{"id":26148,"date":"2020-09-15T20:39:19","date_gmt":"2020-09-15T23:39:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26148"},"modified":"2023-02-26T01:02:04","modified_gmt":"2023-02-26T04:02:04","slug":"dancando-a-beira-do-abismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26148","title":{"rendered":"Dan\u00e7ando \u00e0 beira do abismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/capitalismo-crise-financeirizacao.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Fotografia: Steffi Reichert\/Flickr<\/p>\n<p>A crise sist\u00eamica global emerge novamente!<\/p>\n<p>Esse artigo \u00e9 parte da revista O Futuro \u2013 O Comunismo \u00e9 a Juventude do Mundo, n.1, que pode ser adquirida em formato digital pelo link<\/p>\n<p>Edmilson Costa<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>O sistema capitalista enfrenta o epicentro da mais grave, profunda e devastadora crise sist\u00eamica de sua hist\u00f3ria, muito mais grave que as duas crises sist\u00eamicas anteriores, cujos eventos provocaram mudan\u00e7as quantitativas e qualitativas nesse modo de produ\u00e7\u00e3o.2 Trata-se de um per\u00edodo dif\u00edcil, no qual os gestores do capital est\u00e3o desarticulados, sem horizonte, sem b\u00fassola ou instrumentos, e viajando rumo ao desconhecido por mares nunca dantes navegados. Todas as receitas, f\u00f3rmulas e agendas e j\u00e1 foram experimentadas pelos governos, no per\u00edodo 2008-2020, e nenhuma delas conseguiu restaurar a estabilidade do sistema nem a retomada sustentada da economia mundial. A enorme quantidade de dinheiro colocada na economia apenas serviu para adiar o desenlace do processo. Isso ocorre porque as crises sist\u00eamicas t\u00eam uma diferen\u00e7a quantitativa e qualitativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crises c\u00edclicas cl\u00e1ssicas do capitalismo e, especialmente, porque nenhum dos problemas que emergiram em 2007\/2008 foi resolvido. Pelo contr\u00e1rio, o sistema realizou uma fuga para frente, aumentando de maneira extraordin\u00e1ria o volume do capital fict\u00edcio em circula\u00e7\u00e3o: os bancos centrais colocaram cerca de 30 trilh\u00f5es de d\u00f3lares na economia, recursos que serviram muito mais para evitar temporariamente o colapso dos grandes bancos e grandes empresas e para tornar mais ricos os rentistas do que para restabelecer efetivamente a demanda agregada do sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Essa enorme massa de dinheiro (sem lastro na produ\u00e7\u00e3o do valor), conseguiu proporcionar ao sistema capitalista uma sobrevida semelhante a uma vit\u00f3ria de Pirro, porque na pr\u00e1tica os gestores do capital constru\u00edram uma economia fr\u00e1gil, baseada nos setores pouco produtores da riqueza material, e com um sistema financeiro ganhando rios de dinheiro nos frenesis da especula\u00e7\u00e3o mundial, al\u00e9m de empresas-zumbis buscando norte em meio \u00e0 tempestade. Gerou tamb\u00e9m para os eternos otimistas e crentes no milagre do capitalismo uma euforia t\u00edpica dos enfermos pr\u00f3ximos \u00e0 fase terminal. Ou seja, a dramaticidade da crise anterior n\u00e3o foi uma boa conselheira para os capitalistas, como foi a segunda guerra mundial. Enebriados pelas tonterias do capital fict\u00edcio e a sede de lucro f\u00e1cil e r\u00e1pido, esgar\u00e7aram ainda mais as contradi\u00e7\u00f5es do sistema, ao aprofundar a agenda neoliberal, destruir as redes de prote\u00e7\u00e3o social, avan\u00e7ar sobre o fundo p\u00fablico, realizar um brutal ataque contra os sal\u00e1rios, direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, privatizar os servi\u00e7os p\u00fablicos e mercantilizar a vida. Quando a pandemia chegou encontrou um campo f\u00e9rtil para avan\u00e7ar avassaladoramente sobre a popula\u00e7\u00e3o, especialmente os mais pobres, e desmoralizar toda a narrativa das \u00faltimas quatro d\u00e9cadas neoliberal. Portanto, o v\u00edrus n\u00e3o \u00e9 a causa da crise: a causa da crise \u00e9 o sistema capitalista e suas contradi\u00e7\u00f5es imanentes.<\/p>\n<p>\u00c9 importante enfatizar ainda que os sinais obscurecidos da conjuntura anterior \u00e0 pandemia levaram muitos analistas a imaginar que o capitalismo poderia se desenvolver tranquilamente driblando a lei do valor e evitando o ajuste de contas entre o extraordin\u00e1rio desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, baseado nas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia artificial, rob\u00f3tica e microeletr\u00f4nica, engenharia gen\u00e9tica, biotecnologia, nanotecnologia, entre outras, e as velhas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o constru\u00eddas no p\u00f3s-guerra e mantidas na atualidade.3 Imaginaram que a cria\u00e7\u00e3o do dinheiro a partir do nada seria suficiente para regenerar um sistema doente e esqueceram-se de que, se a pura e simples emiss\u00e3o de moeda resolvesse os problemas das crises, o capitalismo seria um regime eterno. Nunca \u00e9 demais lembrar que o sistema capitalista alimenta o processo de acumula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da apropria\u00e7\u00e3o do mais-valor gerado pelos trabalhadores. Quando setores capitalistas hegem\u00f4nicos optaram majoritariamente pelo mecanismo de acumula\u00e7\u00e3o a partir da \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o, na verdade estavam conspirando contra os interesses de longo prazo do capital, porque nessa esfera, por mais que os capitalistas desejem, n\u00e3o se cria riqueza real na sociedade, afinal somente o trabalho social \u00e9 capaz de criar o valor. Isso explica o desastre da chamada financeiriza\u00e7\u00e3o da economia. Da mesma forma, o que estamos observando, desde 2008, \u00e9 uma rebeli\u00e3o generalizada das sofisticadas for\u00e7as produtivos criadas pelo capitalismo atual contra as velhas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, cujo desfecho s\u00f3 ser\u00e1 resolvido com uma mudan\u00e7a profunda no sistema, como ocorreu no passado, ou com a revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Na verdade, as inje\u00e7\u00f5es de recursos por parte dos Bancos Centrais, as pol\u00edticas de flexibiliza\u00e7\u00e3o quantitativa, a compra de t\u00edtulos t\u00f3xicos para evitar as quebras generalizadas e outros truques macroecon\u00f4micos realizados pelos governos dos pa\u00edses centrais apenas contribu\u00edram para reproduzir em bases ampliadas todas as contradi\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas que emergiram na crise de 2008 e para transformar a crise atual num fen\u00f4meno muito mais devastador do que a crise anterior. O v\u00edrus pode ser uma boa desculpa para apaziguar a mentes mais desesperadas dos escribas do capital, mas n\u00e3o resolve a crise e a devasta\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso. O sistema financeiro, diante das taxas de juros praticamente negativas e do risco de cr\u00e9dito em fun\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas empresariais e dos consumidores, preferiu alocar os recursos recebidos praticamente de gra\u00e7a dos Tesouros dos pa\u00edses centrais na alavancagem de seus neg\u00f3cios especulativos. A grande massa de recursos lan\u00e7ada na economia n\u00e3o irrigou o sistema produtivo, exatamente a base motora do crescimento econ\u00f4mico. Pelo contr\u00e1rio, foi apropriada pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es financeiras e monop\u00f3lios em geral para especular a partir da arbitragem entre a taxa de juros praticamente negativa definida pelo FED e bancos centrais europeus e as aplica\u00e7\u00f5es nas Bolsas de Valores, em mercados futuros e de pa\u00edses emergentes e, inclusive, na compra de t\u00edtulos do pr\u00f3prio Tesouro norte-americano. Resultado desse processo foi a longa euforia das bolsas e dos mercados especulativos. Isso de certa forma explica porque, enquanto a economia mundial enfrentava s\u00e9rios problemas, os bilion\u00e1rios aumentavam a sua riqueza e a concentra\u00e7\u00e3o da renda crescia exponencialmente. Mas essas bolhas especulativas refluir\u00e3o dramaticamente com o aumento da crise e a maior parte desses recursos ser\u00e1 esterilizada em futuro n\u00e3o muito distante.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a crise atual est\u00e1 umbilicalmente associada \u00e0 emerg\u00eancia da crise sist\u00eamica global em 2008, com uma particularidade muito especial: na atual crise um elemento ex\u00f3geno (a pandemia do Coronavirus) veio aprofundar, potencializar, acelerar e universalizar um processo que j\u00e1 estava maduro na economia mundial capitalista, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, e transformar a crise j\u00e1 inscrita num horizonte pr\u00f3ximo numa hecatombe social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica, cujas consequ\u00eancias e resultados ainda n\u00e3o temos uma dimens\u00e3o plena. A pandemia apenas acelerou e dramatizou um processo que j\u00e1 era objetivamente inevit\u00e1vel nas principais economias do mundo. Foi uma esp\u00e9cie de detonador, uma centelha flamejante num ambiente que j\u00e1 estava extraordinariamente inflam\u00e1vel, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto social. Seria at\u00e9 ir\u00f4nico imaginar que um nano-v\u00edrus, menor que uma bact\u00e9ria, tivesse condi\u00e7\u00f5es de por de joelho um sistema mundial com a pujan\u00e7a de mais de tr\u00eas s\u00e9culos de hegemonia no planeta. Se est\u00e1 produzindo essas consequ\u00eancias dram\u00e1ticas \u00e9 porque o sistema j\u00e1 estava muito enfermo. Caso contr\u00e1rio, a crise n\u00e3o seria t\u00e3o devastadora, afinal pa\u00edses como a China e Vietn\u00e3, que tamb\u00e9m enfrentaram a pandemia, n\u00e3o registraram os resultados dram\u00e1ticos que est\u00e3o sendo observados no centro do capitalismo.<\/p>\n<p>Os elementos da nova crise<br \/>\nGrande parte dos analistas das organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e Banco Mundial, bem como institutos especializados e muitos economistas, j\u00e1 identificavam ainda em 2019 uma desacelera\u00e7\u00e3o da economia global e outros previam que uma nova crise seria inevit\u00e1vel em fun\u00e7\u00e3o dos indicadores de um conjunto de vari\u00e1veis da economia mundial, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, os centros do capitalismo mundial. As Bolsas de Valores j\u00e1 vinham apresentando grande volatilidade desde 2018, ap\u00f3s um boom alimentado pelo dinheiro dos Bancos Centrais injetados na economia e das posteriores flexibilidades quantitativas. Al\u00e9m disso, a queda do crescimento econ\u00f4mico chin\u00eas, que ao longo desse per\u00edodo contribuiu de maneira acentuada para manter \u00edndices positivos da economia mundial, j\u00e1 indicava que s\u00e9rios problemas estavam por vir na economia mundial. Afinal, a China \u00e9 respons\u00e1vel por cerca de um quarto da produ\u00e7\u00e3o mundial, por 20% da produ\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as e componentes e 12% do com\u00e9rcio mundial.4 Um indicador fundamental para expressar o fato de que a economia j\u00e1 vinha se desacelerando pode ser observado nas taxas de crescimento globais. Dados levantados por Michael Roberts j\u00e1 anunciavam uma queda no n\u00edvel de crescimento da economia global, desde 2010, conforme se pode observar na tabela 1.5 Essa performance ocorreu em fun\u00e7\u00e3o da estagna\u00e7\u00e3o das taxas de investimentos, que no mesmo per\u00edodo se mantiveram menores que 2007. Mas o dado que melhor expressa as dificuldades da economia mundial pode ser medido pela queda da lucratividade desde 2010. Ainda de acordo com Roberts, a taxa interna de retorno do capital do G7, que pode ser considerada uma proxy da taxa de lucro, vem caindo desde 1998, quando o per\u00edodo neoliberal atingiu seu \u00e1pice (Gr\u00e1fico1).6<\/p>\n<p>[Confira os gr\u00e1ficos em: https:\/\/ujc.org.br\/dancando-a-beira-do-abismo-a-crise-sistemica-global-emerge-novamente\/]<\/p>\n<p>Se observarmos tamb\u00e9m o setor produtivo das principais economias dos pa\u00edses centrais, poderemos constatar que j\u00e1 vinha ocorrendo problemas em v\u00e1rios ramos da produ\u00e7\u00e3o, especialmente na ind\u00fastria automobil\u00edstica da Alemanha, \u00cdndia, Inglaterra. Ainda na Alemanha ocorreu tamb\u00e9m queda no setor de m\u00e1quinas e equipamentos. \u201cNo segundo semestre de 2019 come\u00e7ou uma recess\u00e3o no setor da produ\u00e7\u00e3o industrial da Alemanha, It\u00e1lia, Jap\u00e3o, \u00c1frica do Sul, Argentina e v\u00e1rios setores industriais dos Estados Unidos\u201d.7 A redu\u00e7\u00e3o no ritmo de crescimento da China impactou tamb\u00e9m de maneira bastante negativa os produtores dos chamados pa\u00edses emergentes que exportavam mat\u00e9rias-primas para os chineses. Outros indicadores demonstram ainda enorme fragilidade da economia mundial e da economia dos Estados Unidos em particular. Segundo Plender, que se baseou em c\u00e1lculos do Instituto Internacional das Finan\u00e7as (IIF), o quantum de endividamento mundial alcan\u00e7ou U$$ 253 trilh\u00f5es no terceiro trimestre de 2019, quantia correspondente a 322% do PIB mundial.8 Outras fontes indicam um endividamento ainda maior na economia mundial: de acordo com Hedgs, o endividamento mundial j\u00e1 alcan\u00e7ara U$$ 325 trilh\u00f5es, ressaltando-se que a d\u00edvida das fam\u00edlias nos EUA atinge U$ 13,2 trilh\u00f5es e as d\u00edvidas dos estudantes tamb\u00e9m nos EUA atinge U$ 1,5 trilh\u00e3o.9 Vale lembrar ainda que a d\u00edvida externa norte-americana alcan\u00e7a aproximadamente 100% do PIB (gr\u00e1fico 2), que sua infraestrutura est\u00e1 bastante deteriorada e o setor de petr\u00f3leo, no qual o Pa\u00eds imaginava adquirir autossufici\u00eancia a partir do xisto betuminoso, est\u00e1 em bancarrota, assim como todo o setor petroleiro mundial, em raz\u00e3o da queda dos pre\u00e7os e da demanda.<\/p>\n<p>[Confira o gr\u00e1fico em: https:\/\/ujc.org.br\/dancando-a-beira-do-abismo-a-crise-sistemica-global-emerge-novamente\/]<\/p>\n<p>Como na crise anterior n\u00e3o ocorreu a queima de capitais suficientes para regenerar o sistema econ\u00f4mico, o truque de inje\u00e7\u00f5es maci\u00e7as de recursos por parte dos bancos centrais criou um sistema econ\u00f4mico baseado em fundamentos fr\u00e1geis, um boom artificial e um sistema financeiro que ampliou de maneira impressionante o processo especulativo. Isso ocorreu porque os bancos, diante da montanha de recursos em seus encaixes monet\u00e1rios, decidiram obter lucros muito mais r\u00e1pido e f\u00e1cil na especula\u00e7\u00e3o do que colocar esse dinheiro no setor produtivo. Direcionaram esses recursos para a compra de a\u00e7\u00f5es, para a compra de t\u00edtulos da d\u00edvida dos pa\u00edses perif\u00e9ricos, para o mercado futuro de derivativos e todo tipo de neg\u00f3cio especulativo. Esses neg\u00f3cios criaram uma atmosfera otimista, na qual os agentes do capital, especialmente nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, difundiam a narrativa de que a economia tinha se recuperado e estava crescendo a todo vapor. A crise teria sido apenas um acidente de percurso e o sistema recuperara a normalidade como no passado. Ledo engano: esqueceram-se de que o capitalismo \u00e9 um sistema que n\u00e3o pode se desenvolver se n\u00e3o extrair o mais-valor dos trabalhadores; que a din\u00e2mica capitalista implica investimento no processo de produ\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o das mercadorias e apropria\u00e7\u00e3o do valor para acumular o do capital. Querer fugir dessa l\u00f3gica imanente do capitalismo \u00e9 uma miragem semelhante \u00e0 dos alquimistas buscando descobrir o elixir da juventude. Como de costume, as crises emergem para relembrar a todos os caprichos implac\u00e1veis da lei do valor.<\/p>\n<p>Na principal economia do mundo, a crise at\u00e9 agora est\u00e1 sendo devastadora. N\u00e3o se pode afirmar com exatid\u00e3o quais as consequ\u00eancias no ritmo de crescimento dos Estados Unidos, mas as perspectivas indicam que esta crise ser\u00e1 t\u00e3o ou mais grave que a grande depress\u00e3o porque combinou, num mesmo coquetel t\u00f3xico, a emerg\u00eancia de um nova erup\u00e7\u00e3o da crise sist\u00eamica global com uma pandemia mundial que potencializou e acelerou todas as contradi\u00e7\u00f5es de um sistema enfermo. Concentrando-se a investiga\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, o cora\u00e7\u00e3o do sistema imperialista, como uma proxi do que acontecer\u00e1 nas outras regi\u00f5es do mundo, podemos dizer que est\u00e3o em cursos fen\u00f4menos dram\u00e1ticos nunca dantes observados na economia norte-americana e, por extens\u00e3o, na economia mundial. Os organismos internacionais preveem uma queda no PIB entre 5 e 10 pontos percentuais negativos, enquanto o ex-secret\u00e1rio do Tesouro norte-americano e experiente representante do establishment, Larry Sammers, avalia que esta ser\u00e1 a maior crise desde a segunda guerra, cujo desemprego dever\u00e1 atingir 20% dos trabalhadores.10 De concreto, agora em maio, 40 milh\u00f5es de trabalhadores j\u00e1 perderam o emprego, n\u00famero que dever\u00e1 aumentar \u00e0 medida em que a crise se agrava. De fato, a economia est\u00e1 numa espiral descendente: o setor de petr\u00f3leo est\u00e1 em bancarrota, com dezenas de empresas indo \u00e0 fal\u00eancia em fun\u00e7\u00e3o da queda da demanda e dos pre\u00e7os do \u00f3leo. No setor do com\u00e9rcio, milhares de empresas tamb\u00e9m est\u00e3o falindo por falta de compradores, o que significa que todas as cadeias de fornecedores tamb\u00e9m sofrer\u00e3o o impacto da queda. Da mesma forma, os setores da avia\u00e7\u00e3o, do turismo, bares, restaurantes, shoppings, cinemas e entretenimento em geral tamb\u00e9m est\u00e3o a caminho do colapso. Em breve a crise tamb\u00e9m chegar\u00e1 ao n\u00facleo duro da produ\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da insufici\u00eancia estrutural da demanda agregada, e as d\u00edvidas impag\u00e1veis de empresas e consumidores sufocar\u00e3o o sistema financeiro, cuja queda ser\u00e1 muito expressiva.<\/p>\n<p>Essa crise ocorre num momento que a economia norte-americana, do ponto de vista social, tamb\u00e9m vive uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, levando-se em conta ser esta a principal economia do planeta. Como vimos, o crescimento econ\u00f4mico do per\u00edodo anterior foi realizado a partir de fundamentos artificiais, tendo como l\u00f3gica de crescimento a \u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o, cujos setores n\u00e3o produzem valor. Da mesma forma, o chamado boom dos empregos, criados entre 2009 e a emerg\u00eancia da crise atual, tamb\u00e9m estava baseado em fundamentos fr\u00e1geis, com sal\u00e1rios estagnados e um elevado contingente da for\u00e7a de trabalho n\u00e3o registrado pelas estat\u00edsticas oficiais, o que permitiu uma sofisticada manipula\u00e7\u00e3o estat\u00edstica. \u201cA taxa de participa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho \u2013 a propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o total de 18 a 64 anos que trabalha ou procura emprego \u2013 caiu acentuadamente no momento em que a crise ocorreu, e ainda est\u00e1 longe de retornar ao seu n\u00edvel de 2007\u2026 Os sal\u00e1rios, como muitos j\u00e1 sabem, n\u00e3o s\u00e3o muito maiores do que eram no final dos anos 1970. Tivemos uma gera\u00e7\u00e3o inteira experimentando estagna\u00e7\u00e3o salarial \u2013 e desde a Grande Recess\u00e3o (de 2008, E.C.), tem sido ainda pior\u201d.11 Em outras palavras, o n\u00edvel de emprego propagado pelo governo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em idade de trabalhar, n\u00e3o refletia a real situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores norte-americanos, ressaltando-se o fato de que se tratava de empregos prec\u00e1rios e mal remunerados, bastando dizer que cerca de 50% dos trabalhadores dos Estados Unidos ganham menos que U$ 33 mil por ano, um n\u00edvel muito baixo para os padr\u00f5es daquele Pa\u00eds.12 Vale lembrar ainda que existem hoje mais de 40 milh\u00f5es com renda abaixo da linha de probreza, e 550 mil sem teto, dos quais 358 mil vivendo em abrigos prec\u00e1rios e 195 mil morando na rua.13 Para um Pa\u00eds das oportunidades e das liberdades, esse n\u00e3o \u00e9 um dos mais belos cart\u00f5es postais.<\/p>\n<p>Do ponto de vista sanit\u00e1rio, a crise veio demonstrar a fal\u00eancia do sistema de sa\u00fade privado no Pa\u00eds. Atualmente, mais de 2,5 milh\u00f5es est\u00e3o contaminados pelo coronavirus, com mais de 120 mil mortos, n\u00famero mais de duas vezes maior que na guerra do Vietn\u00e3. A pandemia revelou de maneira brutal as mazelas da sociedade norte-americana, como a desigualdade, a pobreza, a mis\u00e9ria, a iniquidade de um sistema de sa\u00fade onde quem n\u00e3o tem dinheiro morre na porta dos hospitais, a concentra\u00e7\u00e3o de renda, o racismo estrutural, os milhares de sem teto e moradores de rua, mas tamb\u00e9m revelou a disposi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios setores da popula\u00e7\u00e3o para a luta pelas mudan\u00e7as, especialmente os jovens, negros e latinos. Se o presidente Trump n\u00e3o tivesse subestimado a pandemia, a partir de um negacionismo t\u00edpico dos fundamentalistas neopentecostais, o n\u00famero de mortos poderia ter sido bem menor. Se o Pa\u00eds tivesse um sistema de sa\u00fade p\u00fablico, onde todos pudessem ter acesso gratuito \u00e0 sa\u00fade, milhares de vidas teriam sido poupadas. Dito de outra forma, a crise veio demonstrar com rudeza que o sistema capitalista, especialmente na sua fase neoliberal, \u00e9 hoje o principal inimigo da humanidade porque s\u00f3 tem a oferecer aos povos a mis\u00e9ria e a desigualdade. As manifesta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo em todo o Pa\u00eds, mesmo diante da pandemia, demonstra a insatisfa\u00e7\u00e3o profunda da maioria da popula\u00e7\u00e3o e que pode aumentar \u00e0 medida em que a crise for se agravando.<\/p>\n<p>A desmoraliza\u00e7\u00e3o do discurso neoliberal<br \/>\nA crise demonstrou tamb\u00e9m de maneira pedag\u00f3gica a natureza desumana do sistema capitalista e os crimes de sua fase mais agressiva, o neoliberalismo. As pol\u00edticas neoliberais, ao longo dos \u00faltimos 40 anos, sob o pretexto da inefici\u00eancia do Estado e do equil\u00edbrio fiscal, transformou o mercado numa entidade m\u00edtica, com interesses superiores aos da esp\u00e9cie humana, numa ofensiva mundial articulada desde as organiza\u00e7\u00f5es multilateriais, aos diversos governos capitalistas e, especialmente, aos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Diariamente as TVs, os jornais, o r\u00e1dio e os meios digitais promoveram as virtudes do livre mercado e da livre concorr\u00eancia, da iniciativa privada, das reformas econ\u00f4micas, trabalhistas e previdenci\u00e1rias e do individualismo como a \u00fanica alternativa para a vida em sociedade. Desregulamentaram a legisla\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, as atividades financeiras, o mercado de trabalho, os direitos sociais, e colocaram toda a estrutura do Estado a servi\u00e7o da nova ordem, mesmo que para tanto se utilizassem de regimes autorit\u00e1rios ou alian\u00e7as com bandos fascistas. Em outras palavras, transformaram o neoliberalismo num pensamento \u00fanico, a partir do qual qualquer discord\u00e2ncia era desqualificada e inviabilizada. O polo financeiro do grande capital passou a hegemonizar o sistema econ\u00f4mico, a controlar parcela expressiva das empresas produtivas, a hegemonizar politicamente o or\u00e7amento do Estado e alavancar de maneira exponencial o processo de especula\u00e7\u00e3o. Por tr\u00e1s desse discurso e dessas a\u00e7\u00f5es, evidentemente, estavam os interesses da oligarquia financeira e do grande capital buscando superar a crise capitalista e colocar todo o \u00f4nus do ajuste na conta dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Dessa maneira, a pol\u00edtica neoliberal avan\u00e7ou contra os direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, direitos conquistados por nossos av\u00f3s, e reduziu os sal\u00e1rios, tanto dos trabalhadores do setor privado quanto dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Em nome da austeridade e equil\u00edbrio das finan\u00e7as p\u00fablicas cortou gastos sociais, reduziu a participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia, avan\u00e7ou sobre as empresas estatais mediante o processo de privatiza\u00e7\u00e3o e amealhou parcelas expressivas do fundo p\u00fablico em fun\u00e7\u00e3o da d\u00edvida dos Estados. Devastou os servi\u00e7os p\u00fablicos, como a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o e o saneamento. Na \u00e2nsia de acumular a qualquer custo, a selvageria neoliberal desmantelou as redes de prote\u00e7\u00e3o social, destruiu parcela importante da biodiversidade, das florestas, contaminou o solo e os rios e at\u00e9 mesmo o ar que respiramos.<\/p>\n<p>O resultado desse processo foi a precariza\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho, a redu\u00e7\u00e3o da massa salarial, o empobrecimento de largas parcelas da popula\u00e7\u00e3o, a dificuldade para acessar os servi\u00e7os p\u00fablicos, especialmente a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade, e uma concentra\u00e7\u00e3o de renda obscena, na qual 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial det\u00e9m a mesma riqueza que os 99% restantes.14 Em outros termos, por tr\u00e1s das a\u00e7\u00f5es e do discurso neoliberal, evidentemente, estava a a\u00e7\u00e3o da oligarquia financeira e do grande capital para se apropriar dos recursos p\u00fablicos e da renda expropriadas dos trabalhadores pelas contrareformas.<\/p>\n<p>Mas as fal\u00e1cias neoliberais se transformaram em conto de fadas com a crise sist\u00eamica que emergiu em 2008, cujos resultados colocaram em cheque toda a agenda neoliberal e sua narrativa te\u00f3rica. Os gestores do capital, sem a menor sem cerim\u00f4nia, recorreram alegremente ao Estado para salvar do colapso os bancos e as grandes empresas. Todo o velho discurso do livre mercado, da efici\u00eancia da iniciativa privada, da maldi\u00e7\u00e3o do Estado foi abandonado, enquanto os Bancos Centrais colocavam montanhas de dinheiro para salvar o sistema. Mas quem imaginava que as classes dominantes iriam tirar li\u00e7\u00f5es do fracasso do neoliberalismo e da gravidade da crise, deve ter ficado bastante decepcionado porque o que se verificou posteriormente foi o aprofundamento das pol\u00edticas neoliberais, agora mais agressivas e depredadoras que no per\u00edodo anterior.<\/p>\n<p>Os gestores do capital retomaram, tamb\u00e9m sem a menor sem cerim\u00f4nia, o discurso da austeridade, dos ajustes fiscais, do corte dos gastos p\u00fablicos, dos sal\u00e1rios, da necessidade das privatiza\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do controle da pol\u00edtica econ\u00f4mica dos governos, para efetivar mais reformas trabalhistas e previdenci\u00e1rias e maior saque ao fundo p\u00fablico. Como se tratava de medidas ainda mais impopulares que as do per\u00edodo anterior, pelos impactos dram\u00e1ticos sobre os trabalhadores, a juventude e a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, e que tenderiam a gerar rea\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, as classes dominantes mundiais resolveram radicalizar as restri\u00e7\u00f5es \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas, a partir da elei\u00e7\u00e3o de dirigentes fundamentalistas de direita ou mesmo se aliando a bandos fascistas para manter a ordem. Na pr\u00e1tica, as liberdades democr\u00e1ticas se tornaram um obst\u00e1culo \u00e0s pol\u00edticas neoliberais em todo o mundo. Como se pode observar desde 2009, aumentou a brutalidade contra as manifesta\u00e7\u00f5es populares, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e a persegui\u00e7\u00f5es a l\u00edderes sindicais, populares e dirigentes pol\u00edticos de esquerda.<\/p>\n<p>Na crise atual o processo se repete em bases ampliadas. Sob o argumento de que o Coronav\u00edrus, e n\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, \u00e9 a origem da atual crise, os bancos centrais do mundo inteiro e dos pa\u00edses centrais em particular, especialmente o dos Estados Unidos, liberaram novamente uma quantidade de recursos para bancos e grandes empresas semelhante \u00e0 crise passada, agora com paz na consci\u00eancia, pois aparentemente a crise teria origem a partir de um elemento ex\u00f3geno ao sistema. O FED j\u00e1 avisou que a ajuda ao sistema econ\u00f4mico n\u00e3o ter\u00e1 limites. Pelos c\u00e1lculos de diversas fontes, at\u00e9 gora j\u00e1 foram emitidos mais de US$ 20 trilh\u00f5es pelos bancos centrais em todo o mundo. Na maior parte dos pa\u00edses e, especialmente nos Estados Unidos, o dinheiro recebido a taxas de juro praticamente zero tem se destinado muito mais \u00e0 especula\u00e7\u00e3o do que ao sistema produtivo como no passado.<\/p>\n<p>Os bancos, grandes fundos e grandes empresas com acesso a esses recursos est\u00e3o preferindo comprar a\u00e7\u00f5es nas bolsas e investir em neg\u00f3cios especulativos. As grandes corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o recomprando suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. O pr\u00f3prio FED tem resgatado d\u00edvida de empresas em dificuldades financeiras e adquirido t\u00edtulos t\u00f3xicos. Essa farra com dinheiro criado do nada explica o paradoxo do aumento das cota\u00e7\u00f5es das Bolsas de Valores no momento em que a crise mais se agrava. Enquanto isso, a popula\u00e7\u00e3o pobre e desamparada, que agora ficou vis\u00edvel para todos, recebe apenas uma \u00ednfima parte do botim destinado ao grande capital. Cada vez mais fica claro tamb\u00e9m o papel do Estado n\u00e3o s\u00f3 como instrumento, mas especialmente como organizador coletivo dos interesses das classes dominantes.<\/p>\n<p>O significado pol\u00edtico da crise<br \/>\nMas essa crise veio tamb\u00e9m colocar na ordem do dia algumas velhas quest\u00f5es da economia pol\u00edtica a muito esquecidas pelas classes dominantes e por certa esquerda reformista, que se acomodou no marxismo bastardo, na gest\u00e3o pretensamente humana do capitalismo e nos encantos do poder pol\u00edtico burgu\u00eas. Nada como uma grande crise para colocar a realidade da luta de classes no posto de comando. O primeiro grande significado pol\u00edtico desta crise \u00e9 muito especial: s\u00f3 os trabalhadores criam o valor. A riqueza criada no sistema capitalista n\u00e3o \u00e9 resultado da habilidade gerencial dos gestores do capital, nem das m\u00e1quinas e equipamentos e muito menos do esp\u00edrito empreendedor dos capitalistas: a \u00fanica forma de cria\u00e7\u00e3o de riqueza no capitalismo \u00e9 o trabalho humano. Como j\u00e1 definia Engels em seu trabalho \u201cA humaniza\u00e7\u00e3o do macaco pelo trabalho\u201d onde define com clareza a import\u00e2ncia do trabalho para o ser humano: \u201cO trabalho \u00e9 a fonte de toda a riqueza, afirmam os economistas, e o \u00e9 de fato, ao lado da natureza, que lhe fornece a mat\u00e9ria prima por ele transformada em riqueza. Mas \u00e9 infinitamente mais que isso. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o fundamental de toda a vida humana. E o \u00e9 num grau t\u00e3o elevado que, num certo sentido, pode-se dizer que o trabalho, por si mesmo, criou o homem\u201d.15 Poder\u00edamos dizer que o trabalho \u00e9 t\u00e3o importante que, se a humanidade deixasse de trabalhar, a esp\u00e9cie humana se extinguiria, pois deixariam de existir bens e servi\u00e7os para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas.<\/p>\n<p>E o velho Marx j\u00e1 dizia que as mercadorias t\u00eam valores porque s\u00e3o a cristaliza\u00e7\u00e3o do trabalho social.16 E ainda no primeiro cap\u00edtulo de O Capital, citando um panfleto an\u00f4nimo escrito possivelmente entre 1739 ou 1740, muito antes de Adam Smith, j\u00e1 enfatizava claramente que o valor de todas as mercadorias \u00e9 resultado do trabalho socialmente necess\u00e1rio do ser humano. \u201c\u00c9 apenas a quantidade de trabalho socialmente necess\u00e1rio ou o tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o de um valor de uso que determina a grandeza de seu valor \u2026 Uma quantidade maior de trabalho constitui, por si mesma, uma maior riqueza material\u201d.17 Nessa crise a vida se encarregou mais uma de provar essa verdade da economia pol\u00edtica: quando os trabalhadores ficaram em casa, em fun\u00e7\u00e3o da pandemia, ou quando as empresas demitiram por causa da crise, a economia entrou em colapso. Os capitalistas, em desespero, se articularam de todas as formas com o Estado para pressionar os trabalhadores a voltar ao trabalho. Nada mais claro, objetivo e pedag\u00f3gico do que o que estamos presenciando nesses tempos de pandemia para provar que s\u00f3 os trabalhadores s\u00e3o os respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o da riqueza em nosso planeta. Os capitalistas s\u00f3 podem se apropriar do mais-valor e acumular riquezas se passar pelo processo de produ\u00e7\u00e3o. Sem isso, trata-se apenas de riqueza fict\u00edcia que ser\u00e1 esterilizada nas crises. Por mais que os capitalistas queiram abstrair essa realidade, para eles dolorosa, por mais que a propaganda burguesa busque desviar a aten\u00e7\u00e3o para esta verdade cristalina, os capitalistas n\u00e3o podem escapar \u00e0 lei do valor. Bom, tamb\u00e9m agora se torna mais f\u00e1cil argumentar com mais precis\u00e3o: se os trabalhadores s\u00e3o os respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o da riqueza, por que essa riqueza \u00e9 apropriada, em sua maior parte, pelos capitalistas e n\u00e3o pelos trabalhadores? Essa pergunta e sua necess\u00e1ria resposta as for\u00e7as de esquerda t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de explicar para os trabalhadores tanto agora quanto no p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n<p>A crise tamb\u00e9m demonstrou a enorme superioridade dos servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade em rela\u00e7\u00e3o aos servi\u00e7os privados. Nos pa\u00edses com sistemas p\u00fablicos e com dirigentes que obedeceram \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, da ci\u00eancia, dos infectologistas as perdas humanas foram bem menores do que naqueles em que o os dirigentes ignoraram o perigo da pandemia. Nos pa\u00edses em que os servi\u00e7os de sa\u00fade s\u00e3o privados, como nos Estados Unidos, e epidemia avan\u00e7ou avassaladoramente e, neste momento, os Estados Unidos se tornaram campe\u00f5es mundiais de mortalidade e de infectados pelo coronav\u00edrus. Ao contr\u00e1rio da principal economia do mundo, a China, Vietn\u00e3 e Cuba demonstraram muito mais efici\u00eancia no combate e controle da doen\u00e7a. A China, primeiro pa\u00eds onde o v\u00edrus apareceu, tomou todas as medidas de precau\u00e7\u00f5es, com o isolamento social de regi\u00f5es inteiras, a mobiliza\u00e7\u00e3o nacional de pessoal, recursos e medicamentos para combater a pandemia. O pequeno Vietn\u00e3 tamb\u00e9m foi exemplar na mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da sociedade no combate ao v\u00edrus, da mesma forma que Cuba. Mesmo boicotada selvagemente, tamb\u00e9m mobilizou recursos, pessoal e medicamentos para proteger a popula\u00e7\u00e3o e vencer a doen\u00e7a. E ainda enviou m\u00e9dicos para dezenas de pa\u00edses para contribuir na luta contra a pandemia, mesmo em pa\u00edses, como a It\u00e1lia, que participa do boicote a Cuba. Esses fatos revelam, de um lado, que as economias com planejamento e sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade, t\u00eam mais condi\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o em larga escala no combate a pandemias do que as economias privadas, onde o lucro se sobrep\u00f5e \u00e0s necessidades humanas. Por isso, muitos morrem em frente aos hospitais porque n\u00e3o t\u00eam dinheiro para pagar um leito. Al\u00e9m disso, os governos capitalistas s\u00e3o mais male\u00e1veis a press\u00f5es do capital para retomar os neg\u00f3cios do que os governos de economias planificadas. Como se pode constatar, muitas vezes esses governos autorizaram a abertura das atividades econ\u00f4micas e logo depois foram obrigados a voltar \u00e0s medidas de distanciamento social em fun\u00e7\u00e3o da retomada da doen\u00e7a, mas nesse vai e vem muitas pessoas morreram.<\/p>\n<p>A crise tamb\u00e9m desmoralizou mais uma vez o discurso neoliberal sobre austeridade, ajustes fiscais, cortes nos gastos, privatiza\u00e7\u00f5es e escancarou de maneira did\u00e1tica as mentiras que diariamente os meios de comunica\u00e7\u00e3o veiculavam para impor aos trabalhadores, \u00e0 juventude e ao povo pobre das periferias a agenda neoliberal radicalizada das classes dominantes globais. Eles diziam que os Estados estavam quebrados e endividados e que era necess\u00e1rio reduzir o d\u00e9ficit p\u00fablico; que n\u00e3o tinham recursos suficientes para pagar as aposentadorias e os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, uma vez que a m\u00e1quina p\u00fablica estava inchada; que o Estado estava gastando muito com sa\u00fade educa\u00e7\u00e3o e saneamento; que as empresas p\u00fablicas eram mal geridas e ineficientes e que era necess\u00e1rio deixar o mercado funcionar em todas as \u00e1reas da vida social porque o mercado alocaria os recursos escassos de maneira mais eficiente; que era necess\u00e1rio a austeridade nas contas p\u00fablicas, porque do contr\u00e1rio haveria um desequil\u00edbrio fiscal e uma escalada inflacion\u00e1ria. A partir dessa narrativa, destru\u00edram as redes de prote\u00e7\u00e3o social, reduziram os gastos sociais, sucatearam os servi\u00e7os p\u00fablicos e avan\u00e7aram sobre os direitos dos trabalhadores. Quando veio a crise, esse discurso desmoronou: rapidamente apareceram aos os recursos para salvar os bancos e grandes empresas, os bancos centrais emitiram montanhas de dinheiro para comprar d\u00edvidas e t\u00edtulos t\u00f3xicos de corpora\u00e7\u00f5es endividadas e at\u00e9 sobrou uma pequena parte para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre. De uma hora para outra, todos se transformaram em radicais keynesianos, defensores da interven\u00e7\u00e3o do Estado para salvar a economia do colapso e at\u00e9 da renda b\u00e1sica para a popula\u00e7\u00e3o pobre. Acabou o discurso de que a infla\u00e7\u00e3o explodiria se o Estado gastasse mais do que arrecadava. Mas todos devem ficar atentos: t\u00e3o logo acabe a pandemia, eles voltar\u00e3o cinicamente com os mesmos discursos como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p>Para onde vai a crise?<br \/>\nQualquer previs\u00e3o sobre as consequ\u00eancias da crise pode ser apenas um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o, mas tra\u00e7ar tend\u00eancias e cen\u00e1rios poss\u00edveis pode contribuir para compreendermos melhor o significado desta crise para o sistema capitalista e as prov\u00e1veis consequ\u00eancias econ\u00f4micas e sociais para os trabalhadores e a juventude. Mas \u00e9 importante tamb\u00e9m realizarmos um exerc\u00edcio prospectivo sobre as consequ\u00eancias pol\u00edticas da crise, seus poss\u00edveis desdobramentos em termos de movimentos sociais, bem como os impactos na geopol\u00edtica tanto nos pa\u00edses centrais quanto nos pa\u00edses perif\u00e9ricos. Podemos dizer que o mundo p\u00f3s-pandemia, apesar dos desejos e manipula\u00e7\u00f5es das classes dominantes e seus meios de comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 o mesmo para o sistema capitalista. A hist\u00f3ria tem nos ensinado que todas as grandes crises desencadeiam fen\u00f4menos econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos novos e inesperados \u2013 e essa n\u00e3o ser\u00e1 diferente. Antes de analisarmos os poss\u00edveis desdobramentos da crise, \u00e9 importante atentarmos para dois elementos macroestruturais que permeiam o desenvolvimento da conjuntura no p\u00f3s-pandemia e um pol\u00edtico-social que poder\u00e1 emergir desse processo: a) a quest\u00e3o geopol\u00edtica, envolvendo a disputa entre China e Estados Unidos, o papel da R\u00fassia e as mudan\u00e7as geopol\u00edticas que poder\u00e3o ocorrer no pr\u00f3ximo per\u00edodo; b) a recess\u00e3o profunda nos pa\u00edses centrais e, especialmente, nos Estados Unidos, al\u00e9m, da poss\u00edvel desarticula\u00e7\u00e3o do sistema monet\u00e1rio internacional e do poder do d\u00f3lar como moeda mundial; c) a possibilidade de revoltas sociais em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta em fun\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais e da desigualdade nos pa\u00edses capitalistas. Essas tr\u00eas vari\u00e1veis influenciar\u00e3o de maneira decisiva a ordem internacional constru\u00edda em Bretton Woods e poderemos ter uma transi\u00e7\u00e3o de hegemonia, que pode ocorrer de maneira ordenada ou a partir da guerra, bem como a possibilidade de rupturas da velha ordem em v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p>a) Antes da pandemia a China j\u00e1 vinha exercendo um papel central na economia mundial, tornando-se a segunda maior economia do planeta, muito embora j\u00e1 seja a primeira em termos de paridade do poder de compra \u00b9\u2078 . A China hoje \u00e9 a maior parceira comercial da \u00c1sia, tem intensificado fortemente suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas com a \u00c1frica e avan\u00e7a no relacionamento com a Europa e Am\u00e9rica Latina. Ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o do projeto da nova rota da seda, um instrumento que interligar\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es comerciais dos chineses com dezenas de pa\u00edses de v\u00e1rios continentes, a China tem se destacado tamb\u00e9m nas \u00e1reas das tecnologias de ponta, como a internet 5G, sat\u00e9lites e a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica. Esse desenvolvimento tem despertado certo desespero dos Estados Unidos, tanto que a principal empresa de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o chinesa, a Huawei, que est\u00e1 desenvolvendo a tecnologia 5G alguns anos \u00e0 frente dos Estados Unidos, vem sendo objeto de persegui\u00e7\u00e3o e boicote em v\u00e1rios pa\u00edses por press\u00f5es dos Estados Unidos. Com o fim da pandemia, a disputa pela hegemonia da economia mundial ser\u00e1 intensificada, especialmente porque a China j\u00e1 superou a doen\u00e7a h\u00e1 alguns meses e est\u00e1 retomando as atividades econ\u00f4micas, enquanto os Estados Unidos est\u00e3o mergulhados na crise sanit\u00e1ria e tamb\u00e9m numa crise econ\u00f4mica e social profundas. A conjuntura p\u00f3s-pandemia com certeza tende a reduzir a hegemonia norte-americana e fortalecer o papel da China como s\u00e9ria candidata a se tornar, num futuro n\u00e3o muito distante, a primeira economia do mundo, fato que ter\u00e1 consequ\u00eancias geopol\u00edticas bastante fortes na ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica internacional. N\u00e3o se pode prever qual ser\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos diante dessa nova conjuntura porque, ao longo da hist\u00f3ria, as mudan\u00e7as de hegemonia sempre foram realizadas a partir de tens\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e guerras. Mas a guerra n\u00e3o \u00e9 um dado definitivo, porque a China possui armas nucleares capazes de atingir os Estados Unidos e, ultimamente, tem realizado uma alian\u00e7a estreita com a R\u00fassia, que tem paridade estrat\u00e9gica em armas nucleares com os norte-americanos. Uma guerra nessas condi\u00e7\u00f5es seria uma cat\u00e1strofe que poria em risco a pr\u00f3pria exist\u00eancia da esp\u00e9cie humana. De qualquer forma, est\u00e1 horizonte pr\u00f3ximo uma transi\u00e7\u00e3o tensa de hegemonia na economia mundial.<\/p>\n<p>b) A crise econ\u00f4mica nos Estados ser\u00e1 muito mais grave que primeira erup\u00e7\u00e3o em 2008 e possivelmente semelhante ou maior que a grande depress\u00e3o dos anos 30. Os c\u00e1lculos realistas indicam que o Produto Interno Bruto do Pa\u00eds dever\u00e1 cair para cerca de -10%, o desemprego poder\u00e1 atingir 50 milh\u00f5es de trabalhadores, dezenas milhares de empresas ir\u00e3o \u00e0 fal\u00eancia em praticamente todos os setores da economia, especialmente nas \u00e1reas de com\u00e9rcio e de servi\u00e7os e, num ritmo um pouco menor, na \u00e1rea produtiva. Com as empresas indo \u00e1 fal\u00eancia os bancos tamb\u00e9m ser\u00e3o impactados fortemente em fun\u00e7\u00e3o da cadeia de d\u00edvidas que atinge empresas e consumidores. Al\u00e9m disso, a crise n\u00e3o ser\u00e1 intensa apenas em 2020: a principal economia mundial continuar\u00e1 em crise por muitos anos, pois as taxas de juros j\u00e1 est\u00e3o praticamente negativas e n\u00e3o t\u00eam mais para onde baixar; os recursos que os bancos centrais est\u00e3o destinando ao sistema econ\u00f4mico est\u00e3o encontrando um ambiente encharcado de dinheiro. Os bancos n\u00e3o v\u00e3o emprestar para as empresas produtivas porque estas n\u00e3o t\u00eam demanda suficiente para absorver a produ\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da queda na renda da popula\u00e7\u00e3o. S\u00f3 numa conjuntura dessa ordem se pode explicar a infla\u00e7\u00e3o dos ativos financeiros enquanto a economia desaba: os grandes conglomerados e os pr\u00f3prios bancos est\u00e3o recomprando suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es; No caso dos Estados Unidos, mesmo que o Tesouro continue resgatando as d\u00edvidas empresariais e comprando t\u00edtulos t\u00f3xicos das grandes companhias e bancos, essa pr\u00e1tica tem um limite. Em outros termos: essa farra em algum momento vai acabar tanto em fun\u00e7\u00e3o da chamada armadilha da liquidez \u00b9\u2079, quanto no momento em que um elo forte na cadeia de cr\u00e9dito e das d\u00edvidas for quebrado. O que resultar\u00e1 dessa conjuntura ser\u00e1 a quebra de grandes empresas, calote de d\u00edvidas, queda nos pre\u00e7os dos ativos financeiros e os pr\u00f3prios grandes bancos tamb\u00e9m ir\u00e3o \u00e0 bancarrota porque nenhum setor pode permanecer imune a uma crise dessa ordem.<\/p>\n<p>b1) Uma economia em frangalhos, com fundamentos destro\u00e7ados, n\u00e3o pode ter uma moeda com o privil\u00e9gio exorbitante de poder imprimir dinheiro sem um lastro em sua base material. Ou como diz Eichengreen: \u201cO Bureal of Engravind and Printing (a casa da moeda dos Estados Unidos) gasta apenas alguns cents para produzir uma nota de US$ 100, mas os outros pa\u00edses precisam fornecer US$ 100 em bens e servi\u00e7os para obter a mesma nota de US$ 100\u201d. \u00b2\u2070 Realmente, essa \u00e9 uma artimanha muito mais vantajosa que os antigos e melhores neg\u00f3cios da China. Mas esse privil\u00e9gio pode tamb\u00e9m acabar com a crise. Se observarmos os fundamentos da economia norte-americana veremos uma situa\u00e7\u00e3o aterradora: o d\u00e9ficit em conta corrente \u00b2\u00b9 est\u00e1 acima de 4,5% do PIB, a d\u00edvida p\u00fablica por volta dos 100% do produto, h\u00e1 ainda enorme d\u00edvida dos Estados e Munic\u00edpios, dos consumidores, dos estudantes e das empresas \u00b2\u00b2. A infraestrutura do Pa\u00eds est\u00e1 aos frangalhos, a economia em queda livre, bem como o mercado de trabalho. Esse conjunto de adversidades vai se refletir na confian\u00e7a internacional do d\u00f3lar, afinal uma economia com esse conjunto de problemas, embora seja a maior economia do mundo, com o maior poder militar, e a emissora do dinheiro mundial, em algum momento os investidores podem decidir abandonar o barco e deixar de financiar o d\u00e9ficit dos Estados Unidos. Necess\u00e1rio lembrar que a for\u00e7a e a hegemonia de uma moeda s\u00e3o os fundamentos da na\u00e7\u00e3o emissora. Em outros termos: caso ocorra o enfraquecimento do d\u00f3lar as na\u00e7\u00f5es ir\u00e3o procurar outra moeda para realizar suas transa\u00e7\u00f5es comerciais e nenhum Pa\u00eds vai querer comprar t\u00edtulos de um Pa\u00eds em bancarrota. Os bancos centrais v\u00e3o querer desfazer-se de suas reservas em d\u00f3lar, afinal nenhuma na\u00e7\u00e3o quer ter suas reservas baseadas numa moeda desvalorizada. N\u00e3o se pode esquecer que cerca de 65% do com\u00e9rcio mundial \u00e9 feito em d\u00f3lar, mas isso pode tamb\u00e9m mudar rapidamente numa grande crise, especialmente se levarmos em conta a ascens\u00e3o da China e se a sua nova criptomoeda \u2013 o yuan digital \u2013 for aceita pelos parceiros comerciais da China para suas transa\u00e7\u00f5es comerciais. Numa situa\u00e7\u00e3o dessa ordem ter\u00edamos uma desarticula\u00e7\u00e3o do velho sistema financeiro internacional e a constru\u00e7\u00e3o de um novo sistema possivelmente baseado numa cesta de moedas.<\/p>\n<p>c) A terceira das grandes quest\u00f5es que esta crise est\u00e1 impondo ao sistema capitalista \u00e9 uma esp\u00e9cie de imponder\u00e1vel em constru\u00e7\u00e3o, onde todas as possibilidades est\u00e3o abertas. Vale lembrar que as grandes crises s\u00e3o o momento da verdade para todos: governos, partidos pol\u00edticos, movimentos sociais e populares. Nesses per\u00edodos todos s\u00e3o obrigados a expor com clareza suas a\u00e7\u00f5es, projetos, comportamentos, opini\u00f5es e a pr\u00f3pria conjuntura se encarrega de definir o rumo dos acontecimentos e aferir quais as propostas que tinham ader\u00eancia \u00e0 realidade e quais estavam incorretas. Crises dessa dimens\u00e3o cobram um alto pre\u00e7o pelos erros dos agentes econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos. Nesses momentos, os acontecimentos s\u00e3o velozes, a conjuntura muda bruscamente. Aquilo que parecia imposs\u00edvel em dias anteriores se torna realidade cotidiana no dia seguinte. Para o senso comum, \u00e9 como se o mundo estivesse virando de cabe\u00e7a para baixo. Mas \u00e9 assim mesmo. S\u00e3o essas conjunturas que abrem as janelas de oportunidades para as grandes mudan\u00e7as \u2013 no caso dessa crise tanto para os nossos inimigos de classe quanto para os trabalhadores. Geralmente, as pessoas temem as crises pela imponderabilidade e pela desagrega\u00e7\u00e3o que ocorre com a velha ordem, afinal \u00e9 mais c\u00f4modo se conviver com a normalidade. Mas \u00e0 medida em que a velha ordem vai sendo derrotada e a nova ordem estabelecida, a maioria toma conhecimento das vantagens objetivas dos novos tempos e ent\u00e3o se coloca em movimento para conseguir seus objetivos. Casso seja orientada por uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consequente e com objetivos estrat\u00e9gicos, podem construir a nova ordem num patamar bastante superior.<\/p>\n<p>c1) As grandes manifesta\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos s\u00e3o resultado das contradi\u00e7\u00f5es profundas que vinham se acumulando nessa sociedade desde o final dos anos 70. A morte de George Floyd foi apenas o estopim que acendeu a revolta que estava madura na sociedade. Estas manifesta\u00e7\u00f5es podem ser a senha para levantes em v\u00e1rias regi\u00f5es do planeta, inclusive na Europa e na Am\u00e9rica latina, pois os problemas revelados pela crise s\u00e3o semelhantes em todas as partes do mundo capitalista. Al\u00e9m disso, as manifesta\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos possuem um valor simb\u00f3lico: est\u00e3o sendo realizadas no cora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista. O choque psicol\u00f3gico que a sociedade norte-americana est\u00e1 sentindo com os problemas revelados dramaticamente pela crise ter\u00e1 um impacto profundo na consci\u00eancia das massas (tanto no curto quanto no m\u00e9dio prazo), especialmente na popula\u00e7\u00e3o mais pobre e na juventude, para a qual ficou claro que o discurso vendido pelas classes dominantes era uma mentira longamente cultivada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O rei se encontra completamente despido: o Pa\u00eds das liberdades, das oportunidades, que se comportava como palmat\u00f3ria do mundo para impor os seus valores, agora n\u00e3o consegue proteger a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o diante de uma pandemia, enquanto pa\u00edses muito mais pobres controlaram a doen\u00e7a. Em outras palavras, quando a ira popular emergir das ru\u00ednas dessa crise o cora\u00e7\u00e3o da maior cidadela imperialista vai bater num compasso descontrolado. Mesmo antes da pandemia j\u00e1 se podia sentir um grande descontentamento entre os trabalhadores dos Estados Unidos, tanto que ano passado ocorreram v\u00e1rias greves na categoria dos professores, nos trabalhadores de cadeias de fast food e anteriormente as manifesta\u00e7\u00f5es dos jovens do Occupy Wall Street. Portanto, as manifesta\u00e7\u00f5es que estamos assistindo agora podem ser apenas a ponta de um iceberg em dire\u00e7\u00e3o ao Titanic. Mas n\u00e3o basta a revolta pura e simples contra o racismo, a brutalidade policial e as desigualdades. O sistema \u00e9 muito forte e pode absorver, cooptar, dividir e derrotar o movimento. Vale lembrar que o Occupy chegou a se organizar em cerca de 60 cidades e se dissolveu por falta de objetivos pol\u00edticos estrat\u00e9gicos. Portanto, se as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o evolu\u00edrem para propostas pol\u00edticas para mudar o sistema, mediante a constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o politica, baseada em forte movimento de massas organizado, pode-se novamente perder uma grande oportunidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O acirramento das lutas de classe em car\u00e1ter mundial<br \/>\nPortanto, estamos diante de uma conjuntura em que haver\u00e1, no p\u00f3s-pandemia, um acirramento da luta de classes em car\u00e1ter mundial. Como avaliarmos em trabalhos anteriores, a luta de classes s\u00f3 ganhar\u00e1 um car\u00e1ter internacional quando atingir o cora\u00e7\u00e3o do imperialismo \u2013 os Estados Unidos, a Europa e o Jap\u00e3o. Nos elos d\u00e9beis dos pa\u00edses perif\u00e9ricos tamb\u00e9m ocorrer\u00e3o jornadas extraordin\u00e1rias de lutas porque o imperialismo, ferido em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, n\u00e3o ter\u00e1 a mesma for\u00e7a para impor sua hegemonia ao resto do mundo, at\u00e9 mesmo porque est\u00e1 emergindo da crise um competidor \u00e0 altura desse momento hist\u00f3rico. O mundo viver\u00e1 uma nova conjuntura com grande lutas de massas nos Estados Unidos, na Europa e, especialmente, na Am\u00e9rica Latina, onde os levantes sociais j\u00e1 vinham ocorrendo antes mesmo da pandemia, como no Chile, Equador e Col\u00f4mbia. Mas aqui no lado de baixo do equador, onde a luta de classes ter\u00e1 um papel decisivo ser\u00e1 no Brasil, tanto pela dimens\u00e3o geogr\u00e1fica e populacional do Pa\u00eds, quanto pelo tamanho da economia, do proletariado e, fundamentalmente, pelo ac\u00famulo de contradi\u00e7\u00f5es sociais do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A burguesia e seu principal aliado estrat\u00e9gico, o Estado, ir\u00e3o articular estrat\u00e9gias de todas as formas para conter as revoltas sociais, tanto pela repress\u00e3o aberta e generalizada, criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e populares, quanto por m\u00e9todos mais sofisticados de desinforma\u00e7\u00e3o, coopta\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A ret\u00f3rica dever\u00e1 ser a mesma: o Estado gastou muito com a pandemia, est\u00e1 quebrado, e todos precisam fazer sacrif\u00edcios para que se encontre o equil\u00edbrio fiscal, como forma de garantir a estabilidade econ\u00f4mica, a retomada do crescimento e dos empregos. Mas a tend\u00eancia \u00e9 que esse discurso tenha poucas chances de convencer a maioria da popula\u00e7\u00e3o porque a realidade da crise ter\u00e1 sido t\u00e3o violenta que pode neutralizar essa velha catilin\u00e1ria, ao mesmo tempo em que a pr\u00f3pria experi\u00eancia pr\u00e1tica das massas nesse per\u00edodo pode gerar um efeito pedag\u00f3gico muito mais relevante para desmoralizar e deslegitimar um discurso que vem se repetindo a cerca de 40 anos e que s\u00f3 serviu para concentrar renda, reduzir os sal\u00e1rios e aumentar a pobreza em todo o mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode afirmar com certeza qual dever\u00e1 ser o desfecho de curto e m\u00e9dio prazo no pr\u00f3ximo per\u00edodo, mas algumas hip\u00f3teses podem ser exploradas: a) caso as manifesta\u00e7\u00f5es no cora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista (Estados Unidos) se mantenham, o ritmo da luta de classes nas outras regi\u00f5es ser\u00e1 muito mais intenso, tanto pelo exemplo, quanto pelo pr\u00f3prio enfraquecimento do imperialismo mundial; b) independentemente do que ocorra em termos de lutas sociais nos pa\u00edses centrais, a luta de classes na Am\u00e9rica Latina se intensificar\u00e1 se maneira extraordin\u00e1ria porque a paci\u00eancia das massas com a pol\u00edtica neoliberal est\u00e1 esgotada, o que j\u00e1 vinha sendo demonstrado no per\u00edodo anterior \u00e0 pandemia. Agora, com a devasta\u00e7\u00e3o social provocado pelas pol\u00edticas neoliberais, escancaradas e intensificadas para a popula\u00e7\u00e3o com a pandemia, a luta de classes na regi\u00e3o ser\u00e1 muito mais intensa e violenta que nos outros continentes, tanto pela feroz resist\u00eancia das classes dominantes, viciadas na barb\u00e1rie social e na exclus\u00e3o dos trabalhadores das decis\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas, quanto pela disposi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre das periferias em mudar o estado de coisas na Am\u00e9rica Latina. Vale lembrar que nas grandes crises as massas realizam um aprendizado r\u00e1pido (e a pandemia est\u00e1 contribuindo muito para isso), o estado de \u00e2nimo das massas muda rapidamente. Fen\u00f4menos que pareciam imposs\u00edveis se tornam realidade. Como quase todos os governos da regi\u00e3o se alinharam com a pol\u00edtica neoliberal e se comportaram de maneira criminosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, poder\u00e3o sair da crise desmoralizados junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, perder\u00e3o for\u00e7a pol\u00edtica e ter\u00e3o poucas op\u00e7\u00f5es al\u00e9m de reprimir barbaramente a popula\u00e7\u00e3o esfomeada e raivosa nas ruas ou serem derrubados pelos movimentos sociais. Tudo depende do papel que as dire\u00e7\u00f5es pol\u00edticas revolucion\u00e1rias ter\u00e3o nessa conjuntura. Como sou um otimista hist\u00f3rico, tor\u00e7o para que a segunda op\u00e7\u00e3o se transforme em realidade.<\/p>\n<p>Notas<br \/>\n1 \u2013 Secret\u00e1rio-geral do PCB, \u00e9 doutor em economia pela Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma Institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 autor, entre outros, de Reflex\u00f5es sobre a crise brasileira (no prelo), A crise econ\u00f4mica mundial, a globaliza\u00e7\u00e3o e o Brasil (edi\u00e7\u00f5es ICP, 2013) e A globaliza\u00e7\u00e3o e o capitalismo contempor\u00e2neo (Express\u00e3o Popular, 2008), al\u00e9m de v\u00e1rios ensaios publicados em revistas e sites do Brasil e do exterior.<\/p>\n<p>2 \u2013 O sistema capitalista mundial registrou apenas duas grandes crises sist\u00eamicas anteriores a essa: a de 1873-1896, cujo resultado foi a passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista; e a crise de 1929-1945, que levou \u00e0 segunda guerra mundial, \u00e0 divis\u00e3o do mundo em dois sistemas (socialista e capitalista) e, no interior do sistema capitalista, os trabalhadores conquistaram o Estado do Bem Estar Social. Para melhor compreens\u00e3o do significado das crises sist\u00eamicas (em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crises c\u00edclicas do capital), consultar: COSTA, E. A crise econ\u00f4mica mundial, a globaliza\u00e7\u00e3o e o Brasil. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es ICP, 2013.<\/p>\n<p>3 \u2013 Para melhor compreens\u00e3o sobre as contradi\u00e7\u00f5es entre o desenvolvimento das modernas for\u00e7as produtivas do capitalismo atual e as velhas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, consultar Costa. E. em: A natureza da crise sist\u00eamica global: \u00e0s v\u00e9speras do choque das placas tect\u00f4nicas do capital. Resistir. info<\/p>\n<p>4 \u2013 GRUPO DE ESTUDOS E ACOMPANHAMENTO DA CONJUNTURA ECON\u00d4MICA. Coronav\u00edrus e a crise mundial: um olhar para os antecedentes da tormenta. Tricontinental, Brasil, 24 mar. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.thetricontinental.org\/pt-pt\/brasil\/a-contribuicao-do-coronavirus-na-crise-mundial-um-olhar-para-os-antecedentes-da-tormenta\/. Acesso em: 30 mar. 2020.<\/p>\n<p>5 \u2013 ROBERTS, Michael. Lucratividade: o investimento e a pandemia. Economia e Complexidade, 22 maio. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/eleuterioprado.blog\/2020\/05\/25\/lucratividade-o-investimento-e-a-pandemia\/. Acessado em: 30 maio.2020.<\/p>\n<p>6 \u2013 ROBERTS, op. cit.<\/p>\n<p>7 \u2013 TOUSSAINT, Eric. A pandemia do capitalismo, o coronavirus e a crise econ\u00f4mica. CADTM, 23 mar. 2020. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.cadtm.org\/A-Pandemia-do-Capitalismo-o-Coronavirus-e-a-Crise-Economica. Acesso em: 26 jun. 2020.<\/p>\n<p>8 \u2013 PLENDER, John. H\u00e1 um temor de escassez no cr\u00e9dito global. Valor Econ\u00f4mico, 06 mar. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/valor.globo.com\/impresso\/noticia\/2020\/03\/06\/ha-um-temor-de-escassez-no-credito-global.ghtml. Acesso em: 01 jun. 2020.<\/p>\n<p>9 \u2013 HEDGES, Chris. Assim arma-se a pr\u00f3xima crise financeira. Outras Palavras, 15 ago. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/assim-comecara-a-proxima-crise-financeira\/. Acesso em: 26 jun. 2020.<\/p>\n<p>10 \u2013 BORGES, Robinson. L\u00edderes que negam a gravidade da pandemia n\u00e3o salvam a atividade econ\u00f4mica nem vidas, diz Larry Summers. Valor Econ\u00f4mico, S\u00e3o Paulo, 22 maio. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/valor.globo.com\/eu-e\/noticia\/2020\/05\/22\/lideres-que-negam-a-gravidade-da-pandemia-nao-salvam-a-atividade-economica-nem-vidas-diz-larry-summers.ghtml. Acesso em: 26 jun. 2020.<\/p>\n<p>11 \u2013 WEISSMAN, Suzi; BRENNER, Robert. Por tr\u00e1s da turbul\u00eancia econ\u00f4mica. Portal da Esquerda em Movimento, 29 ago. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/portaldelaizquierda.com\/pt_br\/2019\/08\/por-tras-da-turbulencia-economica\/. Acesso em: 26 jun. 2020.<\/p>\n<p>12 \u2013 SNYDER, Michael. Prepare-se para a colis\u00e3o! A economia dos EUA est\u00e1 caindo e caindo com for\u00e7a. Blog Pos. 20 nov. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.clubpos.club\/prepare-se-para-a-colisao-a-economia-dos-eua-esta-caindo-e-caindo-com-forca-17-de-novembro-de-2019\/. Acesso em: 26 jun. 2020.<\/p>\n<p>13 \u2013 THE COUNCIL OF ECONOMICS ADVISERS. The State of Homelessness in America. [s.l]: [s.e.], 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.whitehouse.gov\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/The-State-of-Homelessness-in-America.pdf. Acesso em: 26 jun. 2020.<\/p>\n<p>14 \u2013 ROUBEN, Anthony. 1% da popula\u00e7\u00e3o global det\u00e9m a mesma riqueza que os 99% restantes, diz estudo. BBC News, 18 jan. 2016. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2016\/01\/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn. Acesso em: 20 maio. 2020.<\/p>\n<p>15 \u2013 ENGELS, Friedrich. A humaniza\u00e7\u00e3o do macaco pelo trabalho. In: ENGELS, Friedrich. A dial\u00e9tica da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.<\/p>\n<p>16 \u2013 MARX, Karl. Sal\u00e1rio, pre\u00e7o e lucro. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2004.<\/p>\n<p>17 \u2013 Cf. MARX, Karl. O Capital: livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013. p. 117-123. Nessa passagem Marx cita um panfleto an\u00f4nimo que possivelmente tenha sido escrito em 1739 ou 1740 que naquela \u00e9poca j\u00e1 afirmava o seguinte; \u201cO valor deles (os meios de subsist\u00eancia) quando s\u00e3o trocados uns pelos outros, \u00e9 regulado pela quantidade de trabalho necessariamente requerida para a sua produ\u00e7\u00e3o e geralmente nela empregada\u201d.<\/p>\n<p>18 \u2013 M\u00e9todo alternativo \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o pela taxa de c\u00e2mbio, formulado pelo economista sueco Gustav Cassel, que busca aferir o poder de compra real na moeda de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>19 \u2013 Conceito keynesiano no qual, quando a economia encontra-se numa situa\u00e7\u00e3o em que as taxas de juros se encontram em zero ou pr\u00f3ximas de zero, e a pol\u00edtica monet\u00e1ria se torna in\u00f3cua, ou seja, n\u00e3o adianta injetar dinheiro na economia porque n\u00e3o se alcan\u00e7ar\u00e1 nenhum resultado expressivo.<\/p>\n<p>20 \u2013 EICHENGREEN, B. Privil\u00e9gio exorbitante: ascen\u00e7\u00e3o e queda do d\u00f3lar e o futuro do sistema monet\u00e1rio internacional. Rio de Janeiro: Campus, 2010.<\/p>\n<p>21 \u2013 A conta-corrente envolve a balan\u00e7a comercial de um pa\u00eds, a balan\u00e7a de servi\u00e7os, al\u00e9m das transfer\u00eancias unilaterais.<\/p>\n<p>22 \u2013 Os n\u00fameros oficiais indicam uma d\u00edvida p\u00fablica de US$ 21 trilh\u00f5es. Mas, c\u00e1lculos do economista Laurence Kotlikoff, da Universidade de Boston e ex-economista s\u00eanior do Conselho de Economistas do presidente Reagan, indicam que a d\u00edvida de longo prazo dos Estados Unidos, incluindo os passivos dos seguros sociais, do Medicare, Medicaid, estudantes consumidores, (inclusive levando em conta a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos no per\u00edodo), atinge 222 trilh\u00f5es. Confira o blog The end of the American Dream, de Michael Snyder.<\/p>\n<p>Confira os gr\u00e1ficos citados no texto em: https:\/\/ujc.org.br\/dancando-a-beira-do-abismo-a-crise-sistemica-global-emerge-novamente\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26148\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9,383],"tags":[247,219],"class_list":["post-26148","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-jd","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6NK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26148"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26148\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}