{"id":26217,"date":"2020-09-30T23:51:56","date_gmt":"2020-10-01T02:51:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26217"},"modified":"2020-10-08T23:07:19","modified_gmt":"2020-10-09T02:07:19","slug":"a-estrategia-democratico-popular-e-a-luta-lgbt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26217","title":{"rendered":"A estrat\u00e9gia democr\u00e1tico popular e a luta LGBT"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/scontent.fpoa5-1.fna.fbcdn.net\/v\/t1.0-9\/120552893_4054020034613371_3640445049392635943_o.jpg?_nc_cat=110&amp;_nc_sid=730e14&amp;_nc_ohc=-glK0iFnF3IAX-ep4KD&amp;_nc_ht=scontent.fpoa5-1.fna&amp;oh=f07f042a7fab8df4e89654fbbccbc4dc&amp;oe=5F9B7AAE\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Coletivo LGBT Comunista \u2013 SP<\/p>\n<p>COME\u00c7ANDO DO COME\u00c7O: O QUE \u00c9 ESTRAT\u00c9GIA?<\/p>\n<p>Qual a primeira imagem que vem \u00e0 mente ao pensar num campo de batalha? Provavelmente uma dessas: armamentos, as tropas a postos, o conhecimento do ponto fraco do inimigo, do territ\u00f3rio, os recursos que cada um possui, o interesse de cada lado na vit\u00f3ria daquele conflito espec\u00edfico, o embate que est\u00e1 prestes a acontecer. Todo o ac\u00famulo utilizado no planejamento e realiza\u00e7\u00e3o de uma batalha \u00e9 chamado de t\u00e1tica.<\/p>\n<p>A batalha n\u00e3o acontece de forma isolada e independente de uma guerra, mas como parte dela. Essa guerra \u00e9 composta por v\u00e1rios momentos necess\u00e1rios, as batalhas, que comp\u00f5em um todo. A compreens\u00e3o totalizante da guerra, com objetivos amplos e gerais, \u00e9 chamada de estrat\u00e9gia para a ci\u00eancia militar.<\/p>\n<p>A partir da teoria militar para a guerra, pensa-se a pol\u00edtica. Essa \u00e9 a origem da pedra angular da compreens\u00e3o pol\u00edtica, a estrat\u00e9gia, e de seus desdobramentos orientados por esse objetivo, as t\u00e1ticas. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio compreender que, a depender de uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, como a composi\u00e7\u00e3o das classes e correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, interesses de classes etc, as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas aderem a determinadas estrat\u00e9gias pol\u00edticas distintas.<\/p>\n<p>Esse texto se prop\u00f5e a discutir uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica em espec\u00edfico, conhecida como estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular, e suas influ\u00eancias e desdobramentos para a classe trabalhadora, em geral, e para a popula\u00e7\u00e3o LGBT trabalhadora, em espec\u00edfico.<\/p>\n<p>\u201cUma estrat\u00e9gia se refere \u00e0 forma pela qual a classe \u2013 atrav\u00e9s dos instrumentos coletivos constru\u00eddos para a luta \u2013 interpreta, combina, organiza e dirige os diversos enfrentamentos particulares no sentido geral da revolu\u00e7\u00e3o.\u201d (MARTINS, PRADO, FIGUEIREDO, MOTTA, NEVES, 2019, p. 28)<\/p>\n<p>O QUE \u00c9 A ESTRAT\u00c9GIA DEMOCR\u00c1TICO-POPULAR?<\/p>\n<p>Ao estudarmos a hist\u00f3ria da luta social no Brasil desde o \u00faltimo s\u00e9culo, percebemos dois ciclos hist\u00f3ricos diferentes. Per\u00edodos em que a classe trabalhadora adotou duas estrat\u00e9gias diferentes: o primeiro acontece entre a d\u00e9cada de 1920 e de 1960, at\u00e9 o golpe empresarial-militar; o segundo nasce do enfrentamento \u00e0 ditadura (no per\u00edodo de redemocratiza\u00e7\u00e3o) e vai at\u00e9 2016, com o golpe empresarial-parlamentar. Podemos notar que ambas as estrat\u00e9gias culminaram num fracasso do movimento dos trabalhadores em seu sentido revolucion\u00e1rio, encontrando seu fim em um processo de golpe pol\u00edtico. Nosso interesse \u00e9 discutir esse segundo momento da classe trabalhadora, que se arrolou do fim do s\u00e9culo passado at\u00e9 2016, deixando suas consequ\u00eancias tanto organizativas quanto pol\u00edticas at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7a a se constituir, a Estrat\u00e9gia Democr\u00e1tico-Popular (que aqui chamaremos de EDP) visa a chegada ao socialismo, como a estrat\u00e9gia do per\u00edodo anterior. Diferentemente da Estrat\u00e9gia Nacional-Democr\u00e1tica, que representa a hegemonia da esquerda entre os anos 1920 e 1960 \u2013 sob influ\u00eancia do PCB \u2013, a EDP rejeita a alian\u00e7a com a burguesia como uma de suas t\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Antes que a EDP possa se realizar, alguns elementos surgem no horizonte. Dentre eles, a crise do socialismo em escala internacional e a queda da URSS. No Brasil, o PCB enfrenta problemas de articula\u00e7\u00e3o por conta da derrota interna para a ditadura. Junta-se a isso a crise econ\u00f4mica no fim do golpe militar, que aprofundou a mis\u00e9ria dentre a base da classe trabalhadora, abrindo espa\u00e7o para o surgimento de uma nova articula\u00e7\u00e3o e, com isso, uma nova estrat\u00e9gia para a classe \u00e9 apresentada. Esta nova articula\u00e7\u00e3o culmina na consolida\u00e7\u00e3o do PT, partido que elabora e encabe\u00e7a essa estrat\u00e9gia. Acontece que esta estrat\u00e9gia, dita socialista em seu surgimento, come\u00e7a a abrir uma s\u00e9rie de concess\u00f5es do ponto de vista das tarefas de uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, visando com isso adequar seu programa para disputar a esfera institucional. Este movimento tem seu in\u00edcio na d\u00e9cada de noventa.<\/p>\n<p>Na virada para os anos 2000, essas adapta\u00e7\u00f5es est\u00e3o completamente realizadas, a metamorfose est\u00e1 completa. A estrat\u00e9gia que era socialista j\u00e1 tinha se tornado uma estrat\u00e9gia que visava uma democracia aos moldes da burguesia. Nesse processo, o partido deixa de pautar a oposi\u00e7\u00e3o dos interesses de classe entre trabalhadores e burguesia, e passa a promover uma identifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica entre os dois grupos \u2013 o eleitor \u00e9 um cidad\u00e3o que, como qualquer outro, est\u00e1 preocupado com o pa\u00eds. Devemos, portanto, caminhar juntos no desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o, propondo um governo que pretende garantir os interesses de ambos. Ou seja, o conjunto de t\u00e1ticas empregadas n\u00e3o constru\u00eda o socialismo, mas um Estado \u201cverdadeiramente\u201d democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Neste Estado, a ideia \u00e9 constituir um caminho para acumular for\u00e7as, atrav\u00e9s de pol\u00edticas de assist\u00eancia social e a promo\u00e7\u00e3o de direitos para os trabalhadores para, ent\u00e3o, realizar uma transforma\u00e7\u00e3o mais radical. Mesmo que em seu in\u00edcio a EDP buscasse se diferenciar da Estrat\u00e9gia Nacional-Democr\u00e1tica, negando a alian\u00e7a entre trabalhadores e burguesia nacional, seu movimento hist\u00f3rico nos mostra que essa nega\u00e7\u00e3o se manifesta na pr\u00e1tica enquanto uma identifica\u00e7\u00e3o entre os interesses dois grupos \u2013 o que afirma e atualiza este aspecto da estrat\u00e9gia fracassada anterior. Agora amplos setores estariam envolvidos nessa estrat\u00e9gia, em especial o empresariado nacional e o latif\u00fandio, que n\u00e3o \u00e9 mais inimigo, mas aliado fundamental na luta contra os \u201cverdadeiros\u201d antagonistas, que s\u00e3o os agentes da ditadura, os rentistas e especuladores.<\/p>\n<p>O pacto nacional de concilia\u00e7\u00e3o de classes est\u00e1 feito. \u00c9 selado com um documento, a \u201cCarta ao Povo Brasileiro\u201d (2002), e por ele o PT se norteia at\u00e9 o \u00faltimo momento: at\u00e9 o golpe de 2016. At\u00e9 ent\u00e3o \u2013 e mesmo depois \u2013, as for\u00e7as de esquerda apostam na institucionalidade e na democracia burguesa como formas de barrar o golpe da classe dominante em curso. O socialismo n\u00e3o era op\u00e7\u00e3o para o partido dirigente da classe. Apostamos, enquanto classe trabalhadora, nas institui\u00e7\u00f5es e na atitude civilizada das classes dominantes. Entretanto, setores fundamentais da burguesia j\u00e1 n\u00e3o viam mais a possibilidade de sustentar as necessidades do ac\u00famulo de capital a partir do pacto gerenciado pelo PT, um partido da ordem, e optam por abrir m\u00e3o deste. Aqueles setores envolvidos no amplo pacto s\u00e3o os que agora descartam a EDP, que deu certo enquanto foi poss\u00edvel para os seus interesses, e se voltam para a estrat\u00e9gia de ataque frontal \u00e0 classe trabalhadora. Sim, eles tamb\u00e9m t\u00eam estrat\u00e9gia e assumem tamb\u00e9m posi\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas em fun\u00e7\u00e3o de seus interesses de classe.<\/p>\n<p>T\u00c1, MAS O QUE O MOVIMENTO LGBT TEM A VER COM ISSO?<\/p>\n<p>Retornemos ao final da ditadura. Naquele momento, outros agentes sociais entram em cena na pol\u00edtica brasileira: os movimentos sociais. Primeiro, vamos olhar esse fen\u00f4meno em escala mundial. Os movimentos sociais v\u00eam de uma tradi\u00e7\u00e3o que se inicia em Maio de 1968, na Fran\u00e7a, mas encontram sua realiza\u00e7\u00e3o com a queda da URSS e a crise do socialismo real, em 1989-91. Maio de 68 e os novos movimentos sociais pretendem atestar a fal\u00eancia da forma de se organizar que passa por um partido leninista e tamb\u00e9m confirmam a import\u00e2ncia de pautas como o feminismo, a quest\u00e3o racial, a quest\u00e3o ecol\u00f3gica e a quest\u00e3o da sexualidade.<\/p>\n<p>Diferente dos partidos revolucion\u00e1rios, esses movimentos costumam centrar esfor\u00e7os em uma pauta mais espec\u00edfica e ter estrutura mais horizontal, descentralizada, que pode agregar uma s\u00e9rie de coletivos e organiza\u00e7\u00f5es dispersas e com objetivos distintos e pontuais. Quando surgiram, pautaram-se em espantalhos te\u00f3ricos promovidos pelo Ocidente de que o marxismo n\u00e3o havia discutido \u201cquest\u00f5es de g\u00eanero e de ra\u00e7a\u201d, e essas pautas em significativas propor\u00e7\u00f5es seriam absorvidas por um movimento aut\u00f4nomo e auto-organizado. \u00c9 preciso reconhecer, no que concerne \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT, que a esquerda revolucion\u00e1ria da \u00e9poca sustentava posi\u00e7\u00f5es conservadoras e por vezes at\u00e9 violentas com essas pessoas. Os novos movimentos sociais buscam, portanto, se apresentar como alternativa pol\u00edtica \u201cmoderna\u201d, \u201cdemocr\u00e1tica\u201d e \u201cplural\u201d.<\/p>\n<p>Percebe-se um distanciamento entre as organiza\u00e7\u00f5es marxistas e os movimentos sociais que se constituem, pela distin\u00e7\u00e3o na forma organizativa, mas tamb\u00e9m por um descolamento pela pr\u00f3pria compreens\u00e3o do que cada um desses segmentos ter\u00e1 como central. A g\u00eanese dos movimentos sociais carrega uma nega\u00e7\u00e3o, ou metamorfiza\u00e7\u00e3o, da discuss\u00e3o acerca do trabalho.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s marxistas, o ser humano se humaniza (se torna coletivo, social) a partir do trabalho e da transforma\u00e7\u00e3o da natureza, que implica tamb\u00e9m na nossa transforma\u00e7\u00e3o individual e coletiva. O trabalho \u00e9, portanto, fundante do ser social. J\u00e1 no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, o trabalho se encontra numa contradi\u00e7\u00e3o fundamental, que \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o privada (pela burguesia) da riqueza que \u00e9 socialmente produzida (pela classe trabalhadora). A partir desse entendimento, temos como central o trabalho e o conflito que \u00e9 produzido a partir da contradi\u00e7\u00e3o capital-trabalho, a luta de duas classes antag\u00f4nicas. E \u00e9 a partir dessa centralidade que definimos os rumos da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Movimentos com essas novas caracter\u00edsticas, que se diferenciam qualitativamente dos partidos, aparecem no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Aqui, a funda\u00e7\u00e3o do grupo \u201cSomos: Grupo de Afirma\u00e7\u00e3o Homossexual\u201d (1978) marca o in\u00edcio do movimento LGBT organizado. Em outras pautas, tamb\u00e9m, o avan\u00e7o desses movimentos no Brasil \u00e9 muito expressivo no mesmo per\u00edodo, como por exemplo com o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado tamb\u00e9m em 1978. Mas quando se diz que essa nova forma de movimento entra em campo, n\u00e3o est\u00e1 impl\u00edcito que o partido saia de cena. Pelo contr\u00e1rio, a estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular ter\u00e1 nos movimentos sociais alguns importantes agentes, como o pr\u00f3prio movimento LGBT. O que se d\u00e1, ent\u00e3o, \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o entre essas duas formas de organiza\u00e7\u00e3o, atrelando movimentos sociais fundamentais para a estrat\u00e9gia que se hegemonizou.<\/p>\n<p>Se a estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular se trata da forma como a classe trabalhadora se organizou desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, uma an\u00e1lise dessa estrat\u00e9gia ficaria incompleta se ignorasse que a classe tamb\u00e9m se organizou na estrutura de movimentos sociais. E que caracter\u00edsticas foram apresentadas na concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e formas de luta?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o que salta aos olhos, a respeito da quest\u00e3o LGBT, \u00e9 que temos, pela primeira vez na hist\u00f3ria do pa\u00eds, um movimento articulado, que se organiza a partir de uma pauta in\u00e9dita enquanto movimento social, se nutrindo de uma tend\u00eancia mundial, em que, pela primeira vez, a quest\u00e3o homossexual era considerada parte do jogo pol\u00edtico e uma das frentes de opress\u00e3o da sociedade capitalista. Aqui no Brasil, entretanto, a discuss\u00e3o chega de modo tardio, dez anos ap\u00f3s Maio de 1968 e nove ap\u00f3s Stonewall, em 1969.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 outro ponto importante. A partir de meados de 1980, com a chegada da pandemia de HIV\/Aids ao Brasil e sua associa\u00e7\u00e3o \u00e0 homossexualidade, as consequ\u00eancias desse marco perpassam pela organiza\u00e7\u00e3o do movimento LGBT. Se num primeiro momento ele centrava esfor\u00e7os na resist\u00eancia \u00e0 ditadura, questionando o Estado burgu\u00eas e seu hist\u00f3rico repressivo e anticivilizat\u00f3rio, a epidemia ser\u00e1 uma das quest\u00f5es que reorientar\u00e3o esse movimento. O papel da luta contra o HIV\/Aids ser\u00e1 decisivo na rela\u00e7\u00e3o que o movimento LGBT passar\u00e1 a tomar, pois as duas principais organiza\u00e7\u00f5es do momento (ap\u00f3s um decr\u00e9scimo gigantesco na quantidade de organiza\u00e7\u00f5es do primeiro per\u00edodo), o Tri\u00e2ngulo Rosa (RJ) e o Grupo Gay da Bahia (BA), come\u00e7ar\u00e3o a se articular em torno dessa pauta e demandar ao Estado condi\u00e7\u00f5es reais para que a popula\u00e7\u00e3o LGBT parasse de morrer. E isso se dar\u00e1 inclusive atrelado a outros movimentos, como o pr\u00f3prio movimento pela reforma sanit\u00e1ria, que culminar\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o do SUS em 1988.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, para a aproxima\u00e7\u00e3o com o Estado e a institucionalidade, sob os motivos de conquistar direitos e \u201ctrazer cidadania\u201d \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT, a estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular cai como uma luva no movimento.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 sob o governo FHC a participa\u00e7\u00e3o no Estado come\u00e7a a ser constru\u00edda, em 1995 \u00e9 criada a ABGLT (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Gays, L\u00e9sbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos), entidade que representaria o movimento LGBT perante as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e o Estado, demandando a este as bandeiras que achasse interessante. Com a vit\u00f3ria petista em 2002, as pol\u00edticas e articula\u00e7\u00f5es LGBTs na esfera institucional s\u00e3o al\u00e7adas a novo patamar anteriormente desconhecido.<\/p>\n<p>Como a dire\u00e7\u00e3o da ABGLT mantinha estreita rela\u00e7\u00e3o com o PT (assim como a CUT e a UNE, por exemplo, o que demonstrava o impacto e a influ\u00eancia da EDP na esquerda brasileira), uma tend\u00eancia que se apresentaria seria a confus\u00e3o das pautas do movimento LGBT com as pr\u00f3prias pautas do governo federal. O empobrecimento nos conte\u00fados e nas propostas da ABGLT foi acentuado, de tal modo que em dado momento houve uma interven\u00e7\u00e3o direta de representantes do governo federal na II Confer\u00eancia Nacional LGBT, em 2011, pautando o que deveria ser proposto ao Estado ou n\u00e3o, de acordo com a suposta viabilidade de se levar adiante \u2013 mas significando apenas uma castra\u00e7\u00e3o da entidade que representava o movimento diretamente nos seus espa\u00e7os deliberativos dos rumos da entidade.<\/p>\n<p>Outra tend\u00eancia que existia como forma de aumentar a \u201cparticipa\u00e7\u00e3o popular\u201d nas institui\u00e7\u00f5es, que tamb\u00e9m perpassou por todas as \u00e1reas da vida civil, foi a cria\u00e7\u00e3o de Conselhos. No caso do movimento LGBT, foi criado um Conselho Nacional LGBT a partir de uma demanda da ABGLT e do movimento, que conflu\u00eda com um interesse do governo em alargar esses espa\u00e7os. O limite dos conselhos era n\u00edtido, entretanto: a participa\u00e7\u00e3o popular estava resumida a dar \u201cpitaco\u201d, fazer proposi\u00e7\u00f5es, mas sem qualquer poder deliberativo real. N\u00e3o se decidia sobre os rumos do pa\u00eds, tendo um car\u00e1ter formal de inser\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nas discuss\u00f5es pol\u00edticas e mantendo as decis\u00f5es \u00e0 c\u00fapula dirigente, o que inclu\u00eda a burguesia e o latif\u00fandio \u2013 pe\u00e7as centrais para a efetiva\u00e7\u00e3o da EDP.<\/p>\n<p>Se por um lado a rela\u00e7\u00e3o do movimento LGBT com a estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular se dava nas institui\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica acima caracterizada; por outro lado, a rela\u00e7\u00e3o com a institucionalidade tinha como pressuposto a elei\u00e7\u00e3o de figuras LGBTs, inclusive porque o PT era o partido que agremiava a maior parte dessas candidaturas. Mais uma vez, a centralidade da estrat\u00e9gia que impregnava o movimento LGBT era a amplia\u00e7\u00e3o da democracia e a inser\u00e7\u00e3o nesses espa\u00e7os.<\/p>\n<p>Nos movimentos sociais, cada vez mais o indiv\u00edduo aparecia como grande sujeito pol\u00edtico: o indiv\u00edduo que atua localmente, realizando a micropol\u00edtica, o indiv\u00edduo que se assume, se empodera e \u00e9 mais transgressor do que revolucion\u00e1rio. Se o campo de disputa \u00e9 diminuto ou institucional e o sujeito pol\u00edtico se resume ao indiv\u00edduo (n\u00e3o mais \u00e0 classe), o voto surge como um dos grandes momentos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o movimento LGBT e o governo que efetivou a EDP, isto \u00e9, o governo petista, nas figuras de Lula e Dilma Rousseff, se apresentava como uma rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e duradoura, amiga, em que as LGBTs tinham voz dentro do governo. Fora do mundo das apar\u00eancias, desvelando a ess\u00eancia, a rela\u00e7\u00e3o estabelecida era de submiss\u00e3o, em que o movimento LGBT inclusive tinha sempre \u00e0 porta a possibilidade de ter seus direitos rifados em nome da estabilidade do pacto de classes \u2013 como fora com o kit Anti-Homofobia e o programa Brasil Sem Homofobia, por exemplo. As cr\u00edticas mais radicais apresentadas pela ABGLT (quando existiam) ou pelo movimento LGBT descentralizado eram sistematicamente minimizadas sob o pretexto da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as ou governabilidade, afinal, as LGBTs eram mais insignificantes dentro desses governos do que o fundamentalismo religioso.<\/p>\n<p>CONCLUS\u00c3O<\/p>\n<p>O movimento LGBT em particular, e a esquerda em geral, sob a estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular, foram deseducados \u00e0 pr\u00e1tica da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da luta radicalizada, se limitando \u00e0s esferas institucionais de disputa: elei\u00e7\u00f5es, conselhos, demandas por direitos, \u201cdemocracia real\u201d.<\/p>\n<p>Com a crise internacional do capitalismo e a necessidade de se acelerar o neoliberalismo e radicaliz\u00e1-lo, a burguesia n\u00e3o exitou em abrir m\u00e3o de seu governo \u201cpopular\u201d e colocar um representante leg\u00edtimo de seus interesses, que nem formalmente teria v\u00ednculo com a classe trabalhadora, e sepultou uma s\u00e9rie de direitos que o PT apregoava serem eternos e representarem o triunfo de sua estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora estava desarmada para resistir aos ataques, uma vez que suas formas cl\u00e1ssicas (sindicais, partid\u00e1rias e estudantis) e novas (movimentos de bairro, moradia, anti-opress\u00f5es etc), ao serem cooptadas, se educaram nas \u00faltimas d\u00e9cadas atrav\u00e9s de reivindica\u00e7\u00f5es ao Estado ou da ocupa\u00e7\u00e3o de seus espa\u00e7os institucionais, ainda que formais, e n\u00e3o em greves, manifesta\u00e7\u00f5es massivas e constru\u00e7\u00f5es cotidianas de um poder paralelo ao pr\u00f3prio poder estatal.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma deturpa\u00e7\u00e3o do que seria a estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular, mas de sua completa efetiva\u00e7\u00e3o. E ela representa uma derrota para a luta da classe trabalhadora brasileira, inclusive a LGBT. Uma tentativa de reinscrev\u00ea-la na hist\u00f3ria da classe trabalhadora, como sendo vi\u00e1vel para o atual contexto do desenvolvimento capitalista, demonstra a incapacidade de autocr\u00edtica e supera\u00e7\u00e3o de parte da esquerda. N\u00e3o devemos ter medo de assumir nossos erros; ali\u00e1s, o pr\u00f3prio PCB assumiu a fal\u00eancia de sua estrat\u00e9gia nacional-democr\u00e1tica, que precedeu a ditadura de 64.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que nos reeduquemos atrav\u00e9s dos instrumentos de luta tradicionais, como a atua\u00e7\u00e3o sindical, partid\u00e1ria e estudantil, mas tamb\u00e9m incorporando todos os elementos mais avan\u00e7ados que s\u00e3o fruto dos movimentos sociais; e que nossa atua\u00e7\u00e3o seja pautada por uma estrat\u00e9gia que tenha como objetivo a Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, de car\u00e1ter socialista. Urge a constru\u00e7\u00e3o de um poder popular, centrando nas m\u00e3os da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora a capacidade para decidir sobre os rumos de seu pa\u00eds e de suas vidas.<\/p>\n<p>Pela revolu\u00e7\u00e3o socialista brasileira!<\/p>\n<p>Pelo poder popular!<\/p>\n<p>LGBT tem classe!<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>CLAUSEWITZ, Carl Von. Da guerra.<\/p>\n<p>GREEN, James; QUINALHA, Renan; CAETANO, Marcio; FERNANDES, Marisa. Hist\u00f3ria do movimento LGBT no Brasil. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2018.<\/p>\n<p>HAIDER, Asad. Armadilha da identidade: ra\u00e7a e classe nos dias de hoje. S\u00e3o Paulo: Veneta, 2019.<\/p>\n<p>HARNECKER, Marta. Estrat\u00e9gia e t\u00e1tica. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2012.<\/p>\n<p>IASI, Mauro; FIGUEIREDO, Isabel Mansur; NEVES, Victor (orgs.). A estrat\u00e9gia democr\u00e1tico-popular: um invent\u00e1rio cr\u00edtico. Mar\u00edlia: Lutas anticapital, 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/lutasanticapital.com.br\/collections\/ebooks\/products\/pdf-a-estrategia-democratico-popular-um-inventario-critico&gt;. Acesso em 27\/09\/2020.<\/p>\n<p>LUK\u00c1CS, Gy\u00f6rgy. Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe: estudos sobre a dial\u00e9tica marxista. S\u00e3o Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.<\/p>\n<p>LUK\u00c1CS, Gy\u00f6rgy. Para uma ontologia do ser social I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018.<\/p>\n<p>MARTINS, Caio. Teoria dos novos movimentos sociais e lutas de classes: uma leitura cr\u00edtica de sua influ\u00eancia no Brasil. Rio de Janeiro, RJ: UFRJ, 2016. (Tese de doutorado)<\/p>\n<p>SILVA, Luiz In\u00e1cio Lula da. \u201cCarta ao povo brasileiro\u201d. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/fpabramo.org.br\/2006\/05\/10\/carta-ao-povo-brasileiro-por-luiz-inacio-lula-da-silva\/&gt;. Acesso em 27\/09\/2020.<\/p>\n<p>TOITIO, Rafael Dias. Cores e contradi\u00e7\u00f5es: a luta pela diversidade sexual e de g\u00eanero sob o neoliberalismo brasileiro. Campinas: UNICAMP, 2016. (Tese de doutorado)<\/p>\n<p>TREVISAN, Jo\u00e3o Silv\u00e9rio. Devassos no para\u00edso. 4. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.<\/p>\n<p>SUGEST\u00d5ES DE CONTE\u00daDOS SOBRE O TEMA<\/p>\n<p>Live: \u201cLuta de classes: qual o papel da popula\u00e7\u00e3o LGBT?\u201d no canal PCB-SP. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IuP5Hyi8DoA&gt;.<\/p>\n<p>Live: \u201cDia da visibilidade l\u00e9sbica: a presen\u00e7a das l\u00e9sbicas no feminismo e no movimento LGBT no Brasil\u201d no canal PCB-SP. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rHiRq0KZK44&gt;.<\/p>\n<p>Zine Tesoura. \u201cApostas\u201d. v. 3. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/issuu.com\/lgbtcomunista\/docs\/zine03_tesoura_aposta&gt;.<\/p>\n<p>\u00c1rea de anexos<br \/>\nVisualizar o v\u00eddeo Luta de Classes &#8211; Qual o papel da popula\u00e7\u00e3o LGBT? do YouTube<\/p>\n<p>Visualizar o v\u00eddeo Dia da Visibilidade L\u00e9sbica: a presen\u00e7a das l\u00e9sbicas no feminismo e no movimento LGBT no Brasil do YouTube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26217\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[182,20],"tags":[226],"class_list":["post-26217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lgbt","category-c1-popular","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6OR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26217"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26217\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}