{"id":26139,"date":"2020-09-15T20:24:22","date_gmt":"2020-09-15T23:24:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26139"},"modified":"2020-09-15T20:24:22","modified_gmt":"2020-09-15T23:24:22","slug":"mostrando-as-visceras-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26139","title":{"rendered":"Mostrando as v\u00edsceras do capital"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/res.cloudinary.com\/webartigos\/image\/upload\/c_scale,w_500\/v1475192267\/brazil-1644807_1280_ydkd9x.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Elaine Tavares*<\/p>\n<p>O Brasil vive um momento de extrema desola\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de toda a trag\u00e9dia provocada pela inexist\u00eancia de um combate centralizado ao v\u00edrus da Covid 19, que j\u00e1 ceifou quase 150 mil pessoas, Amaz\u00f4nia e Pantanal queimam, por inc\u00eandios criminosos. H\u00e1 algumas dezenas de pessoas que lutam contra as chamas, desesperadamente, de maneira quase ingl\u00f3ria. E h\u00e1 um governo que corta verba para o combate aos inc\u00eandios, faz piada e divulga v\u00eddeos falsos, minimizando a trag\u00e9dia que se abate sobre a terra, as gentes e os animais. H\u00e1 milh\u00f5es de criaturas que negam a realidade, que se manifestam contra a vacina e que aplaudem a l\u00f3gica governamental. Esse \u00e9 o triste cen\u00e1rio com o qual nos deparamos. Tr\u00e1gico, mas n\u00e3o surpreendente, afinal, o que importa para quem governa \u00e9 apenas o bem-estar de uma minoria dominante. O que passa ao largo dessa pequena parcela de gente \u00e9 absolutamente irrelevante. E por qu\u00ea? Porque essa \u00e9 a natureza do sistema capitalista no qual estamos inseridos.<\/p>\n<p>Existe um livro, que deveria ser leitura obrigat\u00f3ria nas escolas, que se chama A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na Inglaterra , escrito por Friedrich Engels, em 1845. Ele inclusive serviu de fonte para que Marx escrevesse o seu cl\u00e1ssico O Capital . Engels era um jovem rico que em 1842 vai para a Inglaterra aprender sobre a ind\u00fastria, visto que seu pai era industrial na Alemanha. Naqueles dias, a Inglaterra, especialmente Manchester, era a ponta de lan\u00e7a das inova\u00e7\u00f5es e da modernidade capitalista. Ali Engels vive por 21 meses e ao observar os avan\u00e7os na ind\u00fastria local e a urbaniza\u00e7\u00e3o das grandes cidades, come\u00e7a a perceber tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Quando volta para casa, na Alemanha, Engels conhece Marx e com ele discute tudo que viveu. Logo em seguida come\u00e7a a reda\u00e7\u00e3o desse livro que \u00e9 uma obra prima sobre a realidade do capitalismo. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ver por dentro, de narrativa do escondido, do que n\u00e3o aparece aos olhos de quem apenas usufrui dos produtos que nascem das m\u00e3os dos trabalhadores. O livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;Globo Rep\u00f3rter&#8221; da \u00e9poca, pois Engels consegue descrever como vivem, onde moram, o que comem, que doen\u00e7as t\u00eam, como se divertem e que expectativas t\u00eam os trabalhadores da meca do capital.<\/p>\n<p>Engels mostra como se deu o movimento do campon\u00eas para a cidade grande, saindo da condi\u00e7\u00e3o de trabalhador da terra, com casa para morar e um peda\u00e7o de terra para tirar seus sustento, para a condi\u00e7\u00e3o de prolet\u00e1rio, sem nada de seu a n\u00e3o ser a for\u00e7a de trabalho, cujo pagamento por ela sequer era suficiente para mant\u00ea-lo em p\u00e9. O jovem alem\u00e3o visita n\u00e3o apenas as f\u00e1bricas, onde v\u00ea de perto as condi\u00e7\u00f5es de trabalho de homens, mulheres e crian\u00e7as, mas tamb\u00e9m circula pelos bairros perif\u00e9ricos, morada dos trabalhadores, os quais eram desconhecidos pela elite dominante e tamb\u00e9m pela chamada classe m\u00e9dia que ocupava as profiss\u00f5es liberais, ou cargos mais elevados nas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Nessas andan\u00e7as pelas vielas fedorentas de Manchester \u2013 os chamados &#8220;bairros de m\u00e1 fama&#8221; \u2013 Engels viu gente morrer de fome, dividir casa com os porcos, dormir na maior imund\u00edcie, padecer das doen\u00e7as mais horrendas. Aquelas ruas e casas que ficavam na parte mais feia da cidade, eram o espa\u00e7o da morte, e n\u00e3o da vida. N\u00e3o recebiam cuidados por parte da administra\u00e7\u00e3o local e eram conhecidas como redutos da criminalidade. Isso lhes lembra algo?<\/p>\n<p>Engels descreve com riqueza de detalhes aquele universo e tanto que se pode at\u00e9 sentir o cheiro das ruas e das casas. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico pai de fam\u00edlia em cada dez, que tenha outras roupas al\u00e9m das de trabalho e muitos s\u00f3 t\u00eam \u00e0 noite, como coberta, esses mesmos farrapos e por cama, um saco de serragem&#8221;. Ou ainda a vis\u00e3o de uma mulher que morrera de fome: &#8220;jazia morta ao lado do filho, sobre um monte de penas, espalhadas pelo corpo quase nu, porque n\u00e3o havia len\u00e7\u00f3is ou cobertores. As penas estavam de tal modo aderidas \u00e0 sua pele que o m\u00e9dico s\u00f3 pode observar o cad\u00e1ver depois que o lavaram, e o encontrou descarnado, todo marcado de picadas de insetos&#8221;.<\/p>\n<p>E por a\u00ed vai a toada. O livro de Engels \u00e9 como um soco na boca do est\u00f4mago, detalhando de maneira crua a vida daqueles que fizeram a riqueza do capital. Uma gente que morria cedo, com fome, sem nada de seu. Uma gente que n\u00e3o era vis\u00edvel para ningu\u00e9m que vivessem fora daqueles antros de podrid\u00e3o e dor. Da classe m\u00e9dia, essa excresc\u00eancia que sonha em virar exploradora ele diz: &#8220;Tive de observar a classe m\u00e9dia, vossa advers\u00e1ria, e rapidamente conclu\u00ed que vos tendes raz\u00e3o em n\u00e3o esperar dela qualquer ajuda, seus interesses s\u00e3o diametralmente opostos aos vossos, mesmo que ela procure incessantemente afirmar o contr\u00e1rio e vos queira persuadir que sente a maior simpatia por sua sorte&#8221;. Para Engels a classe m\u00e9dia s\u00f3 quer enriquecer \u00e0s custas dos desgra\u00e7ados e simplesmente pode deix\u00e1-los morrer de fome quando n\u00e3o puder mais lucrar com o que chama de &#8220;com\u00e9rcio de carne humana&#8221;.<\/p>\n<p>Mas, o que realmente \u00e9 espantoso no livro de Engels, \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o que ele descreve na Inglaterra de 1842, segue absolutamente igual nas periferias do mundo inteiro. As cenas descritas dos horrores, das condi\u00e7\u00f5es das moradias, da sa\u00fade dos moradores e da explora\u00e7\u00e3o que sofrem n\u00e3o apenas nas f\u00e1bricas, mas tamb\u00e9m dos donos dos armaz\u00e9ns onde compram seus v\u00edveres, poderiam ser vislumbradas hoje em qualquer grande cidade ou mesmo em pa\u00edses inteiros. Porque o que Engels mostra n\u00e3o \u00e9 apenas a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da Inglaterra, mas sim as v\u00edsceras do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. O lado de dentro, o lado escondido, que os poderosos preferem deixar invis\u00edvel para que n\u00e3o haja revolta. Pelo contr\u00e1rio, o capitalismo disp\u00f5e de uma pedagogia da sedu\u00e7\u00e3o que leva os explorados a acreditar que um dia poder\u00e3o ultrapassar o limiar da mis\u00e9ria, basta que trabalhem bastante. Mas, isso n\u00e3o \u00e9 verdade. A roda do capital que gira desde o 1800 segue fazendo o mesmo de sempre: moendo gente. \u00c9 assim que se mant\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que, hoje, no Brasil, enquanto milhares de fam\u00edlias choram seus mortos, que partiram por n\u00e3o conseguir amparo m\u00e9dico, ou um respirador, ou uma UTI [Unidade de Tratamento Intensivo], a classe dominante n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed. E se n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para as pessoas, porque motivo estaria preocupada com as milhares de vidas animais perdidas nos inc\u00eandios da Amaz\u00f4nia e do Pantanal? Isso n\u00e3o importa em absoluto. Assim como n\u00e3o importam as vidas dos ind\u00edgenas \u2013 esses seres que consideram in\u00fateis e um atrapalho ao progresso \u2013 dos negros da periferia, dos quilombolas, dos ribeirinhos, dos sem-terra, dos z\u00e9-ningu\u00e9ns. Enquanto essa gente morre a classe dominante segue com suas festas, suas mans\u00f5es, seus banquetes. A dor dos que lhes servem n\u00e3o lhes toca, n\u00e3o lhes chega. Porque, ao fim, algu\u00e9m dos seus est\u00e1 enriquecendo enquanto as terras ardem e as gentes morrem.<\/p>\n<p>O que nos resta, ent\u00e3o? Primeiro conhecer a realidade. Entender porque uns tem tanto e tantos n\u00e3o tem nada. Entender porque existe a pobreza, a mis\u00e9ria, a explora\u00e7\u00e3o. Entender a l\u00f3gica do capital. Debru\u00e7ar-se sobre as v\u00edsceras desse sistema, ter coragem de olhar adentro e, a partir da\u00ed, compreender que \u00e9 o trabalhador quem produz a riqueza e que os ricos n\u00e3o trabalham. E que se quem produz a riqueza \u00e9 o trabalhador ent\u00e3o a ele tudo \u00e9 devido. N\u00e3o a morte, n\u00e3o a fome, n\u00e3o o desespero. Mas a alegria, a fartura, o bem-viver. E que isso pode ser conseguido se essa minoria que domina tudo for vencida. \u00c9 uma minoria. Os trabalhadores s\u00e3o maioria, logo, mais fortes.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que no caminho haver\u00e1 quem n\u00e3o acredite no que mostram as v\u00edsceras, haver\u00e1 quem defenda o algoz, haver\u00e1 quem traia os companheiros. \u00c9 a vida. Mas, os trabalhadores, coletivamente podem enfrentar cada um desses obst\u00e1culos, e avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>O capitalismo tem essa apar\u00eancia bonita, de sucesso, de possibilidades. Mas, dentro dele est\u00e3o as v\u00edsceras. Engels mostrou as da Inglaterra. N\u00f3s vamos mostrando as nossas. E, assim, conscientes do mal, haveremos de encontrar o caminho para a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*Jornalista.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26139\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[233],"class_list":["post-26139","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6NB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26139"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26139\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}