{"id":26303,"date":"2020-10-18T13:29:46","date_gmt":"2020-10-18T16:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26303"},"modified":"2020-10-18T13:29:46","modified_gmt":"2020-10-18T16:29:46","slug":"povos-indigenas-ameacados-pelos-incendios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26303","title":{"rendered":"Povos ind\u00edgenas amea\u00e7ados pelos inc\u00eandios"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2020\/10\/16-10-2020-incendio-amazonia-foto-daniel-beltra-greenpeace.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A sobreviv\u00eancia de v\u00e1rios povos ind\u00edgenas isolados est\u00e1 em risco depois que inc\u00eandios foram iniciados em seus territ\u00f3rios. Ativistas descreveram os inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia e a guerra do presidente Bolsonaro contra os povos ind\u00edgenas como \u201cas mais graves amea\u00e7as \u00e0 sobreviv\u00eancia dos ind\u00edgenas isolados dos \u00faltimos anos\u201d.<\/p>\n<p>Quatro territ\u00f3rios ind\u00edgenas enfrentam uma crise especialmente grave:<br \/>\n&#8211; A Mata do Mam\u00e3o na Ilha do Bananal no Tocantins, a maior ilha fluvial do mundo, \u00e9 habitada por ind\u00edgenas isolados do povo \u00c3wa. Oitenta por cento da floresta foi queimada no ano passado \u2013 os inc\u00eandios vistos este ano est\u00e3o ocorrendo em uma das \u00faltimas \u00e1reas de floresta intacta. Mais de 100.000 cabe\u00e7as de gado pastam agora na ilha.<\/p>\n<p>&#8211; A Terra Ind\u00edgena Ituna Itat\u00e1 (\u201cCheiro de Fogo\u201d) no estado do Par\u00e1 \u00e9 habitada exclusivamente por ind\u00edgenas isolados. Esse foi o territ\u00f3rio ind\u00edgena mais desmatado em 2019 e \u00e9 bastante visado por grileiros e pecuaristas. Nos primeiros quatro meses de 2020, 1.319 hectares de floresta foram destru\u00eddos, um aumento de quase 60% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano passado.<\/p>\n<p>&#8211; A Terra Ind\u00edgena Arariboia, no estado do Maranh\u00e3o onde habitam ind\u00edgenas isolados do povo Aw\u00e1, que j\u00e1 foi amplamente invadida. Os Guardi\u00f5es da Amaz\u00f4nia do povo ind\u00edgena Guajajara, vizinhos dos Aw\u00e1, est\u00e3o alertando diariamente que madeireiros ilegais est\u00e3o destruindo a floresta em uma velocidade alarmante.<\/p>\n<p>&#8211; A Terra Ind\u00edgena Uru Eu Wau Wau em Rond\u00f4nia onde ind\u00edgenas isolados flecharam e mataram o renomado indigenista Rieli Franciscato no m\u00eas passado \u2013 ativistas temem que o grupo esteja sendo for\u00e7ado pelos invasores a sair de sua floresta.<\/p>\n<p>Muitos dos inc\u00eandios est\u00e3o sendo iniciados para limpar a floresta para explora\u00e7\u00e3o madeireira e pecu\u00e1ria, enquanto milh\u00f5es de toneladas de soja, carne, madeira e outros produtos s\u00e3o exportados para a Europa e os EUA a cada ano.<\/p>\n<p>A APIB, Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil, lan\u00e7ou uma campanha para destacar a liga\u00e7\u00e3o entre Bolsonaro, seus apoiadores do agroneg\u00f3cio e a viol\u00eancia genocida cometida contra os povos ind\u00edgenas em todo o pa\u00eds. Eles est\u00e3o pedindo a pessoas e empresas em todo o mundo que parem de comprar produtos que est\u00e3o alimentando a destrui\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>\u00c2ngela Kaxuyana, da Coordena\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira (COIAB), disse: \u201cA grilagem de terra, o desmatamento e os inc\u00eandios criminosos amea\u00e7am diretamente a vida dos nossos parentes em isolamento volunt\u00e1rio. A destrui\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios que s\u00e3o suas \u00fanicas fontes de vida, de onde garantem sua alimenta\u00e7\u00e3o (fauna, flora e \u00e1gua), podem lev\u00e1-los ao exterm\u00ednio\u201d.<\/p>\n<p>Tainaky Tenetehar, um dos Guardi\u00f5es Guajajara que protegem a Terra Ind\u00edgena Arariboia para o povo Guajajara e seus vizinhos isolados Aw\u00e1, disse: \u201cN\u00f3s lutamos para proteger esta floresta, e muitos de n\u00f3s morreram fazendo isso, mas os invasores continuam chegando. Eles destru\u00edram tanto a floresta nos \u00faltimos anos que os inc\u00eandios agora s\u00e3o muito maiores e mais graves do que antes, pois a floresta est\u00e1 muito seca e vulner\u00e1vel. Os madeireiros devem ser expulsos \u2013 s\u00f3 ent\u00e3o os ind\u00edgenas isolados Aw\u00e1 podem sobreviver e prosperar.\u201d<\/p>\n<p>Sarah Shenker, pesquisadora e ativista da Survival, disse: \u201cEm muitas partes do Brasil, as terras dos povos ind\u00edgenas isolados s\u00e3o as \u00faltimas \u00e1reas significativas que ainda restam da floresta tropical. Agora elas est\u00e3o sendo alvos de grileiros, madeireiros e fazendeiros encorajados pelo apoio aberto de Bolsonaro a eles. Os consumidores dos EUA e da Europa devem entender que h\u00e1 uma conex\u00e3o direta entre os alimentos nas prateleiras dos supermercados e essa destrui\u00e7\u00e3o genocida \u2013 e devem agir para parar. Os ind\u00edgenas isoladas s\u00e3o os povos mais vulner\u00e1veis do planeta e, ao mesmo tempo, os melhores guardi\u00f5es da natureza. N\u00e3o podemos deixar sua terra queimar.\u201d<\/p>\n<p>Acusados por Bolsonaro, caboclos e ind\u00edgenas t\u00eam territ\u00f3rios devastados por inc\u00eandios no Pantanal<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/603782-acusados-por-bolsonaro-caboclos-e-indigenas-tem-territorios-devastados-por-incendios-no-pantanal<\/p>\n<p>Pol\u00edcia Federal investiga pecuaristas, enquanto assentados, pescadores e ind\u00edgenas da etnia Guat\u00f3 sofrem para superar a destrui\u00e7\u00e3o provocada pelo fogo e as acusa\u00e7\u00f5es do presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>\u201cEra verde, ficou tudo preto e agora cinza\u201d, descreve Alessandra Guat\u00f3 sobre a mudan\u00e7a provocada pelo fogo na Terra Ind\u00edgena Ba\u00eda dos Guat\u00f3, em Bar\u00e3o de Melga\u00e7o, no Pantanal mato-grossense. A reserva teve 88% de sua \u00e1rea atingida por inc\u00eandios entre janeiro e setembro, e hoje sofre para conseguir \u00e1gua j\u00e1 que a seca esvaziou um bra\u00e7o do rio local. Do outro lado do Pantanal, no assentamento Taquaral, em Corumb\u00e1, no Mato Grosso do Sul, Luiz da Concei\u00e7\u00e3o reclama que n\u00e3o v\u00ea mais o azul do c\u00e9u: \u201cS\u00f3 cinza e fuma\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Quando chegou ao assentamento, depois de tentar a vida no Paraguai e cruzar o Mato Grosso do Sul perambulando em diversos acampamentos com a fam\u00edlia, o paranaense Luiz conseguiu em Corumb\u00e1, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com a Bol\u00edvia, a terra que sempre sonhou na caminhada de anos pela reforma agr\u00e1ria. \u201cAgora estou no c\u00e9u\u201d, afirma. O que deixa o assentado chateado, contudo, \u00e9 ser acusado de colocar fogo no Pantanal.<\/p>\n<p>Luiz e Alessandra est\u00e3o entre os \u201ccaboclos e ind\u00edgenas\u201d apontados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como respons\u00e1veis pelas queimadas que devastam todo o pa\u00eds. Bolsonaro fez a primeira acusa\u00e7\u00e3o em julho, durante uma transmiss\u00e3o ao vivo em uma rede social, ao lado do ministro Meio Ambiente, Ricardo Salles: \u201cUma parte consider\u00e1vel das pessoas que desmatam e tocam fogo \u00e9 ind\u00edgena, caboclo\u201d. Repetiu a acusa\u00e7\u00e3o em setembro durante o discurso de abertura da 75\u00aa Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU): \u201cCaboclo e o \u00edndio queimam seus ro\u00e7ados em busca de sua sobreviv\u00eancia, em \u00e1reas j\u00e1 desmatadas\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma covardia, uma desumanidade. \u00c9 querer incitar o \u00f3dio e a xenofobia\u201d, afirma An\u00edsio Guat\u00f3 (PSOL), candidato a prefeito de Corumb\u00e1. Conhecidos como ind\u00edgenas pantaneiros, os Guat\u00f3 chegaram a ser considerados extintos pelo \u00f3rg\u00e3o indigenista na d\u00e9cada de 1950, resultado do processo de invas\u00e3o de suas terras por pecuaristas. An\u00edsio explica que n\u00e3o foram extintos, mas expulsos das terras, principalmente das margens dos rios em que viviam, e passaram a habitar a periferia das cidades. \u201cOnde tiver uma canoa de um pau s\u00f3 \u00e9 um territ\u00f3rio Guat\u00f3\u201d, cita a frase repetida pelos integrantes da etnia, em uma refer\u00eancia ao fato de que os ind\u00edgenas est\u00e3o em diversas partes do Pantanal.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s serem expulsos pelo agroneg\u00f3cio a partir da d\u00e9cada de 1940, foi iniciado um processo para tentar recuperar parte do territ\u00f3rio tradicional dos Guat\u00f3. Uma delas foi homologada em 2018, a Terra Ind\u00edgena Ba\u00eda dos Guat\u00f3, que agora arde em chamas. Dos 19.287 hectares da reserva, 17.035 foram queimados entre janeiro e setembro \u2014 a destrui\u00e7\u00e3o corresponde a 88%, segundo c\u00e1lculo realizado pelo Instituto Centro da Vida (ICV), que desenvolveu o Monitor das Queimadas, com cruzamento de dados de sat\u00e9lites.<br \/>\nCasas foram queimadas, ro\u00e7as perdidas e o Corixo do Bebe (bra\u00e7o de rio) secou completamente, deixando as fam\u00edlias que moram pr\u00f3ximas sem \u00e1gua, descreve Alessandra Guat\u00f3. \u201cA gente fica com uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia. De n\u00e3o conseguir resolver muita coisa\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Alessandra calcula que a recupera\u00e7\u00e3o pode levar at\u00e9 5 anos. \u201dPerdemos a vegeta\u00e7\u00e3o original, com \u00e1rvores de 40 anos, que n\u00e3o crescem facilmente\u201d, afirma. Ela e outras lideran\u00e7as dos Guat\u00f3 est\u00e3o tentando conseguir doa\u00e7\u00f5es de sementes nativas e frut\u00edferas, para fazerem um viveiro e iniciarem o replantio. O temor dela \u00e9 que a destrui\u00e7\u00e3o leve algumas fam\u00edlias a deixarem a reserva e tentarem a vida nas cidades. Na Ba\u00eda dos Guat\u00f3 vivem 80 fam\u00edlias, que totalizam 253 ind\u00edgenas e est\u00e3o divididos em duas aldeias, Aterradinha e S\u00e3o Benedito.<\/p>\n<p>\u201cQueremos evitar que isso aconte\u00e7a. A gente sabe que a vida fora da aldeia n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Na aldeia, por mais dif\u00edcil que seja, \u00e9 mais simples. Na cidade, amanhece precisando de dinheiro e anoitece precisando de dinheiro. Precisa de dinheiro para tudo: morar, andar, comer. Temos que evitar que os parentes saiam\u201d, avalia Alessandra.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas no Pantanal mato-grossense n\u00e3o se restringiu \u00e0 Ba\u00eda dos Guat\u00f3. Outras duas TI\u2019s foram gravemente afetadas. A TI Tereza Cristina teve 21 mil hectares atingidos pelo fogo (73% do total) e a TI Periguara, 8,6 mil hectares (80%).<\/p>\n<p>\u2018Fogo vem das fazendas\u2019<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da tese defendida pelo presidente Bolsonaro, os dados de sat\u00e9lite indicam que o fogo n\u00e3o foi provocado por ind\u00edgenas e caboclos. Somente os inc\u00eandios que tiveram in\u00edcio em cinco propriedades rurais voltadas para pecu\u00e1ria, todas localizadas em Pocon\u00e9 (100 km de Cuiab\u00e1), foram respons\u00e1veis por destruir 116.783 hectares, \u00e1rea equivalente \u00e0 cidade do Rio de Janeiro. Esse volume de destrui\u00e7\u00e3o correspondeu a 36% da \u00e1rea total atingida por inc\u00eandios no Pantanal mato-grossense no per\u00edodo analisado (entre julho e a primeira metade de agosto).<\/p>\n<p>Duas dessas fazendas de pecuaristas vendem gado para o grupo Amaggi, do ex-ministro, ex-senador e ex-governador Blairo Maggi, e para o grupo Bom Futuro, de Era\u00ed Maggi, considerado o maior produtor de soja do mundo. Esses dois grupos empresariais, por sua vez, s\u00e3o fornecedores das gigantes multinacionais JBS, Marfrig e Minerva, conforme revelou a Rep\u00f3rter Brasil.<\/p>\n<p>Quatro dias depois do discurso de Bolsonaro na ONU, o cacique Raoni Metuktire procurou os jornalistas em Sinop, no norte do Mato Grosso, e acusou o presidente de mentir. \u201cEle [Bolsonaro] diz no jornal que \u00edndio est\u00e1 botando fogo no planeta, isso \u00e9 pura mentira. S\u00e3o os pr\u00f3prios fazendeiros. Madeireiros, garimpeiros est\u00e3o prejudicando a natureza. Eles est\u00e3o botando fogo no planeta\u201d, disse o l\u00edder ind\u00edgena.<\/p>\n<p>\u201cO fogo vem de fora; vem das fazendas\u201d, entende Alessandra Guat\u00f3. Ela afirma que n\u00e3o pode afirmar se o fogo foi colocado de forma intencional e pede que a pol\u00edcia investigue. No Mato Grosso do Sul, a Pol\u00edcia Federal iniciou uma investiga\u00e7\u00e3o que tem como alvo quatro fazendeiros suspeitos de provocarem queimadas para abertura de pastos em Corumb\u00e1. Um dos investigados \u00e9 Pery Miranda Filho, fazendeiro que j\u00e1 vendeu gado para o governador Reinaldo Azambuja (PSDB), conforme revelou a Rep\u00f3rter Brasil. O advogado de Miranda Filho negou que o fogo tenha sido colocado intencionalmente.<\/p>\n<p>O governador Azambuja informou, em nota, que n\u00e3o tem conhecimento sobre a opera\u00e7\u00e3o da PF, mas que, \u201ccomo produtor rural, h\u00e1 muitos anos mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es comerciais com todo o mercado de Mato Grosso do Sul\u201d. Ao conversar com os advogados de dois fazendeiros investigados pela Pol\u00edcia Federal em Corumb\u00e1, ambos usaram o mesmo argumento. Dizem que o fogo \u00e9 provocado por pequenos pescadores e pelos isqueiros, como s\u00e3o chamados os que extraem iscas vivas para venderem para hot\u00e9is e barcos que atendem o turismo de pesca. O motivo, segundo os representantes dos fazendeiros, \u00e9 que esses pescadores artesanais e isqueiros acampam na beira do rio, colocam fogo para desmatar um pequeno peda\u00e7o para montar a barraca e, provocam os inc\u00eandios sem inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e3o culpar sempre os pescadores, pois eles s\u00e3o fracos e n\u00e3o tem como se defenderem\u201d, afirma a presidente da Col\u00f4nia de Pescadores de Corumb\u00e1, Luciane de Lima, que representa 875 pescadores e isqueiros. Ela considera a acusa\u00e7\u00e3o descabida e questiona: \u201cComo que o pescador vai destruir o meio ambiente se \u00e9 dele que ele tira seu sustento?\u201d. Esse argumento que culpa os pescadores foi intensificado, segundo Lima, ap\u00f3s o discurso de Bolsonaro na abertura da assembleia da ONU. \u201cPegaram uma pontinha da fala do presidente para culpar o pescador\u201d, entende.<\/p>\n<p>A vendedora de peixes \u00e0s margens do rio Paraguai, Rosimeire Barros Pinheiro alerta para outro problema que o fogo pode provocar para os pescadores, o fen\u00f4meno conhecido como \u201cdecoada\u201d. Quando a mat\u00e9ria org\u00e2nica das queimadas fica no solo ela \u00e9 levada pelas chuvas para rios e lagoas. Esse material se decomp\u00f5e e reduz a oxigena\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, o que leva \u00e0 morte de peixes por asfixia.<\/p>\n<p>Aos 75 anos, Rosimeire lembra que j\u00e1 viveu longos per\u00edodos de seca e cheias, mas que queimadas t\u00e3o intensas como a deste ano podem ser piores se forem sucedidas por uma chuva forte. \u201cLeva muita cinza para dentro d\u2019\u00e1gua e vai ser a maior decoada. At\u00e9 piranha vai morrer\u201d, afirma, apontando para o baixo volume do rio Paraguai, o que agrava a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sufoco permanente<\/p>\n<p>A reportagem esteve em Corumb\u00e1 nos \u00faltimos dias de setembro e, quando circulou pela regi\u00e3o, n\u00e3o viu nem sinal de azul no c\u00e9u. A cidade localizada na fronteira com a Bol\u00edvia \u00e9 a que mais tem focos de inc\u00eandio no pa\u00eds. At\u00e9 11 de outubro foram 7.715, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).<br \/>\nSomente Corumb\u00e1 teve metade dos focos de inc\u00eandio que foram registrados em todo o Peru em 2020. Al\u00e9m da fuma\u00e7a onipresente, o calor chegava a desorientar. \u00c0s 11h da ter\u00e7a-feira, 29 de setembro, o term\u00f4metro no painel do carro marcou 46\u00b0C. A combina\u00e7\u00e3o de calor, fuma\u00e7a e umidade baix\u00edssima (menor que 20%) provocam uma sensa\u00e7\u00e3o de sufoco permanente.<\/p>\n<p>\u201cEssa noite a bronquite da minha esposa atacou. Ningu\u00e9m d\u00e1 conta de viver assim\u201d, conta Lucas Souza, morador do assentamento Taquaral, em Corumb\u00e1. Ele e Valdinei da Concei\u00e7\u00e3o criam abelhas para extrair mel e relatam que a fuma\u00e7a constante atrapalha a reprodu\u00e7\u00e3o das abelhas. \u201cEssa fala do Bolsonaro para colocar a culpa nos caboclos e ind\u00edgenas \u00e9 um absurdo. Isso \u00e9 mania de distorcer a realidade\u201d, afirma Lucas.<\/p>\n<p>A conversa com os assentados s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na sombra formada pelo encontro de p\u00e9s de goiaba, acerola, laranja e mexerica. No assentamento Taquaral vivem 300 fam\u00edlias, que plantam para subsist\u00eancia e criam gado leiteiro, al\u00e9m de outras atividades, como a extra\u00e7\u00e3o de mel. Muitos ali se enquadram na defini\u00e7\u00e3o de caboclo (filho de ind\u00edgena e branco) usado pelo presidente Bolsonaro. Ao serem questionados sobre as declara\u00e7\u00f5es do presidente, um burburinho se forma e fica imposs\u00edvel tomar nota de tantas reclama\u00e7\u00f5es. \u201cIsso que ele [Bolsonaro] fala tem reflexo aqui para gente. \u00c9 muito perigoso\u201d, afirma Valdinei.<\/p>\n<p>\u00c1rea de anexos<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/603809-povos-indigenas-isolados-estao-ameacados-pelos-incendios-na-amazonia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26303\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[163],"tags":[226],"class_list":["post-26303","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-movimento-indigena","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Qf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26303","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26303"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26303\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26303"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26303"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26303"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}