u00f3rica que justifique a exist\u00eancia de uma nacionalidade bielorrussa atacando a narrativa ligada \u00e0 Segunda Guerra Mundial, renegando a luta dos partisans e enquadrando sua na\u00e7\u00e3o como uma \u201cv\u00edtima do estalinismo\u201d, que passa ser comparado com o nazismo como uma for\u00e7a externa.<\/p>\n<p>Suas preocupa\u00e7\u00f5es centrais, al\u00e9m de tentar construir uma hist\u00f3ria de Belarus antes do s\u00e9culo XX, est\u00e1 a preserva\u00e7\u00e3o da l\u00edngua bielorrussa em particular, com suas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao russo. Nessa vis\u00e3o, as repress\u00f5es do per\u00edodo St\u00e1lin deixam de ser uma realidade compartilhada com os russos e outras nacionalidades sovi\u00e9ticas, para ser entendida como uma repress\u00e3o contra a na\u00e7\u00e3o de Belarus, exemplificada principalmente pela repress\u00e3o de intelectuais nacionalistas.<\/p>\n<p>Na tentativa de desconstruir o \u201cestalinismo\u201d e os partisans, os nacionalistas defenderam a Rada Central de Belarus, um \u00f3rg\u00e3o colaboracionista criado pela ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3, que n\u00e3o pode ser chamado sequer de governo t\u00edtere, mas que adotava a vis\u00e3o hist\u00f3rica dos nacionalistas e fez escolas de l\u00edngua exclusivamente bielorrussa em Minsk. A Rada foi liderada por Radas\u0142a\u016d Astro\u016dski, que foi para o ex\u00edlio norte-americano e dissolveu \u00f3rg\u00e3o depois da guerra para evitar responsabiliza\u00e7\u00e3o por crimes de guerra.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o nacionalista n\u00e3o s\u00f3 defende a \u201cposi\u00e7\u00e3o complicada\u201d dos colaboradores nos anos 40, como revisa positivamente o papel do oficial nazista Wilhelm Kobe, Comiss\u00e1rio Geral para Belarus entre 1941 e 1943 (at\u00e9 ser assassinado pela partisan Yelena Mazanik). Argumenta-se que Kobe seria um homem interessado nas coisas bielorrussas e seu dom\u00ednio permitiu o florescimento nacionalista.<\/p>\n<p>Do lado colaboracionista existiu uma Pol\u00edcia Auxiliar e a Guarda Territorial Bielorrusa, as duas ligadas aos massacres nazistas e associadas a uma das unidades mais infames da SS, a 36\u00aa Divis\u00e3o de Granadeiros da SS \u201cDirlewanger\u201d. Depois, foi formada por uma brigada bielorrussa na 30\u00aa da SS.<\/p>\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o usava as bandeiras vermelha e branca, com a Guarda Territorial usando bra\u00e7adeiras nessa cor.<\/p>\n<p>Essas cores seriam retomadas na independ\u00eancia do pa\u00eds em 1991, mas foram muito atacadas por sua associa\u00e7\u00e3o com a colabora\u00e7\u00e3o. Por isso ela foi recha\u00e7ada por uma maioria esmagadora em um referendo realizado em 1995, que definiu os s\u00edmbolos nacionais de hoje e mudou o \u201cDia da Independ\u00eancia\u201d para 3 de Julho, dia em que Minsk foi libertada das for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o nazista, em 1944.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o nacionalista e ocidentalizante \u00e9 minorit\u00e1ria, compartilhada por algo entre 8% e 10% da popula\u00e7\u00e3o; n\u00famero que \u00e9 consistente com o n\u00famero de cat\u00f3licos do pa\u00eds \u2013 um pouco maior, na verdade, o que serve para contemplar uma minoria de jovens de Minsk, que proporcionalmente tendem a ser mais adeptos de uma vis\u00e3o distinta da hist\u00f3ria sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Em 1991, o nacionalismo se reuniu na Frente Popular Bielorrussa, em torno da figura do arque\u00f3logo Zianon Pazniak, que representava uma milit\u00e2ncia radical, antirrussa, europe\u00edsta e guardi\u00e3 dessa simbologia nacional. O movimento fracassou e parte disso provavelmente se deve \u00e0 lideran\u00e7a de Pazniak, tido como intolerante. Havia tamb\u00e9m um movimento paramilitar chamado Legi\u00e3o Branca, que se confrontaria com Lukashenko no final dos anos 90. Estes seriam \u201cos nazis bielorrussos dos anos 90\u201d, pecha que \u00e9 disputada por seus defensores, que os retratam at\u00e9 mesmo como democratas, mas que \u00e9 justificada por seus detratores baseada em seu separatismo \u00e9tnico e intoler\u00e2ncia dirigida aos russos apesar de viverem no mesmo espa\u00e7o e a maioria do seu pr\u00f3prio pa\u00eds falar a l\u00edngua russa.<\/p>\n<p>Ainda assim, o alvo-rubro vem sendo reivindicado como um s\u00edmbolo de liberdade, democracia e independ\u00eancia: seus defensores v\u00eam tentando firmar a identidade dessa bandeira mais em 1991 do que em 1941. Para todos os efeitos, se tornou um s\u00edmbolo de oposi\u00e7\u00e3o Lukashenko, s\u00edmbolo de \u201coutra Belarus\u201d, com boa parte dos jovens mantendo uma atitude receptiva em rela\u00e7\u00e3o a ela \u2013 um s\u00edmbolo carregado de controv\u00e9rsia, mesmo assim.<\/p>\n<p>Essas diverg\u00eancias simb\u00f3licas escondem diferentes hist\u00f3rias e quest\u00f5es pol\u00edticas radicais. Al\u00e9m disso, \u00e9 poss\u00edvel constatar que Belarus tem dois componentes nacionais externos em sua forma\u00e7\u00e3o: os poloneses e os russos. No plano religioso, o catolicismo associado com Pol\u00f4nia e a ortodoxia associada \u00e0 R\u00fassia (segundo dados de 2011, 7,1% da popula\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, 48,3% ortodoxa e 41,1% diz n\u00e3o ter religi\u00e3o, 3,5% se identificam com outras). Na disputa hist\u00f3rica, existe uma narrativa filo-sovi\u00e9tica e outra ocidentalizante.<\/p>\n<p>Nesta \u00faltima d\u00e9cada, o pr\u00f3prio governo Lukashenko presidiu sobre uma pol\u00edtica de aproxima\u00e7\u00e3o e concilia\u00e7\u00e3o dessas narrativas hist\u00f3ricas sobre Belarus, tentando ocupar uma posi\u00e7\u00e3o mais nacionalista, mesmo que mantendo o n\u00facleo sovi\u00e9tico como fundamental. Esta aproxima\u00e7\u00e3o foi muito criticada por um n\u00facleo duro de patriotas e irredentistas russos.<\/p>\n<p>Por outro lado, dentre os manifestantes n\u00e3o necessariamente h\u00e1 uma ruptura total com a narrativa hist\u00f3rica partisan e motivos antifascistas, pelo menos n\u00e3o se buscarmos casos individuais \u2013 nesse caso, o uso hist\u00f3rico da bandeira seria ignorado ou superado por outra proposta. Apesar de existir uma oposi\u00e7\u00e3o que busca lavar a bandeira alvirrubra, \u00e9 poss\u00edvel identificar nacionalistas radicais na oposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Belarus n\u00e3o \u00e9 Ucr\u00e2nia \u2013 mas pode ser ucranizada?<br \/>\nPelo menos em meios ocidentais, se afirmou muito que \u201ca crise de Belarus n\u00e3o \u00e9 geopol\u00edtica\u201d. Muitos textos publicados no Carnegie Moscow Center elaboraram em torno dessa afirma\u00e7\u00e3o. A declara\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Europeia afirmou isso. O professor e colunista Thimothy Garton Ash escreveu no The Guardian que sequer se pode esperar um regime democr\u00e1tico liberal depois da sa\u00edda de Lukashenko, e relata contatos com bielorrussos que d\u00e3o a impress\u00e3o de um sentimento ao mesmo tempo oposicionista e pr\u00f3-russo. Por esse argumento, Belarus \u00e9 diferente da Ucr\u00e2nia, as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com geopol\u00edtica, os bielorrussos at\u00e9 gostam da R\u00fassia e a l\u00f3gica extrapola ao ponto de dizer que, portanto, Putin tende a apoi\u00e1-las. Mais de um texto fala de como a identifica\u00e7\u00e3o entre bielorrussos e russos, como povos irm\u00e3os ou at\u00e9 iguais, \u201canula\u201d essas quest\u00f5es \u2013 isto \u00e9, estes textos t\u00eam como pressuposto uma solidariedade nacional, uma continuidade entre os dois povos, algo distinto do radicalismo nacionalista. At\u00e9 parecem acreditar que isto tiraria de Putin o interesse de ajudar Lukashenko ou da R\u00fassia enquadrar esses eventos na sua vis\u00e3o estrat\u00e9gica como algo equivalente ao problema ucraniano.<\/p>\n<p>De fato, Belarus n\u00e3o \u00e9 a Ucr\u00e2nia. A divis\u00e3o sobre a identidade nacional n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o polarizada em Belarus como \u00e9 na Ucr\u00e2nia. A divis\u00e3o regional e lingu\u00edstica, bem como as diferentes orienta\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o radical. A marca da colabora\u00e7\u00e3o e suas consequ\u00eancias pol\u00edticas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte em Belarus como \u00e9 na Ucr\u00e2nia \u2013 n\u00e3o acredito que o nacionalismo em Belarus est\u00e1 no mesmo patamar do ultranacionalismo ucraniano.<\/p>\n<p>No plano da opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a compara\u00e7\u00e3o com a Ucr\u00e2nia \u00e9 feita em fun\u00e7\u00e3o do Maidan de 2014, onde tamb\u00e9m existem diferen\u00e7as. O Maidan teve a participa\u00e7\u00e3o decisiva de partidos pol\u00edticos consolidados e posicionados dentro do Parlamento, que no momento final tomaram o poder do presidente Yanukovich usando seu poder parlamentar. Partidos ligados a oligarcas multimilion\u00e1rios, com pol\u00edticos que enriqueceram em neg\u00f3cios de g\u00e1s, e nas ruas uma tropa de choque de manifestantes formada por nacionalistas bem organizados.<\/p>\n<p>Dito isso, devemos olhar para o posicionamento da oposi\u00e7\u00e3o bielorrussa e n\u00e3o aceitar de forma acr\u00edtica as narrativas de que a manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com geopol\u00edtica e que n\u00e3o possu\u00ed lideran\u00e7a. Alegam que quest\u00f5es como ades\u00e3o \u00e0 OTAN e integra\u00e7\u00e3o europeia n\u00e3o s\u00e3o prim\u00e1rias na pol\u00edtica de Belarus \u2013 ser\u00e1 mesmo? E essas quest\u00f5es nacionais, n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o alguma com as manifesta\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Primeiro, um dos movimentos que protagoniza enfrentamentos de rua em Belarus desde outros anos (especialmente nos enfrentamentos de rua de 2010) e se destaca nos meios oposicionistas, inclusive com reconhecimento ocidental, \u00e9 a Frente Jovem, que \u00e9 um movimento nacional radical, acusado de filofascista e ligado aos neofascistas ucranianos. Este movimento tamb\u00e9m \u00e9 ligado ao partido Democracia Crist\u00e3 Bielorrusa (DCB), o qual ajudou a fundar. Ambos s\u00e3o contra o status oficial da l\u00edngua russa e querem retirar o russo das escolas.<\/p>\n<p>Pavel Sevyarynets, um dos fundadores da Frente Jovem e lideran\u00e7a da DCB, \u00e9 frequentemente referido como dissidente e \u201cprisioneiro de consci\u00eancia\u201d foi organizador da campanha \u201cBelarus \u00e0 Europa\u201d. Ele foi preso antes das elei\u00e7\u00f5es como um organizador de dist\u00farbios.<\/p>\n<p>A Revista Opera teve acesso ao material de um jornalista internacional que entrevistou um professor de artes bielorrusso, autoproclamado anarquista e defensor das manifesta\u00e7\u00f5es, que se referiu \u00e0 pris\u00e3o de Sevyarynets como um ato preventivo do governo e respondeu a uma pergunta sobre as reivindica\u00e7\u00f5es do movimento dizendo que as pessoas tem em sua maior parte bandeiras nacionalistas.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, cabe ressaltar que um dos principais partidos de oposi\u00e7\u00e3o e representante das declara\u00e7\u00f5es atuais \u00e9 o Partido da Frente Popular Bielorussa (PFPB), descendente da Frente Popular dos anos 90, um partido de direita, adepto da interpreta\u00e7\u00e3o nacionalista, hostil \u00e0 R\u00fassia e pr\u00f3-europeu.<\/p>\n<p>O PFPB, a Democracia Crist\u00e3, a Frente Jovem e o partido \u201cPela Liberdade\u201d s\u00e3o parte de um \u201cBloco pela Independ\u00eancia de Belarus\u201d. Estes movimentos tiveram v\u00e1rios contatos com grupos neofascistas ucranianos, com a Frente Jovem em espec\u00edfico mantendo rela\u00e7\u00f5es de longa data e tomando parte em marchas em homenagem a colaboradores como Stepan Bandera e Roman Shukeyvich (que na SS Natchigall foi um carrasco dos habitantes e partisans do sul de Belarus) \u2013 diga-se, entretanto, que n\u00e3o necessariamente funcionam da mesma forma que as organiza\u00e7\u00f5es extremistas.<\/p>\n<p>Mesmo movimentos que se organizam como ONGs, com apar\u00eancia de ativismo gen\u00e9rico e recebendo dinheiro de programas para promover a democracia a partir da Litu\u00e2nia (que por sua vez direciona dinheiro do Departamento de Estado dos Estados Unidos), servem como organiza\u00e7\u00f5es nacionalistas, como \u00e9 o caso da ONG BNR100.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, podemos olhar para algumas lideran\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o presentes no Conselho de Coordena\u00e7\u00e3o formado para derrubar Lukashenko. Foi proclamado que o Conselho de Coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 composto por \u201cpessoas destacadas, profissionais, verdadeiros bielorrussos\u201d, por aqueles que \u201crepresentam o povo bielorrusso da melhor maneira, que nestes dias est\u00e3o escrevendo uma nova p\u00e1gina da hist\u00f3ria bielorrussa\u201d.<\/p>\n<p>Olga Kovalkova, pe\u00e7a importante da campanha de Sviatlana Tsikhanouskaya, que j\u00e1 havia listado pessoas do conselho antes dele ser anunciado oficialmente, em sua p\u00e1gina do Facebook. Ela mesma \u00e9 um dos membros. \u00c9 graduada pela Transparency International School on Integrity e pela Eastern European School of Political Studies (registrada em Kiev, patrocinada pela USAID, National Endowment for Democracy, Open Society Foundation, Rockefeller Foundation, Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Pol\u00f4nia, Uni\u00e3o Europeia e estruturas da OTAN). Kovalkova \u00e9 co-presidente da Democracia Crist\u00e3 Bielorrussa; defende a sa\u00edda de Belarus da Organiza\u00e7\u00e3o Tratado de Seguran\u00e7a Coletiva (OTSC; Tratado de Takshent), a separa\u00e7\u00e3o do Estado da Uni\u00e3o com a R\u00fassia e a retirada do russo da vida p\u00fablica. O outro co-presidente da DCB, Vitaly Rymashevsky, tamb\u00e9m est\u00e1 no conselho.<\/p>\n<p>Ales Bialiatski, famoso como defensor dos direitos humanos e que foi preso sob acusa\u00e7\u00e3o de enganar o fisco a respeito da extens\u00e3o de sua fortuna, tamb\u00e9m fez parte do movimento nacionalista da Frente Popular de Belarus, do qual foi secret\u00e1rio entre 1996 e 1999 e vice-presidente entre 1999 e 2001. Tamb\u00e9m \u00e9 fundador da organiza\u00e7\u00e3o Comunidade Cat\u00f3lica Bielorrussa. \u00c9 presidente do Viasna Human Rights Centre (financiado por Eurasia Foundation, USAID e OpenSociety) e recebeu o pr\u00eamio liberdade do Atlantic Council, al\u00e9m de pr\u00eamios e financiamentos na Pol\u00f4nia. Sua pris\u00e3o em 2011 foi baseada em dados financeiros fornecidos por promotores poloneses e lituanos, enquadrado por um artigo de sonega\u00e7\u00e3o da lei bielorrussa.<\/p>\n<p>Na hoste dos nacionalistas mais comprometidos representados no Comit\u00ea de Coordena\u00e7\u00e3o temos tamb\u00e9m Yuras Gubarevich, fundador do partido \u201cPela Liberdade\u201d, antes um dos fundadores da \u201cFrente Jovem\u201d e foi durante anos lideran\u00e7a do Partido Popular; uma das grandes lideran\u00e7as oposicionistas.<\/p>\n<p>Pavel Belaus \u00e9 ligado \u00e0 Frente Jovem, um dos l\u00edderes da ONG Hodna e dono da loja de s\u00edmbolos nacionalistas Symbal. Ele tamb\u00e9m \u00e9 ligado ao movimento neofascista ucraniano Pravy Sektor e esteve envolvido na rede de volunt\u00e1rios bielorrussos para a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Andriy Stryzhak, do BNR100, ligado ao Partido da Frente Popular, coordenador da iniciativa BYCOVID19. Participou do Euromaidan, de campanhas de solidariedade com a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Antiterrorista\u201d de Kiev no leste da Ucr\u00e2nia e de articula\u00e7\u00e3o com volunt\u00e1rios bielorrussos.<\/p>\n<p>Andrey Egorov promove a integra\u00e7\u00e3o europeia. Alexander Dobrovolsky, l\u00edder liberal ligado ao velho eixo de aliados de Boris Yeltsin no parlamento sovi\u00e9tico, \u00e9 pr\u00f3-ocidente. Sergei Chaly trabalhou em campanhas de Lukashenko no passado, \u00e9 um especialista do mundo financeiro, ligado a oposi\u00e7\u00e3o liberal russa e pr\u00f3 ocidente.<\/p>\n<p>Sim, tamb\u00e9m existem elementos de esquerda liberal ligados ao Partido Social Democrata de Belarus (Hromada), uma dissid\u00eancia do PSD oficial, que \u00e9 a favor da ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e da OTAN.<\/p>\n<p>Dito isso, n\u00e3o falamos o suficiente da influ\u00eancia nacionalista. Tomemos por exemplo o grupo Charter 97, apoiado pelo ocidente, principalmente pela Radio Free Europe, que se estiliza como um movimento demo-liberal. D\u00e3o espa\u00e7o para a Frente Jovem, onde naturalmente seu l\u00edder pode chamar os bielorrussos que combatem na Ucr\u00e2nia de \u201cher\u00f3is\u201d pois combatem a \u201chorda\u201d (se referindo a R\u00fassia da mesma maneira que o Pravy Sektor). Volunt\u00e1rios bielorrussos combateram ao lado de unidades do Pravy Sektor e do Batalh\u00e3o Azov.<\/p>\n<p>Durante as manifesta\u00e7\u00f5es, o Charter 97 publicou, no dia 15 de agosto, um texto comemorando o \u201cMilagre sobre o Vistula: no dia 15 de agosto o ex\u00e9rcito polon\u00eas salvou a Europa dos bolcheviques\u201d e \u201cDez Vit\u00f3rias de Belarus\u201d, em que a R\u00fassia \u00e9 retratada como \u201cinimigo secular\u201d dos bielorrussos. A\u00e7\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o de poloneses contra a R\u00fassia s\u00e3o celebradas como \u201cvit\u00f3rias bielorrussas\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 importante tamb\u00e9m observar o papel que padres cat\u00f3licos v\u00eam cumprindo nas manifesta\u00e7\u00f5es, inclusive se colocando \u00e0 frente de algumas delas. O bispo cat\u00f3lico Oleg Butkevich questionou as elei\u00e7\u00f5es no dia 12 de agosto. Pelo menos em Lida, em Vitebetsk, Maladzyechna e em Polotsk, cl\u00e9rigos organizaram manifesta\u00e7\u00f5es. Em Minsk, tomou parte o secret\u00e1rio de imprensa da Confer\u00eancia de Bispos de Belarus, Yury Sanko. Em Polotsk, sobre a justificativa de ser uma prociss\u00e3o, o padre Vyacheslav Barok falou do momento pol\u00edtico como uma \u201cluta do bem contra o mal\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que padres cat\u00f3licos podem participar de movimentos pol\u00edticos de massa, eles tamb\u00e9m s\u00e3o parte da sociedade, mas este dado n\u00e3o deixa de ter uma significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica espec\u00edfica, visto que os radicais do nacionalismo bielorrusso se organizam no seio da comunidade cat\u00f3lica. Ao mesmo tempo, isso gera ansiedade em um \u201coutro lado\u201d, no que seria um lado \u201cpr\u00f3-russo\u201d, n\u00e3o s\u00f3 por conta de conspira\u00e7\u00f5es sobre \u201ccatoliciza\u00e7\u00e3o\u201d do pa\u00eds, mas por ter visto na experi\u00eancia ucraniana a associa\u00e7\u00e3o de cl\u00e9rigos do catolicismo grego a neofascistas e eventualmente o Estado bancando uma ofensiva contra a Igreja Ortodoxa russa, o que inclui tomada de terras e expropria\u00e7\u00e3o de templos. O mesmo problema est\u00e1 ocorrendo neste ano com os ortodoxos s\u00e9rvios em Montenegro; existem dois precedentes recentes no mundo religioso crist\u00e3o ortodoxo que podem servir para uma mobiliza\u00e7\u00e3o contra as manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Programa de oposi\u00e7\u00e3o: em busca do elo perdido<br \/>\nA candidatura de Tikhanovskaya n\u00e3o tinha um programa muito claro fora a oposi\u00e7\u00e3o a Lukashenko. Por\u00e9m, um programa de plataforma comum da oposi\u00e7\u00e3o, envolvendo o Partido da Frente Popular, o Partido Verde, o Hramada, a Democracia Crist\u00e3 e o \u201cPela Liberdade\u201d chegou a ser formulado em uma \u201ciniciativa civil\u201d envolvendo estes partidos e ONGs que estava no site ZaBelarus. Depois, parte deste programa foi transferido para o portal ReformBy. Quando o programa passou a ser exposto no contexto das manifesta\u00e7\u00f5es (por volta do dia 16), a oposi\u00e7\u00e3o tirou o site do ar, mas ele ainda pode ser acessado com a ferramenta Wayback Machine.<\/p>\n<p>O programa quer anular todas as reformas e referendos desde 1994, retornando \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o daquele ano (e conforme escrita pelo Soviete Supremo). Se compromete a retirar da l\u00edngua russa seus status oficial, al\u00e9m de substituir a atual bandeira por uma vermelho e branca. Existe uma proposta de reforma total de todas as institui\u00e7\u00f5es: banc\u00e1rias, centrais, locais, judiciais, policiais, militares.<\/p>\n<p>O programa tamb\u00e9m tem uma sess\u00e3o dedicada \u00e0 previd\u00eancia, criticando o sistema de reparti\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria de Belarus como \u201cfalido\u201d e respons\u00e1vel por uma \u201calta carga tribut\u00e1ria sobre os neg\u00f3cios\u201d. Prop\u00f5em \u201csimplifica\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cdesburocratiza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201calfabetiza\u00e7\u00e3o financeira da popula\u00e7\u00e3o\u201d para que esta assuma sua parcela de responsabilidade pela aposentadoria. O sistema seria \u201cinsustent\u00e1vel\u201d no ano de 2050 por raz\u00f5es demogr\u00e1ficas. Tamb\u00e9m criticam o \u201cmonop\u00f3lio\u201d da previd\u00eancia p\u00fablica, \u201csem alternativas no mercado\u201d. A proposta oposicionista \u00e9 de contas individuais de pens\u00e3o com contribui\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, mas sem eliminar o sistema solid\u00e1rio, tornando o sistema \u201cbaseado em dois pilares\u201d; elevar a idade de aposentadoria das mulheres (57) para igual a dos homens (62); \u201cdesburocratiza\u00e7\u00e3o\u201d atrav\u00e9s da elimina\u00e7\u00e3o e fus\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos de seguridade social; eliminar diversos tipos de benef\u00edcio e igualar os valores para todos os cidad\u00e3os (independente da ocupa\u00e7\u00e3o). Essas propostas previdenci\u00e1rias em espec\u00edfico s\u00e3o assinadas por Olga Kovalkova.<\/p>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o de economia, o programa fala de um \u201cproblema do emprego\u201d criticando as empresas estatais e demandando flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o, \u201cincentivos para os investidores\u201d, \u201cuma pol\u00edtica macroecon\u00f4mica de alta qualidade, i.e. infla\u00e7\u00e3o baixa, pol\u00edtica fiscal disciplinada, escopo amplo para a iniciativa privada\u201d; \u201co mercado de trabalho \u00e9 super-regulado\u201d, diz o documento. \u201cMelhorar o ambiente de neg\u00f3cios e o clima de investimentos\u201d, \u201ctomar todas as medidas necess\u00e1rias para atrair corpora\u00e7\u00f5es transnacionais\u201d, \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o em larga escala\u201d, \u201ccria\u00e7\u00e3o de um mercado de terras pleno\u201d, \u201cdesburocratiza\u00e7\u00e3o e desmonopoliza\u00e7\u00e3o da economia\u201d, \u201cado\u00e7\u00e3o das normas b\u00e1sicas de mercado e padr\u00e3o de mercadorias da Uni\u00e3o Europeia\u201d, enumera o programa dentre as diversas propostas, que incluem privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos e cria\u00e7\u00e3o de um mercado de moradia competitivo.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, com exce\u00e7\u00e3o da refer\u00eancia \u00e0 l\u00edngua russa, estamos falando mais de neoliberais do que nacionalistas propriamente. Podemos dizer tamb\u00e9m que pontos como ado\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es europeus e reformas econ\u00f4micas influenciam a quest\u00e3o geopol\u00edtica. Ainda assim, boa parte dessas reformas econ\u00f4micas tamb\u00e9m s\u00e3o defendidas por Viktor Barbaryka, empres\u00e1rio bielorrusso que era tido como principal candidato de oposi\u00e7\u00e3o a Lukashenko que est\u00e1 preso por crimes financeiros; Barbaryka \u00e9 considerado um \u201camigo do Kremlin\u201d, pr\u00f3-russo.<\/p>\n<p>Existe uma se\u00e7\u00e3o perdida, a se\u00e7\u00e3o de \u201cReforma da Seguran\u00e7a Nacional\u201d. Na primeira semana de protestos, surgiu na rede uma suposta reprodu\u00e7\u00e3o do conte\u00fado dessa se\u00e7\u00e3o\u00b9. O conte\u00fado \u00e9 uma an\u00e1lise ocidentalista que enquadra o Kremlin como uma amea\u00e7a, propondo a sa\u00edda do Tratado de Takshent, da Uni\u00e3o com a R\u00fassia e medidas para fortalecer o pa\u00eds com \u201ceduca\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica\u201d. Muitos temas que j\u00e1 foram vistos na Ucr\u00e2nia, com a identifica\u00e7\u00e3o do Kremlin como uma amea\u00e7a tendo como consequ\u00eancia a proposi\u00e7\u00e3o de medidas contra \u201cagentes do Kremlin\u201d dentro do pa\u00eds, na m\u00eddia e na sociedade civil (e, dentre elas, uma proposta de \u201cbielorrussifica\u00e7\u00e3o\u201d das igrejas).<\/p>\n<p>T\u00e3o logo isso passou a ser denunciado na primeira semana depois das elei\u00e7\u00f5es, o site inteiro foi tirado do ar.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o, tendo entrado em um confronto prolongado que pelo visto n\u00e3o esperava (contando com a queda r\u00e1pida de Lukashenko) sabe que esse tipo de coisa favorece o governo e cria um campo favor\u00e1vel para ele, por isso agora tentam se dissociar, falando deste programa como produto de uma iniciativa privada, apesar de ser uma articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica envolvendo l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o. Tanto seus elementos de reforma econ\u00f4mica combinam com o que diziam pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o liberal em junho, como as supostas posi\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas casam com os nacionalistas que tomam parte da coaliz\u00e3o (e na verdade, \u00e9 um tanto \u00f3bvio que pelo menos uma parte consider\u00e1vel dos liberais \u00e9 pr\u00f3-OTAN).<\/p>\n<p>No mesmo dia que tal documento foi exposto na m\u00eddia estatal bielorrussa \u2013 e mais tarde, comentado por Lukashenko em reuni\u00e3o do Comit\u00ea Nacional de Defesa \u2013 o Conselho de Coordena\u00e7\u00e3o declarou oficialmente que desejam cooperar com \u201ctodos os parceiros, incluindo a Federa\u00e7\u00e3o Russa\u201d.<\/p>\n<p>Desinforma\u00e7\u00e3o? Por mais provocativas que sejam as posi\u00e7\u00f5es do suposto trecho do programa, \u00e9 fundamentalmente o discurso normal de nacionalistas e liberais atlantistas em Belarus; agora que os dados foram lan\u00e7ados, \u00e9 natural que a dire\u00e7\u00e3o oposicionista que n\u00e3o reconhece os resultados das elei\u00e7\u00f5es procure se desvencilhar desses posicionamentos estranhos aos seu objetivo mais imediato, que \u00e9 derrubar Lukashenko.\u00b2<\/p>\n<p>Ainda que os manifestantes possam ter motiva\u00e7\u00f5es diversas, a situa\u00e7\u00e3o atual est\u00e1 longe de ser livre do peso da geopol\u00edtica e das narrativas hist\u00f3ricas que sustentam o caminhar de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>\u00b9 \u2013 Procurando o trecho em russo no Google com um intervalo de tempo entre o primeiro dia de janeiro de 2020 at\u00e9 o primeiro dia de agosto (isto \u00e9, antes disso virar uma febre na rede russa), o pr\u00f3prio mecanismo de pesquisa oferece uma p\u00e1gina do \u201cZa Belarus\u201d que cont\u00e9m o trecho, mas com um link quebrado \u2013 sinal de que h\u00e1 algum registro no cache do Google. A data \u00e9 dia 25 de junho.<br \/>\n\u00b2 \u2013 O Partido da Frente Popular da Bielorr\u00fassia acusou Lukashenko de \u201cfake news\u201d ao divulgar o que seria o seu programa como se fosse de Tikhanovskaya, tratando as medidas como \u201cinevit\u00e1veis para Belarus\u201d por\u00e9m \u201cfora de quest\u00e3o\u201d no momento. O programa, naturalmente, \u00e9 marcado pela ret\u00f3rica nacionalista e defende ades\u00e3o de Belarus na OTAN, mas n\u00e3o usa o mesmo palavreado. Da mesma forma o programa do PFPB tamb\u00e9m tem princ\u00edpios liberais-conservadores na economia.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Ortega \u00e9 fundador do site Realismo Pol\u00edtico e co-apresentador do programa Posto Sul. Leitor \u00e1vido, foi correspondente da Revista Opera junto aos rebeldes no leste da Ucr\u00e2nia em 2015 e escreve na &#8220;Coluna do Ortega.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26051\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[361],"tags":[233],"class_list":["post-26051","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-bielorrussia","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Mb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26051","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26051"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26051\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26051"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26051"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26051"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}