{"id":26244,"date":"2020-10-05T22:40:36","date_gmt":"2020-10-06T01:40:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26244"},"modified":"2020-10-05T22:40:36","modified_gmt":"2020-10-06T01:40:36","slug":"quando-deixamos-de-exigir-o-impossivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26244","title":{"rendered":"Quando deixamos de exigir o imposs\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/09\/realistas-impossicc81vel-jones-boitempo.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u201cSoyez r\u00e9alistes, demandez l\u2019impossible\u201d [Sejamos realistas, exijamos o imposs\u00edvel\u201d], slogan de maio de 68, pichado em uma ponte parisiense. Foto de G\u00e9rard-Aim\u00e9, datada de 03.05.1968.<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>A burguesia ganhou a luta de classes no s\u00e9culo vinte. Precisamos de um balan\u00e7o hist\u00f3rico e pol\u00edtico s\u00e9rio da \u00e9poca contrarrevolucion\u00e1ria em que vivemos e das \u00faltimas d\u00e9cadas da esquerda brasileira. S\u00f3 assim poderemos libertar nossa imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pragmatismo rasteiro em que ela se encontra aprisionada.<\/p>\n<p>Uma cena nunca sair\u00e1 da minha mente. Na disciplina de Hist\u00f3ria Moderna de meu curso de Hist\u00f3ria na Universidade Federal de Pernambuco, minha professora, Socorro Abreu, disse que na sua \u00e9poca de juventude (ela se referia aos anos 1960) acreditar na revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o era um sonho, algo \u201cut\u00f3pico\u201d. Era a \u00e9poca das revolu\u00e7\u00f5es. Desde a derrota do nazifascismo, at\u00e9 as revolu\u00e7\u00f5es Chinesa, Coreana e Cubana, passando pela vit\u00f3ria do Vietn\u00e3 na grande Batalha de Dien Bien Phu, com processos de liberta\u00e7\u00e3o nacional incendiando imp\u00e9rios coloniais seculares pelo mundo. Era um per\u00edodo hist\u00f3rico em que o imposs\u00edvel parecia n\u00e3o existir. Exigir o imposs\u00edvel era poss\u00edvel e realista.<\/p>\n<p>Como esse presente era marcado por revolu\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es radicais, havia uma tend\u00eancia hist\u00f3rica de libertar a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pragmatismo rasteiro e da pequena pol\u00edtica, mesmo quando a conjuntura nacional era desfavor\u00e1vel. Chamo de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a capacidade de captar as potencialidades de transforma\u00e7\u00e3o inscritas na ordem atual e transformar o poss\u00edvel em real por meio da media\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria. \u00c9 o ato de olhar para o hoje com capacidade de ver um novo futuro como algo cr\u00edvel, pass\u00edvel de conquista \u2013 olhar o processo hist\u00f3rico como um ato de for\u00e7a pol\u00edtica por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando somos condicionados a pensar a hist\u00f3ria a partir da media\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica1 e passamos a enxergar as rela\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas que nos constituem n\u00e3o como parte da natureza humana abstrata e imut\u00e1vel, mas como produtos da a\u00e7\u00e3o humana, das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, da luta pol\u00edtica \u2013 nessas condi\u00e7\u00f5es, pensar a cria\u00e7\u00e3o radical de um mundo novo \u00e9 algo que surge como possibilidade hist\u00f3rica em v\u00e1rios setores da sociedade2.<\/p>\n<p>Era uma \u00e9poca hist\u00f3rica na qual confinar a pol\u00edtica ao calend\u00e1rio eleitoral ou apenas \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas era bem mais dif\u00edcil. Viv\u00edamos, a n\u00edvel mundial, um conflito de classes acirrad\u00edssimo que amea\u00e7ava, concretamente, a exist\u00eancia do capitalismo. Em momentos como esses, a ideologia dominante tamb\u00e9m perde for\u00e7a e as estruturas da sociedade capitalista ficam expostas como feridas que sangram. O pensamento cr\u00edtico \u00e9 turbinado e, retroalimentado pela pr\u00e1tica, enseja grandes contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o atenta revelar\u00e1 que parte substancial do que consideramos hoje pensamento cr\u00edtico \u00e9 produto de agendas de pesquisa, conceitos e teorias surgidos ou enriquecidas ao m\u00e1ximo nos anos 1950, 1960 e 1970 do s\u00e9culo passado. Foi um tempo glorioso no qual a palavra \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d era parte do vocabul\u00e1rio pol\u00edtico de toda uma gera\u00e7\u00e3o \u2013 das selvas do Vietn\u00e3 passando pelos guetos negros dos Estados Unidos, at\u00e9 as montanhas da China e os bairros oper\u00e1rios do Chile,<\/p>\n<p>Fim da hist\u00f3ria<br \/>\nTudo isso acabou. Os \u00faltimos suspiros revolucion\u00e1rios foram a vit\u00f3ria do Vietn\u00e3 sobre os Estados Unidos (1975), a Revolu\u00e7\u00e3o Nicaraguense (1979), a Revolu\u00e7\u00e3o de Saur no Afeganist\u00e3o (1978) e a Revolu\u00e7\u00e3o de Burkina Fasso (1983)3. A partir da segunda metade dos anos 1980, a contrarrevolu\u00e7\u00e3o neoliberal e neocolonial varreu o mundo. Foi o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do \u201ccampo socialista\u201d, a derrota dos projetos nacionais-libertadores em \u00c1frica e \u00c1sia (e os que sobreviveram, como a L\u00edbia de Muammar al-Gaddafi, n\u00e3o tinham mais a pot\u00eancia cr\u00edtica de antes), crise na China, Vietn\u00e3, Cuba, Coreia Popular e derrota do terceiro-mundismo.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria do capitalismo foi avassaladora. Ningu\u00e9m, desde o mais pessimista revolucion\u00e1rio at\u00e9 o mais otimista liberal, esperava uma derrota aparentemente t\u00e3o f\u00e1cil da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica4. Em sua hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica da luta de classes, Domenico Losurdo sintetiza bem o cen\u00e1rio desesperador para a esquerda a partir daquele momento:<\/p>\n<p>\u201cNo plano das rela\u00e7\u00f5es internacionais, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre o significado reacion\u00e1rio da virada que ocorreu entre 1989 e 1991. E, exatamente em 1991, ano do colapso da URSS e da primeira Guerra do Golfo, uma prestigiosa revista inglesa (International Affairs) publica no n\u00famero de julho um artigo de Barry G. Buzan que se conclu\u00eda anunciando com entusiasmo a boa nova: \u2018O Ocidente triunfou tanto no comunismo como no terceiro-mundismo\u2019. A segunda vit\u00f3ria n\u00e3o era menos importante que a primeira \u201choje o centro tem uma posi\u00e7\u00e3o mais dominante e a periferia uma posi\u00e7\u00e3o mais subordinada desde o in\u00edcio da descoloniza\u00e7\u00e3o\u201d; podia-se considerar felizmente arquivado o cap\u00edtulo da hist\u00f3ria das revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais\u201d<\/p>\n<p>Domenico Losurdo, A luta de classes: uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica (S\u00e3o Paulo, Boitempo, p. 280).<\/p>\n<p>A burguesia ganhou a luta de classes no s\u00e9culo vinte. Um dos seus principais esp\u00f3lios nessa guerra foi poder escrever a hist\u00f3ria desse s\u00e9culo e da modernidade burguesa no geral, expropriando as classes trabalhadoras de sua hist\u00f3ria. Um famoso ditado popular africano afirma que enquanto os le\u00f5es n\u00e3o tiverem historiadores, a hist\u00f3ria das ca\u00e7as vai continuar glorificando os ca\u00e7adores. O impacto pol\u00edtico, ideol\u00f3gico, cultural e simb\u00f3lico da derrota de 1989-1991 at\u00e9 hoje, ao nosso ver, n\u00e3o foi corretamente avaliado.<\/p>\n<p>Quando o assunto \u00e9 a conjuntura da contrarrevolu\u00e7\u00e3o neoliberal e neocolonial, \u00e9 muito comum que seja citado o ide\u00f3logo do imperialismo Francis Fukuyama e sua \u201cteoria\u201d do fim da hist\u00f3ria. Segundo ele, com a vit\u00f3ria sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 e o terceiro-mundismo \u2013, o mundo teria caminhado para uma converg\u00eancia universal na qual a democracia liberal e a economia de mercado \u2013 ou seja, o capitalismo \u2013 reinariam soberanos. Muitos riem do \u201cdiagn\u00f3stico\u201d e do triunfalismo expresso pelo ide\u00f3logo estadunidense. Eu, pelo contr\u00e1rio, acho que Fukuyama acertou. De fato adentramos uma \u00e9poca hist\u00f3rica dominante na qual a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi castrada, e o que se chama de esquerda, grosso modo, foi confinada ao papel de gerente \u201ccom preocupa\u00e7\u00e3o social\u201d do capitalismo.<\/p>\n<p>Democracia ou totalitarismo?<br \/>\nPretendo demonstrar essa tese a partir de quatro pontos fundamentais. O primeiro \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do consenso conservador em torno da democracia. A partir do mito de que o grande problema das experi\u00eancias socialistas do s\u00e9culo XX teria sido o autoritarismo, ou o totalitarismo, afirma-se um compromisso abstrato com a democracia e com o socialismo democr\u00e1tico ou o socialismo \u201ccom liberdade\u201d5. Todos os espectros pol\u00edticos s\u00e3o democr\u00e1ticos. Os mais \u201cradicais\u201d, por\u00e9m, querem ampliar a democracia: democratizar o Estado, a pol\u00edtica, a economia, a cultura e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas a fio o marxismo revolucion\u00e1rio defendeu a necessidade de destruir o Estado burgu\u00eas e construir uma outra forma de poder pol\u00edtico: o Estado prolet\u00e1rio ou poder popular. Logo ap\u00f3s a experi\u00eancia da Comuna de Paris, Marx e Engels redigem um novo pref\u00e1cio ao Manifesto Comunista. Nesse pequeno texto para a edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1872, eles destacam que a Comuna provou que \u201cn\u00e3o basta que a classe trabalhadora se apodere da m\u00e1quina estatal burguesa para faz\u00ea-la servir a seus pr\u00f3prios fins\u201d, mas que \u00e9 preciso quebrar essa m\u00e1quina e construir um poder pol\u00edtico dos trabalhadores6. Desde ent\u00e3o, de maneiras variad\u00edssimas e muito ac\u00famulo te\u00f3rico e pr\u00e1tico, os movimentos revolucion\u00e1rios mundo afora pensaram em formas alternativas de organizar o poder, a pol\u00edtica, o Estado e a democracia.<\/p>\n<p>A democracia era claramente adjetivada como burguesa, dos ricos, das grandes corpora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se tratava de democratizar essa estrutura pol\u00edtica, mas de neg\u00e1-la completamente. Com a vit\u00f3ria pol\u00edtica burguesa do final dos anos 1980, por\u00e9m, o jogo mudou completamente. O professor Luiz Vicente Vieira sintetizou bem o esp\u00edrito do tempo na seguinte passagem:<\/p>\n<p>\u201cTrata-se, primeiramente, daquela vis\u00e3o que se encontra pressuposta na maioria das an\u00e1lises sobre o sistema pol\u00edtico dominante, a qual considera o modelo em quest\u00e3o \u2013 o da democracia parlamentar \u2013 como o \u00e1pice da evolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da humanidade \u2026 segundo o qual qualquer tentativa de altera\u00e7\u00f5es substanciais no modelo representativo parlamentar nos conduziria necessariamente a algum beco sem sa\u00edda, como algumas formas de autoritarismo, o que pode ser facilmente detectado como suposto de in\u00fameras an\u00e1lises te\u00f3ricas do tema, de ampla aceita\u00e7\u00e3o na m\u00eddia impressa e televisionada\u201d.<\/p>\n<p>Luiz Vicente Vieira, A democracia com p\u00e9s de barro. O diagn\u00f3stico que mina as estruturas do Estado de direito (Recife: Editora UFPE, 2006, p. 15).<\/p>\n<p>Esse consenso conservador em torno da sacralidade ou canoniza\u00e7\u00e3o da democracia, al\u00e9m de esvaziar o horizonte estrat\u00e9gico de constru\u00e7\u00e3o de um verdadeiro poder popular, apaga total ou parcialmente um dos aspectos centrais da cr\u00edtica marxista do Estado burgu\u00eas. Marx, j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, tinha desenvolvido a cr\u00edtica das perspectivas de an\u00e1lise do Estado e da pol\u00edtica institucionalistas, focadas na formalidade jur\u00eddica e na din\u00e2mica sociol\u00f3gica de funcionamento das institui\u00e7\u00f5es, como se o Estado pudesse ser entendido como um ente em si mesmo. O criador do materialismo hist\u00f3rico compreende que<\/p>\n<p>\u201cAs rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, bem como as formas do Estado, n\u00e3o podem ser explicadas por si mesmas, nem pela chamada evolu\u00e7\u00e3o geral do esp\u00edrito humano; essas rela\u00e7\u00f5es t\u00eam, ao contr\u00e1rio, suas ra\u00edzes nas condi\u00e7\u00f5es materiais de exist\u00eancia, em suas totalidades, condi\u00e7\u00f5es estas que Hegel, a exemplo dos ingleses e dos franceses do s\u00e9culo XVIII, compreendia sob o nome de \u2018sociedade civil\u2019 [rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o]\u201d<\/p>\n<p>Karl Marx, Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica (S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 2008 [1859], p. 47)7<\/p>\n<p>Recalque econ\u00f4mico<br \/>\nCombina-se a esse abandono da cr\u00edtica radical do Estado e da democracia burguesa, (caindo no erro que Althusser t\u00e3o bem denunciava8) a aus\u00eancia de um programa econ\u00f4mico realmente transformador das esquerdas. A esquerda hegem\u00f4nica, guardada toda sua diversidade, simplesmente n\u00e3o tem programa econ\u00f4mico. Quando muito, se limita a propor mais \u201cinclus\u00e3o social\u201d \u2013 isto \u00e9, programas sociais e pol\u00edticas p\u00fablicas voltados para setores mais fragilizados, mas dentro do mesmo quadro de pol\u00edtica econ\u00f4mica, nos marcos do mesmo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o, das mesmas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. No geral, at\u00e9 os que se dizem socialistas e comunistas se refugiam na teoria keynesiana, cuja proposta mais radical \u00e9 uma reforma tribut\u00e1ria progressiva, que aumenta a taxa\u00e7\u00e3o de grandes fortunas, lucros e dividendos e o consumo de luxo. O que n\u00e3o significa dizer que essas propostas n\u00e3o tenham import\u00e2ncia t\u00e1tica.<\/p>\n<p>Durante boa parte do s\u00e9culo XX, o horizonte estrat\u00e9gico dos revolucion\u00e1rios de todo o mundo era o socialismo que se confundia com a planifica\u00e7\u00e3o da economia. Numa economia planificada os principais meios de produ\u00e7\u00e3o (f\u00e1bricas, fazendas, bancos, redes de grandes lojas etc.) seriam p\u00fablicos e socializados, e o processo de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os seria regulado de acordo com um plano econ\u00f4mico desenhado com vistas a atender plenamente \u00e0s necessidades humanas e n\u00e3o ao lucro. As experi\u00eancias de planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, com todos os seus problemas e contradi\u00e7\u00f5es \u2013 nenhum revolucion\u00e1rio afirmou que n\u00e3o haveria problemas a serem resolvidos e defeitos a serem corrigidos \u2013 foram absolutamente bem-sucedidas. As duas maiores experi\u00eancias de desenvolvimento socioecon\u00f4mico da hist\u00f3ria da humanidade \u2013 a sovi\u00e9tica e a chinesa, com modelos e formas de institucionalidade bem diferentes entre si \u2013 foram (e no caso da China, ainda \u00e9) baseados na planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica9.<\/p>\n<p>Sem falar nos \u00eaxitos civilizat\u00f3rios que, em maior ou menor medida, todas as experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o socialista alcan\u00e7aram \u2013 seja em termos de redu\u00e7\u00e3o ou fim da pobreza, mis\u00e9ria, fome, desigualdade, desemprego; aumento ou universaliza\u00e7\u00e3o da cobertura de saneamento b\u00e1sico, do tratamento de \u00e1gua e esgoto, do acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, lazer, da promo\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a; do desenvolvimento cient\u00edfico e t\u00e9cnico, da reforma agr\u00e1ria; al\u00e9m do aumento dos principais \u00edndices de qualidade de vida, da industrializa\u00e7\u00e3o, da moderniza\u00e7\u00e3o de equipamentos p\u00fablicos etc. Com a vit\u00f3ria da burguesia no final do s\u00e9culo XX, tudo isso foi apagado e, como num passe de m\u00e1gica, planifica\u00e7\u00e3o da economia passou a ser tratada, sem mais, como sin\u00f4nimo de inefici\u00eancia, atraso, escassez, fome etc.<\/p>\n<p>Com o processo de reforma e abertura da China, a coisa foi ainda mais longe. Se antes os ide\u00f3logos da burguesia podiam at\u00e9 dizer que a planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica era ruim embora o planejamento estatal de tipo keynesiano tivesse seus m\u00e9ritos, agora passava-se a retirar qualquer m\u00e9rito at\u00e9 mesmo do planejamento econ\u00f4mico de tipo capitalista. Toda forma de a\u00e7\u00e3o do Estado na economia \u00e9 uma trag\u00e9dia, tema proibido, sin\u00f4nimo de stalinismo, totalitarismo, desejo de genoc\u00eddio e coisas afins.<\/p>\n<p>A planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tamb\u00e9m foi reduzida a estatiza\u00e7\u00e3o geral, e a nacionaliza\u00e7\u00e3o ou estatiza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o condenadas, sem que qualquer substituto tenha sido posto em seu lugar. At\u00e9 hoje, nos momentos raros nos quais o tema \u00e9 abordado, tenta-se resolver o problema afirmando que o planejamento econ\u00f4mico \u00e9 defens\u00e1vel, desde que seja \u201cdemocr\u00e1tico\u201d, ou que socializa\u00e7\u00e3o e nacionaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos, reivindicando, de forma sempre muito abstrata, uma democracia oper\u00e1ria pura, de base e com autogest\u00e3o. Essa \u201calternativa\u201d, contudo, nunca conseguiu oferecer uma op\u00e7\u00e3o forte \u00e0 ideologia dominante de idolatria do \u201clivre mercado\u201d capitalista e \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal.<\/p>\n<p>Um exemplo perfeito da condena\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de qualquer forma de planifica\u00e7\u00e3o ou planejamento econ\u00f4mico foi a recente disputa pol\u00edtica na Inglaterra entre os partidos Trabalhista e Conservador. Jeremy Corbyn representa uma virada \u00e0 esquerda no trabalhismo brit\u00e2nico e defende, no seu programa econ\u00f4mico, uma s\u00e9rie de nacionaliza\u00e7\u00f5es de empresas e setores estrat\u00e9gicos da economia para desmantelar o legado neoliberal de Margaret Thatcher e dos governos seguintes. Frente a essa \u201cradicalidade\u201d, qual foi a resposta da burguesia inglesa e seus representantes pol\u00edticos?<\/p>\n<p>\u201cBoris Johnson lan\u00e7ou sua campanha no jornal conservador Daily Telegraph, comparando Jeremy Corbyn a Joseph St\u00e1lin: \u2018a trag\u00e9dia do moderno Partido Trabalhista sob Jeremy Corbyn \u00e9 que eles detestam o lucro visceralmente\u2026 eles apontam seus dedos para indiv\u00edduos com um prazer e uma vingan\u00e7a nunca vistos desde os gulags de St\u00e1lin\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Tariq Ali, \u201cO trabalhismo radical ir\u00e1 transformar a Inglaterra\u201d, Jacobin Brasil.<\/p>\n<p>A responsabilidade da esquerda<br \/>\nEssa recusa de apresentar um programa econ\u00f4mico radical e debater realmente temas fundamentais produziu um par de fen\u00f4menos intimamente ligados. O primeiro \u00e9 a ascens\u00e3o de formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas sobre igualdade a partir n\u00e3o de uma base material igualit\u00e1ria, mas formula\u00e7\u00f5es que transitam apenas no \u00e2mbito jur\u00eddico-pol\u00edtico, reflex\u00f5es \u00e9ticas ou teorias da comunica\u00e7\u00e3o. O sucesso de autores como J\u00fcrgen Habermas e Hannah Arendt e suas \u00e9ticas sem base material, especialmente a partir dos anos 1980, \u00e9 um dos maiores sintomas disso: imaginam uma mudan\u00e7a no mundo sem tocar na sua base econ\u00f4mica10.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno correlato \u00e9 o surgimento daquilo que se convencionou chamar de uma \u201cesquerda respons\u00e1vel\u201d, \u201cn\u00e3o populista\u201d \u2013 isto \u00e9, uma esquerda que mant\u00e9m o equil\u00edbrio fiscal, respeita os contratos e a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e faz uma governan\u00e7a n\u00e3o radical. Nesse caso, por esquerda respons\u00e1vel, entenda aquela zelosa por manter intocados todos os fundamentos da ordem burguesa e fazer uma gest\u00e3o com, no m\u00e1ximo, algum n\u00edvel de \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o social\u201d. O maior exemplo disso na hist\u00f3ria recente do nosso pa\u00eds foi Lula da Silva, que depois de eleito, colocou o funcion\u00e1rio do Bank Boston, Henrique Meirelles, para dirigir o Banco Central Brasileiro e garantiu ao ent\u00e3o presidente estadunidense George W. Bush, ainda em 2002, antes mesmo de assumir o mandato, que seu governo respeitaria todos os contratos11.<\/p>\n<p>Mais ou menos pol\u00edtica social, mais ou menos servi\u00e7os p\u00fablicos, privatiza\u00e7\u00f5es mais radicais ou mais brandas, mais ou menos pol\u00edticas de \u201cinclus\u00e3o de minorias\u201d e assim por diante. \u00c9 basicamente esse tipo de escolha em jogo nas elei\u00e7\u00f5es quando disputam uma direita cl\u00e1ssica, estilo PSDB, e uma \u201cesquerda respons\u00e1vel\u201d, como o PT (ou democratas e republicanos nos EUA, trabalhistas e conservadores na Inglaterra etc.).<\/p>\n<p>Com a sa\u00edda de cena do debate sobre poder popular e planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a perspectiva de reformas estruturais tamb\u00e9m ficou \u00f3rf\u00e3. Durante boa parte do s\u00e9culo XX, o grande confronto no movimento oper\u00e1rio era entre reformistas e revolucion\u00e1rios. Os primeiros, ainda que sem propor superar o capitalismo, defendiam reformas reais e pol\u00edticas com subst\u00e2ncia de transforma\u00e7\u00e3o. Um exemplo cl\u00e1ssico do reformismo para fazer frente aos comunistas foi o sistema de Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, da Inglaterra, o NHS (National Health Service).<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos grandes paradoxos da virada neoliberal. Depois da derrota do movimento comunista, os trabalhistas, os social democratas e afins achavam que seriam a \u00fanica alternativa de pol\u00edtica \u00e0 esquerda. A realidade, todavia, mostrou esses movimentos esvaziando-se de qualquer perspectiva reformista com algum grau de profundidade, transformando-se, na maioria dos casos, em gestores neoliberais do sistema12.<\/p>\n<p>O pesquisador Maurilio Lima Botelho, colaborador aqui do Blog da Boitempo, resume bem esse processo ao escrever sobre o abandono das perspectivas de transforma\u00e7\u00e3o estrutural no \u00e2mbito da pol\u00edtica urbana. Diz ele:<\/p>\n<p>\u201cToda reviravolta no trato da \u2018quest\u00e3o urbana\u2019 \u00e9 parte do \u2018giro culturalista\u2019 ocorrido na filosofia e na teoria social nas \u00faltimas d\u00e9cadas: os projetos de reforma urbana em grande escala, remo\u00e7\u00e3o, reordenamento vi\u00e1rio e territorial, seja planejado por um Estado socialista ou fascista, seja realizado por governos democr\u00e1ticos, todos s\u00e3o tratados como solu\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas e \u2018radicais\u2019 para a quest\u00e3o urbana e, por isso, descartados.<\/p>\n<p>A prolifera\u00e7\u00e3o de conceitos como \u2018capital social\u2019, \u2018capital cultural\u2019, \u2018microcr\u00e9dito\u2019, e \u2018autoempreendimento\u2019 veio comprovar na teoria social a coloniza\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o cr\u00edtica pelas necessidades imediatas da administra\u00e7\u00e3o social da mis\u00e9ria. O resultado te\u00f3rico desse tipo de reflex\u00e3o \u00e9 a legitima\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais dadas \u2013 a assun\u00e7\u00e3o e a afirma\u00e7\u00e3o do positivo, isto \u00e9, do que est\u00e1 dado e que, como dado, deve ser melhorado, e n\u00e3o radicalmente criticado ou superado. O limite disso, em nome de um pretenso respeito ao ato individual dos sujeitos que conseguem resolver seus problemas sem depender da assist\u00eancia estatal, \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o da precariedade em modelo de \u2018iniciativa empresarial individual\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Maurilio Lima Botelho, \u201cCrise urbana no Rio de Janeiro: faveliza\u00e7\u00e3o e empreendedorismo dos pobres\u201d, em: Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira (orgs.) At\u00e9 o \u00faltimo homem: vis\u00f5es cariocas da administra\u00e7\u00e3o armada da vida social (Boitempo, 2013, p. 183-184).<\/p>\n<p>Essa exclus\u00e3o de \u201csolu\u00e7\u00f5es radicais\u201d, seja como pol\u00edtica revolucion\u00e1ria, seja reformista, reverberou em todos os campos. Por anos, como forma de tentar enfrentar o movimento oper\u00e1rio, a burguesia e seus intelectuais tamb\u00e9m apresentavam solu\u00e7\u00f5es, digamos, estruturais, para os problemas sociais: propunham o fim da pobreza, da mis\u00e9ria, da desigualdade, da fome. Ainda que suas solu\u00e7\u00f5es fossem falsas \u2013 geralmente visando reproduzir os interesses da burguesia apresentando-os como se fossem a vontade de todo povo \u2013 ao menos no plano do discurso, falava-se abertamente que pod\u00edamos acabar com as chagas sociais, como a pobreza. Com a virada neoliberal e a derrota da URSS, tudo passou a resumir-se a pol\u00edticas p\u00fablicas focalizadas sem car\u00e1ter universal, tirando de cena a perspectiva de reformas \u2013 para n\u00e3o falar, \u00e9 claro, de revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos maiores sintomas disso foi o chamado \u201cciclo progressista\u201d na Am\u00e9rica Latina. A maioria desses governos n\u00e3o realizou qualquer reforma significativa, contentando-se com a formula\u00e7\u00e3o ou amplia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais e p\u00fablicas existentes. Sem pautar sequer reformas, o que se conhece como esquerda se rebaixa ao papel de mero gestor do sistema, com alguma preocupa\u00e7\u00e3o social de verniz crist\u00e3o \u2013 verniz esse com menos radicalidade do que Dom Helder C\u00e2mara, que dizia: \u201cquando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles s\u00e3o pobres, chamam-me de comunista\u201d.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o militar<br \/>\nPor \u00faltimo, sem perspectiva de poder popular, revolu\u00e7\u00e3o, planifica\u00e7\u00e3o da economia e at\u00e9 grandes reformas, torna-se sup\u00e9rfluo, para n\u00e3o dizer inc\u00f4modo, pensar a dimens\u00e3o pol\u00edtico-militar da luta pol\u00edtica. Aconteceu uma ruptura te\u00f3rica, organizativa e pol\u00edtica de longo prazo na forma das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas revolucion\u00e1rias quanto \u00e0 quest\u00e3o militar. At\u00e9 mais ou menos 1970, com variedade de temporalidade a depender do pa\u00eds, os partidos que se reivindicavam revolucion\u00e1rios tinham uma grande preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o militar. Isso porque entendiam o b\u00e1sico, isto \u00e9, que a classe dominante nunca entregaria seu poder sem luta e que, nos momentos de acirramento da luta de classes, a dimens\u00e3o militar da luta pol\u00edtica assume o primeiro plano.<\/p>\n<p>Ao abordar como se analisam as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em pol\u00edtica, Antonio Gramsci aponta tr\u00eas elementos como centrais: a) as estruturas econ\u00f4micas objetivas em todos os seus determinantes; b) n\u00edveis de organiza\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia pol\u00edtica, consci\u00eancia de classe, programa pol\u00edtico etc.; c) \u201ca rela\u00e7\u00e3o das for\u00e7as militares, imediatamente decisiva em cada oportunidade concreta\u201d (Gramsci, cit., p. 43). Partidos pol\u00edticos, como o Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1ria (MIR) do Chile e o Partido Comunista Brasileiro (PCB), tinham n\u00e3o apenas se\u00e7\u00f5es militares, como, no caso do MIR, um servi\u00e7o secreto reconhecido por suas qualidades13.<\/p>\n<p>Mais do que isso. Al\u00e9m dessa dimens\u00e3o fundamental da luta revolucion\u00e1ria ter sido relegada, efetuou-se uma grande ruptura na forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos dirigentes pol\u00edticos. St\u00e1lin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Luiz Carlos Prestes, L\u00eanin, Palmiro Togliatti, Antonio Gramsci, Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, Che Guevara, Thomas Sankara e tantos outros l\u00edderes, guardadas todas as suas diferen\u00e7as, tinham ao menos uma semelhan\u00e7a. Todos entendiam de teoria militar e sabiam pensar a guerra como continuidade da pol\u00edtica. Ser um dirigente revolucion\u00e1rio, nas d\u00e9cadas passadas, significava entender da ci\u00eancia das armas.<\/p>\n<p>Essa ruptura te\u00f3rica foi adornada com ares democr\u00e1ticos: ignorar a dimens\u00e3o pol\u00edtico-militar da estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria significaria um compromisso com a democracia, agora, um valor universal, para n\u00e3o cair mais nos erros do autoritarismo ou totalitarismo. Carlos Nelson Coutinho, nos anos 1980, assimila um partido com preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-militares ao \u201cgolpismo\u201d e diz:<\/p>\n<p>\u201cParece-me fundamental, contudo, que n\u00e3o sejam partidos golpistas, militarizados, constru\u00eddos em fun\u00e7\u00e3o da ideia de uma revolu\u00e7\u00e3o explosiva e violenta, e que tenham uma estrutura interna adequada a essa vis\u00e3o anacr\u00f4nica. Tem de ser, ao contr\u00e1rio, partidos democr\u00e1ticos, de massa, pois essa \u00e9 a \u00fanica forma de contribuir para a constru\u00e7\u00e3o da hegemonia numa sociedade complexa e \u201cocidental\u201d como a brasileira de hoje\u201d<\/p>\n<p>Carlos Nelson Coutinho, \u201cMesa redonda: a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, em: Perry Anderson, As antinomias de Gramsci (Joru\u00eas, 1986, p. 135).<\/p>\n<p>Perceba as equa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que emergem: preocupa\u00e7\u00e3o militar equivale a \u201cgolpismo\u201d; sem preocupa\u00e7\u00e3o militar equivale a \u201cdemocr\u00e1tico\u201d. Esse tipo de formula\u00e7\u00e3o se reveste de um ar de superioridade moral e \u00e9tica, mas segue preso a um pacifismo abstrato e a uma recusa a priori e idealista da viol\u00eancia revolucion\u00e1ria. O historiador Euclides Vasconcelos, em um escrito paradigm\u00e1tico, resumiu bem a situa\u00e7\u00e3o no Brasil:<\/p>\n<p>\u201cNo caso dos marxistas brasileiros, excetuando-se casos pontuais, a quest\u00e3o militar tem sido preterida sabe-se l\u00e1 sob qual justificativa. A negativa em tratar de temas relacionados \u00e0 viol\u00eancia, poder, estrat\u00e9gia e uso da for\u00e7a em nada nos faz moralmente superiores \u00e0queles que, servindo \u00e0 ordem, manuseiam muito bem os fuzis da hist\u00f3ria. Antes, se a quest\u00e3o moral for o par\u00e2metro, saibamos que \u2018aos justos convictos a necessidade estrat\u00e9gica \u00e9 tamb\u00e9m uma imposi\u00e7\u00e3o moral\u2019. Ou, para ficarmos em Marx, cabe lembrar a primeira parte de um aviso bastante pertinente: \u2018as armas da cr\u00edtica n\u00e3o podem, de fato, substituir a cr\u00edtica das armas; a for\u00e7a material tem de ser deposta pela for\u00e7a material\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Euclides Vasconcelos, \u201cOs marxistas brasileiros e a ci\u00eancia militar: apontamentos de nosso atraso no estudo da cr\u00edtica das armas\u201d, Revista \u00d3pera, 1 jun. 2019.<\/p>\n<p>Em suma, sem a perspectiva de construir outra forma pol\u00edtica para al\u00e9m da democracia burguesa, banindo do debate o fim da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o (e, como consequ\u00eancia, a discuss\u00e3o sobre planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica), tirando de cena o debate sobre reformas estruturais e a dimens\u00e3o pol\u00edtico-militar da luta de classes, temos uma esquerda domesticada, n\u00e3o perigosa e no limite funcional \u00e0 ordem. Uma esquerda que garante um sono tranquilo para a burguesia. Os que comem tamb\u00e9m dormem. Numa situa\u00e7\u00e3o dessas, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter medo dos famintos14.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9 simples. Precisamos de um balan\u00e7o hist\u00f3rico e pol\u00edtico s\u00e9rio da \u00e9poca contrarrevolucion\u00e1ria em que vivemos e das \u00faltimas d\u00e9cadas da esquerda brasileira. O problema n\u00e3o est\u00e1 no reino da pequena pol\u00edtica: n\u00e3o est\u00e1 no \u201chegemonismo do PT\u201d, no egocentrismo de Lula, na querela sobre n\u00e3o se ter apoiado Ciro Gomes ou qualquer ninharia do tipo. O problema \u00e9 bem mais profundo e precisa ser encarado com toda seriedade e cr\u00edtica necess\u00e1ria. Passou da hora de irmos \u00e0s ra\u00edzes do problema. Fazer esse balan\u00e7o pol\u00edtico s\u00e9rio e sistem\u00e1tico \u00e9 parte da luta pela Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>1 Como diriam Marx e Engels, \u201ca hist\u00f3ria de todas as sociedades at\u00e9 hoje existentes \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes\u201d (Manifesto Comunista, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2010, p. 40).<br \/>\n2 \u201cA inova\u00e7\u00e3o fundamental introduzida pela filosofia da pr\u00e1xis [o marxismo] na ci\u00eancia da pol\u00edtica e da hist\u00f3ria \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existe uma \u201cnatureza humana\u201d abstrata, fixa e imut\u00e1vel [\u2026], mas que a natureza humana \u00e9 o conjunto das rela\u00e7\u00f5es historicamente determinadas, ou seja, um fato hist\u00f3rico verific\u00e1vel, dentro de certos limites, com os m\u00e9todos da filologia e da cr\u00edtica. Portanto, a ci\u00eancia pol\u00edtica deve ser concebida em seu conte\u00fado concreto (e tamb\u00e9m em sua formula\u00e7\u00e3o l\u00f3gica) como um organismo em desenvolvimento.\u201d Antonio Gramsci, Cadernos do c\u00e1rcere, vol. 3: Maquiavel \u2013 Notas sobre o Estado e a pol\u00edtica (Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2017, p. 56-57).<br \/>\n3 A prop\u00f3sito, Thomas Sankara foi o \u00faltimo grande revolucion\u00e1rio produzido pelo ciclo hist\u00f3rico do s\u00e9culo XX aberto com a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917. Sobre a obra de Thomas Sankara, conferir Revolu\u00e7\u00e3o africana: uma antologia do pensamento marxista (S\u00e3o Paulo, Autonomia Liter\u00e1ria, 2019, p. 297-397).<br \/>\n4 O melhor livro sobre o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e9 O socialismo tra\u00eddo: por tr\u00e1s do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, de Roger Keeran e Thomas Kenny (Lisboa, Avente!, 2008).<br \/>\n5 Para uma cr\u00edtica desse diagn\u00f3stico, com \u00eanfase para os casos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e China Popular, geralmente tratados como os maiores exemplos de totalitarismo, ver o livro Fuga na hist\u00f3ria? A Revolu\u00e7\u00e3o Russa e a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa vistas de hoje, de Domenico Losurdo (Rio de Janeiro, Editora Revan, 2004).<br \/>\n6 Karl Marx e Friedrich Engels, \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1872\u201d, em Manifesto Comunista, cit. p. 72. No trecho citado, os pr\u00f3prios autores remetem o leitor ao rec\u00e9m-escrito panfleto de Marx sobre a Comuna, A guerra civil na Fran\u00e7a, onde essa ideia aparece mais desenvolvida.<br \/>\n7 \u201cO Estado encontra-se assim, visceralmente comprometido com o processo de acumula\u00e7\u00e3o. O aparelho pol\u00edtico estatal passa a assumir, ent\u00e3o, uma dupla tarefa. Tanto a fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, visando \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do capital, ou seja, a supervis\u00e3o do processo de acumula\u00e7\u00e3o, bem como aquela fun\u00e7\u00e3o social, como a da integra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho no equil\u00edbrio do sistema pol\u00edtico econ\u00f4mico\u201d. Luiz Vicente Vieira, A democracia com p\u00e9s de barro: o diagn\u00f3stico que mina as estruturas do Estado de direito (Recife: Editora UFPE, 2006, p. 63).<br \/>\n8 \u201cNa verdade, e pe\u00e7o que ponderem bem estas palavras, \u2018destruir\u2019 o Estado burgu\u00eas, para substitu\u00ed-lo pelo Estado da classe oper\u00e1ria e de seus aliados, n\u00e3o \u00e9 juntar o adjetivo \u2018democr\u00e1tico\u2019 a cada aparelho de Estado existente, \u00e9 muito diferente de uma opera\u00e7\u00e3o formal e potencialmente reformista, \u00e9 revolucionar em sua estrutura, em sua pr\u00e1tica e em sua ideologia os aparelhos de Estado existentes, suprimir alguns, criar outros, \u00e9 transformar as formas da divis\u00e3o do trabalho entre os aparelhos repressivos, pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos, \u00e9 revolucionar seus m\u00e9todos de trabalho e a ideologia burguesa que domina suas pr\u00e1ticas, \u00e9 assegurar-lhes novas rela\u00e7\u00f5es com as massas a partir das iniciativas das massas, na base de uma nova ideologia, prolet\u00e1ria, a fim de preparar o \u2018perecimento do Estado\u2019, isto \u00e9, a sua substitui\u00e7\u00e3o pelas organiza\u00e7\u00f5es de massa. Essa exig\u00eancia sustenta a teoria marxista do Estado\u201d. Louis Althusser, Crise du marxisme et critique de l\u2019\u00c9tat (Champagne-Ardenne: Le Clou dans le Fer, 1978, p. 54).<br \/>\n9 \u201cA tese da intr\u00ednseca inferioridade do planejamento centralizado deve explicar como a URSS passou de uma economia atrasada e arrasada pela guerra para a segunda economia industrial do mundo em um espa\u00e7o de trinta anos\u201d. Carlos Aguiar de Medeiros, citado em: Jo\u00e3o Quartim de Moraes, \u201cO mito do fracasso econ\u00f4mico da URSS\u201d. Cr\u00edtica Marxista, n\u00b0 40, S\u00e3o Paulo, 2015, p. 136.<br \/>\n10 \u201cNeste aspecto, \u00e9 surpreendente como boa parte das \u00e9ticas contempor\u00e2neas, t\u00e3o em voga nas academias, busca encontrar solu\u00e7\u00e3o para os problemas da sociedade contempor\u00e2nea, a partir de pretensos princ\u00edpios morais universaliz\u00e1veis, sem considerar a sua viabilidade junto \u00e0 base econ\u00f4mica-material que move a sociedade civil. Como se fosse poss\u00edvel construir-se valores morais justos sobre uma infraestrutura injusta. \u00c9 o caso das \u00e9ticas discursivas de K. Apel e J. Habermas e da teoria da justi\u00e7a de Jonh Rawls\u201d. Luiz Vicente Vieira, A democracia com p\u00e9s de barro: o diagn\u00f3stico que mina as estruturas do Estado de direito (Recife: Editora UFPE, 2006, p. 16).<br \/>\n11 Um bom exemplo pr\u00e1tico da rela\u00e7\u00e3o entre o crescimento de \u00e9ticas sobre igualdade sem base material e a forma\u00e7\u00e3o dessa \u201cesquerda respons\u00e1vel\u201d \u00e9 o pr\u00f3prio PT, como mostra Caio Navarro de Toledo nesse artigo j\u00e1 cl\u00e1ssico: \u201csobre o tema da viol\u00eancia, a tend\u00eancia \u2018Um projeto para o Brasil\u2019 tem uma posi\u00e7\u00e3o muito n\u00edtida. Numa de suas teses, apresentada ao I Congresso do PT, ap\u00f3s pleitear a reestrutura\u00e7\u00e3o da ONU \u2013 \u2018que precisa ser democratizada e adquirir poder real\u2019 -, prop\u00f5e que o partido se afirme \u2018como uma organiza\u00e7\u00e3o adepta da n\u00e3o viol\u00eancia\u2019. N\u00e3o deixa de ser ilustrativo que intelectuais e militantes vinculados \u00e0 tend\u00eancia PPB, constantemente e com muito entusiasmo, passem a endossar a \u00e9tica kantiana e as formula\u00e7\u00f5es de autores como A. Heller, H. Arendt, J. Habermas e outros. O tema da \u00e9tica na pol\u00edtica \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o permanente, abordado sob a \u00f3tica de um humanismo abstrato que pouco tem a ver com uma perspectiva cr\u00edtica e materialista\u201d. Caio Navarro de Toledo, \u201cA modernidade democr\u00e1tica da esquerda: adeus \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o?\u201d Cr\u00edtica Marxista, 1994, n\u00b0 01, p. 37.<br \/>\n12 O pensador marxista James Petras \u00e9 certeiro ao apontar o n\u00facleo central desse aparente paradoxo entre golpe de quase morte no movimento comunista e enfraquecimento correlato do seu principal rival, os social-democratas: \u201ca esquerda ocidental e intelectuais liberais tiveram um papel vital em ofuscar a importante contribui\u00e7\u00e3o positiva que o bem-estar sovi\u00e9tico prestou ao pressionar os regimes capitalistas do Ocidente para seguir seu exemplo. Durante as d\u00e9cadas que se seguiram \u00e0 morte de Stalin e como a sociedade sovi\u00e9tica caminhava rumo a um sistema h\u00edbrido de welfarismo autorit\u00e1rio, estes intelectuais continuaram a se referir a tais regimes como \u2018stalinistas\u2019, obscurecendo a sua principal fonte de legitima\u00e7\u00e3o entre os seus cidad\u00e3os \u2013 seu avan\u00e7ado sistema de bem-estar. Os mesmos intelectuais iriam clamar que o \u2018sistema stalinista\u2019 era um obst\u00e1culo ao socialismo e viraram os trabalhadores contra seus aspectos positivos como Estado de bem-estar, mantendo o foco exclusivamente no velho \u2018Gulag\u2019. Eles argumentavam que a \u2018queda do stalinismo\u2019 iria promover uma grande abertura pelo \u2018socialismo democr\u00e1tico revolucion\u00e1rio\u2019. Na realidade, a queda do welfarismo-coletivista levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica do Estado de bem-estar, tanto no Leste quanto no Oeste, favorecendo a ascend\u00eancia das mais virulentas formas do primitivo capitalismo neoliberal. Por sua vez, isto levou ao encolhimento do movimento sindical e estimulou a \u2018virada \u00e0 direita\u2019 dos partidos social-democratas e trabalhistas atrav\u00e9s das ideologias do \u2018Novo Trabalhismo\u2019 e da \u2018Terceira Via\u2019. Os intelectuais da esquerda \u2018anti-stalinista\u2019 nunca entraram em qualquer reflex\u00e3o s\u00e9ria a respeito de seu pr\u00f3prio papel na derrubada do Estado de bem-estar coletivo, bem como n\u00e3o assumiram qualquer responsabilidade pelas devastadoras consequ\u00eancias socioecon\u00f4micas, tanto no Leste quanto no Ocidente\u201d. James Petras, \u201cO Estado de Bem-Estar Ocidental: ascens\u00e3o e queda do Bloco Sovi\u00e9tico\u201d.<br \/>\n13 Sobre o MIR chileno, conferir o livro de Ruy Mauro Marini, Reformismo e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o \u2013 estudos sobre o Chile (S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 2019). Sobre o aparato militar do PCB, ver o livro de Paulo Ribeiro da Cunha, Militares e milit\u00e2ncia: uma rela\u00e7\u00e3o dialeticamente conflituosa (S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2013).<br \/>\n14 Refer\u00eancia a uma famosa frase atribu\u00edda ao ge\u00f3grafo Josu\u00e9 de Castro: \u201cexistem apenas duas classes sociais, as do que n\u00e3o comem e as dos que n\u00e3o dormem com medo da revolu\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o comem\u201d.<\/p>\n<p>* * *<br \/>\nDicas de leitura<br \/>\nA luta de classes: uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica, de Domenico Losurdo<br \/>\nAt\u00e9 o \u00faltimo homem: vis\u00f5es cariocas da administra\u00e7\u00e3o armada da vida social, de Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira (orgs.)<br \/>\nChe Guevara e o debate econ\u00f4mico em Cuba, de Luiz Bernardo Peric\u00e1s<br \/>\nO marxismo ocidental, de Domenico Losurdo.<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26244\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[219],"class_list":["post-26244","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Pi","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26244"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26244\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}