{"id":2630,"date":"2012-04-05T16:13:14","date_gmt":"2012-04-05T16:13:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2630"},"modified":"2012-04-05T16:13:14","modified_gmt":"2012-04-05T16:13:14","slug":"a-manifestacao-dos-caras-pintadas-diante-do-clube-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2630","title":{"rendered":"A manifesta\u00e7\u00e3o dos caras-pintadas diante do Clube Militar"},"content":{"rendered":"\n<p>Foi um acaso. Eu passava hoje pela\u00a0<strong>Rio Branco<\/strong>, prestes a pegar o\u00a0<strong>Aterro<\/strong>, quando ouvi gritos e vi uma aglomera\u00e7\u00e3o do lado esquerdo da avenida. Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do<strong> Clube Militar<\/strong>, onde acontecia a anunciada reuni\u00e3o dos militares de pijama celebrando o &#8220;31 de Mar\u00e7o&#8221; e contra a\u00a0<strong>Comiss\u00e3o da Verdade<\/strong>.<\/p>\n<p>S\u00f3 vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irm\u00e3o e de minha cunhada. Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almo\u00e7o no\u00a0<strong>Clube de Engenharia<\/strong>. Para isso, fui pela manh\u00e3 ao cabeleireiro, arrumei-me,\u00a0 coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era tensa. As crian\u00e7as, emboladas, berrando palavras de ordem e bord\u00f5es contra a ditadura e a favor da\u00a0<strong>Comiss\u00e3o da Verdade.<\/strong> Frases como &#8220;Cadeia J\u00e1, Cadeia J\u00e1, a quem torturou na ditadura militar&#8221;. Faces jovens, muito jovens, imberbes at\u00e9. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e at\u00e9 nas roupas. E eles num entusiasmo, num \u00edmpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou! Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!<\/p>\n<p>Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmec\u00ea, que o<strong> Brasil<\/strong> tenha a dignidade de dar \u00e0s fam\u00edlias dos torturados e mortos ao menos a satisfa\u00e7\u00e3o de saberem\u00a0<strong>como, de que forma, onde e por quem <\/strong>foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. N\u00e3o \u00e9 pedir muito, ser\u00e1 que \u00e9?<\/p>\n<p>Quando vemos, hoje, crian\u00e7as brasileiras que somem, se evaporam e jamais s\u00e3o recuperadas, crian\u00e7as que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lix\u00e3o e escravizadas, n\u00f3s sabemos que elas jamais ser\u00e3o encontradas, pois nunca ser\u00e3o procuradas. Pois o jogo \u00e9 esse. \u00c9 esta a nossa tradi\u00e7\u00e3o. Semente plantada l\u00e1 atr\u00e1s,\u00a0<strong>desde 1964<\/strong> &#8211; e ainda h\u00e1 quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do pr\u00e9dio do\u00a0<strong>Clube Militar<\/strong>.\u00a0 &#8220;Assassino!&#8221;, &#8220;assassino!&#8221;, &#8220;torturador!&#8221;, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e \u00f3culos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trov\u00e3o. Era mais um militar de cabe\u00e7a branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recep\u00e7\u00e3o com raiva, rancor, f\u00faria, ressentimento. At\u00e9 cuspe eu vi, no ombro de um terno pr\u00edncipe de Gales.<\/p>\n<p>Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abra\u00e7o daqueles\u00a0<strong>PMs<\/strong>refor\u00e7ados e vestidos com colete \u00e0 prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os bra\u00e7os, for\u00e7ando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reuni\u00e3o em seu\u00a0<strong>Clube Militar<\/strong>: carregados no colo dos PMs.<\/p>\n<p>Os cartazes com os rostos eram sacudidos. \u00c0 men\u00e7\u00e3o de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multid\u00e3o berrava: &#8220;Presente!&#8221;. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edif\u00edcio. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos pol\u00edticos e de n\u00e3o sei o qu\u00ea mais, por\u00e9m isso n\u00e3o me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei \u00e0 parte da multid\u00e3o. Recuada, num degrau de uma loja de c\u00e2mbio ao lado da portaria do pr\u00e9dio. A pol\u00edcia e os seguran\u00e7as do\u00a0<strong>Clube<\/strong> evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fot\u00f3grafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do &#8220;corredor&#8221;,\u00a0 manifestantes para o lado de l\u00e1 do cord\u00e3o de isolamento. E ningu\u00e9m me via. Parecia que eu era invis\u00edvel. Fiquei ali, absolutamente sozinha,\u00a0 testemunhando\u00a0 tudo\u00a0 aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra l\u00e1 e pra c\u00e1, carregando os generais, empurrando a aglomera\u00e7\u00e3o, sem perceberem a minha presen\u00e7a. Mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>At\u00e9 que fui denunciada pelas l\u00e1grimas. Uma senhora me reconheceu, jogou um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi que eu representava ali as fam\u00edlias daqueles mortos e estava sendo reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Ent\u00e3o e enfim os PMs me viram. Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se n\u00e3o era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar, mesmo com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que n\u00e3o conseguiria me demover: &#8220;A senhora quer um copo d&#8217;\u00e1gua?&#8221;. Na mesma hora o copo d&#8217;\u00e1gua veio. O seguran\u00e7a do Clube ofereceu: &#8220;A senhora n\u00e3o prefere ficar na portaria, l\u00e1 dentro? &#8220;. &#8220;Ah, n\u00e3o, meu senhor. L\u00e1 dentro n\u00e3o. Prefiro a cal\u00e7ada&#8221;. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de<strong> Angel. <\/strong>Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lan\u00e7as, apenas a sua voz, contra as p\u00e1s lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma gera\u00e7\u00e3o de idealistas.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o havia sido anunciada. Por\u00e9m, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram \u00e0quelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus avi\u00f5es? Em suas comiss\u00f5es e congressos e reda\u00e7\u00f5es?\u00a0 Ser\u00e1 esta a li\u00e7\u00e3o que nos imp\u00f5e a\u00a0<strong>Hist\u00f3ria<\/strong>: delegar sempre a realiza\u00e7\u00e3o dos &#8220;sonhos imposs\u00edveis&#8221; ao destemor idealista dos mais jovens?<\/p>\n<p>Abaixo imagens da manifesta\u00e7\u00e3o e seus desdobramentos<\/p>\n<p> <object width=\"480\" height=\"360\"><\/object> <\/p>\n<p>http:\/\/noticias.r7.com\/blogs\/hildegard-angel\/2012\/03\/29\/a-manifestacao-dos-caras-pintadas-diante-do-clube-militar\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Hildegard Angel\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2630\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-2630","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Gq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2630\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}