{"id":26262,"date":"2020-10-08T23:08:50","date_gmt":"2020-10-09T02:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26262"},"modified":"2020-10-08T23:08:50","modified_gmt":"2020-10-09T02:08:50","slug":"o-neoliberalismo-e-a-falacia-da-modernizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26262","title":{"rendered":"O neoliberalismo e a fal\u00e1cia da moderniza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/mundogeo.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/02163234\/enxame-de-drones.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Beatriz Contelli<\/p>\n<p>LAVRA PALAVRA<\/p>\n<p>Sustentado pela f\u00e1bula do empreendedorismo, \u00e9 conveniente ao neoliberalismo que o trabalhador tenha a ilus\u00e3o de n\u00e3o estar sendo explorado e carregue em si a promessa de uma suposta autonomia e independ\u00eancia. Sob o signo da flexibilidade, os trabalhadores est\u00e3o cada vez mais subordinados ao capital, o v\u00ednculo empregat\u00edcio e a prote\u00e7\u00e3o social desaparecem e mascara-se a explora\u00e7\u00e3o da mais-valia.<\/p>\n<p>Encabe\u00e7ado pela ret\u00f3rica do laissez-faire, o neoliberalismo propaga uma suposta liberdade individual e econ\u00f4mica que aos olhos de muitos entusiastas chega quase a ser perfeita. Aliada de pol\u00edticas antipopulares, esta doutrina dissemina uma moderniza\u00e7\u00e3o que al\u00e9m de excludente, agride diretamente a amplia\u00e7\u00e3o da oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos, a preserva\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios, a conquista de direitos trabalhistas, entre outros segmentos essenciais da sociedade.<\/p>\n<p>O neoliberalismo, ao imprimir uma marca n\u00e3o apenas na esfera econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m na forma como se v\u00ea o p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o ao privado, reconfigura uma no\u00e7\u00e3o de que o primeiro \u00e9 ineficiente e oferece servi\u00e7os prec\u00e1rios, enquanto o segundo \u00e9 sin\u00f4nimo de efici\u00eancia e qualidade.<\/p>\n<p>Os ataques sistem\u00e1ticos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, do ensino b\u00e1sico ao ensino superior, sob a escusa do desenvolvimento tecnol\u00f3gico e da necessidade de adapta\u00e7\u00e3o do ensino \u00e0s demandas do mercado, \u00e9 uma ofensa \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, gratuita e de qualidade, direitos estes reservados pela Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2012 falava-se da aprova\u00e7\u00e3o da Lei de Cotas nas universidades. Em 2019 o assunto j\u00e1 era sobre um tal programa Future-se, que ao usar terminologias como \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cincubadoras de startups\u201d, escondia seu real objetivo: ser o primeiro passo para a privatiza\u00e7\u00e3o das universidades e contribuir para a mercantiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como o ensino, o transporte p\u00fablico est\u00e1 entre os segmentos mais afetados pelas pol\u00edticas de privatiza\u00e7\u00e3o. Diferente do que foi defendido por muitos, o setor privado n\u00e3o garante mais conforto e efici\u00eancia aos passageiros dos transportes coletivos. Com uma arquitetura que n\u00e3o comporta o n\u00famero de usu\u00e1rios \u2013 observado principalmente nos hor\u00e1rios de pico \u2013 as esta\u00e7\u00f5es do Metr\u00f4 decorrentes das parcerias p\u00fablico-privadas (PPP) n\u00e3o s\u00f3 tiveram suas obras atrasadas, como exigiram gastos p\u00fablicos exorbitantes, favorecendo a degrada\u00e7\u00e3o de esta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem parte das PPP.<\/p>\n<p>Caminhando ao lado da educa\u00e7\u00e3o e dos transportes, as quest\u00f5es ambientais tiveram seus problemas aprofundados e suas solu\u00e7\u00f5es invisibilizadas pelo neoliberalismo. Polui\u00e7\u00e3o acentuada, extra\u00e7\u00e3o elevada de recursos naturais, desmatamento crescente e at\u00e9 mesmo exterm\u00ednio de povos nativos e nega\u00e7\u00e3o de direitos b\u00e1sicos como acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, se mostram interessantes para a doutrina neoliberal que aprofunda a problem\u00e1tica ambiental e social.<\/p>\n<p>Com a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua vem junto o aumento de pre\u00e7o, o que impede o acesso da popula\u00e7\u00e3o mais pobre. Com o aumento da desigualdade social, quem tem dinheiro compra \u00e1gua pot\u00e1vel, quem n\u00e3o tem se contenta com \u00e1gua contaminada. E n\u00e3o para por a\u00ed: a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua resulta em consequ\u00eancias para o meio ambiente. Caracter\u00edstica de pa\u00edses subservientes, a redu\u00e7\u00e3o de leis ambientais torna a privatiza\u00e7\u00e3o ainda mais atrativa aos olhos dos investimentos estrangeiros.<\/p>\n<p>O sucateamento das regula\u00e7\u00f5es ambientais tem efeitos perversos. Ela provoca um aumento cont\u00ednuo de garimpeiros, madeireiros e conglomerados estrangeiros ilegais, que envenenam solos e rios, e traz consigo o genoc\u00eddio de tribos como os yanomamis, os kanamaris e os guaranis, tratados com descaso por autoridades federais.<\/p>\n<p>No campo do trabalho n\u00e3o seria diferente. Dotado de uma busca brutal por produtividade, o neoliberalismo destr\u00f3i a for\u00e7a humana que trabalha ao difundir a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a flexibiliza\u00e7\u00e3o e a terceiriza\u00e7\u00e3o. A nova din\u00e2mica do desenvolvimento do capitalismo cria uma condi\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a e um modo de vida e de trabalho prec\u00e1rios, produzindo o incremento da informalidade associada \u00e0 perda de identidade individual e coletiva.<\/p>\n<p>Sustentado pela f\u00e1bula do empreendedorismo, \u00e9 conveniente ao neoliberalismo que o trabalhador tenha a ilus\u00e3o de n\u00e3o estar sendo explorado e carregue em si a promessa de uma suposta autonomia e independ\u00eancia. Sob o signo da flexibilidade, os trabalhadores est\u00e3o cada vez mais subordinados ao capital, o v\u00ednculo empregat\u00edcio e a prote\u00e7\u00e3o social desaparecem e mascara-se a explora\u00e7\u00e3o da mais-valia.<\/p>\n<p>Assim como tudo o que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar, o neoliberalismo e sua falaciosa moderniza\u00e7\u00e3o devastam subjetividades e economias por onde passam. Palco de experimentos fracassados, a Am\u00e9rica Latina sofre os efeitos desse discurso que ao propagar a moderniza\u00e7\u00e3o, na verdade refor\u00e7a sua servid\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p>O desmonte dos servi\u00e7os p\u00fablicos, a degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, o aumento da concentra\u00e7\u00e3o de renda, a hegemoniza\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios, a dissemina\u00e7\u00e3o de preconceitos e viol\u00eancias, o desprezo pelas pol\u00edticas sociais, fazem parte da l\u00f3gica da austeridade fiscal, que caracter\u00edstica da agenda neoliberal, valorizam a liberdade em detrimento da igualdade.<\/p>\n<p>Aproveitador de cen\u00e1rios inst\u00e1veis, o neoliberalismo perpetua a heran\u00e7a colonial dos pa\u00edses subdesenvolvidos e torna os interesses do capital como essencial para o seu desenvolvimento e efetiva\u00e7\u00e3o. O neoliberalismo \u00e9 perverso, \u00e9 genocida, \u00e9 agressivo, \u00e9 totalit\u00e1rio, \u00e9 produto de governos e empresas que concentram privil\u00e9gios, excluem a voz das maiorias nas decis\u00f5es e colocam o Estado cada vez mais a servi\u00e7o de objetivos elitistas, que deliciam-se com uma bonan\u00e7a sem precedentes enquanto os povos das na\u00e7\u00f5es mais atrasadas do mundo s\u00e3o arrasados por pobreza e opress\u00e3o absolutas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26262\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[226],"class_list":["post-26262","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6PA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26262"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26262\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}