{"id":26053,"date":"2020-08-28T22:45:11","date_gmt":"2020-08-29T01:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26053"},"modified":"2020-08-28T22:45:11","modified_gmt":"2020-08-29T01:45:11","slug":"a-nova-biografia-de-gramsci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26053","title":{"rendered":"A nova biografia de Gramsci"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/07\/antonio-gramsci_biografia.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->No momento em que governos autorit\u00e1rios e seus sustent\u00e1culos civis reacion\u00e1rios reemergem na hist\u00f3ria, a biografia intelectual de um militante pol\u00edtico que se dedicou inteiramente \u00e0 luta contra todo tipo de domina\u00e7\u00e3o, especialmente contra o fascismo, torna-se incontorn\u00e1vel.<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Luciana Aliaga<\/p>\n<p>Em terras brasileiras, como se sabe, Antonio Gramsci aportou como o \u201cher\u00f3i\u201d da luta cultural antifascista, como o te\u00f3rico das superestruturas. No intricado processo de recep\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o de suas ideias a partir das primeiras tradu\u00e7\u00f5es, em fins da d\u00e9cada de 1960, operou-se, portanto, uma grave cis\u00e3o entre o fil\u00f3sofo e o pol\u00edtico, entre pensamento e a\u00e7\u00e3o, entre o homem hist\u00f3rico e o mito desencarnado.<\/p>\n<p>O pensamento gramsciano, com efeito, n\u00e3o apenas no Brasil, mas na Am\u00e9rica Latina de modo mais abrangente, foi submetido aos mais diversos usos, resultando em leituras parciais e fragment\u00e1rias. De l\u00e1 para c\u00e1, muitos esfor\u00e7os t\u00eam sido envidados em busca de uma leitura integral de Gramsci, e, de fato, \u00e9 poss\u00edvel dizer que tal empreendimento \u2013 vital na mesma medida em que \u00e9 \u00e1rduo \u2013 est\u00e1 ainda em constru\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a publica\u00e7\u00e3o, no Brasil, de Antonio Gramsci, o homem fil\u00f3sofo: uma biografia intelectual, de Gianni Fresu, constitui uma important\u00edssima contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste livro, Fresu consegue dar concretude ao \u201cGramsci hist\u00f3rico\u201d, sujeito \u00e0s modifica\u00e7\u00f5es \u2013 e, pode-se dizer tamb\u00e9m, evolu\u00e7\u00f5es \u2013 intelectuais e morais exigidas diante de seus pr\u00f3prios limites humanos tanto quanto diante dos desafios te\u00f3ricos e pol\u00edticos de sua \u00e9poca. Emerge dessa leitura toda a complexidade do autor em suas diversas fases de vida. Paralelamente \u00e0s diferentes perspectivas que Gramsci assume em sua trajet\u00f3ria intelectual, percebemos o fio condutor que opera a unidade do pensamento ao longo do tempo, pensamento que sempre rejeitou com veem\u00eancia o pedantismo e o diletantismo burgueses, assim como nunca tolerou os esquematismos e os dogmatismos nas pr\u00f3prias fileiras.<\/p>\n<p>Fresu nos faz enxergar os elementos de perman\u00eancia e de coer\u00eancia interna no percurso intelectual e pol\u00edtico de Gramsci, entre os quais se destaca o firme e resoluto combate \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes subalternas pelas minorias dirigentes. A ades\u00e3o \u00e0 perspectiva das classes subalternas n\u00e3o corresponde, contudo \u2013 como fica evidente sob a pena de Fresu \u2013, a um procedimento meramente te\u00f3rico, mas \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 imers\u00e3o real no drama hist\u00f3rico dos dominados e subalternizados, na concretiza\u00e7\u00e3o de uma epistemologia popular capaz de prover fundamentos s\u00f3lidos a uma filosofia de massa, ou, pode-se dizer, \u00e0 filosofia da pr\u00e1xis.<\/p>\n<p>No momento em que governos autorit\u00e1rios e seus sustent\u00e1culos civis reacion\u00e1rios reemergem na hist\u00f3ria, a biografia intelectual de um militante pol\u00edtico que se dedicou inteiramente \u00e0 luta contra todo tipo de domina\u00e7\u00e3o, especialmente contra o fascismo, torna-se incontorn\u00e1vel.<\/p>\n<p>Na figura de Antonio Gramsci coexistem diferentes necessidades e perspectivas, mas toda a sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica se desenvolve dentro de uma estrutura de profunda continuidade. Isso n\u00e3o significa que ele permane\u00e7a sempre id\u00eantico a si mesmo; pelo contr\u00e1rio, em muitas quest\u00f5es seu racioc\u00ednio torna-se mais complexo, toma novas dire\u00e7\u00f5es, muda ju\u00edzos iniciais. A suposta divis\u00e3o ideol\u00f3gica entre um antes e um depois, em raz\u00e3o da qual um \u201cGramsci pol\u00edtico\u201d tende a ser oposto a um \u201cGramsci homem de cultura\u201d, \u00e9 resultado de uma falsifica\u00e7\u00e3o ditada por quest\u00f5es essencialmente pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A vida do intelectual sardo \u00e9 marcada pelo drama da Primeira Guerra Mundial, o primeiro conflito de massas em que as grandes descobertas cient\u00edficas foram aplicadas em larga escala e em que milh\u00f5es de camponeses e oper\u00e1rios foram enviados ao massacre. Em toda a sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, essa rela\u00e7\u00e3o dualista, que exemplifica o uso instrumental dos \u201csimples\u201d pelas classes dominantes, ultrapassa o contexto das trincheiras para encontrar plena express\u00e3o na moderna sociedade capitalista. Em contraste com essa ideia de hierarquia social, considerada natural e imut\u00e1vel, Gramsci afirma a necessidade de supera\u00e7\u00e3o da fratura historicamente determinada entre fun\u00e7\u00f5es intelectuais e manuais. Para Gramsci, \u201ctodo homem \u00e9 um fil\u00f3sofo\u201d. Nessa express\u00e3o est\u00e1 condensada sua ideia de \u201cemancipa\u00e7\u00e3o humana\u201d: a subvers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es tradicionais entre dirigentes e dirigidos e o fim da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem.<\/p>\n<p>Num contexto como o atual, marcado pela ofensiva reacion\u00e1ria e pelo refluxo democr\u00e1tico em n\u00edvel internacional, o legado de Gramsci \u00e9 uma ferramenta fundamental, porque fornece categorias e chaves de leituras \u00fateis para esclarecer as contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Gianni Fresu (Sassari, 1972) \u00e9 professor de filosofia pol\u00edtica na Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (MG), doutor em pesquisa filos\u00f3fica pela Universit\u00e0 degli Studi \u201cCarlo Bo\u201d de Urbino e presidente da International Gramsci Society Brasil. \u00c9 autor, entre outros, de Il diavolo nell\u2019ampolla. Antonio Gramsci, gli intellettuali e il Partito (2005); Oltre la parentesi. Fascismo e storia d\u2019Italia nell\u2019interpretazione gramsciana (2009), em coautoria com Aldo Accardo; L\u00eanin leitor de Marx: dial\u00e9tica e determinismo na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio (2016) e Nas trincheiras do Ocidente: li\u00e7\u00f5es sobre fascismo e antifascismo (2017).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26053\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[224],"class_list":["post-26053","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Md","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26053"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26053\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}