{"id":26299,"date":"2020-10-15T21:46:38","date_gmt":"2020-10-16T00:46:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26299"},"modified":"2020-10-15T21:46:38","modified_gmt":"2020-10-16T00:46:38","slug":"em-defesa-da-filosofia-contra-a-fuga-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26299","title":{"rendered":"Em defesa da filosofia, contra a fuga da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/pera1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Todo discurso filos\u00f3fico tem uma dupla historicidade. E toda an\u00e1lise da hist\u00f3ria carrega conceitos e categorias de base filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<br \/>\nRevista Opera<\/p>\n<p>Marx e Engels, no seu cl\u00e1ssico A ideologia alem\u00e3, fazem uma importante reflex\u00e3o, \u201cmas n\u00e3o apenas em suas respostas, mas j\u00e1 nas pr\u00f3prias perguntas havia uma mitifica\u00e7\u00e3o\u201d (2017, p. 83). Perguntar qual a rela\u00e7\u00e3o entre filosofia e hist\u00f3ria pode pressupor uma separa\u00e7\u00e3o auto constitu\u00edda entre ambas. Nessa ideia, pergunta-se qual a influ\u00eancia ou contribui\u00e7\u00e3o da filosofia na hist\u00f3ria e vice e versa. A pergunta cont\u00e9m uma mitifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para explicar essa mitifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso fazer um breve desvio de rota. Podemos lembrar das mitog\u00eaneses da sociedade sobre o \u201cestado de natureza\u201d. Mais do que um mito laico de explica\u00e7\u00e3o do surgimento da sociedade, a ideia do \u201cestado de natureza\u201d funcionava como uma categoria filos\u00f3fica central a partir do qual se desdobrava uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es concatenadas. N\u00e3o faz sentido debater com John Locke, Thomas Hobbes ou Jean-Jacques Rousseau sobre a exist\u00eancia ou n\u00e3o um \u201cestado de natureza\u201d a partir da pesquisa hist\u00f3rica. A categoria de \u201cestado de natureza\u201d \u00e9 metaf\u00edsica, idealista.<\/p>\n<p>Podemos debater apenas se o conjunto das reflex\u00f5es derivadas da categoria idealista de \u201cestado de natureza\u201d guarda coer\u00eancia imanente, interna, com a totalidade do discurso filos\u00f3fico do autor. Assim como n\u00e3o faz sentido debater a partir da pesquisa hist\u00f3rica o que Marx chamava de \u201crobinsonadas\u201d \u2013 em poucas palavras, as explica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, metaf\u00f3ricas e idealistas para o surgimento do capitalismo.<\/p>\n<p>Esse idealismo filos\u00f3fico, contudo, \u00e9 coisa do passado. Imagino que ningu\u00e9m s\u00e9rio busque debater algum conceito central da vida contempor\u00e2nea, como a no\u00e7\u00e3o de democracia ou liberdade, a partir de um conto liter\u00e1rio de dois seres humanos numa ilha ou de um m\u00edtico estado primitivo para a partir disso operar um conjunto complexo de reflex\u00f5es que n\u00e3o tocam na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na nossa vis\u00e3o contempor\u00e2nea, n\u00e3o existe filosofia nem conceitos filos\u00f3ficos sem lastro hist\u00f3rico. A grande quest\u00e3o \u00e9 que o sujeito pode n\u00e3o ser consciente do lastro hist\u00f3rico e da historicidade que usa. Quando Theodor Adorno e Max Horkheimer escreveram o seu c\u00e9lebre Dial\u00e9tica do Esclarecimento, eles operavam com uma no\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de modernidade, ainda que essa historicidade n\u00e3o fosse expl\u00edcita ou, talvez, at\u00e9 consciente. Um exemplo do debate sobre a historicidade inconsistente pode ser encontrado no livro Revolu\u00e7\u00e3o Africana, onde fiz uma cr\u00edtica a uma c\u00e9lebre frase de Adorno em que dizia que \u201cescrever um poema ap\u00f3s Auschwitz \u00e9 um ato b\u00e1rbaro\u201d.<\/p>\n<p>Nessa simples frase est\u00e1 contida uma no\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica central e com v\u00e1rios usos pol\u00edticos no mundo hodierno e uma s\u00e9rie de teses derivadas. A no\u00e7\u00e3o central \u00e9 que Auschwitz \u00e9 o \u00e1pice da barb\u00e1rie humana, e as v\u00e1rias teses derivadas transitam desde a ideia do Holocausto contra os judeus como uma excepcionalidade hist\u00f3rica (nada parecido tinha acontecido antes) at\u00e9 um menosprezo ou ocultamento total da quest\u00e3o colonial na modernidade.<\/p>\n<p>Quando fiz esse debate n\u00e3o pressupus que Adorno era um racista que odiava africanos e asi\u00e1ticos e, por isso, ocultou de prop\u00f3sito os massacres dos quais eles foram v\u00edtimas na modernidade. Muito menos deixo de considerar o contexto sociopol\u00edtico e pessoal-afetivo embutido na reflex\u00e3o do pensador alem\u00e3o. Debater e criticar a historicidade oculta (ou expl\u00edcita) em toda reflex\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9 apenas um meio de buscar fazer o que Antonio Gramsci chamava de cr\u00edtica: compreender um fen\u00f4meno em sua totalidade e historicidade complexa e multidimensional.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode dizer que eu estou reduzindo a filosofia \u00e0 an\u00e1lise hist\u00f3rica. Obliterando as legalidades espec\u00edficas de cada \u00e1rea do saber. Essa cr\u00edtica \u00e9 errada. Sei e considero as especificidades da filosofia e da hist\u00f3ria, por\u00e9m, como disse um poeta: n\u00e3o s\u00e3o iguais, mas n\u00e3o vivem separados. Todo discurso filos\u00f3fico tem uma dupla historicidade (historicidade em si do discurso filos\u00f3fico e do objeto que o discurso filos\u00f3fico busca apreender). E toda an\u00e1lise hist\u00f3rica carrega conceitos anal\u00edticos e categorias de base filos\u00f3fica que alteraram a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o do objeto estudado (e influencia na pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o do problema: lembre-se que as perguntas s\u00e3o t\u00e3o importantes quanto as respostas).<\/p>\n<p>Toda essa introdu\u00e7\u00e3o, antes de passar para o tema central, tem um \u00fanico e simples objetivo. Defendo que s\u00f3 \u00e9 aceit\u00e1vel um discurso filos\u00f3fico que se afirme fora da hist\u00f3ria se ele operar como um idealismo de tipo antigo, reivindicando categorias metaf\u00edsicas estilo \u201cestado de natureza\u201d ou as \u201crobinsonadas\u201d dos primeiros economistas pol\u00edticos. Caso contr\u00e1rio, todo debate filos\u00f3fico ser\u00e1 mergulhado na hist\u00f3ria e banhado de historicidade (o que n\u00e3o significa, friso, tomar a an\u00e1lise hist\u00f3rica per si como cr\u00edtica filos\u00f3fica).<\/p>\n<p>Feita essa introdu\u00e7\u00e3o, posso comentar a quest\u00e3o central. O estimado professor Filipe Campello, meu conterr\u00e2neo e pessoa com quem j\u00e1 tive o prazer de debater, escreveu um texto intitulado \u201cEm defesa da filosofia\u201d. Nesse instigante escrito, Campello realiza em dois momentos o que eu considero uma fuga da hist\u00f3ria imaginando uma filosofia \u2013 ou reflex\u00e3o filos\u00f3fica \u2013 de costas para hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Antes de entrar nesses dois momentos de fuga da hist\u00f3ria, uma pequena quest\u00e3o. \u00c9 um erro de Campello afirmar que eu encontrei em Losurdo \u201cuma esp\u00e9cie da prova que procurava para fundamentar sua cr\u00edtica ao liberalismo\u201d. Losurdo, sem d\u00favidas, \u00e9 o mais qualificado autor que conhe\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o de uma cr\u00edtica sistem\u00e1tica \u2013 no sentido de Antonio Gramsci de cr\u00edtica \u2013 ao liberalismo, mas, antes de Losurdo, eu conhecia as obras de Marx, Engels, Lenin, Antonio Gramsci, Rosa Luxemburgo, Lo\u00efc Wacquant, Nicos Poulantzas, etc. E basta abrir as p\u00e1ginas d\u2019O Capital de Marx, em especial o cap\u00edtulo sobre a acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital, para ter uma potente cr\u00edtica do liberalismo (ou ent\u00e3o, a continuidade das reflex\u00f5es marxianas realizadas no campo da criminologia por Dario Melossi e Massimo Pavarini em seu cl\u00e1ssico C\u00e1rcere e f\u00e1brica).<\/p>\n<p>Agora indo ao principal. Campello parece reduzir o livro de Domenico Losurdo Contra-hist\u00f3ria do liberalismo a argumentos que se referem a \u201cfatos hist\u00f3ricos\u201d. Impl\u00edcito \u00e9 a ideia de um ajuntamento de fatos hist\u00f3ricos separados da reflex\u00e3o filos\u00f3fica. Nesse ponto, creio que Campello expressa um baixo dom\u00ednio das reflex\u00f5es losurdianas. O livro de Losurdo n\u00e3o \u00e9 um amontoado de fatos aterrorizantes sobre o liberalismo \u2013 como andou dizendo um professor da UnB \u2013, mas uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica, \u00e0 luz da hist\u00f3ria, sobre o liberalismo enquanto projeto \u00e9tico, pol\u00edtico e filos\u00f3fico. O que Losurdo faz \u00e9 tirar o debate sobre o liberalismo do reino das robinsonadas filos\u00f3ficas.<\/p>\n<p>No Brasil, por exemplo, \u00e9 comum ouvir que o liberalismo n\u00e3o \u00e9 uma ideia bem aclimatada, dado que os liberais nacionais defenderam por muitos anos a escravid\u00e3o e historicamente convivem muito bem com o autoritarismo, compreendido como a nega\u00e7\u00e3o da liberdade. O pressuposto dessa leitura que tem inten\u00e7\u00e3o de ser \u201chist\u00f3rica\u201d (e cr\u00edtica) \u00e9 uma vis\u00e3o falseada, sem lastro real, da hist\u00f3ria do liberalismo na Europa Ocidental e Estados Unidos. Quando est\u00e1 elevada a n\u00edvel de conceito filos\u00f3fico a historicidade real da rela\u00e7\u00e3o do liberalismo com a escravid\u00e3o, fica imposs\u00edvel considerar a harmonia entre liberalismo e escravid\u00e3o nos Tr\u00f3picos uma esp\u00e9cie de anomalia frente \u00e0 doutrina em sua pureza ou sua origem.<\/p>\n<p>Assim como elevada a n\u00edvel conceitual e filos\u00f3fico a rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do liberalismo com o colonialismo, temos que debater que h\u00e1 no jusnaturalismo e no debate liberal sobre o homem como portador natural da liberdade e da raz\u00e3o, uma m\u00faltipla conceitua\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica da ideia de homem. Quando John Stuart Mill, no seu famoso livro On liberty, defende, ao mesmo tempo, a liberdade e a coloniza\u00e7\u00e3o da China, a pesquisa caminha para pensar os variados conceitos de humano e seu negativo na obra do famoso pensador brit\u00e2nico. E n\u00e3o se trata de fazer uma esp\u00e9cie de leitura sintomal do texto buscando sentidos ocultos no intratexto, mas de pensar a historicidade inscrita na reflex\u00e3o filos\u00f3fica que s\u00f3 \u00e9 revelada na pr\u00f3pria cr\u00edtica filos\u00f3fica com uma acurada leitura hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Quando um liberal diz que sua doutrina sempre defendeu a liberdade, a democracia, os direitos humanos e do indiv\u00edduo, isso \u00e9 um pouco mais que mentira e uma tosqu\u00edssima an\u00e1lise hist\u00f3rica. \u00c9 um empobrecimento da reflex\u00e3o filos\u00f3fica sobre liberdade, democracia, direitos humanos e do indiv\u00edduo, que nega sua historicidade, conflitividade, enriquecimento conceitual. Hoje afirmar-se como defensor da liberdade \u00e9 antag\u00f4nico com a defesa da escravid\u00e3o. No s\u00e9culo XVIII, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o. N\u00e3o considerar esse dado hist\u00f3rico \u00e9 fazer uma filosofia pobre em todos os sentidos poss\u00edveis no debate sobre liberdade!<\/p>\n<p>A pergunta que abre o livro Contra-hist\u00f3ria do liberalismo \u00e9 \u201cO que \u00e9 o liberalismo?\u201d. No primeiro cap\u00edtulo do livro, da p\u00e1gina 13 a 46, Losurdo busca mostrar que as respostas correntes para essa pergunta est\u00e3o erradas \u00e0 luz da hist\u00f3ria. A conclus\u00e3o do autor, contudo, n\u00e3o \u00e9 que o liberalismo seja hip\u00f3crita ou que exista uma esp\u00e9cie de dualidade do liberalismo no \u201cmundo das ideias\u201d e no \u201cmundo real\u201d, mas repensar, em n\u00edvel filos\u00f3fico, a doutrina liberal lastreada na sua historicidade concreta.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada pr\u00f3ximo das preocupa\u00e7\u00f5es de Campello como a de que \u201crefutar uma teoria apenas com base em fatos hist\u00f3ricos significa incorrer em uma fal\u00e1cia geneal\u00f3gica\u201d, ou que \u201c\u00e9 ing\u00eanuo culpar Adam Smith pelo fato de os Estados Unidos terem entrado em guerra com o Vietn\u00e3 ou por ter invadido o Iraque\u201d ou ent\u00e3o esse procedimento: \u201cse se quer criticar o liberalismo, ao inv\u00e9s de reduzi-lo \u00e0 hist\u00f3ria das democracias ocidentais, a quest\u00e3o deve ser, antes: qual o problema das ideias liberais?\u201d.<\/p>\n<p>Campello, na busca por evitar reducionismos, faz uma cr\u00edtica que se for direcionada a Losurdo \u00e9 totalmente injusta e n\u00e3o ro\u00e7a no tipo de reflex\u00e3o do autor. E, nessa busca por tentar elevar o debate, acaba operando uma fuga da hist\u00f3ria na tentativa de negar uma historicidade vulgar.<\/p>\n<p>A segunda fuga da hist\u00f3ria \u2013 essa bem mais grave \u2013 s\u00e3o os coment\u00e1rios de Campello sobre a obra da pensadora alem\u00e3 Hannah Arendt. Primeiro, meu conterr\u00e2neo afirma que Arendt defende que \u201co potencial transformador da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa foi esvaziado quando a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios \u00e9 substitu\u00edda pela promessa de uma marcha irrefre\u00e1vel da hist\u00f3ria\u201d. Nesse primeiro ponto, n\u00e3o posso de forma alguma concordar com Campello. Ainda que Hannah Arendt critique realmente o que chama de uma filosofia da hist\u00f3ria que pensa em termos de \u201cnecessidade hist\u00f3rica\u201d, uma teleologia em que n\u00e3o existe propriamente a\u00e7\u00e3o humana, mas a materializa\u00e7\u00e3o dos des\u00edgnios pr\u00f3prios da Hist\u00f3ria, esse n\u00e3o \u00e9 nem de longe o centro da sua cr\u00edtica \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>O centro do argumento de Hannah Arendt \u00e9 de que na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa a quest\u00e3o social, e n\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o de um novo corpo pol\u00edtico, \u00e9 que cumpriu o papel central, ao contr\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Americana. Isso fica patente, por exemplo, nesse trecho:<\/p>\n<p>\u201cA pobreza \u00e9 mais do que priva\u00e7\u00e3o, \u00e9 um estado de car\u00eancia constante e mis\u00e9ria aguda cuja ignom\u00ednia consiste em sua forma desumanizadora; a pobreza \u00e9 s\u00f3rdida porque coloca os homens sob o ditame absoluto de seus corpos, isto \u00e9, sob o ditame absoluto da necessidade que todos os homens conhecem pela mais \u00edntima experi\u00eancia e fora de qualquer especula\u00e7\u00e3o. Foi sob o imp\u00e9rio dessa necessidade que a multid\u00e3o se precipitou para ajudar a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, inspirou-a, levou-a em frente e acabou por conduzi-la \u00e0 ru\u00edna, pois era a multid\u00e3o dos pobres. Quando apareceram no palco da pol\u00edtica, a necessidade apareceu junto com eles, e o resultado foi o poder do antigo regime se tornou impotente e a nova rep\u00fablica se mostrou natimorta; a liberdade teve de se render \u00e0 necessidade, \u00e0 prem\u00eancia do processo vital em si [\u2026]. Foi a necessidade, a car\u00eancia premente do povo, que desencadeou o Terror e condenou a revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 ru\u00edna.\u201d (ARENDT, 2011, p. 93-94 \u2013 grifos nossos).<\/p>\n<p>Esse argumento central de Hannah Arendt foi debatido por mim e Gabriel Landi no pref\u00e1cio do livro Ra\u00e7a, Classe e Revolu\u00e7\u00e3o: a luta pelo poder popular nos Estados Unidos. No referido pref\u00e1cio \u00e9 mostrado que o argumento de Hannah n\u00e3o se sustenta na coer\u00eancia interna do seu discurso (crivado de contradi\u00e7\u00f5es e incoer\u00eancias irreconcili\u00e1veis) e no plano hist\u00f3rico. Ainda podemos fazer um exerc\u00edcio: vamos imaginar que Campello esteja certo e que o centro da cr\u00edtica de Hannah Arendt \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa seja a \u201cpromessa de uma marcha irrefre\u00e1vel da hist\u00f3ria\u201d. De novo, \u00e0 luz da hist\u00f3ria, \u00e9 um argumento insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a hist\u00f3ria dos Estados Unidos \u2013 lembrem-se que Hannah contrap\u00f5e de forma positiva a Revolu\u00e7\u00e3o Americana \u00e0 Francesa \u2013 sen\u00e3o, tamb\u00e9m, uma sucess\u00e3o de \u201cpromessas de uma marcha irrefre\u00e1vel da hist\u00f3ria\u201d? Primeiro, a miss\u00e3o universal do cristianismo, que n\u00e3o era bem a\u00e7\u00e3o humana, mas somente a materializa\u00e7\u00e3o dos des\u00edgnios de Deus no mundo dos homens, conquistando a terra dos \u00edndios pag\u00e3os e os exterminando. Depois, baseado em um mito teol\u00f3gico de apar\u00eancia laica do excepcional\u00edssimo americano, levar a liberdade e a democracia ao mundo todo (igualmente uma \u201cmarcha irrefre\u00e1vel da hist\u00f3ria\u201d, miss\u00e3o inscrita na ess\u00eancia do povo americano e confiada por Deus, sendo os humanos apenas instrumento de sua realiza\u00e7\u00e3o). Poderia provar esse ponto citando \u00e0 exaust\u00e3o os trabalhos de Perry Anderson, Domenico Losurdo, Immanuel Wallerstein, Moniz Bandeira, Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori e tantos outros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de insustent\u00e1vel na base hist\u00f3rica de todas as categorias principais da reflex\u00e3o de Arendt \u2013 guerra, revolu\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, liberdade, quest\u00e3o social, etc. \u2013 a autora, na busca de tentar resolver as contradi\u00e7\u00f5es internas gritantes do seu discurso filos\u00f3fico, simplesmente mente ao dizer:<\/p>\n<p>\u201cTanto para os europeus quanto para os americanos, a escravid\u00e3o n\u00e3o fazia parte da quest\u00e3o social, de modo que a quest\u00e3o social, estivesse genuinamente ausente ou apenas oculta nas sombras, era inexistente para todas as finalidades pr\u00e1ticas, e com ela fazia-se inexistente tamb\u00e9m a paix\u00e3o mais forte e talvez devastadora que motivava os revolucion\u00e1rios: a paix\u00e3o da compaix\u00e3o.\u201d (ARENDT, 2011, p. 107).<\/p>\n<p>Esse trecho \u00e9 usado pela autora para mostrar que os Pais Fundadores dos EUA, mesmo que propriet\u00e1rios de escravos e defensores da escravid\u00e3o, eram sim defensores da liberdade (os melhores da modernidade), j\u00e1 que argumenta no sentido de que, naquela \u00e9poca, todos defendiam ou naturalizavam a escravid\u00e3o. Remove da hist\u00f3ria a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no per\u00edodo jacobino da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (e a concep\u00e7\u00e3o de ser humano bem mais universalista dos jacobinos que dos Pais Fundadores dos EUA), a Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana e como o governo dos EUA tentou esmagar a rep\u00fablica de negros livres (que acabou com a escravid\u00e3o!) a partir de embargos econ\u00f4micos ou ainda como a escravid\u00e3o foi reintroduzida (onde j\u00e1 havia sido abolida!) em territ\u00f3rios tomados do M\u00e9xico e anexados pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Eric Hobsbawm afirma que a contribui\u00e7\u00e3o de Hannah Arendt para pensar a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u00e9 \u201cnula\u201d, classifica a exposi\u00e7\u00e3o da autora como \u201cmetaf\u00edsica e normativa\u201d e diz que se combina com um \u201cantiquado idealismo filos\u00f3fico, \u00e0s vezes plenamente expl\u00edcito\u201d (HOBSBAWN, 2015, p. 260), para concluir dizendo que \u201chaver\u00e1 leitores, sem d\u00favida, que achar\u00e3o a obra de Hannah Arendt interessante e proveitosa, mas \u00e9 improv\u00e1vel que, entre eles, se incluam os estudiosos das revolu\u00e7\u00f5es\u201d (Idem, p. 267). Eric n\u00e3o estava cobrando (ou jogando) fatos hist\u00f3ricos de uma an\u00e1lise filos\u00f3fica, mas mostrando que a an\u00e1lise filos\u00f3fica da autora, que tem como base uma an\u00e1lise hist\u00f3rica, \u00e9 um pouco mais que ruim: caminha na raia da falsifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise hist\u00f3rica de Hannah Arendt sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e Americana e suas categorias filos\u00f3ficas derivadas s\u00f3 ficam de p\u00e9 se considerarmos a hist\u00f3ria como um simples detalhe e resolvermos que, por ser um discurso filos\u00f3fico, qualquer coisa pode ser dita. Em suma, estaremos na presen\u00e7a de robinsonadas filos\u00f3ficas (nesse caso, \u00e9 poss\u00edvel substituir Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e Americana por C\u00e9u e Inferno, e o resultado \u00e9 o mesmo). Campello consegue transformar uma autora com desleixo \u00edmpar pela an\u00e1lise hist\u00f3rica em uma defensora da historicidade concreta ao dizer: \u201cdesprender-se das ilus\u00f5es desse necessitarismo de tra\u00e7os metaf\u00edsicos significaria levar a s\u00e9rio o jogo de interesses dos que escrevem a hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Em sequ\u00eancia, Campello argumenta: \u201cmas a pr\u00f3pria Arendt se viu v\u00edtima de sua posi\u00e7\u00e3o, passando a ser interpretada como principal culpada desse imbr\u00f3glio da equipara\u00e7\u00e3o entre nazismo e stalinismo\u201d. Quanto a esse ponto, \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil de argumentar. Est\u00e1 escrito com todas as letras, no livro As origens do totalitarismo, a equipara\u00e7\u00e3o do nazismo com o stalinismo. Negar que a autora \u00e9 culpada por algo que ela escreveu \u00e9 ser mais Hannah Arendt que Hannah Arendt. E na sequ\u00eancia a esse trecho citado, continua a argumentar o autor que \u201co que se esquece \u00e9 que a an\u00e1lise de Arendt n\u00e3o \u00e9 hist\u00f3rica, mas filos\u00f3fica. Como ela interpreta as revolu\u00e7\u00f5es e o totalitarismo n\u00e3o deve ser lido como lemos livros de hist\u00f3ria, mas de filosofia\u201d.<\/p>\n<p>Aqui, novamente, uma brutal fuga da hist\u00f3ria. O que significa dizer que uma an\u00e1lise \u00e9 filos\u00f3fica e n\u00e3o hist\u00f3rica? Isso significa dizer, por exemplo, que n\u00e3o posso afirmar que a tese de Hannah Arendt de que St\u00e1lin confiava em Hitler e que o Pacto de N\u00e3o-Agress\u00e3o Germano-Sovi\u00e9tico de 1939 foi fruto de atra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica entre dois sistemas irmanados \u00e9 uma mentira sem qualquer sustenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica? Ou n\u00e3o posso fazer uma cr\u00edtica hist\u00f3rica das an\u00e1lises\u2026 hist\u00f3ricas de Arendt sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica? E \u00e0s omiss\u00f5es e erros nesse balan\u00e7o hist\u00f3rico que assemelha nazismo e socialismo sovi\u00e9tico?<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, por qual motivo a cr\u00edtica hist\u00f3rica e filos\u00f3fica devem estar separadas? Elas podem e devem andar juntas, como mostrou brilhantemente Domenico Losurdo no seu artigo \u201cPara uma cr\u00edtica da categoria de totalitarismo\u201d. Aliado a isso, foi a aus\u00eancia dos [bons] livros de hist\u00f3ria que permitiu que absurdos completos \u2013 como a no\u00e7\u00e3o de que o liberalismo por ess\u00eancia sempre \u00e9 antag\u00f4nico a escravid\u00e3o, colonialismo e apartheid \u2013 se popularizassem como verdade absoluta.<\/p>\n<p>Louvo e muito a contribui\u00e7\u00e3o de Filipe Campello ao debate instalado desde a fala de Caetano Veloso no Programa do Pedro Bial. O problema da reflex\u00e3o do meu conterr\u00e2neo \u00e9 que , no seu caminho, ele derrapa muito para fora da hist\u00f3ria. E, se Lenin disse que \u201cfora do poder, tudo \u00e9 ilus\u00e3o\u201d, posso refazer sua frase para dizer \u201cfora da hist\u00f3ria, tudo \u00e9 mitifica\u00e7\u00e3o\u201d. E onde existe mitifica\u00e7\u00e3o, a cr\u00edtica n\u00e3o guarda morada.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>MARX, Karl; FREDERICH, Engels. A ideologia alem\u00e3. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<br \/>\nLOSURDO, Domenico. Contra-hist\u00f3ria do liberalismo. S\u00e3o Paulo: Ideias e letras, 2006.<br \/>\nARENDT, Hannah. Sobre a revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2011.<br \/>\nHOBSBAWN, Eric. Revolucion\u00e1rios. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2015.<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 historiador, mestre em Servi\u00e7o Social, educador popular e militante do PCB. E-mail para contato: manoel_jones@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26299\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[225],"class_list":["post-26299","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Qb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26299"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26299\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}