{"id":26238,"date":"2020-10-05T22:36:06","date_gmt":"2020-10-06T01:36:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26238"},"modified":"2020-10-05T22:36:06","modified_gmt":"2020-10-06T01:36:06","slug":"democracia-e-liberalismo-entre-o-sonho-e-a-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26238","title":{"rendered":"Democracia e liberalismo: entre o sonho e a realidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/pera-10.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: Matthias M\u00fcller)<\/p>\n<p>Frente \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es da democracia liberal expostas em sua contra-hist\u00f3ria, ergue-se a democracia mitol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>A palavra \u201cdemocracia\u201d tem sua origem no grego \u03b4\u03b7\u03bc\u03bf\u03ba\u03c1\u03b1\u03c4\u03af\u03b1, jun\u00e7\u00e3o de \u03b4\u1fc6\u03bc\u03bf\u03c2 (demos, ou povo) e \u03ba\u03c1\u03ac\u03c4\u03bf\u03c2 (kratos, ou poder). No dicion\u00e1rio Oxford, h\u00e1 duas defini\u00e7\u00f5es: 1 \u2013 governo em que o povo exerce a soberania. 2 \u2013 sistema pol\u00edtico em que os cidad\u00e3os elegem os seus dirigentes por meio de elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas.<\/p>\n<p>Vemos logo que, ao longo da hist\u00f3ria, a segunda defini\u00e7\u00e3o sobrepujou a primeira, de forma que a democracia, no mundo contempor\u00e2neo, acabou se caracterizando mais como um regime da representa\u00e7\u00e3o do que de soberania; a soberania s\u00f3 existe de jures, de forma que a legitimidade de sua transi\u00e7\u00e3o do povo para representantes \u00e9 delgada, o que torna sua sustenta\u00e7\u00e3o coercitiva.<\/p>\n<p>Trata-se de um fen\u00f4meno global e , olhando a hist\u00f3ria, \u00e9 certo que o dom\u00ednio pol\u00edtico dos poderosos sobre o povo, com legitimidade question\u00e1vel, \u00e9 mais regra do que exce\u00e7\u00e3o. Mas a \u00e9poca em que vivemos tem algo de especial, j\u00e1 que a partir do fim da Guerra Fria e da derrocada do bloco sovi\u00e9tico o mundo foi inundado por sentimentos e ideias segundo as quais os grandes conflitos, as guerras e a instabilidade ficavam no passado. Este novo mundo, do \u00faltimo homem e seu fim da hist\u00f3ria, viveria agora uma integra\u00e7\u00e3o global nunca vista antes, regida pelos princ\u00edpios do livre mercado e realizada atrav\u00e9s da democratiza\u00e7\u00e3o e da liberta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua das sociedades. Os povos emergeriam da tristeza da terra para uma grande metr\u00f3pole perfumada e de telas brilhantes, na qual os humanos se integravam, de Nagasaki a Man\u00e1gua, por meio do consumo e das telecomunica\u00e7\u00f5es. A sociedade estaria libertada, empoderada, com indiv\u00edduos capazes de tomar decis\u00f5es e influir em seu destino. O primeiro mundo encontraria o terceiro \u2013 agora \u201cem desenvolvimento\u201d \u2013 numa grande Pangeia dos mercados. A legitimidade seria autoevidente, \u00e0 medida que todos os problemas fossem, pouco a pouco, deixados ao passado. Mas depois de aproximadamente duas d\u00e9cadas, at\u00e9 o mais aguerrido ide\u00f3logo p\u00f4de ver a olhos nus as amplas rachaduras; na terceira d\u00e9cada, as promessas j\u00e1 viraram p\u00f3.<\/p>\n<p>Em nossa regi\u00e3o houve tamb\u00e9m um cen\u00e1rio singular. Sa\u00edmos de ditaduras militares, sustentadas \u00e0 for\u00e7a e mistificadas pela Guerra Fria, e embarcamos rapidamente no expresso democr\u00e1tico. Alguns pa\u00edses mais duros com seu passado, outros mais frouxos; fato \u00e9 que se podia suspirar aliviado com a perspectiva de decidir o futuro. Primeiro vimos emergir as lideran\u00e7as desse novo sistema, global, liberal, brilhante. Depois, uma onda progressista, a chamada \u201conda rosa\u201d, com seus diferentes tons ao longo do continente. Apesar dos percal\u00e7os, vivia-se a ilus\u00e3o de que a legitimidade popular bastava como alavanca de for\u00e7a contra a rea\u00e7\u00e3o; a despeito das press\u00f5es, acordos e concess\u00f5es, o tempo dos golpes, das guerras e dos pronunciamentos j\u00e1 tinha passado nesse mundo integrado e globalizado. A Am\u00e9rica Latina logo seria America. E na segunda d\u00e9cada v\u00edamos a olhos nus as amplas rachaduras; na terceira d\u00e9cada, as promessas j\u00e1 tornavam ao p\u00f3.<\/p>\n<p>Tivemos tamb\u00e9m algo de especial em n\u00edvel nacional. Em contraste com outros pa\u00edses da regi\u00e3o, historicamente temos um baix\u00edssimo n\u00edvel educacional, uma cultura pol\u00edtica rebaixada \u2013 com uma mem\u00f3ria apagada, por vezes \u00e0 bala \u2013 e um raso n\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o popular na pol\u00edtica, que se pode testemunhar (e ignorar) em aspectos t\u00e3o b\u00e1sicos como os crescentes n\u00edveis de absten\u00e7\u00e3o eleitoral. Mas com o ciclo petista o povo agora teria lugar, ascenderia numa grande corrente, se qualificaria, e o pa\u00eds cresceria em meio \u00e0 comunh\u00e3o das classes, com lucros espetaculares para bancos e universidades para os pobres. \u201cBrazil takes off\u201d (O Brasil decola), estampava a revista The Economist em 2009, com um Cristo Redentor se elevando como um foguete. Quatro anos depois, a capa se perguntava: \u201cHas Brazil blown it?\u201d (O Brasil estragou tudo?), com o mesmo Cristo voador agora desgovernado. Era a segunda d\u00e9cada, quando se viam a olhos nus os rasgos das rachaduras; na terceira, as promessas j\u00e1 viraram p\u00f3.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do capit\u00e3o e a reabilita\u00e7\u00e3o de um cad\u00e1ver<br \/>\nMas hoje, a dois anos da posse de Jair Bolsonaro, vemos, advinda de muitos lados, a glorifica\u00e7\u00e3o e a reabilita\u00e7\u00e3o moral da \u201cdemocracia\u201d liberal, imediatamente ap\u00f3s sua maior crise desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. O fen\u00f4meno \u00e9 t\u00e3o amplo e permissivo que at\u00e9 aqueles que ontem se esfor\u00e7avam por eleger o capit\u00e3o, ou que consideravam tarefa demasiadamente \u00e1rdua escolher entre ele e seu oponente, hoje posam sob os holofotes com seus escudos prateados, prontos a defend\u00ea-la. Os repetidores contumazes de \u201ccomo as democracias morrem\u201d parecem transform\u00e1-la em um sentimento; repetem, se vestem de amarelo, e logo a democracia n\u00e3o \u00e9 mais modelo organizativo-pol\u00edtico, mas fen\u00f4meno sentimental; n\u00e3o cabe mais ao c\u00e9rebro, e sim ao cora\u00e7\u00e3o. Enquanto murmuram em seu nome e aquecem seus cora\u00e7\u00f5es, creem que ela est\u00e1 viva. Antes olhassem no espelho, remexessem nos arquivos de seus jornais, nas opera\u00e7\u00f5es policiais, nas atua\u00e7\u00f5es de ju\u00edzes, nas injusti\u00e7as que ignoraram e apagaram, nas reformas impedidas; a\u00ed veriam como ela morria, pouco a pouco, enquanto se glorificava a ditadura do formalismo.<\/p>\n<p>As palavras dos que hoje querem reabilitar o liberalismo e defender o democratismo formal \u2013 um liberalismo \u201cverdadeiro\u201d, \u201cpuro\u201d, \u201coriginal\u201d, diferente daquele do presidente; uma democracia limitada, contradit\u00f3ria, violada, mas defendida sempre e entendida como princ\u00edpio &#8211; logo encontram acolhida nos cora\u00e7\u00f5es conservadores e forma-se a grande corrente na qual o conservador, antigo defensor dos enviados de Deus para governar contra a burguesia rebelde, se v\u00ea defendendo a gradual e progressiva transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, em pequenos passos, pelas for\u00e7as de mercado \u2013 sinal de que ele \u00e9 seu novo Deus, sua moral, sua cultura \u2013 e o liberal, arcaico revolucion\u00e1rio e ar\u00edete das transforma\u00e7\u00f5es, se v\u00ea obrigado a se equilibrar na defesa da esperan\u00e7a de mudan\u00e7as t\u00edmidas cont\u00ednuas. N\u00e3o trato dos toscos hayekianos ou dos \u201cconservadores morais\u201d dos quais fala Wilson Gomes em artigo na Cult. S\u00e3o liberais e conservadores de fato, que dizem coisas como \u201ca pobreza diminuiu nos \u00faltimos s\u00e9culos, somos hoje todos mais ricos\u201d, sem esconder as vergonhas de ignorar que hoje testemunhamos, ao contr\u00e1rio, o aumento da pobreza, ou \u201co favelado hoje vive melhor do que vivia h\u00e1 20 anos\u201d, frase de um democrata t\u00e3o comprometido que, frente \u00e0 matan\u00e7a de um Estado dito democr\u00e1tico contra seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, se disp\u00f5e a sugerir que esperemos mais algumas d\u00e9cadas para ver se alguns dez passam a deixar de morrer. \u00c9 ou n\u00e3o sinal de que o lucro, antes de uns senhores feudais que submetiam humanos a seu dom\u00ednio, sobrepujou a moral humanista dos liberais e que a vida sob a liberdade, antes formalmente defendida para todos, logo tornou-se a liberdade de fato de permitir a morte de alguns? Os direitos naturais devem ser progressivamente garantidos (um tipo de natureza que se deve conquistar!), a Constitui\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o s\u00f3 ser violada, como se auto-violar, na medida que os milhares que sentam em pris\u00f5es sem terem sido julgados s\u00e3o uma \u201cfalha\u201d a ser resolvida, e as reformas econ\u00f4micas \u2013 que atentam contra os direitos sociais da Carta Magna \u2013 s\u00e3o defendidas; os liberais parecem crer que a Constitui\u00e7\u00e3o pode permitir o contr\u00e1rio daquilo que ela prescreve sem que isso constitua nenhum tipo de eros\u00e3o. Depois das democracias na Gr\u00e9cia e em Roma e, frente \u00e0s limita\u00e7\u00f5es de uma puramente representativa, nossos liberais erguem agora a democracia mitol\u00f3gica, na qual os guerreiros se p\u00f5em contra os pobres e os bons rezam aos deuses, que do pante\u00e3o dos tempos devem resolver, pouco a pouco, as sangrentas contradi\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es de seu sistema. Que h\u00e1 de democr\u00e1tico nisso? Naturalmente, s\u00f3 o mito, mas de mitos vivem muitos.<\/p>\n<p>Leonardo Laurindo nos revela cristalinamente o porqu\u00ea de tal atitude ser n\u00e3o s\u00f3 moralmente incompat\u00edvel com a defesa democr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m pr\u00e1tica e estrategicamente, ao comentar a decis\u00e3o (ignorada) do STF de n\u00e3o permitir opera\u00e7\u00f5es policiais durante a pandemia: \u201cA forma jur\u00eddica, por\u00e9m, n\u00e3o comporta a desnaturaliza\u00e7\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o como a pol\u00edcia. Por isso, escondido de olhos inocentes, naquele espa\u00e7o que n\u00e3o cabe nas manchetes das not\u00edcias online, vinha que as opera\u00e7\u00f5es poderiam sim acontecer, desde que \u2018excepcionais\u2019 e com autoriza\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico. O mesmo Minist\u00e9rio P\u00fablico que sempre pede o arquivamento de assassinatos cometidos a sangue frio, com bala na nuca de cima para baixo. Um belo crit\u00e9rio. [\u2026] O ministro Fachin disse ainda que, caso seja realmente necess\u00e1rio fazer uma opera\u00e7\u00e3o durante a pandemia, que seja feita com \u2018cuidados especiais para preservar a sa\u00fade dos moradores\u2019. A morte se aproxima com balas esterilizadas com \u00e1lcool em gel. Ou seja, uma decis\u00e3o fraca. Fadada a ser ignorada e mostrar debilidades ao inimigo. [\u2026] \u00c9 como se o Supremo Tribunal assinasse a berros para todos ouvirem que \u00e9 um tribunal p\u00edfio, d\u00e9bil, carcomido, capenga, mequetrefe, em definhamento\u2026 E me faltam adjetivos que n\u00e3o sejam pass\u00edveis de processo. Os dois que votaram contra, na vota\u00e7\u00e3o de 05 de agosto, foram Alexandre de Moraes, rec\u00e9m tornado querido de um certo \u2018progressismo\u2019 por \u2018combater o bolsonarismo das redes\u2019, e Luiz Fux, que em maio deste ano disse que o Tribunal est\u00e1 \u2018vigilante\u2019 contra \u2018agress\u00f5es \u00e0s institui\u00e7\u00f5es\u2019 da democracia, al\u00e9m de estar empenhado em construir \u2018uma vis\u00e3o republicana de pa\u00eds\u2019. Na vis\u00e3o das excel\u00eancias, nossas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o a salvo\u201d, escreve.<\/p>\n<p>\u00c9 importante se perguntar porque estes nossos liberais-conservadores, ou conservadores-liberais, se esfor\u00e7am tanto em reabilitar sua cadav\u00e9rica concep\u00e7\u00e3o de democracia. H\u00e1 duas explica\u00e7\u00f5es. Primeiro, foram ultrapassados em seu pr\u00f3prio jogo. Os velhos motes, que durante as \u00faltimas d\u00e9cadas ergueram dia ap\u00f3s dia contra os governos petistas \u2013 ora para denunci\u00e1-los, ora para mobilizar votos para si \u2013 deram seus frutos. N\u00e3o s\u00f3 em um fen\u00f4meno como o presidente, cuja ascens\u00e3o eleitoral os humilhou, mas no pr\u00f3prio tecido social, onde foi formada uma certa demanda por uma dire\u00e7\u00e3o radical das t\u00e3o propagandeadas premissas liberal-conservadoras. Se a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema, e o PT \u00e9 seu signo, que fuzilemos a petralhada. Se o aborto \u00e9 indefens\u00e1vel, um tabu para virar votos, que Messias esteja no trono. Se a ditadura foi branda, se h\u00e1 um \u201crevanchismo esquerdista\u201d, uma farsa atuando, um passo \u00e0 frente e tragamos o candidato dos militares. Se os sem-terra em movimento s\u00e3o motivo de esc\u00e2ndalo, que tal um candidato afinado com os jagun\u00e7os? E assim vamos indo; os pais dando voltas a renegar o filho deformado. \u201cOs velhos dirigentes intelectuais e morais da sociedade sentem o ch\u00e3o faltar-lhes sob os p\u00e9s, se d\u00e3o conta de que as suas \u2018pr\u00e9dicas\u2019 tornaram-se exatamente \u2018pr\u00e9dicas\u2019, isto \u00e9, coisas estranhas \u00e0 realidade, forma pura sem conte\u00fado, espectro sem esp\u00edrito\u201d, escreveu Gramsci.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, h\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o, at\u00e9 certo ponto acertada, de que em resposta ao bolsonarismo h\u00e1 uma tend\u00eancia favor\u00e1vel ao aparecimento de uma esquerda mais radicalizada e combativa do que aquela representada e por vezes contida pelo petismo. Assim, com um governo de extrema-direita no poder, os liberais tentam rearticular um pacto pol\u00edtico que assegure a aplica\u00e7\u00e3o de seu programa econ\u00f4mico numa forma pol\u00edtica que cause menos como\u00e7\u00e3o e acirramento, ainda que assentada nas mesmas bases. Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio aproximar os setores mais moderados da esquerda \u2013 aqui est\u00e1 a defesa de uma \u201cfrente democr\u00e1tica\u201d e a tentativa de for\u00e7ar uma \u201cautocr\u00edtica \u00e0 direita\u201d \u2013 ao mesmo tempo que se afasta e rejeita os setores mais radicais, recuperando-se a f\u00f3rmula do \u201cautoritarismo\u201d para fazer compara\u00e7\u00f5es descabidas.<\/p>\n<p>Em suas conhecidas notas sobre Maquiavel, Gramsci escreveu que a ascens\u00e3o do cesarismo costuma ocorrer quando h\u00e1 uma luta total entre dois agrupamentos pol\u00edticos (A contra B) que, sendo insol\u00favel, acaba na destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Neste contexto \u00e9 que emerge um C\u00e9sar, que se beneficia da destrui\u00e7\u00e3o precedente dos dois grupos. O comunista italiano tamb\u00e9m separou o cesarismo em dois tipos: um meramente quantitativo, que preserva a forma de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e um qualitativo-quantitativo, que a altera. Identifica em Napole\u00e3o I e em C\u00e9sar o primeiro tipo (que classifica como \u201cprogressivo\u201d, pois assentado nas for\u00e7as progressistas) e Napole\u00e3o III no segundo tipo (classificado como \u201cregressivo\u201d, pois servindo \u00e0 rea\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A despeito de qualquer pol\u00eamica quanto ao cesarismo, \u00e9 indiscut\u00edvel que Bolsonaro emergiu precisamente de um conflito insol\u00favel entre dois grandes agrupamentos \u2013 prova maior \u00e9 que seu inimigo principal durante as elei\u00e7\u00f5es foi o Partido dos Trabalhadores, mas o principal derrotado foi o Partido da Social Democracia Brasileira, que ficou reduzido a umas poucas cadeiras no parlamento enquanto o partido do presidente \u00e0 \u00e9poca, o PSL, crescia. Tamb\u00e9m parece claro que, se h\u00e1 um tipo de cesarismo de Bolsonaro, \u00e9 de tipo meramente quantitativo \u2013 ainda que haja uma tend\u00eancia a uma mudan\u00e7a da esfera da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, chamada por alguns de \u201cfechamento da democracia\u201d, ele preserva todas as bandeiras do agrupamento reacion\u00e1rio derrotado, mudando somente sua forma de mobiliza\u00e7\u00e3o. Em certo sentido, Bolsonaro \u00e9 mais \u201ctradicional\u201d do que todos os vencidos, na medida que traz de volta, de vez, um partido hist\u00f3rico sem sigla, fundador de fato da Rep\u00fablica e verdadeira reserva da ordem e da conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um liberal poderia esclarecer \u2013 e h\u00e1 muitos que tentam \u2013 que a ascens\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 mais uma fatalidade hist\u00f3rica para a lista; uma culpa compartilhada entre os dois agrupamentos em disputa, que insistiram em sua guerra. Mas cabe se perguntar, ent\u00e3o, qual foi a posi\u00e7\u00e3o de cada um dos agrupamentos; qual deles mobilizou as bizarrices jur\u00eddicas contra o outro, e especialmente quais foram as posi\u00e7\u00f5es destes mesmos liberais \u00e0 \u00e9poca, a qual grupo se alinhavam e defendiam; quem eram, naquele contexto, os democratas?<\/p>\n<p>Vaso ruim que n\u00e3o quebra<br \/>\nA pol\u00eamica liberal ganhou impulso com a recente entrevista de Caetano Veloso ao jornalista Pedro Bial. Frente \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o do cantor de que mudara suas perspectivas sobre o liberalismo ao ler a obra do marxista italiano Domenico Losurdo, por interm\u00e9dio do comunicador Jones Manoel, uma trupe se p\u00f4s em movimento, se desdobrando para demonstrar as falhas na obra do pensador, ressuscitar os crimes do socialismo, e se p\u00f4r a defender, afinal, o regime democr\u00e1tico-liberal.<\/p>\n<p>Na maior parte das cr\u00edticas, e normalmente com base no livro Contra-hist\u00f3ria do liberalismo, a obra de Losurdo \u00e9 resumida a uma tentativa de apontar contradi\u00e7\u00f5es entre as ideias dos pensadores liberais e sua pr\u00e1tica \u201cindividual\u201d. Isto \u00e9, a obra do italiano seria meramente uma demonstra\u00e7\u00e3o da hipocrisia individual dos pais do liberalismo.<\/p>\n<p>Mas, como bom marxista, e acima de tudo dedicado hegeliano, Losurdo observa a ascens\u00e3o do liberalismo n\u00e3o a partir da exposi\u00e7\u00e3o de suas ideias e princ\u00edpios, mas sim historicamente, como desenvolvimento pr\u00e1tico. Constata, assim, que ele era produto de um deslocamento da servid\u00e3o, antes realizada em escala nacional, por senhores de terras, agora realizada de forma mais abrangente no resto do mundo. Revela que \u00e9 por meio da explora\u00e7\u00e3o escravocrata e do colonialismo que se criam as condi\u00e7\u00f5es materiais para, na Europa, uma burguesia ascendente declarar seus princ\u00edpios de liberdade e igualdade; as correntes que foram quebradas na Europa foram antes postas em pernas na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata portanto, para Losurdo, de uma \u201chipocrisia individual\u201d, mas antes de uma contradi\u00e7\u00e3o que se manifesta de fato e que \u00e9 sustentada ideologicamente ao longo da hist\u00f3ria \u2013 c\u00e1 est\u00e1 a import\u00e2ncia em fazer uma contra-hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O pensador tampouco pensa em termos de uma viol\u00eancia \u201cdo bem\u201d e outra \u201cdo mal\u201d, como sugere porcamente Contardo Calligaris em sua coluna na Folha. Via, de novo, a contradi\u00e7\u00e3o em seus termos pr\u00e1ticos, materiais: descrevera a ascens\u00e3o do fascismo e especialmente do nazismo na Alemanha como uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o colonial, isto \u00e9, uma tentativa de uma antiga pot\u00eancia decadente em recuperar seu status por meio de um projeto colonial na Europa, que tinha entre seus alvos a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Losurdo observa como Hitler se esfor\u00e7ava por alcan\u00e7ar seu \u201cfaroeste\u201d no Leste Europeu; como o ide\u00f3logo nazista Alfred Rosenberg descrevera os Estados Unidos como um \u201cmaravilhoso pa\u00eds do futuro\u201d, que formulou a \u201cideia de um Estado racial\u201d; como Hitler dissera \u201csustentar uma doutrina similar [\u00e0 Doutrina Monroe]\u201d para a Europa. Quando Losurdo diferencia a viol\u00eancia do colonizado da do colonizador, quer seja na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, quer seja no Haiti, n\u00e3o parte do bem e do mal \u2013 mas da constata\u00e7\u00e3o \u00f3bvia, ainda que t\u00e3o ignorada, de que uma for\u00e7a busca colonizar enquanto a outra busca se libertar ou impedir seu c\u00e1rcere. Essas contradi\u00e7\u00f5es se manifestariam tamb\u00e9m depois da derrota nazista. No funeral da intelectual, jornalista e militante radical da Fra\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Vermelho (RAF), Ulrike Meinhof, o editor Klaus Wagenback discursou dizendo que o respons\u00e1vel pela morte de Meinhof tinha sido \u201co extremismo daqueles que chamavam de extremistas os debates sobre a mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es [da Alemanha p\u00f3s-hitlerista]\u201d. Na ponta da caneta dos liberais e democratas, Meinhof e seu grupo passaram \u00e0 hist\u00f3ria como terroristas desalmados e atrozes. Mas aquela Alemanha, subjugada ao dom\u00ednio norte-americano, com um governo infestado por ex-oficiais nazistas \u2013 incluindo Reinhard Gehlen, major-general de Hitler, que seria l\u00edder da Organiza\u00e7\u00e3o Gehlen, uma ag\u00eancia de intelig\u00eancia afiliada \u00e0 CIA para combater o comunismo, e posteriormente fundaria e presidiria o Servi\u00e7o Federal da Intelig\u00eancia da Alemanha Ocidental &#8211; seria chamada de democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O regime democr\u00e1tico, neste caso subjugado pelo dom\u00ednio estrangeiro, erguia seu sistema de intelig\u00eancia e seu combate aos comunistas com os mesmos homens que ergueram o nazismo. Os militantes da RAF, crian\u00e7as nos tempos nazistas que se revoltavam com aquela nova normalidade, foram feitos \u201cterroristas\u201d, n\u00e3o s\u00f3 em sua \u00e9poca, nas manchetes de jornais, mas para a hist\u00f3ria. No encontro dessa \u201cdemocracia\u201d com aquele \u201cterrorismo\u201d, a democracia matou e os terroristas foram os mortos; os laudos sobre a morte de Meinhof diziam \u201csuic\u00eddio por enforcamento\u201d, hist\u00f3ria que ouvir\u00edamos de novo, aqui no Brasil, tr\u00eas anos depois, em condi\u00e7\u00f5es similares. Compreender que a viol\u00eancia da RAF e a do estado alem\u00e3o eram diferentes, ainda que se queira fazer odes \u00e0 paz, \u00e9 primordial. Compreender que o estado alem\u00e3o se assenta nessa hist\u00f3ria tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Assim como s\u00e3o coisas diferentes que um certo agrupamento no Brasil tenha insistido em \u201cfazer a presidente sangrar\u201d, em revistar as urnas, em usar do apoio t\u00e1cito de ju\u00edzes e jornais, e por fim em seguir para um processo golpista, enquanto o outro tentava conceder, recompor, ignorar, sonhar. Mesmo que guerreassem mutuamente, n\u00e3o seriam iguais \u2013 porque n\u00e3o estavam em posi\u00e7\u00f5es iguais, tampouco partiam do mesmo ponto. Em toda guerra h\u00e1 um primeiro disparo, e os objetivos s\u00e3o sempre distintos \u2013 caso contr\u00e1rio, guerra nenhuma haveria.<\/p>\n<p>Felizmente, a hist\u00f3ria n\u00e3o acabou em 1991 e, ao inv\u00e9s de olharmos ao liberalismo e \u00e0 democracia no passado, podemos olh\u00e1-los hoje. Antes feitas sob o Destino Manifesto, o \u201cFardo do Homem Branco\u201d e a civiliza\u00e7\u00e3o de povos b\u00e1rbaros; hoje feitas pela \u201cliberdade\u201d e pela \u201cdemocracia\u201d, pela seguran\u00e7a nacional e internacional, contra o terrorismo: as guerras seguem sendo as mesmas. E, acima de tudo, n\u00e3o variam muito de acordo com as subjetividades pol\u00edticas de seus l\u00edderes: desde o final da Segunda Guerra, os Estados Unidos tiveram seis presidentes democratas e sete republicanos; ao menos 16 guerras cabem aos primeiros e 14 aos \u00faltimos. Que liberdade t\u00eam os novos escravos da L\u00edbia? Em quem votam os mortos no Iraque? Com que boca grita a soberania do Haiti? Qu\u00e3o democr\u00e1tico foi o golpe na Bol\u00edvia? S\u00e3o liberais os carabineros no Chile? As perguntas podem se estender ao territ\u00f3rio de qualquer favela das grandes metr\u00f3poles brasileiras, sem que nossos liberais e democratas se acanhem em falar em democracia, invocando a f\u00f3rmula m\u00e1gica das coisas que \u201cv\u00e3o melhorar aos poucos\u201d. Al\u00e9m de tudo, reivindicam para seu deus a premissa de decidir o ritmo da hist\u00f3ria \u2013 n\u00e3o cabe a ele, ent\u00e3o, a soberania de fato?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 justo observar que aspectos fundantes do totalitarismo nazista podiam ser encontrados na \u201cmaior democracia do mundo\u201d por at\u00e9 20 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, com as leis Jim Crow? \u00c9 verdadeiro observar algum tipo de \u201cigualdade do mal\u201d entre o Partido dos Panteras Negras e o FBI, ou ainda a Ku Klux Klan? N\u00e3o \u00e9 certo dizer que h\u00e1 uma continua\u00e7\u00e3o da Jim Crow no democrat\u00edssimo sistema prisional norte-americano, este sim o maior do mundo, onde os negros s\u00e3o maioria absoluta apesar de serem uma minoria nacional e onde prevalece o trabalho for\u00e7ado? A express\u00e3o m\u00e1xima da validade da contra-hist\u00f3ria de Losurdo n\u00e3o est\u00e1 precisamente na 13\u00aa Emenda norte-americana, que assegura que \u201cn\u00e3o haver\u00e1, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdi\u00e7\u00e3o, nem escravid\u00e3o, nem trabalhos for\u00e7ados, salvo como puni\u00e7\u00e3o de um crime pelo qual o r\u00e9u tenha sido devidamente condenado\u201d? N\u00e3o fica clara a contradi\u00e7\u00e3o real quando, na pr\u00f3pria letra da lei, a escravid\u00e3o e o trabalho for\u00e7ado s\u00e3o recha\u00e7ados a n\u00e3o ser como puni\u00e7\u00e3o por um crime, que convenientemente atinge desigualmente os filhos e netos dos que ontem sofriam o supl\u00edcio da escravid\u00e3o? O gulag sovi\u00e9tico acabou, quando acabar\u00e1 o norte-americano? E o brasileiro? Se o primeiro serve para os discursos liberais sobre o autoritarismo, por que os dois \u00faltimos s\u00e3o reconhecidos no m\u00e1ximo como \u201cfalhas\u201d que o tempo deve apagar?<\/p>\n<p>Pedro Marin<\/p>\n<p>24 anos, \u00e9 editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publica\u00e7\u00e3o, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. \u00c9 autor de &#8220;Golpe \u00e9 Guerra &#8211; Teses para enterrar 2016&#8221; e co-autor de &#8220;Carta no Coturno &#8211; A volta do Partido Fardado no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26238\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[234],"class_list":["post-26238","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Pc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26238","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26238"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26238\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26238"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26238"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26238"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}