{"id":26223,"date":"2020-10-01T22:18:28","date_gmt":"2020-10-02T01:18:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26223"},"modified":"2020-10-01T22:18:28","modified_gmt":"2020-10-02T01:18:28","slug":"caetano-stalin-losurdo-o-debate-falsificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26223","title":{"rendered":"Caetano, Stalin, Losurdo: o debate falsificado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/entretenimento\/65\/2020\/07\/28\/caetano-veloso-em-cena-de-narciso-em-ferias-selecionado-para-o-festival-de-veneza-1595935180183_v2_750x421.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Document\u00e1rio \u201cNarciso\u201d sobre Caetano Veloso (Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>por Jones Manoel e Breno Altman<\/p>\n<p>https:\/\/diplomatique.org.br\/caetano-stalin-losurdo-o-debate-falsificado\/<\/p>\n<p>Caetano Veloso \u00e9 acusado de \u201cneostalinista\u201d, sem uma defini\u00e7\u00e3o do que significaria esse termo ou porque se justificaria a aplica\u00e7\u00e3o desse r\u00f3tulo ao cantor, muito menos a Domenico Losurdo<\/p>\n<p>No dia 4 de setembro, no programa do Pedro Bial, o m\u00fasico Caetano Veloso, ao comentar um trecho de sua fala no filme Narciso em f\u00e9rias, disse que mudou de vis\u00e3o e que n\u00e3o tem mais uma perspectiva apenas negativa das experi\u00eancias socialistas. Citou, como motiva\u00e7\u00e3o para sua mudan\u00e7a de leitura acerca do socialismo real e do liberalismo (ficou menos \u201cliberaloide\u201d, nas suas palavras), a produ\u00e7\u00e3o de um dos autores deste artigo e, particularmente, as reflex\u00f5es do italiano Domenico Losurdo, fil\u00f3sofo falecido em 2018.<\/p>\n<p>Essa declara\u00e7\u00e3o de Caetano foi suficiente para abrir uma temporada de choro e ranger de dentes. N\u00e3o falou da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ou St\u00e1lin, mas as redes sociais foram tomadas por uma avalanche de coment\u00e1rios\u2026 sobre stalinismo. Raras foram as interven\u00e7\u00f5es que abordaram a revis\u00e3o cr\u00edtica do cantor sobre o liberalismo, ligando-o \u00e0 escravid\u00e3o e ao colonialismo, muito menos sobre o pensamento de Losurdo.<\/p>\n<p>Uma dessas rea\u00e7\u00f5es foi um artigo do professor Pablo Ortellado, publicado na Folha de S.Paulo, intitulado \u201cSt\u00e1lin em Ipanema\u201d. Come\u00e7ou como um paneg\u00edrico ao artista, destacando suas qualidades culturais e as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que anteriormente assumia. Mas logo arriscou um salto mortal digno de ginastas ol\u00edmpicos, reclamando da leitura de Caetano sobre os escritos do fil\u00f3sofo italiano.<\/p>\n<p>\u201cA obra de Losurdo consiste justamente na reden\u00e7\u00e3o dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, dos assassinatos pol\u00edticos e da persegui\u00e7\u00e3o aos dissidentes por meio da compara\u00e7\u00e3o com o regime advers\u00e1rio\u201d, afirmou. O leitor, curioso, poderia se perguntar: em qual livro ou texto do autor teria sido realizada tal \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d? A pergunta n\u00e3o seria respondida por Ortellado porque se trata de escrachada ila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O colunista da Folha igualmente salienta que \u201cLosurdo \u00e9 um dos principais respons\u00e1veis pela atual onda revisionista sobre o legado de St\u00e1lin\u201d. Mas que onda \u00e9 essa? Quando come\u00e7ou? Quem faz parte? Onde Losurdo contribui com essa \u201conda\u201d? E conclui dessa forma: \u201cCaetano se rendeu \u00e0 irresponsabilidade narc\u00edsica, incensando o stalinismo\u201d.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que n\u00e3o existe, no texto de Ortellado, qualquer debate sobre o liberalismo e sua hist\u00f3ria, elemento central da entrevista do m\u00fasico tropicalista. A palavra \u201cliberalismo\u201d n\u00e3o aparece e \u201cliberal\u201d, apenas uma vez, em um par\u00e1grafo marginal. Nenhuma obra ou trecho de Domenico Losurdo \u00e9 citado.<\/p>\n<p>Caetano Veloso \u00e9 acusado de \u201cneostalinista\u201d, sem uma defini\u00e7\u00e3o do que significaria esse termo ou porque se justificaria a aplica\u00e7\u00e3o desse r\u00f3tulo ao cantor, muito menos a Domenico Losurdo. Ortellado teve oportunidade de acompanhar o debate nas redes e na imprensa. Poderia ter qualificado seu coment\u00e1rio e escrito, por exemplo, uma abordagem cr\u00edtica a importantes livros de Losurdo, como Contra-hist\u00f3ria do liberalismo, ou St\u00e1lin \u2013 hist\u00f3ria cr\u00edtica de uma lenda negra. Escolheu, por\u00e9m, entrar na discuss\u00e3o com linhas cheias de \u00f3dio e preconceito, infladas de rancor ideol\u00f3gico e desidratadas de ideias.<\/p>\n<p>Afinal, qual \u00e9 o argumento b\u00e1sico do filosofo italiano? Ele considera que o liberalismo, embora represente um avan\u00e7o civilizat\u00f3rio vis a vis o feudalismo e a sociedade de castas, sempre embutiu cl\u00e1usulas de exclus\u00e3o contra a classe trabalhadora e os povos colonizados, contra mulheres e negros, configurando-se como uma defesa da liberdade, da limita\u00e7\u00e3o do poder e dos direitos naturais como garantias circunscritas \u00e0 \u201ccomunidade dos livres\u201d: homens, brancos e propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O argumento, em si, n\u00e3o deveria ser novidade. Basta notar, por exemplo, que a Revolu\u00e7\u00e3o Liberal nas Prov\u00edncias Unidas, Inglaterra e Estados Unidos n\u00e3o combateu a escravid\u00e3o \u2013 longe disso, impulsionou-a ao colonialismo, impondo restri\u00e7\u00f5es ainda mais duras aos direitos civis e pol\u00edticos do proletariado, al\u00e9m de uma exclus\u00e3o absoluta das mulheres.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 por demais conhecido que o pa\u00eds-guia do mundo liberal, os Estados Unidos, cujos primeiros presidentes eram propriet\u00e1rios de escravos, mantiveram e ampliaram esse regime de trabalho ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Americana, reintroduzindo-o em territ\u00f3rios tomados do M\u00e9xico. Tentaram esmagar a Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana (de natureza antiescravagista, liderada por negros) e promoveram, em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, uma pol\u00edtica de exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios, com quase 20 milh\u00f5es de mortos.<\/p>\n<p>Ao fim da escravid\u00e3o, foi montado o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial baseado nas leis Jim Crow, vigentes at\u00e9 os anos 1960. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que Adolf Hitler e outros l\u00edderes do nazismo tenham declarado, reiteradas vezes, que o genoc\u00eddio contra ind\u00edgenas e a segrega\u00e7\u00e3o contra negros e outras \u201cra\u00e7as inferiores\u201d, praticados pelos EUA, era sua inspira\u00e7\u00e3o, como est\u00e1 registrado no insuspeito de simpatias comunistas Terra negra: o Holocausto como hist\u00f3ria e advert\u00eancia, de Timothy Snyder, al\u00e9m de resgatado na obra Guerra e revolu\u00e7\u00e3o, do pr\u00f3prio Losurdo.<\/p>\n<p>O debate brasileiro sobre as pr\u00e1ticas reais do liberalismo n\u00e3o deveria ser novidade. Estamos no pa\u00eds onde liberais tamb\u00e9m defendiam a escravid\u00e3o, apoiaram a ditadura empresarial-militar de 1964 e tem pouco ou nenhum problema com a matan\u00e7a nas favelas ou os assassinatos recorrentes de lideran\u00e7as camponesas, ind\u00edgenas e quilombolas. A despeito disso, o liberalismo, no Brasil, \u00e9 um dogma inquestion\u00e1vel. Mesmo que grande parte da fauna liberal do pa\u00eds tenha apoiado o f\u00e3 de Brilhante Ustra na elei\u00e7\u00e3o de 2018 \u2013 \u201cuma escolha muito dif\u00edcil\u201d, diriam alguns! \u2013 e mantenha verdadeira adora\u00e7\u00e3o por Paulo Guedes (um economista que atua como se estivesse no Chile de Pinochet), o liberalismo n\u00e3o pode nunca, sob hip\u00f3tese alguma, ser questionado.<\/p>\n<p>O grande pecado de Caetano Veloso foi lembrar da hist\u00f3ria real. Quando o m\u00fasico comenta que a metr\u00f3pole do mundo capitalista demoniza o Ir\u00e3, mas deita na cama com a Ar\u00e1bia Saudita, a pergunta que dev\u00edamos fazer \u00e9: o discurso de oposi\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3 \u00e9 mesmo em defesa da democracia e dos direitos humanos? Esse tipo de racioc\u00ednio, elementar e factual, \u00e9 banido pelos nossos \u201cpluralistas\u201d defensores do pensamento \u00fanico.<\/p>\n<p>Uma parte substancial da dita \u201celite intelectual\u201d deseja que o campo te\u00f3rico e cultural seja uma esp\u00e9cie de decalque da pol\u00edtica partid\u00e1ria dos Estados Unidos, dividida entre democratas e republicanos, dois partidos iguais no que \u00e9 importante, repartidos apenas por diferen\u00e7as t\u00f3picas. Nesse tipo de pensamento fechado, autorit\u00e1rio, pouco simp\u00e1tico a reflex\u00e3o, a cr\u00edtica ao liberalismo deve ser banida e os hereges, queimados na fogueira santa de um suposto moralismo que foge da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 professor de hist\u00f3ria, historiador, mestre em Servi\u00e7o Social, educador e comunicador popular.<\/p>\n<p>Breno Altman \u00e9 jornalista e fundador do site Opera Mundi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26223\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[225],"class_list":["post-26223","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6OX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26223"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26223\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}