{"id":26066,"date":"2020-09-01T22:08:37","date_gmt":"2020-09-02T01:08:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26066"},"modified":"2020-09-01T22:08:37","modified_gmt":"2020-09-02T01:08:37","slug":"guerra-fria-anticomunismo-e-armamentismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26066","title":{"rendered":"Guerra Fria, anticomunismo e armamentismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/media.zenfs.com\/en\/the_national_interest_705\/28dbfa5d6cb20d53fe685064c12d0bac\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Marco C\u00e9sar &#8211; militante do PCB de Osasco (SP)<\/p>\n<p>Existe uma mem\u00f3ria difusa sobre a Guerra Fria, que tende a enfatizar a irracionalidade da corrida armamentista e de seu suposto fundamento doutrin\u00e1rio: a mutual assured destruction, popularizada na express\u00e3o mad world. De acordo com esse entendimento, os EUA ( Estados Unidos da Am\u00e9rica) e a URSS ( Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas) teriam se despido de quaisquer preocupa\u00e7\u00f5es com a sobreviv\u00eancia da ra\u00e7a humana, uma vez que ambos estariam dispostos a armarem \u2013 se continuamente, presumivelmente para garantir a paz !<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio do ensandecimento geral tamb\u00e9m reduziu os conflitos entre os EUA e a URSS a meras disputas por \u00e1reas de influ\u00eancia . O desdobramento dessa hip\u00f3tese colocou os dois Estados na mesma situa\u00e7\u00e3o, farinhas do mesmo saco, cujo \u00fanico objetivo seria a perpetua\u00e7\u00e3o de seus respectivos interesses, nessa ou naquela regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O historiador Eric Hobsbawm abordou o problema dessa forma. Duas superpot\u00eancias que se assenhoraram de algumas \u00e1reas de influ\u00eancia e procuraram mant\u00ea-las a todo custo. Assim, enquanto os objetivos geopol\u00edticos estivessem preservados, para ambos os lados, a Guerra Fria jamais esquentaria, exceto em situa\u00e7\u00f5es pontuais, como teria ocorrido, de acordo com Hobsbawm, em meados dos anos 70, per\u00edodo das revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais na \u00c1frica e da Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana. ( HOBSBAWM, 1999 ; Cia das Letras, p. 242)<\/p>\n<p>Se mudarmos a abordagem e considerarmos a Guerra Fria como um prolongamento da luta de classes no plano internacional , as conclus\u00f5es a que chegaremos ser\u00e3o bem diversas. Para tanto, a an\u00e1lise de alguns pontos s\u00e3o essenciais.<\/p>\n<p>O primeiro diz respeito ao processo de demoniza\u00e7\u00e3o da URSS e de constru\u00e7\u00e3o do consenso em torno do anticomunismo. O sucesso da constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio anticomunista desdobrou\u2013se em outras quest\u00f5es. Primeiramente, justificava a cruzada do ocidente contra a \u201ccortina de ferro\u201d. Em segundo lugar, enraizava uma percep\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o, particularmente nos EUA, que estigmatizava os movimentos sociais enquanto express\u00f5es de sabotagens comunistas contra o americanismo. Finalmente, a demoniza\u00e7\u00e3o da URSS e o espraiamento do anticomunismo constitu\u00edram a base pol\u00edtica de legitima\u00e7\u00e3o dos pesados investimentos na ind\u00fastria armamentista, situa\u00e7\u00e3o que alavancaria a acumula\u00e7\u00e3o de capital nos EUA, mas seria consideravelmente prejudicial \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do socialismo na URSS.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, para os EUA, a legitima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da cruzada contra o \u201cterror vermelho\u201d deu ensejo \u00e0s condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas necess\u00e1rias \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do complexo industrial-militar, o que significou a consolida\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo estrutural entre os gastos militares e o crescimento da economia estadunidense, al\u00e9m de implicar em outra forma de press\u00e3o sobre a URSS, que se via na conting\u00eancia de acompanhar os gastos militares dos EUA, n\u00e3o tendo, por\u00e9m, os mesmos recursos. Com o tempo, ficou claro que o enorme fluxo de investimentos no complexo industrial-militar representava tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia de estrangulamento econ\u00f4mico da URSS.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 URSS, a situa\u00e7\u00e3o apresentava-se um pouco mais complexa. A II Guerra Mundial explicitou o potencial de desenvolvimento de uma economia socialista e planificada . Contudo, se a performance da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica demonstrou a tenacidade do socialismo, tamb\u00e9m suscitou atitudes mais hostis dos EUA e da Inglaterra. A este respeito, devemos considerar inclusive o impacto pol\u00edtico das bombas at\u00f4micas em Hiroshima e Nagasaki. Os artefatos at\u00f4micos implicaram em uma trag\u00e9dia para os japoneses, que em poucos dias perderam por volta de 160 mil vidas. Entretanto, ao mesmo tempo, teve o car\u00e1ter de demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a por parte dos EUA, al\u00e9m de se tornar uma grande preocupa\u00e7\u00e3o para a URSS, que se encontrava na mira do programa nuclear estadunidense.<\/p>\n<p>Nesse contexto, enquanto as na\u00e7\u00f5es da Europa Ocidental se reconstru\u00edam e intensificava-se a acumula\u00e7\u00e3o de capital nos EUA, a URSS viu-se obrigada a participar de uma disputa que consumia muitos dos seus recursos e direcionava suas for\u00e7as produtivas \u00e0 corrida armamentista. A longo prazo, os problemas colocados por tal &#8220;escolha&#8221; influenciariam o processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista no in\u00edcio dos anos 90, que foi consideravelmente impulsionado pelos problemas que a Guerra Fria criaram ao longo de quase 50 anos.<\/p>\n<p>Anticomunismo e Belicismo<\/p>\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio belicista e anticomunista merece destaque a atua\u00e7\u00e3o do ex-primeiro brit\u00e2nico, o not\u00f3rio conservador Winston Churchill. O ex-premi\u00ea sa\u00edra derrotado nas elei\u00e7\u00f5es para o parlamento brit\u00e2nico no ano de 1946. Pol\u00edtico experimentado, adulado pela imprensa estadunidense, sagaz em suas frases de efeito e visceralmente anticomunista, Churchill teve importante papel na orienta\u00e7\u00e3o militarista da pol\u00edtica externa dos EUA, ent\u00e3o sob o governo de Harry Truman.<\/p>\n<p>A Churchill, ali\u00e1s, coube o papel de tomar a iniciativa atrav\u00e9s de um discurso proferido a 5 de mar\u00e7o de 1946, na cidade de Fulton, Missouri. Foi nessa ocasi\u00e3o que a express\u00e3o \u201ccortina de ferro&#8221; foi utilizada pela primeira vez, na condi\u00e7\u00e3o de alus\u00e3o aos pa\u00edses socialistas da Europa centro-oriental. A sugest\u00e3o de que os pa\u00edses europeus do bloco socialista viviam apartados do resto do mundo em virtude da onipresen\u00e7a do Ex\u00e9rcito Vermelho, ou de uma \u201ccortina de ferro&#8221;, j\u00e1 nos coloca diante do primeiro fato relevante da Guerra Fria: a disposi\u00e7\u00e3o dos Estados capitalistas em constru\u00edrem um forte sentimento anticomunista em suas popula\u00e7\u00f5es, ainda que tal constru\u00e7\u00e3o fosse sustentada por boa dose de mentiras e uma gigantesca e multifacetada m\u00e1quina de propaganda.<\/p>\n<p>O que temos aqui \u00e9 o prolongamento de um conflito no qual as omiss\u00f5es hist\u00f3ricas tornaram-se constantes. Mas qual o sentido e os prop\u00f3sitos da ofensiva ideol\u00f3gica promovida pelas na\u00e7\u00f5es capitalistas, especialmente pelos EUA ?<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos pensar que a quest\u00e3o se restringia \u00e0 desqualifica\u00e7\u00e3o do oponente. Ainda que a demoniza\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do bloco socialista fosse importante, igualmente relevante era a utiliza\u00e7\u00e3o da propaganda anticomunista para obstruir quaisquer focos de oposi\u00e7\u00e3o interna, tanto nos EUA, quanto na Europa Ocidental.<\/p>\n<p>No que diz respeito aos EUA, a propaganda ideol\u00f3gica de Estado remonta aos anos 1930. No ano de 1932, o Congresso Nacional estadunidense aprovara a liberdade de organiza\u00e7\u00e3o sindical. Incontinenti, o Departamento de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas do Estado e um cons\u00f3rcio de grandes empresas, capitaneadas pela Ford, deram in\u00edcio a uma luta sem tr\u00e9guas contra os sindicatos. Baseados no mito do \u201camericanismo&#8221; e na rotula\u00e7\u00e3o de todas e quaisquer lutas sociais como express\u00f5es do diversionismo e da desarmonia, o mito do americanismo implicou em efeitos delet\u00e9rios para o movimento sindical estadunidense, isolando-o e deslegitimando-o (CHOMSKY, 2019, Martins Fontes, p.p 23 \u2013 26).<\/p>\n<p>Tal pol\u00edtica n\u00e3o se reduzia \u00e0 desqualifica\u00e7\u00e3o dos sindicatos. Ora expl\u00edcita, ora implicitamente, a propaganda associava toda e qualquer forma de agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 vaga ideia de \u201cterror vermelho&#8221; que insidiosamente somava-se com as bases morais do americanismo.<\/p>\n<p>Posteriormente, durante a II Guerra Mundial, a prega\u00e7\u00e3o ficou ligeiramente adormecida. Terminada a guerra e o governo Roosevelt, foram reativados e aperfei\u00e7oados os mecanismos capazes de produzir a histeria anticomunista; que agora, combinada com o terror nuclear, ensejou uma cultura do medo, cujo resultado expressou-se no apego irracional \u00e0 tecnologia de guerra, o que se afastava de qualquer preceito \u00e9tico ou de qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro da humanidade. Estava formado o que Herbert Marcuse chamou de homem unidimensional ( MARCUSE, 1982;ZAHAR, p.173).<\/p>\n<p>No conjunto, os valores xen\u00f3fobos e marciais penetraram os poros da sociedade estadunidense, de modo que a altern\u00e2ncia entre republicanos e democratas jamais representou o menor obst\u00e1culo aos gastos astron\u00f4micos com a ind\u00fastria armamentista, incluindo-se a\u00ed a produ\u00e7\u00e3o de armas nucleares. Hoje, o complexo industrial-militar ainda exerce o papel de um dos principais centros din\u00e2micos da economia e tem peso significativo na pauta de exporta\u00e7\u00f5es dos EUA.<\/p>\n<p>A cruzada antissovi\u00e9tica e a corrida armamentisa<\/p>\n<p>Outro aspecto importante refere-se \u00e0 quest\u00e3o dos desacordos entre EUA e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica enquanto express\u00f5es do car\u00e1ter de classes da Guerra Fria, que se traduzia no claro desejo de aniquila\u00e7\u00e3o da URSS, seja pela for\u00e7a das armas, seja pelo estrangulamento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A II Guerra Mundial demonstrou \u00e0s for\u00e7as do Eixo e tamb\u00e9m aos Aliados que a URSS, al\u00e9m de recursos naturais consider\u00e1veis, possu\u00eda uma forma de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica capaz de redirecionar r\u00e1pida e eficientemente o conjunto das for\u00e7as produtivas para as necessidades imediatas, inclusive para produ\u00e7\u00e3o b\u00e9lica. Os fundamentos dessa flexibilidade residiam no controle estatal dos meios de produ\u00e7\u00e3o e no planejamento centralizado da economia. Para os que observaram atentamente, a pujan\u00e7a revelada pela URSS demonstrava exatamente a vit\u00f3ria dos preceitos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa em todo o seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Mas o pior pesadelo das pot\u00eancias ocidentais era o prest\u00edgio que a URSS vinha obtendo, de modo a servir de exemplo para v\u00e1rios povos e na\u00e7\u00f5es, inclusive na Europa Ocidental. De outro lado, para os EUA e para as na\u00e7\u00f5es alinhadas com sua pol\u00edtica externa, tratava-se de destruir essa inc\u00f4moda refer\u00eancia, fosse atrav\u00e9s do cerco ao seu territ\u00f3rio ou pelo sufoco econ\u00f4mico que a corrida armamentista pretendia provocar. Em pouco tempo, tal orienta\u00e7\u00e3o foi ganhando corpo, mesmo sem o menor ind\u00edcio de hostilidades futuras por parte da URSS. A quest\u00e3o era outra, tratava-se de conter ou desqualificar as conquistas que uma eventual revolu\u00e7\u00e3o socialista poderia trazer a outros povos do mundo. A URSS, mais do que um poderoso inimigo, era um poderoso est\u00edmulo que deveria ser combatido em todos os planos: no militar, no econ\u00f4mico, no pol\u00edtico, no diplom\u00e1tico e no ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Enquanto os EUA aqueciam a Guerra Fria, a corrida armamentista intensificava-se, incluindo-se, evidentemente, a produ\u00e7\u00e3o de armas nucleares. Por outro lado, ap\u00f3s o discurso de Churchill em 1946 e do primeiro teste nuclear sovi\u00e9tico em 1947, ficava claro que quaisquer acordos teriam que necessariamente passar pela ONU ( Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas) .<\/p>\n<p>O historiador estadunidense J.P Morray (MORRAY, 1961; ZAHAR) fez extenso apanhado de documentos produzidos pelo Comit\u00ea de Seguran\u00e7a da ONU, bem como das v\u00e1rias comiss\u00f5es de desarmamento que foram se formando enquanto as tens\u00f5es progrediam. Al\u00e9m da documenta\u00e7\u00e3o escrita, Morray coletou in\u00fameros discursos proferidos no plen\u00e1rio da ONU e tamb\u00e9m fora dele. Desde o in\u00edcio observa-se que partiram da URSS as propostas mais consistentes no sentido de conter a produ\u00e7\u00e3o de armas nucleares e reduzir o beneficiamento de materiais radioativos para fins militares. Invariavelmente, as propostas sovi\u00e9ticas ou eram vetadas nas comiss\u00f5es especiais ou no plen\u00e1rio da ONU. Os vetos dos representantes estadunidenses, sempre secundados pelo Reino Unido e frequentemente pela Fran\u00e7a, baseavam-se na alega\u00e7\u00e3o de que o fim do programa nuclear seria impratic\u00e1vel se a URSS n\u00e3o se despojasse de todos os seus armamentos convencionais.<\/p>\n<p>Para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica essa exig\u00eancia seria muito problem\u00e1tica, uma vez que a defini\u00e7\u00e3o de uma zona de seguran\u00e7a, livre de hostilidades contra o territ\u00f3rio sovi\u00e9tico, tornava-se cada vez mais improv\u00e1vel. De um lado havia a quest\u00e3o da reorganiza\u00e7\u00e3o do Estado polon\u00eas, cuja autoridade, sediada em Lublin, estabelecera-se com a chegada do Ex\u00e9rcito Vermelho. Na pr\u00e1tica, foram os partidos oper\u00e1rios e populares da Pol\u00f4nia, juntamente com o Ex\u00e9rcito Vermelho, que expulsaram os nazistas, de modo que seria inconceb\u00edvel para a URSS e para os partidos populares a aceita\u00e7\u00e3o de um governo antissovi\u00e9tico e anticomunista, cujas principais lideran\u00e7as permaneceram no ex\u00edlio durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista.<\/p>\n<p>Na verdade, tal problema repetiu-se em toda a linha fronteiri\u00e7a da URSS com a Europa Ocidental, incluindo-se a Alemanha. No caso da Alemanha, a sua divis\u00e3o em duas \u00e1reas, oriental e ocidental, respectivamente sob controle da URSS e dos EUA, fora estabelecida no encontro de Potsdam e ratificada na Crim\u00e9ia e em Yalta. Na ocasi\u00e3o em que a divis\u00e3o foi estabelecida, acordou-se o desarmamento total da Alemanha. Por\u00e9m, os EUA, aberta ou clandestinamente, vinham despejando armamentos convencionais na Alemanha Ocidental, n\u00e3o obstante as constantes den\u00fancias da URSS e de outros pa\u00edses membro da ONU. O resultado desse conflito foi a constru\u00e7\u00e3o do famigerado muro de Berlin, que teve um car\u00e1ter claramente defensivo.<\/p>\n<p>Os casos da Pol\u00f4nia e da Alemanha s\u00e3o apenas dois de v\u00e1rios outros epis\u00f3dios de instrumentaliza\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00f5es antissovi\u00e9ticas ou anticomunistas nos pa\u00edses fronteiri\u00e7os \u00e0 URSS, mesmo naqueles em que as administra\u00e7\u00f5es ficaram sob responsabilidade sovi\u00e9tica , como eram os casos da Hungria, Rom\u00eania e Tchecoslov\u00e1quia.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, qual solu\u00e7\u00e3o poderia ser constru\u00edda? Para os EUA, as alternativas eram mais simples. Tratava-se basicamente de continuar com os programas de est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o armamentista, incluindo-se a produ\u00e7\u00e3o de bombas at\u00f4micas.<\/p>\n<p>Para a URSS o problema se apresentava diversamente. Para a defesa do Estado, n\u00e3o poderia abrir m\u00e3o do aparelhamento do Ex\u00e9rcito Vermelho, nem do programa nuclear, ou, mais para frente, da corrida espacial. Entretanto, o esfor\u00e7o armamentista lhe pesaria mais, por fragilizada que se encontrava ap\u00f3s duas guerras externas e uma guerra civil, sem contar o peso do atraso secular de sua economia, cuja corre\u00e7\u00e3o se iniciara muito recentemente, com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917. Nesse sentido, a quest\u00e3o central residia muito mais na preserva\u00e7\u00e3o do Estado do que em qualquer aventura militar, como a ocupa\u00e7\u00e3o da Europa Ocidental, por exemplo.<\/p>\n<p>Como em todos os processos revolucion\u00e1rios, tamb\u00e9m a URSS encontrou-se numa situa\u00e7\u00e3o em que a otimiza\u00e7\u00e3o dos seus sistemas de defesa era condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao enfrentamento da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Como observa L\u00eanin em &#8220;O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o&#8221;, a manuten\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio sempre foi uma necessidade de todas as revolu\u00e7\u00f5es diante de rea\u00e7\u00f5es previs\u00edveis das antigas classes dirigentes e de todos os demais inimigos internos e externos do Estado. A Guerra Fria, nesse sentido, foi apenas uma confirma\u00e7\u00e3o da tese leniniana. Tratou \u2013 se de um problema previs\u00edvel historicamente e do qual n\u00e3o se podia fugir ( LENIN, 1980; Alfa e \u00d4mega, p.p. 234 \u2013239).<\/p>\n<p>Um grande neg\u00f3cio para os EUA e um problema para a URSS<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi observado, a URSS vinha de uma guerra civil e de duas guerras mundiais que devastaram seu territ\u00f3rio, destru\u00edram muito do seu parque industrial e arruinaram sua agricultura. Contudo, enquanto os demais pa\u00edses da Europa faziam sua reconstru\u00e7\u00e3o sob os olhos vigilantes dos EUA e com o apoio econ\u00f4mico do Plano Marshall, a URSS, combalida como estava, viu-se na situa\u00e7\u00e3o de continuar dirigindo boa parte de seus recursos econ\u00f4micos para um novo esfor\u00e7o de guerra.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dos EUA era muito vantajosa. Seu territ\u00f3rio n\u00e3o foi afetado durante o per\u00edodo das duas grandes guerras; ademais, dentre as na\u00e7\u00f5es imperialistas do bloco aliado, foi a que teve menos baixas em vidas humanas. Simultaneamente, o esfor\u00e7o de guerra estadunidense deu-se numa conjuntura de ampla oferta de capitais, numa economia j\u00e1 desenvolvida e integrada. Ao mesmo tempo, os gastos estatais em armamentos foram gradualmente acostumando alguns setores da economia aos crescentes disp\u00eandios estatais em armamentos. Apenas para que tenhamos uma ideia, em 1948, tais gastos foram da ordem de 103.9 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, cifra que se elevou para 442.3 bilh\u00f5es no ano de 1953 e , com pequenas oscila\u00e7\u00f5es, continuaram crescendo durante todo o per\u00edodo da Guerra Fria. Notemos que a produ\u00e7\u00e3o de armas, quaisquer que sejam, provocam o crescimento de economias complementares, sobretudo nas ind\u00fastrias de componentes e mineradora, de modo que a pol\u00edtica de gastos militares do Estado representaram e continuam representando, n\u00e3o o interesse de uma, mas de v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es da burguesia.<\/p>\n<p>Essa outra dimens\u00e3o da Guerra Fria foi percebida pela URSS. Em 1951, no plen\u00e1rio na ONU, Malik, delegado da URSS na ONU no per\u00edodo de Leonid Brejnev, observou que a resist\u00eancia dos EUA \u00e0s medidas efetivas de desarmamento devia-se aos v\u00ednculos entre o Estado e a ind\u00fastria de armamentos, incluindo-se a\u00ed o beneficiamento de material radioativo e a produ\u00e7\u00e3o de bombas nucleares (MORRAY, 1961; ZAHAR, p.p. 210 \u2013 211).<\/p>\n<p>As economias estadunidense e europeia otimizaram a produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, muitas vezes utilizando as tecnologias derivadas da ind\u00fastria b\u00e9lica. Em que pesem os enormes progressos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos da URSS, a sua economia, por outro lado, patinava num tipo de crescimento de car\u00e1ter extensivo, carente de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas na ind\u00fastria civil e com s\u00e9rias limita\u00e7\u00f5es no atendimento de necessidades b\u00e1sicas da sua popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso, um dos fundamentos da perestroika, j\u00e1 nos meados dos anos 1980, era o estabelecimento de outro padr\u00e3o de crescimento econ\u00f4mico, intensivo e centrado na produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo.<\/p>\n<p>A revers\u00e3o da economia sovi\u00e9tica \u00e0 nova orienta\u00e7\u00e3o sugerida pela perestroika dependia, no entanto, do redirecionamento dos investimentos da ind\u00fastria b\u00e9lica para a produ\u00e7\u00e3o civil, o que supunha o arrefecimento da corrida armamentista, reduzindo assim o padr\u00e3o de gastos estabelecido pela Guerra Fria ( GORENDER, 1993; Atual Editora, p.p. 80 \u201382).<\/p>\n<p>Bem que Gorbachev tentou! O premier sovi\u00e9tico envidou uma s\u00e9rie de esfor\u00e7os e propostas no sentido da redu\u00e7\u00e3o dos arsenais estadunidense e sovi\u00e9tico. Na verdade, o premi\u00ea tentava uma forma de conviv\u00eancia com o bloco capitalista\/imperialista que soava algo pat\u00e9tica. Enquanto a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do estado sovi\u00e9tico tentava mostrar-se mais confi\u00e1vel, movimentos revolucion\u00e1rios anticapitalistas e anti-imperialistas pipocavam na Am\u00e9rica Latina e no Oriente M\u00e9dio. Evidentemente, num cen\u00e1rio como esse, n\u00e3o se poderia esperar qualquer recuo dos EUA; ali\u00e1s, muito ao contr\u00e1rio, o que se viu foi a intensifica\u00e7\u00e3o dos investimentos no complexo industrial-militar estadunidense, simbolizado pelo projeto guerra nas estrelas de Ronald Reagan.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o escapou aos EUA foi o esgotamento econ\u00f4mico da URSS, motivado sobretudo pelo peso da corrida armamentista, que tornava-se cada vez mais insuport\u00e1vel, dando ensejo, internamente, ao crescimento da oposi\u00e7\u00e3o restauracionista.<\/p>\n<p>Basicamente foi a defesa do Estado socialista que determinou a entrada da URSS na corrida armamentista, entretanto, se tal situa\u00e7\u00e3o estimulou a acumula\u00e7\u00e3o de capital nos EUA, ela tamb\u00e9m contribuiu decisivamente para a ru\u00edna econ\u00f4mica da URSS. Por sua vez, o decl\u00ednio econ\u00f4mico reduziu o apoio dos trabalhadores, al\u00e9m de suscitar o aparecimento de lideran\u00e7as demag\u00f3gicas comprometidas com a restaura\u00e7\u00e3o capitalista ( SADER, 1997; Paz e Terra, entrevista de Ernest Mandel ).<\/p>\n<p>A Guerra Fria foi, portanto, a express\u00e3o evidente da luta de classes no plano internacional, que mais para frente, no in\u00edcio dos anos 90, assumiu o car\u00e1ter de oposi\u00e7\u00e3o interna \u00e0 sobreviv\u00eancia do Estado socialista. Se no percurso os interesses burgueses se entrela\u00e7aram com os gastos dos Estados capitalistas, isso n\u00e3o invalida uma outra verdade: a de que o objetivo era o fim da URSS.<\/p>\n<p>Em busca de uma nova Guerra Fria<\/p>\n<p>Seria de se esperar que o fim da URSS reverteria a orienta\u00e7\u00e3o belicista dos EUA e seus aliados. N\u00e3o foi o que aconteceu, pois as vantagens dos capitalistas da ind\u00fastria de armas e de outros setores direta ou indiretamente a ela vinculados j\u00e1 se encontravam profundamente arraigados, notadamente nos EUA. Os Estados, encontravam-se organicamente vinculados a tais interesses, enquanto o capital financeiro, bem como v\u00e1rios setores da ind\u00fastria civil, tamb\u00e9m estavam enla\u00e7ados com as demandas do complexo industrial-militar. Nesse quadro, fazia-se necess\u00e1rio um novo inimigo e se a URSS j\u00e1 n\u00e3o contava mais, que a propaganda de Estado criasse outro!<\/p>\n<p>Dessa fase em diante intensificou-se o combate ao narcotr\u00e1fico e a ao terrorismo. Marcada por tra\u00e7os evidentes de racismo e xenofobia, a propaganda estadunidense, inclusive no setor de entretenimento, colocou uma placa de terrorista pendendo nos pesco\u00e7os de todos os povos mu\u00e7ulmanos do Oriente M\u00e9dio, enquanto as campanhas contra o narcotr\u00e1fico estigmatizavam os povos afrodescendentes e nativos da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Na verdade, as interven\u00e7\u00f5es estadunidenses no Oriente M\u00e9dio, sempre secundadas por Israel, bem como o aparelhamento de alguns ex\u00e9rcitos latino-americanos, tinham como prop\u00f3sitos a manuten\u00e7\u00e3o dos gastos militares e o controle pol\u00edtico-militar em regi\u00f5es sobre as quais o tac\u00e3o de ferro do imperialismo j\u00e1 se fazia presente.<\/p>\n<p>S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es assim que explicitam a falta da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como fundamento material para a conten\u00e7\u00e3o da agressividade imperialista em todo o mundo. A aus\u00eancia do Estado Socialista criou um v\u00e1cuo que o imperialismo n\u00e3o hesitou em ocupar pelo uso da for\u00e7a , como nos Balc\u00e3s, no Oriente M\u00e9dio, na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica perdeu a Guerra Fria? Dif\u00edcil responder. Pode-se dizer que a sua aus\u00eancia desequilibrou a pol\u00edtica internacional em favor do imperialismo. Ainda assim, n\u00e3o se podem negar os retrocessos, dentre os quais o simb\u00f3lico. A esse respeito, a &#8220;derrota&#8221; traduziu &#8211; se na elimina\u00e7\u00e3o de um exemplo que alimentava ideologicamente e apoiava materialmente projetos de autodetermina\u00e7\u00e3o, liberdade e igualdade pelo mundo todo. Em suma, a restaura\u00e7\u00e3o capitalista significou um rev\u00e9s para todas as lutas populares, assim como para a luta socialista. Derrota definitiva? N\u00e3o, pois como sabemos, o fim da Hist\u00f3ria \u00e9 apenas um mito.<\/p>\n<p>Bibliografia<\/p>\n<p>CHONSKY, NOAN . M\u00eddia &#8211; Propaganda Pol\u00edtica e Manipula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo : Martins Fontes, 2019.<\/p>\n<p>HOBSBAWN, E.J., Era dos Extremos \u2013 O Breve S\u00e9culo XX, 1914-1991. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo : Cia das Letras, 1999.<\/p>\n<p>GORENDER, JACOB. O Fim da URSS. 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo : Atual Editora.<\/p>\n<p>LENINE, V.I. Obras escolhidas, vol. II. S\u00e3o Paulo : Ed. Alfa e \u00d4mega, 1980.<\/p>\n<p>MARCUSE, HERBERT. A Ideologia da Sociedade Industrial \u2013 O Homem Unidimensional. 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro : ZAHAR Editores, 1982.<\/p>\n<p>MORRAY, J.P. Origens da Guerra Fria. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961.<\/p>\n<p>REIS FILHO, DANIEL AAR\u00c3O ; FERREIRA, JORGE E ZENHA, CELESTE (ORGS). O S\u00e9culo XX \u2013 O S\u00e9culo das Crises. Rio de Janeiro : Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2005.<\/p>\n<p>SADER, EMIR. Vozes do S\u00e9culo &#8211; Entrevistas da New Left Review. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo, 1997<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26066\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[234],"class_list":["post-26066","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Mq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26066\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}