{"id":26236,"date":"2020-10-04T21:34:45","date_gmt":"2020-10-05T00:34:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26236"},"modified":"2020-10-14T21:17:12","modified_gmt":"2020-10-15T00:17:12","slug":"os-incendios-criminosos-no-pantanal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26236","title":{"rendered":"Os inc\u00eandios criminosos no Pantanal"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pbs.twimg.com\/media\/EihlNwGWoAAzowp.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Nota pol\u00edtica da UJC do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, os inc\u00eandios na regi\u00e3o do Pantanal t\u00eam chamado aten\u00e7\u00e3o da imprensa nacional e internacional. Em 11 e 12 de setembro, vimos, respectivamente, inc\u00eandios nos parques estaduais Encontro das \u00c1guas, no sul do Mato Grosso (MT), e no Nascentes do Rio Taquari, no norte de Mato Grosso do Sul (MS). Anteriormente, em julho, o MS j\u00e1 havia decretado situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia ambiental por conta de queimadas em Corumb\u00e1 e Lad\u00e1rio. E, em agosto, o c\u00e9u da capital de MT, Cuiab\u00e1, amanheceu cinza. A quantidade de focos de inc\u00eandios foi a maior desde 1998. Alega-se que fatores \u201cnaturais\u201d e clim\u00e1ticos seriam respons\u00e1veis por isso. Por\u00e9m, al\u00e9m do Pantanal, esses estados compartilham alguns aspectos que podem ajudar a explicar esses fatos: a enorme concentra\u00e7\u00e3o de terras em alguns latif\u00fandios e a expans\u00e3o da l\u00f3gica monocultora da agricultura capitalista no Brasil (tamb\u00e9m chamada de \u201cagroneg\u00f3cio\u201d).<\/p>\n<p>O governo de Bolsonaro certamente tem sua parcela de responsabilidade sob a situa\u00e7\u00e3o. Entre 2018 e 2020, reduziu em 28,25% as verbas destinadas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e controle de inc\u00eandios florestais em \u00e1reas federais. No \u00e1pice das queimadas, no final de agosto, anunciou mais uma redu\u00e7\u00e3o de or\u00e7amento. Por\u00e9m, isso n\u00e3o \u00e9 algo que se restringe a um governo. Um dos locais que concentrou parte significativa dos focos de inc\u00eandio \u00e9 a Reserva Extrativista (Resex) Guariba-Roosevelt, \u00fanica reserva do tipo no estado. O local \u00e9 alvo de grileiros e \u00e9 considerada uma ilha verde de conserva\u00e7\u00e3o numa regi\u00e3o em que os ambientalistas chamam de \u201carco do desmatamento\u201d. Entre 2015 e 2019, foi alvo de tentativas por parte da Assembleia Legislativa do MT em diminuir seu tamanho, o que a deixou mais suscet\u00edvel a degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o e o desmatamento, inclusive, s\u00e3o as constantes que ampliam o potencial dos inc\u00eandios a se espalharem. \u00c9 um dado que o desmatamento na Amaz\u00f4nia afeta a regi\u00e3o do Pantanal. E na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, os focos de inc\u00eandios em terras ind\u00edgenas dobraram entre 2018 e 2019. As terras dos Kadiw\u00e9u no MS, a dos Paresi em MT e outras seis em MT comp\u00f5em 6 das mais atingidas em 2019. Essas terras est\u00e3o sufocadas pelos latif\u00fandios. O Centro-Oeste \u00e9 a regi\u00e3o que disparadamente tem a maior concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, sendo 75% das \u00e1reas ocupadas por latif\u00fandio. O MS consegue superar esse marco com 83% das terras nas m\u00e3os de grandes propriet\u00e1rios. O contraste entre os grandes capitalistas da agricultura com as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e pequenos agricultores, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas na quantidade de terras concentrada nas m\u00e3os de poucos.<\/p>\n<p>Os grandes capitalistas desse ramo geralmente pouco se importam com os \u201cefeitos colaterais\u201d para a regi\u00e3o: afinal, boa parte deles n\u00e3o vive no estado e, \u00e0s vezes, nem no Brasil, considerando que, nos \u00faltimos anos, tem se aprofundado uma \u201cestrangeiriza\u00e7\u00e3o da terra\u201d, semelhante ao que vem acontecendo na Amaz\u00f4nia. H\u00e1 que se ressaltar que boa parte dessas terras s\u00e3o improdutivas e usadas apenas como reserva de valor para obten\u00e7\u00e3o de renda fundi\u00e1ria. Quando n\u00e3o, esse setor \u00e9 acompanhado por uma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o destinada para fora do Brasil e dependente da tecnologia estrangeira de Bayer, Bunge, Cargill, John Deere, Monsanto, Shell, etc. Tais caracter\u00edsticas evidenciam que a predomin\u00e2ncia desse setor subjugado ao imperialismo reitera a nossa posi\u00e7\u00e3o subordinada na divis\u00e3o internacional do trabalho \u2013 que, por sua vez, reatualiza a economia latifundi\u00e1ria e prim\u00e1rio-exportadora dos tempos do Brasil Col\u00f4nia. Ao contr\u00e1rio, os povos ind\u00edgenas e camponeses t\u00eam na terra sua casa e meio de subsist\u00eancia, assim costumam preservar muito mais o local. Longe do discurso ideol\u00f3gico e individualista de que um \u201cser humano\u201d em abstrato destr\u00f3i a natureza, \u00e9 preciso dar nome aos bois. E os bois s\u00e3o justamente um dos sustent\u00e1culos da agropecu\u00e1ria extensiva que degrada o solo com sua monocultura e as florestas para criar pasto para seu gado.<\/p>\n<p>A\u00ed vemos que n\u00e3o h\u00e1 nada de \u201cnatural\u201d na quest\u00e3o. N\u00e3o somente porque h\u00e1 alternativas \u00e0s chamadas \u201cqueimadas controladas\u201d \u2013 defendidas pela secretaria de meio ambiente do MT \u2013 mas, principalmente, porque a forma com que o ser humano se relaciona com a natureza n\u00e3o \u00e9 \u201cnatural\u201d. Na sociedade capitalista, a natureza \u00e9 vista apenas como entrave ou possibilidade de lucro. Por\u00e9m, dentro dessa l\u00f3gica, os lucros s\u00e3o privados, mas os riscos e preju\u00edzos s\u00e3o socializados. \u00c9 nesse sentido que o grande capital investe na degrada\u00e7\u00e3o ambiental sem nenhum remorso. Se, como \u201cefeito colateral\u201d ou \u201cimprevisto\u201d, a destrui\u00e7\u00e3o ambiental gerar o exterm\u00ednio da fauna, flora, reservas naturais, comunidades extrativistas ou povos ind\u00edgenas, para o capital pouco importa.<\/p>\n<p>Assim, para pensar num projeto de futuro para a juventude camponesa, ind\u00edgena e trabalhadora, \u00e9 preciso primeiro combater a estrutura latifundi\u00e1ria, colonizat\u00f3ria e racista brasileira. Considerar o meio ambiente n\u00e3o em abstrato, mas em rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com o ser humano. Isso perpassa pelo combate a esta estrutura, \u00e0 ideologia neoliberal, aqui performada pelo agroneg\u00f3cio, pela luta pela soberania das classes populares e pela implementa\u00e7\u00e3o de um projeto de sociedade que estabele\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o com a terra para al\u00e9m das possibilidades colocadas pelo direito burgu\u00eas, nos entendendo como agentes na natureza, n\u00e3o individualmente, mas coletivamente. Enquanto n\u00e3o houver essa transforma\u00e7\u00e3o e vivermos num sistema que prioriza o lucro acima das vidas, teremos apenas media\u00e7\u00f5es que se tornam cada vez mais insuficientes. \u00c9 a alternativa da constru\u00e7\u00e3o do poder popular que pode superar as desigualdades impostas pelo sistema capitalista, o real respons\u00e1vel pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental, e neste caminho mudar o mundo e a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a natureza!<\/p>\n<p>Para entender mais:<\/p>\n<p>Por que os biomas queimam? Nota do PCB MT: https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26097\/por-que-os-biomas-queimam\/<\/p>\n<p>Outros links: https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods13\/queimadas-atingem-46-terras-indigenas-em-mato-grosso\/https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/08\/11\/queimadas-no-pantanal-vivemos-uma-situacao-inedita-diz-biologo-que-atua-na-regiaohttps:\/\/redecerrado.org.br\/queimadas-cerrado-foi-o-bioma-brasileiro-mais-afetado-em-setembro\/https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2020\/09\/ninguem-quer-ver-de-perto-a-morte-que-o-fogo-traz-para-o-pantanal-eu-vi\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26236\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239,20,27],"tags":[224],"class_list":["post-26236","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","category-c1-popular","category-c27-ujc","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Pa","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26236\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}