{"id":26319,"date":"2020-10-21T19:44:43","date_gmt":"2020-10-21T22:44:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26319"},"modified":"2020-10-21T19:44:43","modified_gmt":"2020-10-21T22:44:43","slug":"a-internet-e-o-opio-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26319","title":{"rendered":"A internet \u00e9 o \u00f3pio do povo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/10\/dilema-do-dilema.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Mauro Luis Iasi.<br \/>\n\u201cO capital tem que ser cris\u00e1lida por um tempo antes de poder voar como borboleta\u201d<br \/>\nKARL MARX, GRUNDRISSE, p. 453.<\/p>\n<p>O dilema do dilema das redes: a internet \u00e9 o \u00f3pio do povo<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>O dilema do document\u00e1rio O dilema das redes (2020) \u00e9 muito comum em document\u00e1rios deste tipo. Nos apresentam uma s\u00e9rie de dados, fatos e den\u00fancias \u2013 todos muito preocupantes \u2013 mas lhes faltam categorias de an\u00e1lise para compreender a quest\u00e3o que denunciam. Podemos ver tal problema em bons document\u00e1rios, como Uma verdade inconveniente (dirigido por Davis Guggenheim e apresentado por Al Gore, 2006) ou mesmo no brasileiro Democracia em vertigem (dir. Petra Costa, 2019).<\/p>\n<p>Antes de tudo \u00e9 preciso dizer que um bom document\u00e1rio pode contribuir com uma den\u00fancia ou registro hist\u00f3rico \u2013 e isso j\u00e1 \u00e9 bastante importante. Portanto, n\u00e3o se trata de desmerecer a fun\u00e7\u00e3o ou a qualidade do filme. Nosso ponto \u00e9 que ficamos com uma inevit\u00e1vel certa sensa\u00e7\u00e3o de espanto: \u201cnossa vejam s\u00f3 o que tem por tr\u00e1s de nosso simples lanche nesta rede de fastfood\u201d, \u201cnossa, estamos destruindo a natureza\u201d, ou, \u201cquem diria, n\u00e3o sabia que na Segunda Guerra Mundial os comunistas foram decisivos para derrotar o nazismo\u201d, ou ainda, \u201cpuxa vida, comprei um conjunto completo de pesca e odeio pescar!\u201d Um bom exemplo disso \u00e9 o document\u00e1rio Sicko: SOS Sa\u00fade (2008), do excelente Michael Moore, que depois de expor um grande e preciso painel sobre diferentes tipos de sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade comparados \u00e0 trag\u00e9dia estadunidense, termina concluindo que os EUA s\u00e3o um exemplo de princ\u00edpios para o mundo.<\/p>\n<p>No caso particular de O dilema das redes ocorre o mesmo. \u00c9, sem d\u00favida, muito importante a den\u00fancia vinda de empres\u00e1rios do setor, que lucraram muito criando as empresas digitais que monopolizam as redes, a revela\u00e7\u00e3o de seu funcionamento e a den\u00fancia sobre os preocupantes efeitos sobre as pessoas e sua perniciosa influ\u00eancia em processos pol\u00edticos. Uma esp\u00e9cie de crise de consci\u00eancia bem-vinda e algumas informa\u00e7\u00f5es muito relevantes. Mas o que nos chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que os envolvidos, via de regra, parecem n\u00e3o entender exatamente no que est\u00e3o envolvidos como protagonistas. E isso acaba desaguando na aparente ingenuidade das propostas para enfrentar o problema.<\/p>\n<p>Podemos resumir esse horizonte das propostas em duas dire\u00e7\u00f5es, que ao meu ver se aproximam na mesma incompreens\u00e3o. A saber: submeter as grandes corpora\u00e7\u00f5es digitais \u00e0 algum tipo de controle, ou boicot\u00e1-las e se retirar das redes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vamos l\u00e1. O primeiro aspecto a ressaltar \u00e9 que a crise \u00e9tica dos protagonistas \u00e9 fundada na premissa que acreditavam estar fazendo algo inovador e profundamente positivo, quando se viram envolvidos em interesses e dire\u00e7\u00f5es profundamente manipulat\u00f3rios. Aqui se reapresenta uma conhecida dimens\u00e3o sobre o uso da tecnologia, que em si mesma seria neutra, podendo portanto ser usada igualmente para o bem ou para o mal. A opera\u00e7\u00e3o desloca, assim, o problema para a dimens\u00e3o \u00e9tica. Todos estavam empenhados em desenvolver uma \u201cferramenta\u201d (o termo \u00e9 importante, como veremos) que seria capaz de integrar as pessoas \u2013 encontrar parentes e amigos distantes, transpor barreiras permitindo a manifesta\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es ou preocupa\u00e7\u00f5es por meio de mensagens, v\u00eddeos e outros meios etc. \u2013 mas se viram enredados numa rede cuja finalidade era prender a aten\u00e7\u00e3o e servir de plataforma de marketing.<\/p>\n<p>Uma das entrevistadas, Cath O\u2019neil (PhD em ci\u00eancias da informa\u00e7\u00e3o), resume os interesses da seguinte maneira: \u201calgoritmos s\u00e3o opini\u00f5es embutidas em c\u00f3digos\u201d que buscam certo objetivo \u201cpor interesse comercial, normalmente \u00e9 por lucro\u201d. Essa por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 propriamente a surpresa dos envolvidos, uma vez que todos sabiam que se tratavam de empresas que visavam lucro \u2013 sua consci\u00eancia imediata simplesmente racionalizava de uma forma muito conhecida, a saber: \u201ctudo bem que eles queiram lucros desde que alcancem fazendo algo bom para todos\u201d. \u00c9 evidente que s\u00e3o empresas \u2013 portanto, n\u00e3o s\u00e3o exatamente \u201cferramentas\u201d \u2013, empresas que querem lucros e que os conseguem numa dimens\u00e3o assombrosa. E \u00e9 aqui que a discuss\u00e3o fica interessante: o que vendem, qual \u00e9 o produto?<\/p>\n<p>A resposta do document\u00e1rio \u00e9 simples: n\u00f3s. De forma correta o document\u00e1rio afasta a resposta simples que o produto seja a venda dos dados capturados pelas plataformas digitais, ainda que este seja um subproduto poss\u00edvel. Ao que parece, contudo, as empresas funcionam, trocando em mi\u00fados, prendendo a aten\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio para que assim, atrav\u00e9s de algoritmos, possa mapear comportamentos e padr\u00f5es que sirvam para dirigir a oferta de produtos com um grau alto de certeza de consumo. Um dos entrevistados resume exatamente assim: o produto vendido \u00e9 \u201ccerteza\u201d.<\/p>\n<p>Aqui, tamb\u00e9m, n\u00e3o chegamos ainda no cerne da surpresa, nem no \u00e2mago do dilema \u00e9tico. Todos ali eram protagonistas de empresas que, segundo imaginavam, prestava um servi\u00e7o relevante e inovador e que precisavam se financiar, ou nos termos de Tim Kendall (ex-executivo do Facebook), \u201cmonetizar\u201d as atividades, como vimos, para ter lucros. O problema parece ser que ao buscar esses objetivos, as redes passaram a fazer algo al\u00e9m do que simplesmente mapear comportamentos e perfis: passaram a ativamente interferir e induzir comportamentos numa determinada dire\u00e7\u00e3o \u2013 da\u00ed a dimens\u00e3o de manipula\u00e7\u00e3o e o dilema \u00e9tico envolvido.<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o (que como veremos fica em grande medida sem resposta terminado o filme) \u00e9 a seguinte: por que prevaleceu a inten\u00e7\u00e3o da manipula\u00e7\u00e3o sobre as boas inten\u00e7\u00f5es de seus criadores? Digo em grande medida pois no fundo h\u00e1 uma resposta. Para os criadores do document\u00e1rio, os algoritmos uma vez criados passam a funcionar sem a interfer\u00eancia direta de seus criadores e executores, algo pr\u00f3ximo da chamada intelig\u00eancia artificial ou educa\u00e7\u00e3o de m\u00e1quina. Os entrevistados chegam a firmar que a grande maioria dos envolvidos n\u00e3o t\u00eam ideia de como realmente funcionam os programas que eles instalam e desenvolvem.<\/p>\n<p>Veja, para n\u00f3s que nos servimos de categorias da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, n\u00e3o podemos deixar de olhar com certa condescend\u00eancia para pessoas extremamente inteligentes e competentes em suas \u00e1reas que desconhecem por completo alguns elementos fundantes do mundo em que vivem. Precisar\u00edamos come\u00e7ar pela afirma\u00e7\u00e3o que estamos todos inseridos numa divis\u00e3o sociot\u00e9cnica do trabalho, uma divis\u00e3o na qual prevalece a fragmenta\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es especializadas e a coopera\u00e7\u00e3o do trabalho, de forma que o produto total resulta da incid\u00eancia de v\u00e1rios trabalhos particulares e que foge a compreens\u00e3o dos sujeitos envolvidos. Isso para n\u00e3o falar em algo constitutivo do mundo das mercadorias, levados ao m\u00e1ximo sobre o capital, que \u00e9 o fetichismo da mercadoria e sua inevit\u00e1vel correspondente na reifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio assim nos comunica, em tons alarmantes de den\u00fancia, que os seres humanos assumiram a forma de mercadorias, se coisificaram! Neste momento, um alem\u00e3o barbudo, com cabelos desengrenados, levanta os olhos em meados do s\u00e9culo XIX de um manuscrito escrito com pena e tinta e diz: \u201cDu wei\u00dft nichts, unschuldig\u201d (mais ou menos: \u201csabe nada inocente\u201d).<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 constata\u00e7\u00e3o central: somos o produto, aprisionada nossa aten\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de m\u00e9todos neurolingu\u00edsticos mais avan\u00e7ados, computados os dados por poderosos computadores e algoritmos sofisticados que resultam no mapeamento e indu\u00e7\u00e3o de perfis e comportamentos para dirigir com alto grau de certeza os produtos a serem anunciados.<\/p>\n<p>O grau de tecnologia envolvido \u00e9 assustador. Um dos dados apresentados pelo product manager da poderosa NVIDIA \u00e9 que de 1960 pra c\u00e1 o poder de processamento aumentou em um trilh\u00e3o de vezes. Podemos imaginar os custos envolvidos. Da\u00ed a quest\u00e3o central: quem paga? N\u00f3s, os produtos, n\u00e3o pagamos pelo suposto servi\u00e7o de aprisionar nossa aten\u00e7\u00e3o. As empresas ganham muito dinheiro, a Google teve um faturamento de 29,3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2010 e o Facebook cerca de 11,4 bilh\u00f5es em 2018. Portanto, algu\u00e9m pagou.<\/p>\n<p>H\u00e1 um sujeito oculto nessa trama. Mas, para traz\u00ea-lo \u00e0 luz temos que afastar inicialmente um ru\u00eddo. Essas montanhas de lucro acumulados por estas empresas (Google, Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Tik Tok, Pinterest, LinkedIn, etc.) n\u00e3o s\u00e3o gerados por elas. Aqui a categoria da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica central \u00e9 a de valor. Qualquer um que queira entender nosso mundo sem a categoria de valor se assemelha a um navegador que se aventurou em mares tenebrosos desprovido de um b\u00fassola.<\/p>\n<p>Por mais sofisticados que sejam os empreendimentos, por mais que os seus protagonistas, jovens que acumularam fortunas em tenra idade que somados todos n\u00f3s juntos n\u00e3o acumular\u00edamos no espa\u00e7o de uma vida (notem um certo ressentimento de um funcion\u00e1rio p\u00fablico prestes a se aposentar), se mostrem espantados e desconcertados eticamente, as empresas citadas s\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o moderna e inovadora de uma empresa publicit\u00e1ria \u2013 mas precisamente, uma empresa utilizada por empresas publicit\u00e1rias para veicular an\u00fancios. As empresas publicitarias costumavam ter departamentos inteiros de pesquisa que procuravam os famosos \u201cnichos de mercado\u201d e depois pensavam em ve\u00edculos nos quais comunicar a mensagem do produto (jornal impresso, revista, r\u00e1dio, outdoor, televis\u00e3o, etc.). Qualquer um do mundo da propaganda sabe que n\u00e3o adianta anunciar rem\u00e9dios contra a impot\u00eancia no hor\u00e1rio em que criancinhas est\u00e3o assistindo desenho animado ou brinquedinhos de encaixar para velhinhos assistindo telenovela. O princ\u00edpio \u00e9 o mesmo: prender nossa aten\u00e7\u00e3o com desenhos, novelas, notici\u00e1rios e empurrar mercadorias.<\/p>\n<p>No velho mundo da propaganda tamb\u00e9m tinha manipula\u00e7\u00e3o, indu\u00e7\u00e3o de comportamento, modelagem de valores, cria\u00e7\u00e3o de necessidades e tudo o mais. Toda as reflex\u00f5es sobre ind\u00fastria cultural da Escola de Frankfurt e a tese luk\u00e1csiana sobre a manipula\u00e7\u00e3o, s\u00e3o anteriores ao boom dos computadores e das redes. Evidente que alcan\u00e7amos uma dimens\u00e3o maior, mas o princ\u00edpio envolvido parece-me o mesmo.<\/p>\n<p>Considerada por este \u00e2ngulo, estamos falando da esfera da circula\u00e7\u00e3o, mais precisamente do problema da realiza\u00e7\u00e3o do valor. O capital \u00e9 em sua totalidade \u201cunidade do processo de produ\u00e7\u00e3o e do processo de circula\u00e7\u00e3o; o processo de produ\u00e7\u00e3o torna-se mediador do processo de circula\u00e7\u00e3o e vice-versa\u201d (O capital, Livro II, p. 179). O capitalista come\u00e7a comprando determinadas mercadorias (um ato de compra, circula\u00e7\u00e3o), organiza um processo de produ\u00e7\u00e3o e termina vendendo uma nova mercadoria (novamente a circula\u00e7\u00e3o). O processo de valoriza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no consumo da for\u00e7a de trabalho, que \u00e9 a \u00fanica mercadoria capaz de gerar mais valor que seu pr\u00f3prio valor, um valor a mais, mais-valor ou mais-valia. Todavia esse mais-valor est\u00e1 preso inevitavelmente no corpo de uma mercadoria e precisa se reconverter \u00e0 forma dinheiro, ou seja, realizar-se. \u00c9 somente na circula\u00e7\u00e3o, na venda da mercadoria que o mais-valor se realiza, ainda que s\u00f3 possa surgir com valor a mais no processo de produ\u00e7\u00e3o. Quem v\u00ea as fortunas no setor se espanta, mas elas n\u00e3o surgiram ali, assim como as crian\u00e7as aparecem no mundo nas maternidades, mas n\u00e3o foram geradas nelas.<\/p>\n<p>Compreendendo desta maneira, a circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o gera valor novo, ajuda a realizar a mais valia gerada na esfera da produ\u00e7\u00e3o e se apropria de parte dela. Os bilh\u00f5es que aparecem na conta das empresas digitais deriva de um lucro comercial, mas n\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de novo valor, s\u00e3o parte, portanto, do car\u00e1ter parasit\u00e1rio do capitalismo plenamente desenvolvido. Isto n\u00e3o quer dizer, de forma nenhuma, que estas empresas n\u00e3o sejam necess\u00e1rias \u00e0 din\u00e2mica do capital monopolista, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Outro ponto essencial que escapa \u00e0 compreens\u00e3o dos jovens g\u00eanios da internet \u00e9 o motivo de grandes monop\u00f3lios industriais desviarem fortunas para estas empresas. Muito preocupados em definir um certo \u201ccapitalismo de vigil\u00e2ncia\u201d, as pessoas talvez deviam se preocupar em entender primeiro o que \u00e9 \u201ccapitalismo\u201d. Ent\u00e3o vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>O capitalismo altamente desenvolvido, portanto, concentrado e centralizado em grandes empresas monop\u00f3licas, tende a desenvolver cada vez mais a produtividade do trabalho e, portanto, alterar a propor\u00e7\u00e3o entre os fatores que comp\u00f5e o capital, a chamada composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica. Cada vez mais h\u00e1 um investimento em meios de produ\u00e7\u00e3o, tecnologia e outros elementos do capital constante, proporcionalmente ao que \u00e9 investido em capital vari\u00e1vel, isto \u00e9, for\u00e7a de trabalho. Da\u00ed deriva uma tend\u00eancia \u00e0 queda nas taxas de lucro e que est\u00e1 na raiz das crises do capital.<\/p>\n<p>Os capitalistas precisam realizar cada vez mais uma massa maior de lucro, com taxas de lucro cada vez menores. Da\u00ed que uma das contradi\u00e7\u00f5es mais preocupantes do capital em seu processo de valoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 o tempo entre a produ\u00e7\u00e3o e a realiza\u00e7\u00e3o do valor, o momento em que o capital se encontra na cris\u00e1lida antes de voar novamente como capital dinheiro em busca de novo ciclo de valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste momento delicado do processo, diz Marx: \u201cos artistas da circula\u00e7\u00e3o, que se imaginam capazes de fazer, por meio da velocidade da circula\u00e7\u00e3o, algo mais que reduzir os impedimentos postos pelo pr\u00f3prio capital \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o, est\u00e3o num beco sem sa\u00edda\u201d (Grundisse, p. 450).<\/p>\n<p>O ritmo e o volume da produ\u00e7\u00e3o dependem do desenvolvimento tecnol\u00f3gico e da potencializa\u00e7\u00e3o do trabalho, mas o tempo da realiza\u00e7\u00e3o depende de outros fatores, como a capacidade de consumo da sociedade, fatores como renda, log\u00edstica de distribui\u00e7\u00e3o, concorr\u00eancia, h\u00e1bitos, quem o imbecil que se encontra na presid\u00eancia, etc. Desde sempre o capital buscou controlar a esfera da realiza\u00e7\u00e3o, da\u00ed o desenvolvimento do segmento publicit\u00e1rio entre outros. A primeira empresa publicit\u00e1ria surgiu em 1841, em Boston, criadas por Volney Palmer que cobrava m\u00f3dicos 25% para anunciar os produtos (informa\u00e7\u00e3o que encontrei gra\u00e7as ao Google).<\/p>\n<p>Ocorre que o capitalismo plenamente desenvolvido tornou esta batalha pela realiza\u00e7\u00e3o algo mais complexo e gigantesco. Os monop\u00f3lios est\u00e3o dispostos a desembolsar fortunas, contratos que chegam a cifras de bilh\u00f5es de d\u00f3lares, para manter a massa de lucro em n\u00edveis aceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>A verdadeira dimens\u00e3o \u00e9tica do processo, um pouco distinta da crise de consci\u00eancia de empres\u00e1rios nerds, \u00e9 que o capitalismo subordinou toda a humanidade e o planeta ao processo de valoriza\u00e7\u00e3o e para mant\u00ea-lo est\u00e1 disposto a manipular comportamentos e h\u00e1bitos, explorar brutalmente popula\u00e7\u00f5es inteiras, principalmente crian\u00e7as e mulheres, dilapidar os recursos naturais colocando em risco o planeta e a vida humana, impondo milhares de quinquilharias que satisfazem duvidosamente certas necessidades em grande parte criadas, al\u00e9m de continuar derrubando governos e fraudando elei\u00e7\u00f5es. O dilema particular das redes \u00e9 apenas, neste cen\u00e1rio maior, um coadjuvante importante, mas est\u00e1 longe de ser o personagem principal da trama.<\/p>\n<p>Da\u00ed a aparente ingenuidade das solu\u00e7\u00f5es propostas. A tentativa de controle, via regulamenta\u00e7\u00f5es e marcos jur\u00eddicos \u00e9 a v\u00e3 ilus\u00e3o de regularizar o processo de valoriza\u00e7\u00e3o por par\u00e2metros \u00e9ticos. Lembremos aqui a perfeita formula\u00e7\u00e3o de M\u00e9sz\u00e1ros que define tais ilus\u00f5es como a tentativa de controle de um socio metabolismo incontrol\u00e1vel. O capital sobreacumulado, do alto de uma capacidade monumental de produ\u00e7\u00e3o em massa, exige meios de realiza\u00e7\u00e3o \u00e0 altura desta dimens\u00e3o. Se isso envolver manipula\u00e7\u00e3o em massa, n\u00e3o h\u00e1 problema. O capitalismo \u00e9 muito bom, mas pod\u00edamos ter evitado a escravid\u00e3o, sei l\u00e1, talvez com regulamenta\u00e7\u00f5es mais severas. J\u00e1 antecipo o debate sobre o limite da manipula\u00e7\u00e3o, como induzir as compras de novo modelo de smartphone sem ferir a liberdade de escolha de quem prefere pombos-correio, al\u00e9m do sagrado direito de ir e vir do shopping center ou do pet shop.<\/p>\n<p>O grande inc\u00f4modo dos protagonistas entrevistados \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, imaginam salvar a parte do neg\u00f3cio e dos \u201cbenef\u00edcios\u201d para os usu\u00e1rios e regular o risco da manipula\u00e7\u00e3o que pode amea\u00e7ar a sociedade democr\u00e1tica e o mundo livre. Tanto o neg\u00f3cio, como os usu\u00e1rios precisam de um mundo fundado em indiv\u00edduos livres. O capital tamb\u00e9m. A ideologia \u00e9 t\u00e3o descarada que os realizadores n\u00e3o podem se quer atribuir a manipula\u00e7\u00e3o a uma evidente ades\u00e3o no espectro pol\u00edtico. A manipula\u00e7\u00e3o, as fake news, o desvirtuamento de comportamentos pol\u00edticos, a radicaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o ligados \u00e0 extrema direita, mas ao \u201cextremo centro\u201d. Seria c\u00f4mico se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico. O document\u00e1rio, do ponto de vista pol\u00edtico, \u00e9 o real \u201cextremismo de centro\u201d.<\/p>\n<p>Como alternativa resta o boicote, sair das redes, como professa o simp\u00e1tico nerd rastaf\u00e1ri, Jaron Lanier. Esta \u00e9 uma ilus\u00e3o recorrente e t\u00edpica de segmentos m\u00e9dios. Apesar de aparentemente radical ela \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o de uma premissa falsa, qual seja, que o consumidor \u00e9 o centro e o principal sujeito do ato econ\u00f4mico. Se entendemos que o problema reside na forma capitalista da mercadoria, consequentemente da aliena\u00e7\u00e3o do trabalho elevado ao m\u00e1ximo, da subsun\u00e7\u00e3o da vida ao processo de valoriza\u00e7\u00e3o do valor, ter\u00edamos que boicotar n\u00e3o apenas as redes, mas os supermercados, a televis\u00e3o, nossas roupas, alimentos, porque tudo, absolutamente tudo foi capturado pela mercadoria e pela l\u00f3gica do capital. O capital e suas mercadorias precisam das necessidades humanas para parasitar em seus constantes ciclos de valoriza\u00e7\u00e3o. Marx constatou isso de forma perempt\u00f3ria ao afirmar que n\u00e3o h\u00e1 valor de troca sem valor de uso.<\/p>\n<p>O que escapa a esses senhores e senhoras e sua saud\u00e1vel crise \u00e9tica, \u00e9 que podemos \u2013 e devemos \u2013 eliminar o valor de troca como forma de express\u00e3o do valor, sem com isso precisar abandonar o valor de uso. Deixemos as redes sociais por um momento. Posso gostar de tomar uma ta\u00e7a de vinho e quando ela se apresenta como mercadoria, preciso pagar o equivalente monet\u00e1rio de seu valor de troca para ter acesso a seu valor de uso. Mas como sou um comunista \u2013 consciente do fato de que as viniculturas s\u00e3o empresas que s\u00f3 objetivam o lucro e n\u00e3o minha felicidade \u2013 resolvo ent\u00e3o me tornar abst\u00eamio!<\/p>\n<p>Resta saber se as redes t\u00eam outro valor de uso al\u00e9m do expresso como meio de captura de aten\u00e7\u00e3o e plataforma de publicidade dirigida. Me parece que sim.<\/p>\n<p>Uma outra solu\u00e7\u00e3o seria transformar os produtos do trabalho humano em objetos que satisfa\u00e7\u00e3o necessidades humanas, produzidos na supera\u00e7\u00e3o da escravizante subordina\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos \u00e0 divis\u00e3o do trabalho, inclusive e principalmente a divis\u00e3o entre trabalho intelectual e manual, de maneira que os indiv\u00edduos se desenvolvam em todos os sentidos, trabalhando de acordo com sua capacidade e recebendo de acordo com sua necessidade. Se voc\u00ea n\u00e3o sabe do que isso se trata, d\u00ea uma procurada no Google sobre o que \u00e9 o comunismo. Como suspeito que voc\u00ea n\u00e3o v\u00e1 encontrar l\u00e1 a resposta, sugiro que voc\u00ea comece a comprar livros sobre o assunto. A leitura atenta destes teria, por exemplo, ajudado muito os entrevistados no document\u00e1rio a entender o dilema em que se encontram.<\/p>\n<p>***<br \/>\nMauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26319\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-26319","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Qv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26319"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26319\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}