{"id":263,"date":"2010-01-21T17:40:56","date_gmt":"2010-01-21T17:40:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=263"},"modified":"2010-01-21T17:40:56","modified_gmt":"2010-01-21T17:40:56","slug":"haiti-eis-o-que-e-imperialismo-e-o-que-e-subimperialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/263","title":{"rendered":"Haiti: eis o que \u00e9 imperialismo e o que \u00e9 subimperialismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Sem que a m\u00eddia d\u00ea aten\u00e7\u00e3o a este aspecto, os Estados Unidos est\u00e3o aumentando tamb\u00e9m o controle do porto que d\u00e1 acesso \u00e0 capital e de toda a \u00e1rea litor\u00e2nea do Haiti, com um porta-avi\u00f5es, um navio equipado com um hospital de campanha e v\u00e1rios navios da Guarda Costeira, visando a socorrer feridos, mas tamb\u00e9m a selecionar e controlar a aproxima\u00e7\u00e3o de navios de ajuda de outros pa\u00edses, como o enviado pela Venezuela com combust\u00edvel, e a impedir a emigra\u00e7\u00e3o desesperada de haitianos para a costa estadunidense em pequenas embarca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o podendo justificar suas a\u00e7\u00f5es arrogantes e unilaterais com ordens das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o governo de Washington tem argumentado que atua a pedido do governo haitiano. Mas que soberania pode ter um governo, como o do presidente Ren\u00e9 Pr\u00e9val, que n\u00e3o disp\u00f5e sequer de for\u00e7as policiais e de equipamentos de comunica\u00e7\u00e3o e transporte para manter a ordem p\u00fablica e organizar o salvamento de seus cidad\u00e3os? \u00c9 significativo tamb\u00e9m que o plano de salvamento e reconstru\u00e7\u00e3o do Haiti pelos Estados Unidos tenha sido anunciado, em conjunto, pelo presidente Barack Obama e pelos ex-presidentes Clinton e Bush &#8211; o mesmo Bush que demorou tanto a agir quando o furac\u00e3o Katrina destruiu uma grande \u00e1rea dos Estados Unidos. Quando os interesses estrat\u00e9gicos da superpot\u00eancia estadunidense e de suas empresas transnacionais est\u00e3o em jogo, prevalece como sempre o consenso bipartid\u00e1rio entre &#8220;democratas&#8221; e &#8220;republicanos&#8221; &#8211; ali\u00e1s, uma conflu\u00eancia bipartid\u00e1ria semelhante se ensaia agora no Brasil com o PSDB e o PT, apesar das acirradas disputas nas fases de elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O jornalista Roberto Godoy, especializado em assuntos militares, escreve no &#8220;Estad\u00e3o&#8221; de hoje: &#8220;Os Estados Unidos est\u00e3o fazendo no Haiti o que sabem fazer melhor: ocupar, assumir, controlar. Decidida em Washington, a opera\u00e7\u00e3o de suporte \u00e0s v\u00edtimas da devasta\u00e7\u00e3o, em quatro horas, tinha 2 mil militares mobilizados &#8211; e metade deles j\u00e1 seguia para Porto Pr\u00edncipe &#8211; enquanto o resto do mundo apenas tomava conhecimento da trag\u00e9dia. (&#8230;) \u00c9 a Doutrina Powell, criada no fim dos anos 80 pelo ent\u00e3o chefe do Estado-Maior Conjunto general Colin Powell, aplicada em tempo de paz. Ela prev\u00ea que os Estados Unidos n\u00e3o devem entrar em a\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser com superioridade arrasadora. (&#8230;) No s\u00e1bado, oficiais americanos [seria mais correto escrever estadunidenses, porque americanos somos todos n\u00f3s] estavam no comando do tr\u00e1fego a\u00e9reo. Os paraquedistas da 82\u00aa Divis\u00e3o e os fuzileiros navais (&#8230;) s\u00e3o treinados para o combate e tamb\u00e9m para miss\u00f5es de resgate. Movimentam-se em helic\u00f3pteros e ve\u00edculos convertidos em ambul\u00e2ncias leves. A retaguarda \u00e9 poderosa. Um porta-avi\u00f5es virou central log\u00edstica e um navio-hospital de mil leitos chegou no domingo. Ontem, avi\u00f5es dos Estados Unidos ocupavam 7 das 11 posi\u00e7\u00f5es de parada remanescentes no aeroporto.&#8221;<\/p>\n<p>A m\u00eddia do grande capital, exagerando os saques e os conflitos, cumpriu seu papel de preparar a opini\u00e3o p\u00fablica para aceitar a opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar dos Estados Unidos como necess\u00e1ria e benevolente. Na realidade, os Estados Unidos t\u00eam contribu\u00eddo para acirrar os conflitos ao atrasar a ajuda humanit\u00e1ria de outros pa\u00edses e utilizar avi\u00f5es e helic\u00f3pteros para despejar suprimentos aleatoriamente sobre uma popula\u00e7\u00e3o sedenta, faminta e desorganizada. At\u00e9 mesmo o general brasileiro Floriano Peixoto, comandante da Minustah (Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), ponderou em videoconfer\u00eancia que os casos mais graves de viol\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o generalizados e disse que as ruas de Porto Pr\u00edncipe est\u00e3o desobstru\u00eddas, o que facilita a a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a. Na avalia\u00e7\u00e3o do general, a situa\u00e7\u00e3o se mostra menos grave do que a vers\u00e3o difundida pela imprensa. Al\u00e9m disso, quem tem experi\u00eancia pol\u00edtica e j\u00e1 participou da resist\u00eancia a regimes entreguistas e autorit\u00e1rios n\u00e3o pode deixar de receber com ceticismo a qualifica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e indiferenciada, difundida pela m\u00eddia, de que todos os presos que escaparam dos pres\u00eddios destru\u00eddos pelo terremoto s\u00e3o criminosos comuns e integrantes de &#8220;gangues de bandidos&#8221;. Muitos oficiais e soldados do antigo Ex\u00e9rcito haitiano formaram mil\u00edcias, que declararam seu apoio ao \u00faltimo presidente livremente eleito Jean-Bertrand Aristide, depois que ele foi deposto em 2004. Seq\u00fcestrado por tropas estadunidenses e levado \u00e0 for\u00e7a para a \u00c1frica do Sul, bem longe do Haiti, o ex-presidente Aristide continua impedido de voltar ao pa\u00eds e seu partido foi proibido de participar das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es realizadas sob o controle da Minustah.<\/p>\n<p>Com as diferen\u00e7as secund\u00e1rias de motiva\u00e7\u00e3o e de situa\u00e7\u00e3o interna, o roteiro seguido pelos Estados Unidos no Haiti \u00e9, portanto, essencialmente, o mesmo adotado no Iraque ou no Afeganist\u00e3o: primeiro, destroem-se os Estados nacionais que esbocem qualquer rebeldia, instalando a devasta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social e o caos pol\u00edtico; depois, utilizam-se essas circunst\u00e2ncias deterioradas para justificar a constru\u00e7\u00e3o de Estados sat\u00e9lites; por \u00faltimo, esses Estados sat\u00e9lites e corruptos se revelam incapazes de garantir a paz, resgatar a dignidade nacional e melhorar o padr\u00e3o de vida da popula\u00e7\u00e3o (com as exce\u00e7\u00f5es de praxe das elites colaboracionistas), justificando que a ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense se prolongue indefinidamente. A crise aprofundada pela interven\u00e7\u00e3o externa cria, enquanto isso, oportunidades de novos neg\u00f3cios lucrativos para os fabricantes de armas, as empresas de seguran\u00e7a e as grandes construtoras dos Estados Unidos e de seus aliados.<\/p>\n<p>Para dissipar d\u00favidas sobre as reais inten\u00e7\u00f5es da interven\u00e7\u00e3o &#8220;emergencial&#8221; e &#8220;humanit\u00e1ria&#8221; dos Estados Unidos no Haiti, o diplomata Greg Adams, enviado ao pa\u00eds caribenho como porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, declarou ao &#8220;Estad\u00e3o&#8221; em Porto Pr\u00edncipe: &#8220;\u00c9 muito cedo para estabelecer prazos [para a retirada das tropas estadunidenses] e ficaremos aqui o tempo que for necess\u00e1rio [lembremo-nos de declara\u00e7\u00f5es semelhantes tornadas p\u00fablicas no in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque]. Havia tropas estrangeiras no Haiti antes do terremoto [ah, \u00e9?]. Com a trag\u00e9dia, al\u00e9m de todos os outros problemas, n\u00e3o vejo uma data-limite no futuro pr\u00f3ximo para falarmos aos haitianos &#8216;ok, agora \u00e9 com voc\u00eas&#8217;. Ficaremos aqui por um bom tempo e acho que o Brasil tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>A refer\u00eancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o coadjuvante e subordinada do Brasil foi bem esperta. Que autoridade moral pode ter o governo brasileiro de protestar contra a a\u00e7\u00e3o estadunidense se tem participado da interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar nos assuntos internos do Haiti, ainda que com a chancela formal das Na\u00e7\u00f5es Unidas, chancela j\u00e1 utilizada ao longo da historia da entidade para encobrir tantas outras interven\u00e7\u00f5es? Participando das opera\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a &#8211; ou seja, em bom portugu\u00eas, de repress\u00e3o &#8211; com o benepl\u00e1cito e em benef\u00edcio dos Estados Unidos, o Brasil espera ganhar o pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o de tomar parte nos neg\u00f3cios de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Ali\u00e1s, grandes construtoras brasileiras, como a OAS e a Odebrecht, j\u00e1 enviaram equipes t\u00e9cnicas e equipamentos pesados para o Haiti, posicionando-se para a disputa que vir\u00e1.<\/p>\n<p>Quem afirma que n\u00e3o existe mais imperialismo no s\u00e9culo XXI ou p\u00f5e em d\u00favida o conceito de subimperialismo, utilizado para caracterizar a pol\u00edtica externa atual do Brasil, principalmente na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, tem assim a oportunidade de aprender, em cores e on line, o conte\u00fado concreto desses conceitos e dessas pr\u00e1ticas. Abrindo bem os olhos, os patriotas e democratas brasileiros t\u00eam o dever de exigir que o Brasil renuncie ao comando militar da Minustah, retire progressivamente suas tropas do Haiti e se limite \u00e0s a\u00e7\u00f5es de cunho efetivamente humanit\u00e1rio. O Haiti n\u00e3o precisa s\u00f3 de ajuda, precisa de soberania. Que os Estados Unidos realizem seu plano de interven\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o de um Estado sat\u00e9lite no Haiti com seus pr\u00f3prios recursos humanos e materiais e sob sua exclusiva responsabilidade. Assim, pelo menos, a situa\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 mais clara e se tornar\u00e1 mais f\u00e1cil mobilizar as for\u00e7as antiimperialistas e democr\u00e1ticas no Haiti e nos demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe. N\u00e3o percamos de vista que um imp\u00e9rio em decl\u00ednio, na desesperada tentativa de reverter o curso hist\u00f3rico que o debilita, pode tornar-se mais perigoso e aventureiro do que um imp\u00e9rio em ascens\u00e3o e paciente.<\/p>\n<p>Estou fechando este par\u00eantese sobre a trag\u00e9dia haitiana, porque j\u00e1 est\u00e1 claro que n\u00e3o se trata apenas de uma trag\u00e9dia natural e humanit\u00e1ria, mas sobretudo pol\u00edtica e militar. Recentemente, um terremoto devastou uma grande regi\u00e3o da China, deixando 87 mil mortos, segundo as estimativas oficiais. Porque havia e h\u00e1 na China, apesar de sua pobreza ainda grande, um Estado soberano e ativo, foi poss\u00edvel lidar com as conseq\u00fc\u00eancias da trag\u00e9dia sem permitir a interven\u00e7\u00e3o estrangeira no comando das opera\u00e7\u00f5es de socorro e reconstru\u00e7\u00e3o ou o desembarque de tropas de outros pa\u00edses. A grande trag\u00e9dia do Haiti foi a destrui\u00e7\u00e3o progressiva de seu Estado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com a dissolu\u00e7\u00e3o de suas for\u00e7as armadas e policiais, a precariza\u00e7\u00e3o de seus servi\u00e7os p\u00fablicos e a desorganiza\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Duarte Pereira <\/p>\n<p>20\/01\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: XXX\n\n\n\n\nDuarte Pereira\nEst\u00e1-se consumando a cr\u00f4nica anunciada e previs\u00edvel da nova ocupa\u00e7\u00e3o do Haiti pelos Estados Unidos, desta vez aproveitando o terremoto que devastou o pa\u00eds e sua capital. Os Estados Unidos j\u00e1 desembarcaram 11 mil militares no pa\u00eds. Ontem, com tropas armadas e uniformizadas para combate, transportadas em helic\u00f3pteros de guerra, ocuparam o pal\u00e1cio presidencial em Porto Pr\u00edncipe. O aeroporto, n\u00e3o esque\u00e7amos, continua sendo controlado e operado pelos Estados Unidos, que hastearam sua bandeira no local e decidem que avi\u00f5es podem pousar. Nos \u00faltimos dias, deram prioridade a suas aeronaves, principalmente militares, prejudicando o desembarque da ajuda enviada por outros pa\u00edses e por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais. A prioridade foi a seguran\u00e7a, n\u00e3o a vida da popula\u00e7\u00e3o haitiana, principalmente pobre. O ministro franc\u00eas da Coopera\u00e7\u00e3o, Alain Joyandet, chegou a protestar: &#8220;Precisamos ajudar o Haiti, n\u00e3o ocup\u00e1-lo.&#8221; \u00c9 verdade que, tendo cumprido o cronograma inicial de desembarque de suas tropas, os Estados Unidos poder\u00e3o autorizar, nos pr\u00f3ximos dias, o pouso de um n\u00famero maior de avi\u00f5es de outros pa\u00edses, com t\u00e9cnicos e equipamentos para remo\u00e7\u00e3o de destro\u00e7os, m\u00e9dicos e rem\u00e9dios para atendimento dos feridos, \u00e1gua e alimentos para a popula\u00e7\u00e3o desabrigada e desempregada. A essa altura, por\u00e9m, a possibilidade de encontrar pessoas soterradas com vida ser\u00e1 m\u00ednima e excepcional.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/263\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-263","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4f","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=263"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}