{"id":26082,"date":"2020-09-03T01:17:22","date_gmt":"2020-09-03T04:17:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26082"},"modified":"2020-09-03T01:17:22","modified_gmt":"2020-09-03T04:17:22","slug":"vijay-prashad-e-as-balas-de-washington","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26082","title":{"rendered":"Vijay Prashad e as &#8220;Balas de Washington&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images03.brasildefato.com.br\/6501d3dc7cc98718d2f8ebb9073c5aaa.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Vijay Prashad: Imaginar que o imperialismo n\u00e3o existe \u00e9 um luxo<\/p>\n<p>No marco da publica\u00e7\u00e3o de Balas de Washington no Brasil, Vijay Prashad fala sobre imperialismo, Venezuela e os militares na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera &#8211; Revis\u00e3o de Giovanna Olivetti<\/p>\n<p>Vijay Prashad acredita profundamente que o projeto destrutivo do neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 econ\u00f4mico \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m cultural. Das estantes de sua casa em Deli, na \u00cdndia, saca \u201cOpera\u00e7\u00e3o Massacre\u201d, de Rodolfo Walsh, \u201cA House on the Heights\u201d, de Truman Capote, e \u201cHiroshima\u201d, de John Hersey, enquanto falo sobre a Revista Opera e conversamos sobre jornalismo e estilo. \u201cTodo comunista \u00e9 um jornalista\u201d, diz.<\/p>\n<p>Digo que seu novo livro, Balas de Washington (Express\u00e3o Popular, 2020) serve como uma pequena antologia sobre os crimes imperiais, com uma s\u00e9rie de pequenos ensaios que s\u00e3o lidos com leveza. \u201cEscreva um livro que as pessoas queiram ler, n\u00e3o um livro que voc\u00ea acredita que as pessoas devem ler. Essa \u00e9 a premissa da minha escrita\u201d, responde. \u201cN\u00e3o se pode ser um homem velho, sentado numa mesa, escrevendo com uma caneta tinteiro. Esses dias j\u00e1 se foram\u201d. As balas de que trata s\u00e3o muitas, literais e metaf\u00f3ricas. V\u00e3o das que perfuraram o corpo de Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n na Col\u00f4mbia em 1948 ao financiamento dos democratas crist\u00e3os na It\u00e1lia ap\u00f3s a Segunda Guerra; da amea\u00e7a dos proj\u00e9teis disparados na Bol\u00edvia, em 2019, \u00e0s assertivas teses jur\u00eddicas usadas no chamado lawfare no Brasil.<\/p>\n<p>Nascido no fim dos anos 1960 em Calcut\u00e1, em uma fam\u00edlia de intelectuais nacionalistas, Prashad podia testemunhar da janela de sua casa, no outro lado da rua, a sobreviv\u00eancia dos condenados da terra de uma favela indiana. Mas n\u00e3o se contentou em observar pelo vidro temperado. Convivendo com os pobres, temperou sua vis\u00e3o, e percebeu que sua vida tinha um \u201candamento\u201d (tempo) diferente, como declara em uma entrevista de 2013. Jovem estudante nos anos 80, tomou contato com a literatura russa por meio dos vendedores de livro sovi\u00e9ticos, que exibiam as obras traduzidas em barracas e tapetes estendidos na frente das escolas. Eventualmente comprou e leu O Capital e Manifesto do Partido Comunista, de Marx, por meio dos quais p\u00f4de compreender que as boas inten\u00e7\u00f5es do nacional-desenvolvimentismo e esp\u00edrito de caridade de seu pai n\u00e3o eram suficientes para alterar o rumo dos pobres do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Aos 53 anos, depois de se formar em Hist\u00f3ria nos Estados Unidos, dar aulas no Trinity College, escrever para publica\u00e7\u00f5es como The Hindu, BirGun, The Guardian e Globetrotter, Prashad dirige o Instituto Tricontinental, e assina mais de 20 livros dos quais brotam, como \u00e1gua das minas, as lutas e o destino dos povos do Terceiro Mundo. No marco da publica\u00e7\u00e3o de Balas de Washington no Brasil, conversamos sobre imperialismo, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, os militares na Am\u00e9rica Latina, o destino da China, a situa\u00e7\u00e3o da Europa e, \u00e9 claro, jornalismo.<\/p>\n<p>A entrevista segue na \u00edntegra:<\/p>\n<p>Revista Opera: Seu livro \u00e9 um livro sobre imperialismo. Gostaria que falasse sobre esse conceito, porque nos anos 80 e 90, no Brasil \u2013 e eu imagino que em outros lugares tamb\u00e9m, como na \u00cdndia \u2013 alguns intelectuais come\u00e7aram a argumentar que com a globaliza\u00e7\u00e3o viv\u00edamos numa era p\u00f3s-imperialista, em que a quest\u00e3o nacional j\u00e1 n\u00e3o desempenhava nenhum papel. N\u00f3s podemos explicar o mundo hoje sem o conceito de imperialismo?<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Antes de tudo, eu estou muito feliz de estar conversando com voc\u00ea, porque \u00cdndia e Brasil s\u00e3o lugares onde temos governos de direita. Esses governos s\u00e3o uma sombra dos povos que vivem em nossos pa\u00edses, eles n\u00e3o refletem o potencial dos pa\u00edses. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds com muito potencial, e eu n\u00e3o me refiro \u00e0 economia \u2013 falo do potencial do povo. Eu passei bastante tempo no Brasil, e eu entendo a capacidade dos movimentos, visitei acampamentos do MST e vi a natureza das lutas conduzidas pelas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. A capacidade e a dec\u00eancia desse povo n\u00e3o podem ser medidas por Bolsonaro.<\/p>\n<p>Da mesma forma, na \u00cdndia, sou um membro do Partido Comunista da \u00cdndia (Marxista), mas n\u00e3o se trata s\u00f3 de n\u00f3s, s\u00e3o tamb\u00e9m os camponeses, os trabalhadores, a juventude desempregada, os estudantes. As lutas levadas adiante pelo povo indiano n\u00e3o podem ser julgadas por [Narendra] Modi. Ele n\u00e3o est\u00e1 sequer perto de representar a capacidade dos indianos, \u00e9 s\u00f3 uma sombra, uma alucina\u00e7\u00e3o \u2013 Bolsonaro \u00e9 uma alucina\u00e7\u00e3o do Brasil, n\u00e3o \u00e9 real, nesse sentido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o estou feliz de conversar com voc\u00ea e com seus leitores sobre essas quest\u00f5es. Imaginar que o imperialismo n\u00e3o existe \u00e9 um luxo. Porque quando as pessoas me dizem que n\u00e3o h\u00e1 imperialismo mais, eu os pergunto porque o governo dos Estados Unidos, do Canad\u00e1, da Col\u00f4mbia, est\u00e3o t\u00e3o interessados em derrubar a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana. Eles n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 interessados em Nicol\u00e1s Maduro \u2013 ele \u00e9 um motorista de \u00f4nibus, um homem da classe trabalhadora e presidente da Venezuela. Eles n\u00e3o interessados s\u00f3 em derrubar ele. Se Maduro renunciasse amanh\u00e3 e fosse para Havana\u2026 N\u00e3o \u00e9 isso que eles querem. Eles querem reverter a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, iniciada nos anos 90 na primeira campanha eleitoral que levou Hugo Ch\u00e1vez \u00e0 presid\u00eancia da Venezuela. \u00c9 isso que eles querem derrubar.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, eles derrubaram Evo Morales. Mas o objetivo n\u00e3o era s\u00f3 derrubar Morales, e agora todas as evid\u00eancias sugerem que n\u00e3o houve fraude alguma nas elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2019. Nenhuma, zero, sem ambiguidade alguma. O objetivo n\u00e3o era portanto derrubar Morales, mas sim o que viria depois, quando o governo perseguiu o MAS e humilhou todas as suas lideran\u00e7as. Por qu\u00ea? Por que isso aconteceu?<\/p>\n<p>O que os EUA e o Canad\u00e1 dir\u00e3o \u00e9 que se trata de direitos humanos. \u201cN\u00f3s vamos sustentar a democracia na Venezuela e na Bol\u00edvia, n\u00f3s queremos apoiar os direitos humanos\u201d \u2013 \u00e9 isso que dizem. Se voc\u00ea acredita nisso, voc\u00ea est\u00e1 absolutamente louco. Se eles estivessem t\u00e3o interessados na democracia, como se explica que a Bol\u00edvia n\u00e3o teve uma elei\u00e7\u00e3o por quase um ano [depois do golpe]? A pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o supostamente ocorrer\u00e1 em setembro de 2020. Quase um ano depois da elei\u00e7\u00e3o anterior! Que tipo de democracia \u00e9 essa? Se est\u00e3o t\u00e3o interessados em direitos humanos, por que n\u00e3o est\u00e3o gritando e esbravejando contra a persegui\u00e7\u00e3o do povo na Bol\u00edvia durante esse per\u00edodo? N\u00e3o falam nada, nem uma palavra. Se tivessem tanto interesse por direitos humanos, teriam fechado a Pris\u00e3o de Guant\u00e1namo. Afogamentos, c\u00e2maras de tortura secretas na Pol\u00f4nia, etc. Como se pode tomar essas pessoas como uma fonte cred\u00edvel para a discuss\u00e3o sobre direitos humanos?<\/p>\n<p>Quando eles tentam derrubar a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana na Venezuela, n\u00e3o est\u00e3o fazendo isso em defesa dos direitos humanos. Est\u00e3o fazendo-o por duas raz\u00f5es muitos simples: primeiro, a raz\u00e3o \u00f3bvia; por recursos. N\u00e3o s\u00f3 petr\u00f3leo na Venezuela, mas por diversas mat\u00e9rias primas na Venezuela, incluindo metais de terras raras. Na Bol\u00edvia, foi pelo l\u00edtio, pelo \u00edndio, e uma variedade de metais de terras raras sofisticados, necess\u00e1rios para televisores, baterias de carro, etc. Em segundo lugar, n\u00e3o podem permitir o exemplo de o que poder\u00edamos chamar de \u201csocialismo de recursos\u201d; um socialismo que vende seus recursos, cobra um pre\u00e7o justo por eles e volta isso para o povo com o objetivo de acabar com a fome, vencer o analfabetismo, ampliar o acesso \u00e0 moradia e outras coisas. Se voc\u00ea for para a Venezuela hoje, ver\u00e1 os pobres morando em casas. A oligarquia diz: \u201cComo eles se atrevem a morar em casas?!\u201d. E \u00e9 isso que querem reverter.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o que \u00e9 o imperialismo? \u00c9 a manuten\u00e7\u00e3o de uma ordem que beneficia uma minoria da popula\u00e7\u00e3o mundial, que garante que produtos produzidos e trabalhados nas regi\u00f5es tropicais do mundo s\u00e3o mantidos a pre\u00e7os mais baixos, de forma que as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais continuam a ter lucros fabulosos. Isso \u00e9 o imperialismo; \u00e9 uma coisa relativamente simples. Uma pessoa comum, com bom senso e sens\u00edvel, que se pergunte sobre as raz\u00f5es pelas quais os Estados Unidos querem derrubar o governo venezuelano, muito rapidamente teria de aceitar essa vis\u00e3o de que se tratam de recursos e de prevenir que um exemplo alternativo emerja.<\/p>\n<p>Veja o caso do projeto da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Am\u00e9ricas). Tratava-se de declarar que tinham uma alternativa \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se diziam contra a globaliza\u00e7\u00e3o. Eu cobri o grande encontro de Punta del Este, quando Diego Maradona ficou ao lado de Ch\u00e1vez; eles n\u00e3o estavam se declarando contra a globaliza\u00e7\u00e3o, mas dizendo que queriam um outro tipo de globaliza\u00e7\u00e3o; uma globaliza\u00e7\u00e3o dos povos. N\u00e3o s\u00e3o anti-globaliza\u00e7\u00e3o; querem a globaliza\u00e7\u00e3o dos povos. Essa era a promessa da ALBA, e ela tinha de ser destru\u00edda. O que o imperialismo mais odeia \u00e9 a promessa de uma alternativa. Isso \u00e9 o imperialismo; sufocar a possibilidade de uma alternativa. Dizem que todos devem viver sob suas regras, e se algu\u00e9m decide viver de acordo com suas pr\u00f3prias regras, torna-se uma amea\u00e7a. Se voc\u00ea desobedece as regras, tudo bem \u2013 eles podem te punir. Mas se voc\u00ea come\u00e7a a criar suas pr\u00f3prias regras, nesse caso \u00e9 inaceit\u00e1vel. O imperialismo \u00e9 o uso de for\u00e7a extra-econ\u00f4mica para prevenir que outro bloco hist\u00f3rico emerja e crie novas regras para o planeta. Basicamente, \u00e9 isso.<\/p>\n<p>Claro que podemos ter respostas mais complicadas, voltar a L\u00eanin, Samir Amin, etc. Mas eu n\u00e3o estou interessado em entrar em uma discuss\u00e3o muito t\u00e9cnica. Eu sei como as pessoas comuns, sens\u00edveis e de bom senso s\u00e3o; se voc\u00ea \u00e9 um chavista morando em Barquisimeto e olhando o que Washington est\u00e1 fazendo, voc\u00ea n\u00e3o acreditar\u00e1 que os ianques vir\u00e3o para te libertar. Voc\u00ea sabe que eles vir\u00e3o para tirar sua casa, impedir que seus filhos estudem, roubar seu modesto sal\u00e1rio. \u00c9 isso que querem fazer. E eu ou\u00e7o essa mulher de Barquisimeto, obede\u00e7o a ela. N\u00e3o estou interessado no que Mike Pompeo est\u00e1 dizendo \u2013 escuto com muito cuidado, \u00e9 claro, observo-o com muito cuidado \u2013 mas eu n\u00e3o acredito nele. Nela, a mulher de Barquisimeto, que olha nos meus olhos e me diz: \u201cquando os ianques vierem, nos tirar\u00e3o de nossas casas\u201d, eu acredito e digo que ela est\u00e1 certa. Esse \u00e9 o imperialismo.<\/p>\n<p>Revista Opera: As \u201cbalas\u201d de seu livro s\u00e3o muitas. Algumas s\u00e3o literais, outras n\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, no Terceiro Mundo, e especialmente na Am\u00e9rica Latina, n\u00f3s vimos os chamados \u201cnovos m\u00e9todos\u201d em pr\u00e1tica. \u201cGolpes brandos\u201d, lawfare, etc. Mas agora houve o golpe na Bol\u00edvia, onde os militares tiveram um papel substancial. E vemos em diferentes pa\u00edses os militares voltando a se aproximar da pol\u00edtica, com o Brasil sendo provavelmente o caso mais \u00f3bvio. O que pensa sobre isso? Cr\u00ea que podemos assistir ao renascimento de governos ou ditaduras militares, 50 anos depois do \u00faltimo ciclo de ditaduras na Am\u00e9rica Latina?<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Quando chegaram as not\u00edcias em outubro de 2019, dando conta de que a pol\u00edcia pediria que Morales renunciasse\u2026 Estava j\u00e1 claro pra mim, que conhe\u00e7o a Bol\u00edvia bastante bem, que Evo ganharia as elei\u00e7\u00f5es. Por todas as coisas que criticam ele, em 14 anos aquele governo fez mais pelo povo boliviano que qualquer outro governo anterior. Eu desafio qualquer pessoa a me mostrar um governo anterior, qualquer um, que tenha feito mais pelo povo do que o de Morales e \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera. Nenhum. Mesmo os grandes cr\u00edticos da ala liberal teriam que admitir.<\/p>\n<p>Para mim, um governo \u00e9 julgado pelo o que ele faz para combater a fome, pela educa\u00e7\u00e3o, pelos direitos e emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e o que ele faz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza. Para mim, \u00e9 s\u00f3 o que importa. Se um governo n\u00e3o ataca a quest\u00e3o da fome, esque\u00e7a; n\u00e3o me interessa. No Brasil, muitas pessoas de esquerda criticavam Lula quando ele era presidente \u2013 mas tudo o que eu olhava era ao Fome Zero. E eu percebia que, apesar de todas as concess\u00f5es que ele fazia, ele estava levando o combate \u00e0 fome a s\u00e9rio. Que tipo de mundo \u00e9 esse, em que vamos ao shopping, temos internet, podemos conversar por computadores\u2026 E l\u00e1 fora h\u00e1 crian\u00e7as com fome. Essa, para mim, \u00e9 a quest\u00e3o b\u00e1sica para a esquerda. A esquerda deve se focar na fome \u2013 posso soar como um liberal, ou talvez como um mission\u00e1rio. Mas para mim a esquerda deve se focar no problema da fome. N\u00f3s devemos construir o poder da classe trabalhadora, entendo tudo isso \u2013 li L\u00eanin e sei de tudo isso. Mas como do ponto de vista \u00e9tico a quest\u00e3o fundamental \u00e9: voc\u00ea \u00e9 capaz de lutar para erradicar a fome? Em tempos de pandemia, o que estamos fazendo, como movimento, para impedir que as pessoas morram de fome? Estamos abrindo cozinhas comunit\u00e1rias? Meu partido, por exemplo, criou cozinhas p\u00fablicas, est\u00e1 distribuindo comida. Isso \u00e9 supremo; voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um ser humano se n\u00e3o se comove com o flagelo das pessoas esfomeadas.<\/p>\n<p>E foi isso que o governo Morales atacou. Estava claro para mim, portanto, que ele ganharia as elei\u00e7\u00f5es.Eles roubaram a vit\u00f3ria dele; foi um golpe. No dia 10 de novembro de 2019, Morales vai \u00e0 televis\u00e3o e decide chamar novas elei\u00e7\u00f5es \u2013 isso \u00e9 muito importante; Morales concedeu ao chamado de uma nova elei\u00e7\u00e3o, ainda que soubesse que nenhuma fraude aconteceu. Uma concess\u00e3o gigantesca, a servi\u00e7o da democracia. E duas horas depois Williams Kaliman, um militar treinado nos Estados Unidos, na Escola das Am\u00e9ricas, vai at\u00e9 Morales, com uma arma no bolso, e diz que ele deve ir embora. \u201cSugeriu\u201d que Morales renunciasse, e Morales renunciou \u2013 eu teria ido embora, qualquer um teria sa\u00eddo. Voc\u00ea n\u00e3o quer ver o banho de sangue \u2013 ele n\u00e3o percebeu que o banho de sangue ocorreria de qualquer forma, talvez \u2013 mas ele saiu, sob grande press\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele momento, duas coisas ficaram claras para mim, uma pol\u00edtica e outra pessoalmente. Politicamente, ficou claro para mim que o tipo de golpe de estado que derrubou Jacobo Arbenz na Guatemala, em 1954, e Mohammed Mossadegh no Ir\u00e3, em 1953, de forma alguma desapareceu. Muitas pessoas n\u00e3o sabem, mas recentemente houve um golpe militar na Tail\u00e2ndia, e at\u00e9 agora h\u00e1 um governo militar. O velho modo de golpe militar n\u00e3o sumiu, sejamos claros. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio lawfare ou todos esses truques extravagantes; o velho golpe militar \u00e9 o que est\u00e3o tentando na Venezuela. N\u00f3s n\u00e3o estamos vivendo em um mundo p\u00f3s-golpes-militares. Na Bol\u00edvia foi um golpe militar cl\u00e1ssico. Vimos um golpe militar na Tail\u00e2ndia. Golpe militares cl\u00e1ssicos \u2013 e pouco antes de estarmos tendo essa conversa houve um golpe militar no Mali; os militares derrubaram o governo, que naturalmente eu considerava pat\u00e9tico. Mas no dia 22 de agosto o povo tinha se programado para protestar \u2013 no dia 18 de agosto, os militares derrubaram o governo. Veja como \u00e9 interessante; quatro dias antes das massas irem \u00e0s ruas de Bamako em grandes n\u00fameros, os militares derrubam o governo. Foi um golpe \u2013 quem os apoiou? Foi a Fran\u00e7a? A R\u00fassia? Foram os Estados Unidos? N\u00f3s n\u00e3o sabemos. Nunca sabemos at\u00e9 que seja tarde demais. Recentemente, diversos cientistas pol\u00edticos norte-americanos escreveram artigos mostrando que n\u00e3o houve fraude nenhuma no processo eleitoral boliviano. Um artigo foi publicado em fevereiro, outro em julho. J\u00e1 \u00e9 muito tarde! Com base nesses artigos, Evo Morales deveria ser restabelecido como presidente da Bol\u00edvia. Mas j\u00e1 \u00e9 tarde demais. Quem vai restabelecer ele como presidente?<\/p>\n<p>O senhor Lula. Tentei explicar um milh\u00e3o de vezes o que ocorreu no caso de Lula; escrevi uma s\u00e9rie de artigos, porque as pessoas me diziam que n\u00e3o entendiam o sistema judicial brasileiro. Quais eram as evid\u00eancias quanto a Lula? Ele tomou posse daquele apartamento? N\u00e3o! Vivia l\u00e1? N\u00e3o! Quanto valia o apartamento? Um pouquinho. Quanto dinheiro rola no crime brasileiro? Um mont\u00e3o. Por que foram atr\u00e1s dele? Mesmo que tivesse ficado no apartamento por uma noite, seria um crime t\u00e3o grande, comparado ao que sabemos que ocorre? Perguntavam se ele era culpado, e eu respondia que n\u00e3o tinha certeza, que estavam usando algo que chamavam de \u201clawfare\u201d, o uso da lei para fins pol\u00edticos. Me perguntavam ent\u00e3o como ele poderia estar preso se ele era inocente. Veja, s\u00e3o coisas modeladas, eles confundem as pessoas \u2013 as pessoas diziam que Lula era corrupto, o brasileiro mais corrupto do mundo. Como explicar a derrubada de Dilma? \u00c9 por isso que uso o conceito de guerra h\u00edbrida. H\u00e1 o imperialismo; essa \u00e9 a estrutura. Guerra h\u00edbrida \u00e9 a pol\u00edtica. Na guerra h\u00edbrida h\u00e1 a guerra de informa\u00e7\u00e3o, o tipo mais perigoso de guerra. \u201cLula \u00e9 culpado\u201d \u2013 culpado por que? O que ele fez? Onde est\u00e1 a evid\u00eancia? \u201cN\u00e3o importa, ele \u00e9 culpado\u201d, porque se presume que ele j\u00e1 \u00e9 culpado. \u201cMaduro \u00e9 um criminoso autorit\u00e1rio.\u201d \u2013 Por que? O que Maduro fez para se tornar um criminoso? \u201cMorales fraudou as elei\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 mas n\u00e3o houve fraude alguma. Guerra de informa\u00e7\u00e3o, econ\u00f4mica, diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Cuba passou por isso. Tentaram de todas as formas isolar Cuba; tiraram da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, etc. Eu tenho a maior admira\u00e7\u00e3o pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, porque \u00e9 uma ilhazinha, com hoje s\u00f3 11 milh\u00f5es de habitantes \u2013 a cidade da minha m\u00e3e em Calcut\u00e1 tem o dobro de pessoas \u2013 mas essas pessoas, a apenas 160 quil\u00f4metros da costa dos Estados Unidos, muito bravamente nunca aceitaram o que os norte-americanos diziam sobre eles. Voc\u00ea v\u00ea o qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 para eles quebrarem a determina\u00e7\u00e3o do povo cubano. Isso \u00e9 importante. Guerra informacional e diplom\u00e1tica; essas s\u00e3o ferramentas que, juntas, chamamos de guerra h\u00edbrida. Mas quando algu\u00e9m diz que os tempos dos golpes de estado j\u00e1 passaram; n\u00e3o! H\u00e1 um cen\u00e1rio de guerra h\u00edbrida, com uma s\u00e9rie de instrumentos, cada um dos quais v\u00e3o usando para tentar derrubar um governo; guerra econ\u00f4mica, informacional, etc. E eventualmente tentam usar o bast\u00e3o militar.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novo. Em 1973 o governo de Salvador Allende foi derrubado no Chile. Em 1970 \u2013 e eu escrevo isso no livro \u2013 um golpe militar foi tentado, um general chileno se recusou a participar, e o governo norte-americano participou em seu assassinato. Em 1970! Quantas pessoas sabem desse detalhe? Eles n\u00e3o esperaram at\u00e9 1973, eles queriam o golpe j\u00e1 no come\u00e7o. N\u00e3o se pode dizer que o imperialismo quer derrubar o governo Maduro por causa dos direitos humanos, e sabe por qu\u00ea? Se esse fosse o caso, por que tentaram um golpe de estado em Hugo Ch\u00e1vez em 2002? Estavam tentando desde o come\u00e7o derrubar a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana. Em 2002, que evid\u00eancias tinham de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos? Perguntaria ao senhor Mike Pompeo. Porque as evid\u00eancias que tenho \u00e9 que eles queriam os chavistas fora desde 1998, desde a campanha de elei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 preciso esperar at\u00e9 o momento em que tiraram Juan Guaid\u00f3 da cartola, como um coelho.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o precisam de novas t\u00e9cnicas. \u201c\u00c9 uma nova fase, lawfare, etc.\u201d Eles n\u00e3o se importam com qual t\u00e9cnica v\u00e3o usar; por qualquer meio necess\u00e1rio tentar\u00e3o implementar a sua autoridade. Como um motorista de \u00f4nibus ousa ser presidente da Venezuela? Como ousa um oper\u00e1rio metal\u00fargico ser presidente do Brasil? Como um plantador de coca ousa ser presidente da Bol\u00edvia? \u00c9 isso que eles pensam: e como ousam eles nos confrontar? Eles t\u00eam de abaixar as cabe\u00e7as, n\u00e3o podem nos olhar no olho, p\u00f4r seus dedos em riste. Os l\u00edderes sovi\u00e9ticos eram todos assim; filhos de plantadores de batata. St\u00e1lin era filho de uma trabalhadora dom\u00e9stica, Khrushchov tirou seu sapato, na ONU, e o bateu na mesa. Estava dizendo: \u201cEu sou um campon\u00eas!\u201d O mundo \u00e9 organizado para os ricos, n\u00e3o pode ser para essas pessoas que mal sabem falar suas pr\u00f3prias l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Revista Opera: Voc\u00ea falou sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, como v\u00e1rios tipos de \u201cbalas\u201d foram usadas contra ela. De qualquer forma, Maduro conseguiu resistir a essas balas, e me parece que agora que tiraram Evo da Bol\u00edvia, talvez seja a hora de se voltarem com mais for\u00e7a contra a Venezuela. Gostaria de saber porqu\u00ea, na sua opini\u00e3o, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana consegue resistir, e quais s\u00e3o suas previs\u00f5es sobre seu futuro nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Bom, antes de tudo, eu n\u00e3o fa\u00e7o previs\u00f5es, porque nunca se sabe o que eles v\u00e3o fazer em Washington. N\u00f3s estamos conversando agora, em agosto, e nos Estados Unidos haver\u00e1 uma elei\u00e7\u00e3o em novembro; para vencer as elei\u00e7\u00f5es, Donald Trump pode bombardear Caracas, pode lan\u00e7ar bombas sobre Teer\u00e3, ou pode at\u00e9 ser louco o suficiente para atacar um navio chin\u00eas. Eles n\u00e3o bombardeariam Pequim, mas podem bombardear um navio. N\u00e3o sei\u2026 N\u00e3o podemos prever o que o governo norte-americano far\u00e1.<\/p>\n<p>Eles recentemente acusaram o governo venezuelano de ser formado por narcotraficantes. Eu e meus colegas fomos atr\u00e1s dos relat\u00f3rios da Ag\u00eancia Antidrogas dos EUA (DEA \u2013 Drug Enforcement Administration), e nos relat\u00f3rios dos \u00faltimos dez anos vemos que mais de 90% da coca\u00edna que chega aos EUA vem da Col\u00f4mbia. Nada da Venezuela; trata-se de um relat\u00f3rio dos EUA, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia nos relat\u00f3rios dos pr\u00f3prios norte-americanos de que a coca\u00edna venha da Venezuela. E ainda assim, William Barr, Procurador-Geral dos Estados Unidos, diz em uma coletiva de imprensa que Nicol\u00e1s Maduro \u00e9 um traficante de drogas. \u00c9 rid\u00edculo; voc\u00ea nunca sabe o que eles dir\u00e3o da pr\u00f3xima vez, e o p\u00fablico em todo o mundo ler\u00e1 isso e dir\u00e1 \u201cbom, ent\u00e3o ele \u00e9 um traficante\u201d. S\u00e9rio? N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia. Ent\u00e3o n\u00e3o posso prever nada [risos].<\/p>\n<p>Mas por que eles foram bem-sucedidos [em sua defesa da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana]? No livro, escrevi sobre o jovem Che, que estava na Guatemala durante o golpe de estado contra Jacobo Arbenz. Che Guevara era uma pessoa fascinante, mas sua hist\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 interessante; ele est\u00e1 l\u00e1, convivendo com outros estrangeiros vindos de toda a Am\u00e9rica Latina, eles assistem ao acontecimento desse golpe, e ele tenta organizar alguma coisa. Eles n\u00e3o sabiam ao certo o que fazer; sua primeira esposa [Hilda Gadea] era uma marxista s\u00e9ria, que o ensinou sobre marxismo. H\u00e1 hist\u00f3rias sobre o Che ainda antes, declarando-se marxista, mas n\u00e3o acho que ele tenha lido tanto at\u00e9 que ele a conheceu e eles estudaram Marx juntos. De qualquer forma, a experi\u00eancia da Guatemala foi muito importante para o Che; ele se perguntou sobre porque Jacobo n\u00e3o armou o povo antes. Em Cuba, eles fizeram o Comit\u00ea para a Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o (CDR), um pouco antes da Ba\u00eda dos Porcos, e Fidel Castro disse muitas vezes que se pode armar o povo de duas formas diferentes: a primeira forma \u00e9 liberar as armas, e todos t\u00eam armas. Mas isso n\u00e3o \u00e9 o que quer dizer armar o povo; pe\u00e7o desculpas aos camaradas jovens, se voc\u00ea simplesmente d\u00e1 armas a todos pode gerar o caos. Se arma o povo ideologicamente, trata-se de uma batalha das ideias: O que voc\u00ea defende?<\/p>\n<p>Sempre que estive na Venezuela, interagi com o povo, e te digo honestamente que \u00e9 sempre muito impressionante se encontrar com trabalhadores chavistas, porque eles t\u00eam uma compreens\u00e3o serena sobre o que o imperialismo quer fazer com o pa\u00eds deles. Maduro \u00e9 bom, mas Hugo Ch\u00e1vez ensinou o povo muito bem, camarada. Ch\u00e1vez ensinou o povo muito bem; gera\u00e7\u00f5es aprenderam com Ch\u00e1vez. A primeira vez que fui \u00e0 Venezuela, ele estava preso; creio que em 1994. Naquela \u00e9poca, o clima estava deprimente, Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez estava de volta, tinha ido ao FMI, e o clima estava terr\u00edvel. Quando houve a campanha de Ch\u00e1vez \u00e0 presid\u00eancia e ele come\u00e7ou a falar\u2026 Ele era um pol\u00edtico do calibre de Gramsci; absorvia o que o povo falava e dizia de volta para o povo. O melhor pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 um g\u00eanio; \u00e9 um espelho, um espelho da classe. L\u00eanin era um espelho da classe, Ch\u00e1vez era um espelho da classe. Ele sabia como a classe estava pensando \u2013 a classe pensa, mas a classe \u00e9 confundida. O intelectual da revolu\u00e7\u00e3o tem de entender o que a classe est\u00e1 pensando e transformar isso em filosofia, provendo-a ao povo. Fidel Castro era um l\u00edder gramsciano; ele pegava o que a classe pensava, pensamentos complexos e misturados, os endireitava na cabe\u00e7a e fazia um discurso de tr\u00eas ou quatro horas. De volta para o povo \u2013 isso \u00e9 um l\u00edder. Os l\u00edderes n\u00e3o v\u00eam facilmente, em nossa tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o gostamos de falar de l\u00edderes \u2013 s\u00f3 gostamos de falar do povo. Mas n\u00f3s precisamos entender o l\u00edder; entender que o l\u00edder \u00e9 capaz de ouvir a classe, entender suas ideias, e entender a confus\u00e3o que h\u00e1 nela, o que Gramsci chamava de consci\u00eancia contradit\u00f3ria. Ouvem o padre, ouvem a pr\u00f3pria experi\u00eancia \u2013 tudo misturado. O l\u00edder tira o melhor disso, cria uma filosofia, faz um discurso e o povo diz \u201cmeu deus, ele est\u00e1 certo!\u201d. O povo estava dizendo \u201cFidel, voc\u00ea tem raz\u00e3o!\u201d, mas na verdade o que ele estava dizendo \u00e9 \u201cn\u00f3s temos raz\u00e3o\u201d. \u201cFidel, obrigado por nos lembrar sobre o que de fato dever\u00edamos crer\u201d. N\u00e3o \u00e9 como se n\u00e3o conhecessem a realidade, ou que tivessem uma consci\u00eancia falsa \u2013 n\u00e3o, eles t\u00eam uma consci\u00eancia contradit\u00f3ria, ideias misturadas. O padre que diz que voc\u00ea \u00e9 uma pessoa m\u00e1, a realidade te dizendo que voc\u00ea est\u00e1 sendo explorado; voc\u00ea passa a acreditar em ambas. Fidel chega e aconselha parar de ouvir o padre; voc\u00ea est\u00e1 sendo explorado \u2013 e se torna claro. Isso \u00e9 lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Os venezuelanos tiveram esse benef\u00edcio, uma lideran\u00e7a que ouve eles, que fala em seu nome, que explica as coisas claramente. E a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 clara; o caso do ataque a lanchas na costa da Venezuela, usando de for\u00e7as de seguran\u00e7a rid\u00edculas. [A Opera\u00e7\u00e3o Gideon] n\u00e3o \u00e9 uma Ba\u00eda dos Porcos, mas de certa forma o contr\u00e1rio \u2013 uma ilus\u00e3o. Ent\u00e3o por que os venezuelanos conseguem resistir ao imperialismo? Porque est\u00e3o armados, n\u00e3o com armas, mas com a certeza da revolu\u00e7\u00e3o. Quando Fidel fez o discurso A Hist\u00f3ria me absolver\u00e1, em outubro, depois do ataque ao quartel Moncada, ele disse que se o povo anseia por algo e o conquista, nunca mais ser\u00e1 poss\u00edvel tirar isso dele. Essa \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o que tenho com a Venezuela; as pessoas t\u00eam algo do qual nunca abrir\u00e3o m\u00e3o. Onde est\u00e1 o povo brasileiro dizendo isso? Bolsonaro\u2026<\/p>\n<p>Revista Opera: Voc\u00ea falou um pouco sobre as elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos, em novembro. Eu sei que voc\u00ea n\u00e3o gosta de fazer previs\u00f5es, mas algumas pessoas acreditam que se Biden vencer, o programa de Trump para o mundo ser\u00e1 alterado\u2026 Temos jornalistas e analistas dizendo que a elei\u00e7\u00e3o de Biden por exemplo pode ser um baque para Bolsonaro ou para os governos de direita na Am\u00e9rica Latina. Gostaria de te ouvir sobre isso.<\/p>\n<p>Vijay Prashad: \u00c9 muito complicado\u2026 Estou sendo franco com voc\u00ea. Primeiro que n\u00e3o sabemos quem ganhar\u00e1, porque com os Estados Unidos nunca podemos saber, \u00e9 um sistema estranho, por conta dos col\u00e9gios eleitorais e estados decisivos, etc., alguns estados definem as elei\u00e7\u00f5es \u2013 \u00e9 muito complicado. N\u00e3o sei quem ganhar\u00e1.<\/p>\n<p>Mas Biden \u00e9 melhor? Se eu fosse um pobre nos Estados Unidos, Biden seria melhor pra mim, sem d\u00favidas. Ele vai restabelecer o financiamento para alguns programas sociais no pa\u00eds, que Trump cortou. O Partido Republicano e a ala de Trump no Partido Republicano \u00e9 bastante dura com os pobres, e o Partido Democrata n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o duro assim. Se voc\u00ea fosse uma pessoa pobre nos Estados Unidos, Biden seria melhor, sem d\u00favidas quanto a isso \u2013 voc\u00ea teria de ser tolo para dizer o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas se voc\u00ea \u00e9 uma mulher em Barquisimeto, na Venezuela, n\u00e3o faz diferen\u00e7a alguma para voc\u00ea. Nenhuma diferen\u00e7a mesmo. Se voc\u00ea \u00e9 um editor de uma revista de esquerda em S\u00e3o Paulo, no Brasil, voc\u00ea estaria fantasiando se pensasse que uma presid\u00eancia Biden trataria Bolsonaro de forma diferente. No Brasil, hoje, quem \u00e9 a alternativa ao Bolsonaro? A alternativa da classe dominante\u2026 Ningu\u00e9m. Zero. Ent\u00e3o o que se esperaria dos norte-americanos? Voc\u00ea acha que eles ligam se Bolsonaro \u00e9 um buf\u00e3o, se ele faz um genoc\u00eddio, como a UNISa\u00fade denunciou no Tribunal Internacional? Acha que Biden acredita nisso? Qual \u00e9 a alternativa deles? Tudo volta para o fato de que, se olharmos com cuidado \u00e0 quest\u00e3o da atitude da classe dominante dos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe dominante brasileira, veremos que essa conex\u00e3o est\u00e1 intacta. Quando Lula estava no poder, havia alguma crise em rela\u00e7\u00e3o a isso; eles n\u00e3o tinham certeza. Por isso Lula escreveu a carta aos banqueiros [Carta ao Povo Brasileiro] e tudo aquilo. Agora n\u00e3o h\u00e1 alternativa para Bolsonaro \u2013 se houvesse algum sujeito como Carlos Mesa, da Bol\u00edvia, um candidato liberal da classe dominante desse tipo, a embaixada norte-americana no Brasil o apoiaria, consideraria Bolsonaro um risco, muito pr\u00f3ximo dos militares, muito err\u00e1tico, bizarro, anti-gay, etc. Mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m. O Partido dos Trabalhadores n\u00e3o tem esse tipo de situa\u00e7\u00e3o agora, inclusive recentemente li um artigo no Financial Times dizendo que Lula e Gleisi Hoffmann agora est\u00e3o \u201cmuito \u00e0 esquerda\u201d. Ent\u00e3o qual \u00e9 a alternativa? N\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>O governo norte-americano, quer seja com Trump ou Biden, n\u00e3o tem escolha que n\u00e3o apoiar Bolsonaro, porque o campo pr\u00f3-EUA [no Brasil] est\u00e1 completamente aliado a Bolsonaro. Lula, por outro lado, n\u00e3o est\u00e1 nesse campo, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 alternativa.<\/p>\n<p>Revista Opera: Voc\u00ea argumenta no livro que a Europa \u2013 o Espa\u00e7o Econ\u00f4mico Europeu, o Euro, a integra\u00e7\u00e3o \u2013 nasceu nos Estados Unidos, em Harvard. E considera-a como um bra\u00e7o do sistema imperialista norte-americano, creio que usa o termo \u201craio\u201d. Nos \u00faltimos anos temos visto a ascens\u00e3o de um nacionalismo europeu de direita, representado por exemplo no caso do Brexit. Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o sobre isso? Cr\u00ea que h\u00e1 uma rachadura se formando dentro do sistema imperialista?<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Bom, n\u00e3o. O Reino Unido deixou o projeto europeu, mas ficou mais aconchegado com os Estados Unidos. Os pa\u00edses orientais da Europa que t\u00eam problemas com a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o tem problema algum com os Estados Unidos \u2013 a Pol\u00f4nia, por exemplo, n\u00e3o tem problema nenhum. Mesmo que a Uni\u00e3o Europeia fosse ser quebrada amanh\u00e3 \u2013 e n\u00e3o acho que v\u00e1 quebrar \u2013 Fran\u00e7a, Alemanha, etc., todos percebem bem o valor do que ainda resta a eles. Nenhum desses pa\u00edses tem uma orienta\u00e7\u00e3o diferente da do imperialismo, o \u00fanico desafio que apareceu \u00e9 a promessa de integra\u00e7\u00e3o euroasi\u00e1tica da China.<\/p>\n<p>Primeiro, quando Xi Jinping chegou \u00e0 lideran\u00e7a da China, h\u00e1 quase de 10 anos, ele reconheceu que na crise de cr\u00e9dito internacional, a crise econ\u00f4mica de 2007-2008, a China estava muito dependente dos mercados norte-americanos. Por causa disso, eles iniciaram duas pol\u00edticas importantes: primeiro, a pol\u00edtica de erradica\u00e7\u00e3o da pobreza na China. Porque se voc\u00ea erradica a pobreza, passa a produzir para seu pr\u00f3prio povo, n\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o; se voc\u00ea prov\u00ea transfer\u00eancias para o povo, ele comprar\u00e1 bens, e assim n\u00e3o precisa depender dos mercados dos EUA; pode criar um mercado interno. Ent\u00e3o se eles decidiram erradicar a pobreza, talvez seja porque n\u00e3o gostam de pobreza \u2013 mas tamb\u00e9m significa que foram capazes de criar um mercado interno, e isso \u00e9 muito importante. Hoje, em tempos de pandemia, a atividade econ\u00f4mica chinesa n\u00e3o foi t\u00e3o atingida, porque s\u00e3o capazes de produzir para seu pr\u00f3prio mercado; t\u00eam um mercado enorme.<\/p>\n<p>Segundo, a Iniciativa do Cintur\u00e3o e Rota, uma forma de achar mercados fora dos Estados Unidos, na Eur\u00e1sia, inicialmente, e tamb\u00e9m na Am\u00e9rica do Sul e \u00c1frica, eventualmente. Quando os chineses come\u00e7aram a construir essa iniciativa, no sudeste asi\u00e1tico, vimos a It\u00e1lia se envolvendo, os pa\u00edses dos Balc\u00e3s se envolvendo, etc. Ent\u00e3o o que est\u00e1 de fato erodindo o consenso na Europa n\u00e3o \u00e9 a emerg\u00eancia do dito nacionalismo de direita. O \u201cnacionalismo\u201d de direita n\u00e3o tem problema algum em se aliar com o imperialismo; a quebra da Europa por meio de iniciativas como o Brexit n\u00e3o tem elemento antimperialista nenhum; zero. Mesmo o solapamento do projeto europeu, pela Iniciativa do Cintur\u00e3o e Rota, n\u00e3o tem necessariamente um conte\u00fado antiimperialista; \u00e9 uma decis\u00e3o pr\u00e1tica. A It\u00e1lia fez uma decis\u00e3o pragm\u00e1tica: eles conseguir\u00e3o mais economicamente se associando com essa iniciativa do que com a Uni\u00e3o Europeia. Isso n\u00e3o significa que o governo de direita na It\u00e1lia, ou o governo liberal na It\u00e1lia, se tornou antiimperialista \u2013 isso seria loucura. Trata-se de uma decis\u00e3o pragm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acreditaria que se a Eslov\u00eania se aproximasse da Iniciativa do Cintur\u00e3o e Rota ela iria para a esquerda? De forma alguma. Antiimperialista, somente em sonhos. S\u00e3o s\u00f3 pr\u00e1ticos quanto a sua sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica [risos]. \u00c9 assim que compreendo essa quebra da Europa \u2013 primeiro, que n\u00e3o \u00e9 uma quebra real, as principais economias, como Alemanha e Fran\u00e7a, est\u00e3o intactas; segundo, que mesmo quando a Inglaterra deixa o projeto, isso n\u00e3o tem implica\u00e7\u00f5es negativas para o imperialismo. E, finalmente, se eles se associarem \u00e0 Iniciativa do Cintur\u00e3o e Rota, ser\u00e1 meramente num campo pr\u00e1tico, n\u00e3o pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Revista Opera: A China tem emergido. Figuras como Kissinger pensaram que os Estados Unidos e a China poderiam chegar a algum tipo de acordo, no qual ambos se aproximariam ao inv\u00e9s de competirem. Me parece que ele estava errado \u2013 mas qual \u00e9 sua opini\u00e3o sobre o papel que a China cumpre hoje no campo internacional? Tamb\u00e9m gostaria de saber se a considera \u00fatil para a luta por independ\u00eancia no Terceiro Mundo, ou se ela pode cumprir um papel contr\u00e1rio a essa luta.<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Eu fa\u00e7o parte de um projeto chamado No New Cold War (N\u00e3o \u00e0 Nova Guerra Fria, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Estou envolvido nisso porque acredito que uma das maiores amea\u00e7as ao futuro do planeta \u00e9 a possibilidade dos Estados Unidos levar adiante uma guerra contra a China. Seria catastr\u00f3fico; o alarme tem de ser tocado, n\u00e3o \u00e9 brincadeira. H\u00e1 agora m\u00edsseis hipers\u00f4nicos, coisas do tipo \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o muito perigosa. As pessoas n\u00e3o deveriam considerar isso de forma leviana, n\u00e3o \u00e9 um jogo, e eles n\u00e3o est\u00e3o brincando. A China tem lutado contra o imperialismo desde o s\u00e9culo 19, Guerra do \u00d3pio, etc. E ela foi derrotada, at\u00e9 humilhada. Essa humilha\u00e7\u00e3o tem um lugar muito importante no pensamento contempor\u00e2neo chin\u00eas, e eles n\u00e3o permitir\u00e3o que os Estados Unidos os humilhem. Mas os Estados Unidos tentam, e isso \u00e9 muito perigoso\u2026 Gostaria de dizer isso.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 China; todo governo socialista tem duas obriga\u00e7\u00f5es. Primeiro, a obriga\u00e7\u00e3o com seu povo \u2013 na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era a mesma coisa. Em segundo lugar, a obriga\u00e7\u00e3o com o movimento socialista. A China tem uma hist\u00f3ria complicada com o socialismo. Emergiu 1945, com uma rela\u00e7\u00e3o tensa com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e vimos o que aquilo significava. A China promoveu, num primeiro per\u00edodo, a rebeli\u00e3o armada, a luta armada. E o mao\u00edsmo muitas vezes \u00e9 confundido com luta armada, mas o mao\u00edsmo \u00e9 muito mais do que isso.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a era Deng Xiaoping, a China tomou uma postura muito menos propensa a falar sobre a promo\u00e7\u00e3o do socialismo ao redor do mundo, falando mais sobre o direito de cada pa\u00eds fazer o que deseja, soberania, etc. Mas essa situa\u00e7\u00e3o dual de um pa\u00eds socialista come\u00e7ou a mudar, como consequ\u00eancia dos excessos dos anos 50 e 60. No per\u00edodo Deng, houve um passo atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da luta armada ao redor do mundo. Uma posi\u00e7\u00e3o correta, eu concordo com essa posi\u00e7\u00e3o. Mas a China, desde ent\u00e3o, tem lutado para descobrir sua posi\u00e7\u00e3o no mundo, \u00e9 percept\u00edvel. Sejamos honestos; \u00e9 uma luta, uma disputa. N\u00e3o se trata de um caminho claro. Depois da queda da URSS, quando o socialismo deu um passo atr\u00e1s, era dif\u00edcil para a China entender seu papel no mundo, algo que tomou tempo.<\/p>\n<p>Agora h\u00e1 muita confian\u00e7a. Em 2015, Xi Jinping fez um discurso marcante sobre a import\u00e2ncia do marxismo, que recentemente, cinco anos depois, foi publicado integralmente. A China segue tendo um papel complicado no mundo; de um lado, est\u00e1 envolvida no com\u00e9rcio internacional, o que significa que quando a China compra do Brasil, o faz como qualquer outra entidade comercial. Compra soja, isso, aquilo, compra muito. N\u00e3o h\u00e1 socialismo nisso. Mas o socialismo chin\u00eas aparece nas suas brigadas m\u00e9dicas, por exemplo, que s\u00e3o muito similares \u00e0s brigadas m\u00e9dicas cubanas. Ent\u00e3o h\u00e1 a\u00ed uma complexidade. A forma como um campon\u00eas brasileiro encontra a China, como compradora de soja\u2026 Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre a China e a Cargill? N\u00e3o parece ter muita, voc\u00ea compreende. Ent\u00e3o a primeira coisa \u00e9 que a China est\u00e1 lutando para identificar qual \u00e9 seu papel quanto ao internacionalismo socialista. Agora n\u00f3s vemos mais confian\u00e7a, vemos a China falando mais sobre a import\u00e2ncia de promover algum tipo de alternativa, o que \u00e9 algo novo. Por muito tempo n\u00e3o vimos isso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil dizer qual \u00e9 o papel da China hoje; n\u00e3o quero ser tolo quanto a isso. Mas eu gostaria de dizer que um dos pap\u00e9is que ela cumpre \u00e9 o comercial, compra e vende produtos, est\u00e1 envolvida na cria\u00e7\u00e3o de mercados e na compra de mat\u00e9ria prima, como qualquer outro pa\u00eds. Pa\u00edses socialistas tamb\u00e9m t\u00eam de fazer isso \u2013 o que h\u00e1 de estranho nisso? A diferen\u00e7a \u00e9 que a China tamb\u00e9m est\u00e1 lutando para achar a sua orienta\u00e7\u00e3o socialista internacional. Depois do per\u00edodo Deng, ela tem lutado quanto a isso, e eu vejo agora uma tentativa s\u00e9ria de acharem um novo tipo de internacionalismo socialista. \u00c9 vis\u00edvel em muitas de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De um lado, est\u00e1 na defensiva, se defendendo contra os ataques dos Estados Unidos. Mas do outro lado, com coisas como as miss\u00f5es m\u00e9dicas, podemos ver um elemento positivo. Veremos, Pedro \u2013 \u00e9 dif\u00edcil ter uma resposta definitiva. Veremos. N\u00e3o est\u00e1 claro o que o internacionalismo socialista da China significar\u00e1.<\/p>\n<p>Revista Opera: Mas voc\u00ea cr\u00ea que seja poss\u00edvel, como Kissinger talvez sonhou, que os Estados Unidos e a China tomem essa posi\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o? Porque isso seria um fort\u00edssimo golpe no movimento popular internacional. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos nunca desistiram de sua hegemonia no campo internacional.<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Esse \u00e9 um ponto importante. Henry Kissinger, que parece que n\u00e3o quer morrer de jeito nenhum, \u00e9 um dos mais brilhantes estrategistas geopol\u00edticos para a manuten\u00e7\u00e3o do poder norte-americano. Em seu livro sobre a China, que \u00e9 bastante grande, um livro incr\u00edvel, ele argumenta que h\u00e1 dois problemas euroasi\u00e1ticos para os EUA: R\u00fassia e China. E os Estados Unidos t\u00eam de fazer uma escolha; ou se alia com a R\u00fassia contra a China, ou com a China contra a R\u00fassia. E todo aquele livro \u00e9 uma defesa da alian\u00e7a com a China, contra a R\u00fassia. Essa \u00e9 a tese.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o capazes de pensamento estrat\u00e9gico nesse sentido. Porque eles acreditam que, junto da Europa, podem dominar o mundo. E essa tentativa da administra\u00e7\u00e3o Obama, e depois da administra\u00e7\u00e3o Trump, de cercar a Eur\u00e1sia \u2013 Ucr\u00e2nia, 2014; S\u00edria, 2012; Mar do Sul da China, 2011-2012 \u2013 tudo isso aproximou a China e a R\u00fassia, com sua coopera\u00e7\u00e3o militar, etc. H\u00e1 algumas fraquezas nessa alian\u00e7a, por exemplo a reclama\u00e7\u00e3o por parte da R\u00fassia de que a China s\u00f3 compra energia deles, n\u00e3o compra produtos russos. H\u00e1 esses problemas nessa parceria, n\u00e3o \u00e9 perfeita. Mas a press\u00e3o norte-americana os aproximaram, e eu n\u00e3o acho que ser\u00e1 f\u00e1cil separ\u00e1-los agora. Ent\u00e3o n\u00e3o creio que a estrat\u00e9gia de Kissinger, que \u00e9 uma estrat\u00e9gia genial\u2026 Mas agora j\u00e1 \u00e9 tarde, Henry, est\u00e1 muito tarde; Obama n\u00e3o te ouviu, Trump n\u00e3o te ouviu, ningu\u00e9m se importa. V\u00e1 conversar com L\u00facifer, quando for pro outro lado, tenha muitos debates com L\u00facifer!<\/p>\n<p>Revista Opera: Eu gostaria que voc\u00ea falasse sobre a situa\u00e7\u00e3o atual da \u00cdndia, porque me parece que pode ser um fator importante nesse conflito EUA-China. Recentemente tivemos aquela tens\u00e3o na fronteira, por exemplo. Aqui ouvimos sobre a emerg\u00eancia de um nacionalismo hindu agressivo, mas tamb\u00e9m sobre os guerrilheiros naxalitas, e me parece que ser\u00e1 um pa\u00eds chave no futuro, pela sua posi\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a com a China e a proximidade com pa\u00edses importantes do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Antes de tudo, a \u00cdndia, como o Brasil, tem um governo de extrema-direita. Um governo que, de muitas formas, \u00e9 similar a Bolsonaro \u2013 n\u00e3o s\u00e3o coisas t\u00e3o diferentes. Nacionalista no pior sentido. O naxalismo, ou a luta armada, se enfraqueceu muito na \u00faltima d\u00e9cada e n\u00e3o tem mais tanta for\u00e7a. Uma das raz\u00f5es \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel combater com armas a pot\u00eancia do Ex\u00e9rcito e da pol\u00edcia indianos, s\u00e3o muito sofisticados, e os naxalitas consideram a \u00cdndia como um pa\u00eds semi-feudal; ela n\u00e3o \u00e9. \u00c9 um pa\u00eds completamente capitalista, com um Estado muito forte, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel lutar contra ele com algumas armas \u2013 n\u00e3o estamos em Cuba em 1955 \u2013 e sim em um pa\u00eds de 1,4 bilh\u00f5es de pessoas. Se voc\u00ea n\u00e3o tem o desejo do povo por tr\u00e1s de voc\u00ea, \u00e9 imposs\u00edvel ir para a luta armada; \u00e9 necess\u00e1rio construir for\u00e7a com as lutas de massa do povo. Ent\u00e3o o naxalismo n\u00e3o se desenvolveu, falhou como estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>A esquerda indiana est\u00e1 enfraquecida, mas n\u00f3s continuamos a lutar. Qual \u00e9 a agenda da esquerda? Construir a confian\u00e7a das massas. Construir a confian\u00e7a da classe trabalhadora; essa \u00e9 nossa tarefa, nossa miss\u00e3o, e \u00e9 nisso que estamos persistindo. Mas trata-se de um trabalho muito dif\u00edcil, Pedro, e voc\u00ea sabe disso \u2013 \u00e9 o mesmo trabalho no Brasil. Seja o PCB, o PCdoB, o MST, Consulta Popular, quaisquer que sejam as for\u00e7as de esquerda, todas est\u00e3o lutando para construir a confian\u00e7a da classe trabalhadora contra a ideologia da classe dominante; uma luta ideol\u00f3gica, uma luta grande. \u00c9 muito dif\u00edcil essa luta. Se amanh\u00e3 voc\u00ea decidir ir \u00e0 luta armada na Amaz\u00f4nia, muito dificilmente voc\u00ea ter\u00e1 sucesso \u2013 ser\u00e1 destru\u00eddo em alguns meses.<\/p>\n<p>Voc\u00ea percebe o que as FARC compreenderam na Col\u00f4mbia: \u00e9 necess\u00e1rio conquistar o povo para o seu lado. N\u00f3s devemos trabalhar em meio ao povo e conquist\u00e1-lo. N\u00e3o existem atalhos para essa tarefa \u2013 n\u00e3o se pode fazer um putsch, um golpe de estado, luta armada. A luta armada \u00e9 uma t\u00e1tica, n\u00e3o uma estrat\u00e9gia; a estrat\u00e9gia deve ser desenvolvida com o objetivo de construir a confian\u00e7a da classe trabalhadora. Essa confian\u00e7a pode governar o mundo. No Brasil hoje n\u00e3o h\u00e1 tal confian\u00e7a \u2013 ela tem de ser constru\u00edda. O mesmo na \u00cdndia, \u00e9 para isso que trabalhamos, e \u00e9 uma longa jornada \u2013 n\u00e3o h\u00e1 atalhos na pol\u00edtica de esquerda. O socialismo n\u00e3o permite atalhos, \u00e9 necess\u00e1rio pegar a estrada longa, o que Mao chamou de Luta Prolongada.<\/p>\n<p>Revista Opera: Essa \u00e9 minha \u00faltima pergunta. No seu livro voc\u00ea \u00e9 muito cr\u00edtico da m\u00eddia e dos jornalistas que s\u00e3o \u201cesten\u00f3grafos do poder\u201d. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 um jornalista. Por que escolheu isso? E qual \u00e9 o papel do jornalismo popular hoje?<\/p>\n<p>Vijay Prashad: Pergunta fant\u00e1stica para terminarmos, fant\u00e1stica! Anos atr\u00e1s, Eduardo Galeano disse que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o feitas de \u00e1tomos, mas de hist\u00f3rias. E eu concordo, somos feitos de hist\u00f3rias. Pedro, qual \u00e9 a sua hist\u00f3ria? Vijay, qual \u00e9 a sua hist\u00f3ria? Conte-me sua hist\u00f3ria. Eu gosto de ouvir as hist\u00f3rias das pessoas, a Hist\u00f3ria \u00e9 feita das hist\u00f3rias das pessoas, e da confian\u00e7a de que minha hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3, pessoal, mas uma hist\u00f3ria compartilhada. Quando uma hist\u00f3ria \u00e9 compartilhada, quando voc\u00ea a torna coletiva, ela se torna uma teoria. E \u00e9 isso que nos motiva em nosso empenho hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se eu fosse te dizer o que significa ser um jornalista, eu diria que \u00e9 representar de forma aut\u00eantica o ponto de vista das pessoas comuns, das pessoas sens\u00edveis. Pessoas como voc\u00ea e eu; n\u00e3o somos pessoas importantes, somos pessoas que viemos do solo, acreditamos no solo, podemos sentir o solo, e queremos criar um futuro para pessoas comuns. N\u00f3s queremos contar suas hist\u00f3rias; an\u00e1lises geopol\u00edticas enraizadas em como o povo v\u00ea o mundo. Lembra de como eu disse que Fidel conseguia ouvir o povo, fazer filosofia, e devolv\u00ea-la a ele? O papel do jornalista \u00e9 o mesmo. O seu papel \u00e9 ser capaz de mostrar ao leitor sens\u00edvel a realidade que ele j\u00e1 conhece. Ajud\u00e1-lo a afiar a compreens\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Por que gosto de Rodolfo Walsh? De John Hersey, com seu fant\u00e1stico livro sobre Hiroshima? Porque eles levam o povo a s\u00e9rio. N\u00e3o vivem s\u00f3 no mundo das teorias. Todo comunista \u00e9 um jornalista. Por que? Porque eles ouvem o povo, e querem compartilhar o que ouviram\u2026 Voc\u00ea fala com essa pessoa, Jo\u00e3o Pedro, e quer dizer a Paola o que ele te disse\u2026 Voc\u00ea entende, estando no Brasil. Se voc\u00ea est\u00e1 na \u00cdndia, fala com Sudhanva, e quer contar a Nafeez ou Rabia o que ele disse. Voc\u00ea quer compartilhar a sabedoria das pessoas que lutam, porque sente que se contar a hist\u00f3ria de Quilombo Campo Grande para algu\u00e9m da \u00c1frica do Sul, ele te responder\u00e1: \u201cCamarada, eu conhe\u00e7o eles! Conhe\u00e7o esses camaradas no Brasil, porque passei por isso. N\u00f3s fizemos frente \u00e0 pol\u00edcia, camarada.\u201d \u00c9 disso que se trata nosso tipo de jornalismo.<\/p>\n<p>Meu tipo de jornalismo, quando escrevo um livro como Balas de Washington, \u00e9 dar \u00e0s pessoas confian\u00e7a de que podem fazer um futuro. Eu perguntei para o Galeano; \u201cvoc\u00ea escreve esse livro sobre tortura\u201d \u2013 Dias e Noites de Amor e Guerra, que livro! \u2013 \u201cmas voc\u00ea escreve de forma t\u00e3o bonita. Por que?\u201d. Perguntei quando era mais jovem. E ele me respondeu: \u201ca pessoa torturada j\u00e1 foi torturada. Eu ouvi suas hist\u00f3rias. Por que eu deveria torturar meus leitores?\u201d Eu pensei muito sobre isso, sobre o estilo. Por que escrever um livro sobre golpes de estado que fa\u00e7a voc\u00ea sentir que voc\u00ea vive dentro de uma caixa que foi fechada pela CIA? N\u00e3o. Eu vou escrever um livro sobre golpes preenchido com poesia. Vou escrever o livro sobre golpes que esteja cheio da imagina\u00e7\u00e3o das pessoas que queriam derrotar o golpe. Meu livro sobre o golpe \u00e9 um livro contra o golpe \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 porque eu disse que \u00e9, no come\u00e7o do livro \u2013 ele \u00e9 contra o golpe no estilo. Se voc\u00ea terminar de ler o livro e se sentir deprimido, eu falhei. Meu livro deve inspir\u00e1-lo a derrotar o pr\u00f3ximo golpe, n\u00e3o a se sentir deprimido. Voc\u00ea acha que Evo Morales est\u00e1 deprimido?<\/p>\n<p>Quando Evo escreveu o pref\u00e1cio para esse meu livro eu fiquei muito feliz, porque n\u00e3o h\u00e1 nada depressivo l\u00e1. Ele diz que n\u00f3s venceremos, que n\u00e3o estamos derrotados. H\u00e1 um marxista liban\u00eas, Mahdi Amel, que diz que enquanto estivermos resistindo, n\u00e3o fomos derrotados. Eu sei que nossas for\u00e7as est\u00e3o fracas agora, mas n\u00f3s estamos resistindo. E porque estamos resistindo n\u00e3o fomos vencidos, e porque n\u00e3o fomos vencidos, n\u00f3s ainda podemos fazer o futuro. N\u00e3o esses Bolsonaros e Modis e pessoas pequenas. O futuro \u00e9 nosso!<\/p>\n<p>Pedro Marin<br \/>\n24 anos, \u00e9 editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publica\u00e7\u00e3o, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. \u00c9 autor de &#8220;Golpe \u00e9 Guerra &#8211; Teses para enterrar 2016&#8221; e co-autor de &#8220;Carta no Coturno &#8211; A volta do Partido Fardado no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26082\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[228],"class_list":["post-26082","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6MG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26082","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26082"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26082\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26082"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26082"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}