{"id":26220,"date":"2020-10-01T22:16:03","date_gmt":"2020-10-02T01:16:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26220"},"modified":"2020-10-01T22:16:03","modified_gmt":"2020-10-02T01:16:03","slug":"victor-jara-um-manifesto-de-musica-e-rebeldia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26220","title":{"rendered":"Victor Jara: um manifesto de m\u00fasica e rebeldia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/pera-12.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: Marcelo Urra)<\/p>\n<p>No dia 16 de setembro de 1973, o cantor V\u00edctor Jara era assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Nesse dia quiseram apagar sua voz, mas o seu canto j\u00e1 tem outras bocas e ningu\u00e9m mais pode cal\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Por Notas Periodismo Popular | Tradu\u00e7\u00e3o de Rebeca \u00c1vila para a Revista Opera<\/p>\n<p>V\u00edctor Lidio Jara Mart\u00ednez nasceu em 28 de setembro de 1932 na prov\u00edncia de \u00d1uble, no Chile. Filho de camponeses, foi criado em um ambiente rural, mas a sua m\u00e3e, Amanda Mart\u00ednez, era cantora e tocava viol\u00e3o. Isto influenciou a carreira posterior de V\u00edctor, que ainda era uma crian\u00e7a na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois, ele se juntou \u00e0 Companhia Teatral de Mimos de Noisvander, e come\u00e7ou a estudar interpreta\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o na Escola de Teatro da Universidade do Chile. Isto o levou a dirigir em 1959 sua primeira obra de teatro: Parecido a la felicidad, de Alejandro Sieveking.<\/p>\n<p>Enquanto estudava interpreta\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m continuou fazendo m\u00fasica. Assim, no final da d\u00e9cada de 1950 participou do Conjunto Folcl\u00f3rico Cuncum\u00e9n, onde conheceu a cantora Violeta Parra.<\/p>\n<p>Durante os anos seguintes, o teatro e a m\u00fasica avan\u00e7aram em paralelo. Gravou seu primeiro disco de vilancicos chilenos e em 1961, com o Conjunto Cuncum\u00e9n, realizou turn\u00eas na Holanda, Fran\u00e7a, Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Tchecoslov\u00e1quia, Pol\u00f4nia, Rom\u00eania e Bulg\u00e1ria. Nesse mesmo ano comp\u00f4s sua primeira m\u00fasica, \u201cPaloma quiero contarte\u201d.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960 tornou-se diretor na Academia de Folclore da Casa da Cultura de \u00d1u\u00f1oa, trabalho que desempenhou at\u00e9 1968. Tamb\u00e9m durante esses anos e at\u00e9 1970 formou parte da equipe fixa de diretores do Instituto de Teatro da Universidade do Chile (Ituch), al\u00e9m de trabalhar, entre 1964 e 1967, como professor de interpreta\u00e7\u00e3o na universidade.<\/p>\n<p>Esses foram os mesmos anos da decolagem da sua carreira como cantor e m\u00fasico. Foi o diretor art\u00edstico do grupo Quilapay\u00fan entre 1966 e 1969. Em 1966 gravou seu primeiro LP como solista, \u201cV\u00edctor Jara\u201d, editado pela gravadora Arena. Com a empresa filial chilena da EMI-Odeon gravou no ano seguinte o \u201cCanciones folcl\u00f3ricas de Am\u00e9rica\u201d, junto com Quilapay\u00fan.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m trabalhou como solista at\u00e9 1970 na Pe\u00f1a de los Parra (uma famosa pe\u00f1a [esp\u00e9cie de evento, encontro] folcl\u00f3rica chilena criada pelos irm\u00e3os Isabel e \u00c1ngel Parra em 1965). Ali teve contato com v\u00e1rios m\u00fasicos da Nova Can\u00e7\u00e3o Chilena, como Rolando Alarc\u00f3n, Tito Fern\u00e1ndez, Patricio Manns, Roberto Parra, Violeta Parra, Osvaldo Gitano Rodr\u00edguez, entre outros.<\/p>\n<p>Em 1969 ganhou o primeiro pr\u00eamio no primeiro festival da Nova Can\u00e7\u00e3o Chilena, com a can\u00e7\u00e3o \u201cPlegaria a un labrador\u201d, e viajou a Helsinki, Finl\u00e2ndia, para participar de um ato mundial de protesto pela Guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Seu perfil pol\u00edtico-ideol\u00f3gico era evidente desde o princ\u00edpio da sua vida musical, por isso n\u00e3o foi uma surpresa sua participa\u00e7\u00e3o ativa na campanha da Unidad Popular em 1970, que lan\u00e7ava a candidatura de Salvador Allende para a presid\u00eancia do Chile. Nesse mesmo ano apresentou seu disco \u201cCanto Libre\u201d.<\/p>\n<p>Com a posse de Allende, Jara foi nomeado embaixador cultural do pa\u00eds, e em 1971 passou a formar parte do Departamento de Comunica\u00e7\u00f5es da Universidade T\u00e9cnica do Estado. Al\u00e9m disso, foi tamb\u00e9m compositor de m\u00fasicas para a Televis\u00e3o Nacional do Chile entre 1972 e 1973, investigou e recompilou testemunhos em Herminda de la Victoria, usando-os como base para o disco \u201cLa poblaci\u00f3n\u201d. Dirigiu a sua homenagem a Pablo Neruda, pela obten\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Nobel.<\/p>\n<p>Participou no trabalho volunt\u00e1rio para enfrentar o locaute dos empres\u00e1rios ligados ao setor de transportes em 1972, e no ano seguinte voltou a ser um militante ativo da Unidade Popular durante a campanha eleitoral para o Parlamento.<\/p>\n<p>Quando o golpe genocida de Augusto Pinochet chegou ao governo no dia 11 de setembro de 1973, Jara foi sequestrado e detido no Est\u00e1dio Nacional do Chile. Ali foi torturado durante dias, cortaram-lhe os dedos e a l\u00edngua porque sabiam que essas eram as coisas mais perigosas de V\u00edctor.<\/p>\n<p>Finalmente, no dia 16 de setembro o fuzilaram. O seu corpo foi encontrado tr\u00eas dias depois, com 44 tiros.<\/p>\n<p>Antes de morrer escreveu seu \u00faltimo poema, que foi retirado do Est\u00e1dio de maneira clandestina, atrav\u00e9s de pequenas c\u00f3pias:<\/p>\n<p>Somos cinco mil aqui.<br \/>\nNesta pequena parte da cidade.<br \/>\nSomos cinco mil.<br \/>\nQuantos somos no total<br \/>\nnas cidades e em todo o pa\u00eds?<br \/>\nSomos aqui dez mil m\u00e3os<br \/>\nque semeiam e fazem as f\u00e1bricas andarem.<\/p>\n<p>Quanta humanidade<br \/>\ncom fome, frio, p\u00e2nico, dor,<br \/>\npress\u00e3o moral, terror e loucura!<\/p>\n<p>Seis dos nossos se perderam<br \/>\nno espa\u00e7o das estrelas.<\/p>\n<p>Um morto, um golpeado como jamais acreditei<br \/>\nque se poderia golpear um ser humano.<br \/>\nOs outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores,<br \/>\num saltando no vazio,<br \/>\nOutro batendo a sua cabe\u00e7a contra o muro,<br \/>\nmas todos com o olhar fixo na morte.<\/p>\n<p>Que espanto causa o rosto do fascismo!<br \/>\nRealizam seus planos com precis\u00e3o arteira sem que nada lhes importe.<br \/>\nO sangue para eles s\u00e3o medalhas.<br \/>\nA matan\u00e7a \u00e9 um ato de hero\u00edsmo.<br \/>\n\u00c9 este o mundo que voc\u00ea criou, meu Deus?<br \/>\nPara isto seus sete dias de admira\u00e7\u00e3o e de trabalho?<\/p>\n<p>Nestas quatro muralhas s\u00f3 existe um n\u00famero que n\u00e3o avan\u00e7a.<br \/>\nQue lentamente ir\u00e1 querer mais a morte.<\/p>\n<p>Mas logo a consci\u00eancia me golpeia<br \/>\ne vejo esta mar\u00e9 sem batimento<br \/>\ne vejo o pulso das m\u00e1quinas<br \/>\ne os militares mostrando seus rostos de parteira cheia de do\u00e7ura.<\/p>\n<p>E M\u00e9xico, Cuba e o mundo?<br \/>\nQue gritem esta ignom\u00ednia!<br \/>\nSomos dez mil m\u00e3os que n\u00e3o produzem.<\/p>\n<p>Quantos somos em toda a p\u00e1tria?<br \/>\nO sangue do Companheiro Presidente<br \/>\nGolpeia mais forte que bombas e metralhas.<br \/>\nAssim golpear\u00e1 nosso punho novamente.<\/p>\n<p>Canto, como voc\u00ea sai mal<br \/>\nquando tenho que cantar o assombro.<br \/>\nAssombro como o que vivo, como o que morro, assombro.<br \/>\nDe me ver entre tantos e tantos momentos do infinito<br \/>\nem que o sil\u00eancio e o grito s\u00e3o as metas deste canto.<\/p>\n<p>O que nunca vi,<br \/>\nO que tenho sentido e o que sinto<br \/>\nfar\u00e3o brotar o momento\u2026<\/p>\n<p>Rebeca \u00c1vila \u00e9 tradutora na Revista Opera. Mestranda em Estudos Sociais Latinoamericanos pela Universidade de Buenos Aires, pesquisa sobre as pol\u00edticas externas do Brasil e de Cuba na Guerra Colonial Portuguesa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26220\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87,50,1],"tags":[227],"class_list":["post-26220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","category-c61-cultura-revolucionaria","category-geral","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6OU","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26220"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26220\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}