{"id":2627,"date":"2012-04-04T20:42:36","date_gmt":"2012-04-04T20:42:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2627"},"modified":"2012-04-04T20:42:36","modified_gmt":"2012-04-04T20:42:36","slug":"algo-que-os-uruguaios-estavamos-precisando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2627","title":{"rendered":"\u201cAlgo que os uruguaios est\u00e1vamos precisando\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 dessa maneira que a senadora <strong>Luc\u00eda Topolansky <\/strong>definiu o ato presidido por seu marido, o presidente<strong> Jos\u00e9 Mujica<\/strong>, em cumprimento da senten\u00e7a da <strong>Corte Interamericana de Direitos Humanos <\/strong>no caso <strong>Gelman<\/strong>, diante do grande poeta e sua neta recuperada.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de\u00a0<strong>Mercedes L\u00f3pez San Miguel<\/strong> e est\u00e1 publicada no jornal argentino\u00a0<strong>P\u00e1gina\/12<\/strong>, 22-03-2012. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do\u00a0<strong>Cepat<\/strong>.<\/p>\n<p>Com gesto adusto e tom pausado,\u00a0<strong>Jos\u00e9 Mujica<\/strong> leu um texto memor\u00e1vel na sala da Assembleia Geral do Parlamento, diante dos olhares vidrados de\u00a0<strong>Juan Gelman<\/strong> e de sua neta <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/41838-senti-que-meu-avo-e-eu-fomos-escutados\" target=\"_blank\">Macarena<\/a><\/strong>, que estavam sentados no palco. \u201cO Estado uruguaio reconhece a responsabilidade institucional pelo desaparecimento for\u00e7ado de\u00a0<strong>Mar\u00eda Claudia Garc\u00eda<\/strong> <strong>Iruretagoyena de Gelman<\/strong> em 1976\u201d, disse em frase t\u00e3o direta quanto aguardada o presidente que, nas voltas da hist\u00f3ria, foi ele pr\u00f3prio v\u00edtima do terrorismo de Estado.<\/p>\n<p>O ato p\u00fablico presidido por\u00a0<strong>Mujica <\/strong>enfronhado em um traje escuro sem gravata, acompanhado de cada lado pelo vice-presidente<strong> Danilo Astori<\/strong> e pelo presidente da Suprema Corte,\u00a0<strong>Daniel Guti\u00e9rrez<\/strong>.\u00a0<strong>Mujica <\/strong>recordou que estava ali em cumprimento da senten\u00e7a da\u00a0<strong>Corte Interamericana de Direitos Humanos <\/strong>no caso\u00a0<strong>Gelman<\/strong>. Por isso, o ex-guerrilheiro tupamaro disse que a partir da senten\u00e7a se desobstru\u00edram os obst\u00e1culos jur\u00eddicos que impediam a investiga\u00e7\u00e3o e se adotassem as medidas necess\u00e1rias para impulsion\u00e1-la, o que n\u00e3o cessar\u00e1 at\u00e9 a localiza\u00e7\u00e3o definitiva dos restos da nora do poeta. \u00c9 que at\u00e9 n\u00e3o h\u00e1 tanto tempo regia no pa\u00eds a\u00a0<strong>Lei da Caducidade<\/strong>, que impedia o julgamento dos policiais e militares acusados de viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos. Desde outubro passado, o Congresso com maioria da governante\u00a0<strong>Frente Ampla<\/strong> aprovou uma lei que anula a anistia.<\/p>\n<p>O presidente responsabilizou o Estado de seu pa\u00eds pelo desaparecimento de\u00a0<strong>Mar\u00eda Claudia <\/strong>e pelo sequestro e assassinato de seu esposo,\u00a0<strong>Marcelo Gelman<\/strong>, crimes cometidos no marco da <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/35949-relatos-da-operacao-condor\" target=\"_blank\">Opera\u00e7\u00e3o Condor<\/a><\/strong>, a coordena\u00e7\u00e3o das ditaduras do Cone Sul.\u00a0<strong>Mujica<\/strong>, sempre preso ao texto que havia mostrado aos dirigentes da oposi\u00e7\u00e3o, disse que o Estado tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela supress\u00e3o da identidade de\u00a0<strong>Macarena Gelman<\/strong>, desde seu nascimento at\u00e9 que foi determinada sua verdadeira identidade, que aconteceu apenas em 2000. Estavam presentes na cerim\u00f4nia o comandante em chefe do Ex\u00e9rcito, o general<strong> Pedro Aguerre<\/strong>, e os da Aeron\u00e1utica,\u00a0<strong>Washington Mart\u00ednez<\/strong>, e da Armada,\u00a0<strong>Alberto Caram\u00e9s<\/strong>. N\u00e3o participaram os tr\u00eas presidentes que o Uruguai teve ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o da democracia em 1985:\u00a0<strong>Julio Mar\u00eda Sanguinetti<\/strong> (1985-1990 e 1995-2000),\u00a0<strong>Luis Alberto Lacalle<\/strong>(1990-1995) e\u00a0<strong>Jorge Batlle<\/strong> (2000-2005). P\u00f4de-se ver o primeiro presidente da\u00a0<strong>Frente Ampla<\/strong> e antecessor de<strong>Mujica<\/strong>,\u00a0<strong>Tabar\u00e9<\/strong> <strong>V\u00e1zquez<\/strong>.<\/p>\n<p>Com as \u00faltimas palavras do discurso, um a um os convidados foram ficando de p\u00e9 e se ouviu um aplauso que foi se prolongando com o entusiasmo e os olhares aprovat\u00f3rios de familiares das v\u00edtimas da ditadura.<\/p>\n<p>A senadora e primeira dama,\u00a0<strong>Luc\u00eda Topolansky<\/strong>, que foi direto para abra\u00e7ar\u00a0<strong>Juan Gelman<\/strong> como \u201ca um companheiro\u201d, concedeu algumas palavras ao\u00a0<strong>P\u00e1gina\/12<\/strong>:<\/p>\n<p><strong>Como vive este momento?<\/strong><\/p>\n<p>Sinto como um al\u00edvio, um respiro, porque era algo que os uruguaios est\u00e1vamos precisando. Foi bom que estivessem presentes os tr\u00eas Poderes do Estado e todos os partidos pol\u00edtico, embora incompletos.<\/p>\n<p><strong>O que diz sobre a atitude dos ex-presidentes Lacalle e Sanguinetti que n\u00e3o quiseram participar do ato?<\/strong><\/p>\n<p>Cada um sabe o que dever fazer, a popula\u00e7\u00e3o saber\u00e1 medir o que significa politicamente colocar-se do lado errado. Considero que \u00e9 um erro pol\u00edtico. Eu teria gostado que todos estivessem presentes. Era um passo necess\u00e1rio, que sempre \u00e9 dado por governos de esquerda, como\u00a0<strong>(Mauricio) Funes<\/strong> em El Salvador.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea, que foi v\u00edtima do terrorismo de Estado, sentiu?<\/strong><\/p>\n<p>(Se emociona.) Sou uma militante pol\u00edtica, tomei decis\u00f5es na minha vida, com acertos e erros; mas quando uma crian\u00e7a \u00e9 sequestrada, muda-se sua identidade, e esse menino n\u00e3o pode decidir por si mesmo e paga esse pre\u00e7o, \u00e9 terr\u00edvel. Por isso n\u00e3o posso pensar em mim.<\/p>\n<p>A poucos metros dali, em outra parte do pr\u00e9dio legislativo,\u00a0<strong>Macarena <\/strong>respondia aos jornalistas expectantes de suas palavras: \u201cEste \u00e9 um dia sumamente importante e que n\u00e3o marca nem um come\u00e7o nem um fim de nada. Podemos come\u00e7ar a construir algo melhor. Sentimos cumpridos os pontos simb\u00f3licos e reparadores da senten\u00e7a, fica um caminho pela frente porque restam muitas pessoas desaparecidas sem serem encontradas. H\u00e1 muitas m\u00e3es que esperam encontrar seus filhos e filhos que querem encontrar suas m\u00e3es. Acompanhamos atentos a disposi\u00e7\u00e3o do Estado de que cumprir\u00e1 a senten\u00e7a em sua totalidade\u201d.<\/p>\n<p>Ao seu lado, do mesmo modo como esteve durante todo o dia, seu av\u00f4\u00a0<strong>Juan <\/strong>assinalou um paradoxo deste acontecimento in\u00e9dito no Uruguai: \u201cPor esses paradoxos hist\u00f3ricos o presidente da Rep\u00fablica, que foi v\u00edtima da ditadura, teve que reconhecer em nome do Estado a responsabilidade de seus vitimadores. Para isto \u00e9 preciso ter coragem moral\u201d. O poeta disse estar muito emocionado e que durante a manh\u00e3 teve muito presente o seu filho<strong>Marcelo <\/strong>quando leu dois de seus poemas.<\/p>\n<p>Na cerim\u00f4nia da manh\u00e3, por ocasi\u00e3o da coloca\u00e7\u00e3o de uma placa na antiga sede do\u00a0<strong>Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o e Defesa <\/strong>(SID), na rua Bulevar Artigas,\u00a0<strong>Juan Gelman <\/strong>disse que\u00a0<strong>Marcelo <\/strong>come\u00e7ou a escrever desde muito pequeno. Na sequ\u00eancia, leu um poema que escreveu aos 17 anos. \u201cA ovelha negra passa no campo negro\/ sobre a neve negra\/ sob a noite negra\/ junto \u00e0 cidade negra\/ onde choro vestido de vermelho\u201d.<\/p>\n<p>Estavam ali presentes ex-presos desse centro de deten\u00e7\u00e3o, assim como amigos da fam\u00edlia.\u00a0<strong>Juan Salinas<\/strong> e<strong>Leonardo<\/strong> <strong>Rojzman <\/strong>foram companheiros de milit\u00e2ncia de\u00a0<strong>Marcel Gelman<\/strong> na escola secund\u00e1ria. Tiveram tempo para tirar juntos uma foto com a placa transparente e em tipografia branca, que dizia: \u201cEm Mem\u00f3ria de<strong>Mar\u00eda Claudia Garc\u00eda<\/strong> <strong>Iruretagoyena <\/strong>e\u00a0<strong>Macarena Gelman<\/strong>; e de todas as pessoas v\u00edtimas do terrorismo de Estado que estiveram privados de sua liberdade neste lugar, sede do\u00a0<strong>Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o e Defesa <\/strong>e em cumprimento da senten\u00e7a da\u00a0<strong>CIDH <\/strong>de 24 de fevereiro de 2011\u201d.<\/p>\n<p>O ex-soldado\u00a0<strong>Julio C\u00e9sar Barboza<\/strong>, que foi guarda nesse centro clandestino e deu seu testemunho para a investiga\u00e7\u00e3o da causa de\u00a0<strong>Mar\u00eda Claudia<\/strong>, serviu de guia aos visitantes, agregando mais simbolismos ao encontro. Para os sobreviventes da ditadura que nesta quarta-feira percorreram o lugar, a emo\u00e7\u00e3o foi incontrol\u00e1vel. Como a de\u00a0<strong>Alicia Raquel Cadenas<\/strong>, que percorreu as pe\u00e7as falando aos borbot\u00f5es, com uma necessidade de dizer, contar, pisar as mesmas lajotas antigas.\u00a0<strong>Raquel Cadenas<\/strong> foi transferida de Orletti para Montevid\u00e9u junto com 20 pessoas em um v\u00f4o no dia 24 de julho de 1976. Fica quieta numa pe\u00e7a vazia e a reconhece. \u201cAqui estivemos em 24 pessoas sentadas em bancos, com os olhos vendados e as m\u00e3os presas pelas costas. Davam-nos alguma coisa para comer, levavam-nos ao banheiro. Jogavam colch\u00f5es \u00e0 noite. Quando pedias para ir ao banheiro te tiravam, passavas por um corredor\u201d \u2013 assinalou o corredor estreito que faz um L. \u201cHavia canos de \u00e1gua grossos nos quais penduravam companheiros. Ias vendo como podias. Ao fundo, havia uma sala de interrogat\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cadenas <\/strong>disse que soube da presen\u00e7a de\u00a0<strong>Mar\u00eda Claudia<\/strong>. \u201cPerto de outubro come\u00e7amos a ouvir que havia uma gr\u00e1vida no andar de cima. Tempos depois os guardas pediram por telefone um m\u00e9dico porque a gr\u00e1vida daria \u00e0 luz. Um dia nos perguntaram se havia quem pudesse preparar a mamadeira. Outro dia nos levaram para tomar sol no p\u00e1tio. Uma mulher do andar de cima foi at\u00e9 a sacada com um beb\u00ea nos bra\u00e7os. Me lembro de que tinha cabelo preto e que queria que a vissem\u201d, disse\u00a0<strong>Cadenas<\/strong>, que muitas vezes pensou que essa imagem poderia ser uma alucina\u00e7\u00e3o. Hoje, depois de tudo o que aconteceu, essa imagem \u00e9 mais n\u00edtida do que nunca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Diario Liberdade\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2627\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[76],"tags":[],"class_list":["post-2627","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c89-uruguai"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Gn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2627","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2627"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2627\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2627"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2627"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2627"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}