{"id":26248,"date":"2020-10-07T22:02:09","date_gmt":"2020-10-08T01:02:09","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26248"},"modified":"2020-10-07T22:02:09","modified_gmt":"2020-10-08T01:02:09","slug":"romenia-capitalismo-e-trafico-de-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26248","title":{"rendered":"Rom\u00eania: capitalismo e tr\u00e1fico de mulheres"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-3S8SHnlvQ48\/X0_Z3PpQ4nI\/AAAAAAAAZzI\/Y2HhGCs_zHYVT-JxgNM90Rn6E8MlscKrwCLcBGAsYHQ\/w384-h271\/%255ED79AAB1A5762E68F0F4A5744014842A048BF629CDBAE20DB90%255Epimgpsh_fullsize_distr.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Rayo Vallekano<\/p>\n<p>Ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas de capitalismo selvagem, a Rom\u00eania tornou-se o principal exportador de carne humana da Europa, um dos grandes &#8220;\u00eaxitos&#8221; da terapia de choque liberal, juntamente com o fato de que desde 1990 mais de 5 milh\u00f5es de habitantes tiveram que fugir do pa\u00eds por raz\u00f5es econ\u00f4micas e metade dos empregos que existiam na \u00e9poca do golpe que liquidou o per\u00edodo socialista foram destru\u00eddos. Na verdade, e pelas mesmas raz\u00f5es, \u00e9 tamb\u00e9m o principal exportador de m\u00e3o-de-obra barata para bem dos lucros das empresas dos pa\u00edses mais ricos da Europa.<\/p>\n<p>Isto pode ser lido na recente investiga\u00e7\u00e3o intitulada How Romanian Became Europe&#8217;s Sex Trafficking Factory , que estuda como o tr\u00e1fico de mulheres evoluiu na Rom\u00eania desde a entrada do pa\u00eds na Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Assim, vinte anos ap\u00f3s o golpe de dezembro de 1989, em 2010, a ONU estimou que o n\u00famero de mulheres anualmente traficadas e exploradas sexualmente aumentou na Europa para 140 mil. O aumento deveu-se tamb\u00e9m \u00e0 chegada de mulheres prostitu\u00eddas originadas de outras partes do mundo: Am\u00e9rica do Sul, \u00c1frica, Leste Asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Embora o fen\u00f4meno do tr\u00e1fico sexual no espa\u00e7o p\u00f3s-sovi\u00e9tico tenha sofrido alguma redu\u00e7\u00e3o, os Balc\u00e3s continuaram a liderar a estat\u00edstica fornecendo 32% de todas as mulheres prostitu\u00eddas que trabalham na Europa Ocidental, com a Rom\u00eania em primeiro lugar, seguida pela Bulg\u00e1ria. No in\u00edcio do ano 2000, cerca de 120 mil mulheres foram traficadas para prostitui\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o sexual na Europa. Muitas delas vieram do espa\u00e7o p\u00f3s-sovi\u00e9tico, principalmente da Ucr\u00e2nia (7 a 11%) e da R\u00fassia (3 a 5%), mas a grande maioria era da Rom\u00eania e da Mold\u00e1via (45%). Naquela \u00e9poca, as mulheres eram frequentemente sequestradas ou convencidas \u00e0 for\u00e7a. Umas 60% declararam que a pr\u00f3pria fam\u00edlia estava por detr\u00e1s do &#8220;acordo&#8221; e apenas uma pequena minoria afirmou ter sido enganada com falsas promessas de casamento ou amante transformado em proxeneta.<\/p>\n<p>De acordo com um relat\u00f3rio de 2013 da Comiss\u00e3o Europeia, a Rom\u00eania e a Bulg\u00e1ria representaram, juntas, 61% de todas as v\u00edtimas femininas de tr\u00e1fico sexual anual na UE. Na verdade, quatro em cada cinco v\u00edtimas eram romenas. Cinco anos depois, em 2018, a UE publicou um novo relat\u00f3rio sobre o assunto, apontando mais uma vez a Rom\u00eania como l\u00edder indiscut\u00edvel das estat\u00edsticas desde 2010, sendo o tr\u00e1fico de mulheres romenas a origem de 44% de todos os julgamentos realizados a este respeito na Comunidade Europeia.<\/p>\n<p>O estudo mais recente sobre o tema, realizado em conjunto pela Europol e a Eurojust e publicado no ano passado, concluiu que 7 em cada 10 mulheres prostitu\u00eddas europeias s\u00e3o da Rom\u00eania, evidencia uma mudan\u00e7a de paradigma: a viol\u00eancia deixou de ser o principal meio utilizado para o tr\u00e1fico sexual \u2013 com envolvimento de redes mafiosas \u2013, visto que aumentam os casos de mulheres que afirmam ter-se prostitu\u00eddo voluntariamente por dinheiro. Algo que, no entanto, jornais romenos t\u00eam questionado, compilando o testemunho de algumas ex-prostitutas que denunciaram viol\u00eancia, abuso, fraude, sequestro for\u00e7ado e vendas for\u00e7adas.<\/p>\n<p>A demografia da prostitui\u00e7\u00e3o mudou um pouco nos \u00faltimos anos, mas no sentido de que a Rom\u00eania aumentou consideravelmente a sua percentagem de mulheres prostitu\u00eddas no cen\u00e1rio continental, separando-se claramente como l\u00edder dos outros pa\u00edses e tornando-se o primeiro exportador europeu.<\/p>\n<p>As mulheres prostitu\u00eddas romenas representam a primeira nacionalidade na maioria dos pa\u00edses da Europa Ocidental. Na Alemanha, de acordo com os dados mais recentes, vindos diretamente de bord\u00e9is em funcionamento legal, em 2018 cerca de 32.800 mulheres trabalhavam na ind\u00fastria da prostitui\u00e7\u00e3o, das quais 26.800 eram estrangeiras e 11.400 eram romenas. Isso significa que as mulheres romenas representam 35% das profissionais do sexo em atividade na Alemanha.<\/p>\n<p>Evidentemente, nem todas as prostitutas optam por se registar e, segundo as proje\u00e7\u00f5es feitas, na Alemanha, pode haver at\u00e9 400 mil profissionais do sexo. Nem todas, \u00e9 claro, trabalham em casas de sexo legalmente registadas, pois muitas ainda trabalham nas ruas, enquanto outras s\u00e3o acompanhantes independentes. Poderia ser interessante investigar esta realidade clandestina para entender o n\u00famero real de trabalhadoras do sexo romenas. A romaniza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do sexo na Alemanha \u00e9 tal que alguns bord\u00e9is promovem-se anunciando aos clientes em potencial que s\u00e3o &#8220;100% romenas&#8221;, usando an\u00fancios como: &#8220;N\u00e3o se preocupe, nossas meninas s\u00e3o muito bonitas, elas s\u00e3o verdadeiras romenas!&#8221;<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, segundo dados Associa\u00e7\u00e3o Giovanni XXIII, existem entre 100 mil e 120 mil prostitutas de rua. A Rom\u00eania \u00e9 a segunda nacionalidade mais representada (22%), depois da Nig\u00e9ria (36%). O que \u00e9 realmente chocante \u00e9 que das supostas 20.000 ou 30.000 prostitutas romenas baseadas na It\u00e1lia, a grande maioria \u00e9 composta por menores: 15 mil .<\/p>\n<p>Na Espanha, de acordo com um relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio do Interior, acredita-se que as mulheres romenas representem entre 35% a 50% de todas as prostitutas que trabalham no pa\u00eds e a maioria delas s\u00e3o comprovadamente v\u00edtimas de abuso violento e tortura, sequestradas por bandos criminosos nas suas cidades de origem.<\/p>\n<p>Em resumo, a Rom\u00eania ocupa o 11\u00ba lugar no mundo em termos de trabalhadoras sexuais per capita: 80 por 10.000 habitantes, ou seja, cerca de 158 mil. De acordo com um relat\u00f3rio de 2010 da Tampep, sediada em Amsterd\u00e3, 50% de todas as prostitutas de rua na Rom\u00eania s\u00e3o de origem romani (cigana). Este \u00e9 apenas um exemplo da flagrante segrega\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o cigana neste pa\u00eds, encerrada em guetos e exclu\u00edda da educa\u00e7\u00e3o ou do trabalho com a complac\u00eancia das autoridades.<\/p>\n<p>Esta complac\u00eancia tamb\u00e9m se encontra no pr\u00f3prio tr\u00e1fico sexual de mulheres romenas, sendo cada vez maiores os casos em que queixas ou investiga\u00e7\u00f5es noutros pa\u00edses ou na pr\u00f3pria Rom\u00eania mostram que as m\u00e1fias envolvidas na prostitui\u00e7\u00e3o t\u00eam contato pr\u00f3ximo com as autoridades.<\/p>\n<p>No entanto, para al\u00e9m da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e generalizada entre os pr\u00f3prios cidad\u00e3os, existem raz\u00f5es mais importantes para explicar a situa\u00e7\u00e3o: os romenos foram condenados \u00e0 pobreza e \u00e0 falta de oportunidades durante estes 30 anos de pilhagem e degrada\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e cultural. Por outro lado, a propaganda institucional e a publicidade promovida pelo capital mostram um mundo de riquezas e possibilidades que s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis fugindo do pa\u00eds ou no mundo s\u00f3rdido do crime.<\/p>\n<p>De acordo com os relat\u00f3rios e estudos mais recentes sobre o fen\u00f4meno da prostitui\u00e7\u00e3o na Rom\u00eania, fam\u00edlias, amigos pr\u00f3ximos e namorados devem ser responsabilizados pela maioria dos casos de tr\u00e1fico de pessoas no pa\u00eds. Um estudo de 2019 descobriu que 49% das mulheres traficadas s\u00e3o &#8220;vendidas&#8221; pela fam\u00edlia e 9% s\u00e3o vendidas pelo casal e n\u00e3o \u00e9 incomum que os pais vendam suas pr\u00f3prias filhas aos traficantes sendo ainda crian\u00e7as: a Funda\u00e7\u00e3o Portas Abertas (Funda\u00feiei U\u00baa Deschis\u00e3) afirmou ter encontrado casos de venda de crian\u00e7as de 9 anos.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes as prostitutas vendem-se voluntariamente ou concordam em ir para o exterior por amor. Isso foi o que a pol\u00edcia romena descobriu recentemente numa opera\u00e7\u00e3o em que dissolveu uma bando criminoso baseado em Br\u00e3ila. A opera\u00e7\u00e3o durou quatro anos, durante os quais a pol\u00edcia acompanhou os movimentos de prostitutas e proxenetas entre 2013 e 2017. Verificou-se que algumas prostitutas estavam realmente apaixonadas por seus proxenetas, que consideravam namorados, e que eram enviadas para ganhar dinheiro na Espanha, It\u00e1lia ou Alemanha em troca da possibilidade de casar com eles no futuro.<\/p>\n<p>Algumas cidades parecem ser afetadas pelo tr\u00e1fico sexual mais do que outras , como no caso de Gala\u00fei, Craiova e Bac\u00e3u. Em Gala\u00fei, entre 2012 e 2017, 70 pessoas foram condenadas \u00e0 pris\u00e3o por crimes relacionados com o tr\u00e1fico sexual e em 40 casos o tr\u00e1fico envolveu meninas menores de idade. Obviamente, as \u00e1reas mais afetadas por este flagelo s\u00e3o as mais pobres, convertidas ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas de capitalismo em lugares desolados com pouca ou nenhuma possibilidade de viver com dignidade.<\/p>\n<p>Em suma, n\u00e3o se trata apenas de uma falha da Rom\u00eania e das suas autoridades, incapazes de proteger seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, de lhes oferecer um emprego decente ou de evitar terem que se vender para alimentar seus filhos (autoridades n\u00e3o apenas incapazes, mas frequentemente interessadas em n\u00e3o o fazer para encher os bolsos), mas tamb\u00e9m da pr\u00f3pria UE que condena os seus pa\u00edses-col\u00f4nias a exportar como mat\u00e9ria-prima m\u00e3o-de-obra barata ou carne feminina, em vez de oferecer ajuda para desenvolver a sua pr\u00f3pria ind\u00fastria e tirar partido da sua grande riqueza natural e humana.<\/p>\n<p>O novo senhor dos romenos, esse &#8220;imp\u00e9rio&#8221; europeu, olha indolentemente enquanto as riquezas dos seus pa\u00edses de terceira categoria s\u00e3o saqueadas, suas novas col\u00f4nias, sim, muito &#8220;democr\u00e1ticas&#8221;, pois os seus trabalhadores s\u00e3o vendidos a quem paga mais, e m\u00e1fias de n\u00edvel diferente enviam mulheres e crian\u00e7as para suprir a oferta de seus neg\u00f3cios sexuais, porque o dinheiro n\u00e3o tem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p>O original encontra-se em imbratisare.blogspot.com\/2020\/09\/rumania-capitalista-primer-exportador.html<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26248\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[227],"class_list":["post-26248","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Pm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26248","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26248"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26248\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}