{"id":26197,"date":"2020-09-25T18:44:08","date_gmt":"2020-09-25T21:44:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26197"},"modified":"2020-09-29T22:51:30","modified_gmt":"2020-09-30T01:51:30","slug":"a-solucao-sera-radical-ou-nao-sera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26197","title":{"rendered":"A solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 radical ou n\u00e3o ser\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3cuJAn-mTMTqe5L2yU4vNhs4-uw2VE9w7X7efJLoUZpZjPkDmKzDKGB9JUYCdgmBiDhK6mckRFu8AjDYq7cA4D41AijqzTQNjj3ehQ9cmHFi68X_8uWLmtUNVGhuSgVwNnlgUSTvdxBtPLdRNKFg3KX=s543-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Caio Andrade*<\/p>\n<p>Entre 2010 e 2019, a participa\u00e7\u00e3o chinesa na produ\u00e7\u00e3o industrial global saltou de 21% para 30%. No mesmo per\u00edodo, a fatia dos EUA no valor adicionado da ind\u00fastria mundial caiu de 20% para 16%. Cada vez mais subordinado aos Estados Unidos e afundando junto com eles, o Brasil teve sua produ\u00e7\u00e3o industrial reduzida de 2% do montante internacional em 2010 para 1% em 2019, caindo da 10\u00aa para a 16\u00ba posi\u00e7\u00e3o no ranking.<\/p>\n<p>Mas por que falar nos dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial quando temos mais de 140 mil mortos por COVID-19 e o Cerrado est\u00e1 sendo consumido pelas chamas? Apesar de n\u00e3o parecer, isso tudo est\u00e1 profundamente relacionado. A desindustrializa\u00e7\u00e3o faz parte de um processo mais amplo de aprofundamento do car\u00e1ter neocolonial da economia brasileira, colocando o povo e o meio ambiente bem longe das prioridades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esse processo, por sua vez, ocorre em um momento de reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema capitalista que, para se reerguer da crise de 2008\/2009, expandiu sua ofensiva econ\u00f4mica, militar e midi\u00e1tica em diversas regi\u00f5es. Os bombardeios da OTAN na L\u00edbia em 2011 e o golpe neonazista na Ucr\u00e2nia em 2014 fazem parte desse contexto.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, o imperialismo tamb\u00e9m apertou seu cerco. Alguns exemplos: em 2008, os Estados Unidos reativaram a Quarta Frota; no mesmo ano, houve uma tentativa de golpe na Bol\u00edvia; em 2009, ocorreu um golpe de estado em Honduras; em 2010, houve uma tentativa de golpe no Equador; em 2012, mais um golpe, desta vez no Paraguai.<\/p>\n<p>A crise do capital e a ofensiva imperialista elevaram a temperatura da luta de classes. Na Venezuela, em 2013, a oposi\u00e7\u00e3o deu in\u00edcio a manifesta\u00e7\u00f5es de rua contestando o resultado das elei\u00e7\u00f5es. No Brasil, no mesmo ano, protestos contra o aumento das tarifas de \u00f4nibus nas capitais cresceram, se tornaram palco de intensas disputas e, diante da debilidade dos setores dominantes na esquerda, alavancaram movimentos de (extrema) direita.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o PT conseguiu vencer as elei\u00e7\u00f5es de 2014. Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio do governo venezuelano, Dilma optou por romper com suas promessas de campanha, desgastar-se com suas bases populares e iniciar um \u201cajuste fiscal\u201d, na ilus\u00e3o de que o mercado fosse retribuir o gesto, possibilitando a continuidade do seu governo. A conjuntura internacional, contudo, n\u00e3o teria mais espa\u00e7o para a concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O imperialismo nem precisou de armas para o golpe de 2016. Bastaram o tradicional oligop\u00f3lio das comunica\u00e7\u00f5es, o movimento \u201cFora Dilma\u201d iniciado em 2015, o poder judici\u00e1rio e o parlamento. \u00c9 claro, uma opera\u00e7\u00e3o t\u00e3o bem orquestrada como essa seria imposs\u00edvel sem a ampla ades\u00e3o da burguesia nativa. Mas por qu\u00ea? Os dados sobre o retrocesso industrial brasileiro, apresentados inicialmente, n\u00e3o deveriam alertar as classes dominantes para os seus \u201cerros\u201d pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Insistindo em leituras superadas nos anos 1960, grande parte da chamada esquerda ainda acha que sim. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o, a burguesia brasileira n\u00e3o tem motivos para se arrepender do golpe \u2013 pelo menos no curto prazo, que geralmente \u00e9 at\u00e9 onde vai sua vis\u00e3o geneticamente mesquinha \u2013 e interessar-se pela volta do pacto social \u201cneodesenvolvimentista\u201d.<\/p>\n<p>O compromisso da burguesia n\u00e3o \u00e9 com a ind\u00fastria, a economia nacional, a soberania nem nada disso. O compromisso da burguesia \u00e9 com o capital. E se o papel reservado pelo imperialismo ao Brasil na divis\u00e3o internacional do trabalho \u00e9 de ser o pasto do planeta, n\u00e3o importa se queimar\u00e3o a Amaz\u00f4nia e o Cerrado, desde que os lucros sigam crescendo. N\u00e3o importa se vamos exportar petr\u00f3leo cru para comprar derivados importados. Podem entregar a Petrobras aos gringos!<\/p>\n<p>A burguesia brasileira n\u00e3o est\u00e1 preocupada com protagonismo diplom\u00e1tico, projeto de desenvolvimento, supera\u00e7\u00e3o da pobreza e outros detalhes como esses. A fortuna de 42 bilion\u00e1rios brasileiros aumentou em mais de 35 bilh\u00f5es de d\u00f3lares durante a pandemia. Essa mesma fortuna \u00e9 maior do que todo o valor investido em pagamentos do aux\u00edlio emergencial. Joseph Safra, por exemplo, possui sozinho 119 bilh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p>Nossas elites sempre viveram muito bem como s\u00f3cias menores das grandes pot\u00eancias capitalistas. Por que mudariam agora? Esse \u00e9 o car\u00e1ter das burguesias nos pa\u00edses de capitalismo dependente. Por que alguns custam a entender? No fundo, sabemos a resposta: ainda parece mais f\u00e1cil continuar implorando as migalhas das classes dominantes do que lutar pela tomada do poder pela classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A dura realidade \u00e9 que a maior parte da esquerda brasileira aceitou a tese de que o socialismo \u00e9 imposs\u00edvel. Seja porque consideram a combina\u00e7\u00e3o entre democracia liberal e economia de mercado a \u00faltima forma da evolu\u00e7\u00e3o das sociedades, no caso dos reformistas, seja porque abominam as experi\u00eancias socialistas concretas, no caso dos pseudorrevolucion\u00e1rios e socialistas envergonhados.<\/p>\n<p>O momento, por\u00e9m, exige reflex\u00e3o. O sistema considera aceit\u00e1vel sacrificar vidas para preservar fortunas em vez de sacrificar fortunas para salvar vidas; as \u201celei\u00e7\u00f5es livres\u201d s\u00e3o cada vez mais decididas por ju\u00edzes, gabinetes do \u00f3dio, financiamentos privados e cl\u00e1usulas de barreira; o Estado burgu\u00eas segue matando negros nas favelas e periferias; o ministro da educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais preocupados com a orienta\u00e7\u00e3o sexual das crian\u00e7as do que com a sua sa\u00fade e aprendizagem; fan\u00e1ticos querem linchar meninas estupradas em vez de protestarem contra o estupro.<\/p>\n<p>Enquanto isso, em meio \u00e0 maior crise da hist\u00f3ria do capitalismo, os pa\u00edses de economia planificada v\u00eam demonstrando sua superioridade tanto no combate \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus quanto em rela\u00e7\u00e3o ao desempenho da \u201cm\u00e3o invis\u00edvel do mercado\u201d. Devemos, ent\u00e3o, questionar o que de fato \u00e9 imposs\u00edvel: fazer a revolu\u00e7\u00e3o socialista ou tirar o Brasil e a Am\u00e9rica Latina do buraco sem ela.<\/p>\n<p>* Professor de Geografia, membro do Comit\u00ea Central do PCB e pr\u00e9-candidato a vereador no Rio de Janeiro<\/p>\n<p>https:\/\/linktr.ee\/ocaioandrade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26197\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-26197","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Ox","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26197\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}