{"id":26339,"date":"2020-10-27T23:04:27","date_gmt":"2020-10-28T02:04:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26339"},"modified":"2020-10-27T23:04:27","modified_gmt":"2020-10-28T02:04:27","slug":"os-multimilionarios-e-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26339","title":{"rendered":"Os multimilion\u00e1rios e a pandemia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3.us-west-2.amazonaws.com\/s3.laprensa.com.ni-bq\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/coronavirus2-1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Prabhat Patnaik<\/p>\n<p>Os dados relativos \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de riqueza s\u00e3o notoriamente dif\u00edceis de interpretar. Isto acontece porque varia\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es afetam a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza, de modo que um boom no mercado de a\u00e7\u00f5es subitamente faz com que os ricos pare\u00e7am muito mais ricos, ao passo que um colapso do mercado de a\u00e7\u00f5es torna a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza menos desigual da noite para o dia. Por outras palavras, o fato de que os ricos mant\u00eam uma parte da sua riqueza na forma de a\u00e7\u00f5es torna dif\u00edcil estimar a sua riqueza total a qual agora tem uma componente dur\u00e1vel e outra que \u00e9 potencialmente evanescente.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 certas ocasi\u00f5es em que se pode dizer algo definitivo acerca da distribui\u00e7\u00e3o de riqueza \u2013 o per\u00edodo da pandemia tem sido uma destas ocasi\u00f5es. H\u00e1 poucas d\u00favidas de que mesmo durante os meses da pandemia, enquanto milh\u00f5es de trabalhadores de todo o mundo sofriam de modo agudo com a perda de emprego e de rendimento, os multimilion\u00e1rios do mundo aumentaram enormemente a sua riqueza. E isto certamente significa um aumento na desigualdade de riqueza no mundo.<\/p>\n<p>Segundo um relat\u00f3rio do banco su\u00ed\u00e7o UBS, mencionado no Guardian de 7 de Outubro , a riqueza dos multimilion\u00e1rios do mundo aumentou em 27,5 por cento entre Abril e Julho deste ano, o per\u00edodo em que a pandemia estava no seu pico. A sua riqueza no fim de Julho havia atingido uma altura recorde de US$10,2 trilh\u00f5es ou \u00a37,8 trilh\u00f5es. O pico anterior da riqueza dos multimilion\u00e1rios era de US$8,9 trilh\u00f5es no fim de 2017. Desde ent\u00e3o, enquanto o n\u00famero de multimilion\u00e1rios aumentava ligeiramente de 2158 para 2189, a sua riqueza aumentou consideravelmente. De fato, entre o fim de 2017 e o fim de Julho de 2020 a riqueza per capita dos multimilion\u00e1rios aumentou em 13 por cento. O fato entretanto \u00e9 que este aumento \u00e9 o resultado l\u00edquido de dois movimentos contradit\u00f3rios: uma queda at\u00e9 Abril de 2020 e uma ascens\u00e3o dr\u00e1stica de 27,5 por cento desde ent\u00e3o at\u00e9 o fim de Julho.<\/p>\n<p>Esta ascens\u00e3o tem uma signific\u00e2ncia particular. Uma vez que grandes massas do povo dificilmente possuem qualquer riqueza e o pouco que elas possuem n\u00e3o flutua muito em valor, ao contr\u00e1rio dos pre\u00e7os no mercado de a\u00e7\u00f5es, um aumento nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es ipso facto aumenta a desigualdade de riqueza na sociedade e, inversamente, uma redu\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es reduz a desigualdade de riqueza. Uma conclus\u00e3o s\u00f3lida, como vimos, acerca da magnitude da mudan\u00e7a na desigualdade de riqueza torna-se dif\u00edcil de tra\u00e7ar.<\/p>\n<p>Contudo, o aumento na desigualdade de riqueza depois de Abril \u00e9 totalmente diferente. Segundo um porta-voz do UBS, quando os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es estavam em queda antes de Abril de 2020 os multimilion\u00e1rios n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o liquidavam suas a\u00e7\u00f5es em p\u00e2nico, mas realmente compravam a\u00e7\u00f5es de possuidores menores que estavam empenhados no p\u00e2nico da venda. Em consequ\u00eancia, quando os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es aumentaram depois de Abril eles obtiveram enormes ganhos de capital. Estes ganhos decorrem essencialmente do fato de que pequenos possuidores de a\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam a capacidade de reter suas a\u00e7\u00f5es. Portanto, o aumento na concentra\u00e7\u00e3o de riqueza durante a pandemia n\u00e3o foi apenas em rela\u00e7\u00e3o aos muito pobres que de qualquer modo n\u00e3o t\u00eam riqueza, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos pequenos possuidores de riqueza. N\u00e3o foi apenas o efeito espont\u00e2neo de uma ascens\u00e3o geral nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es; foi um ato espec\u00edfico do que Marx chamou de centraliza\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Em Imperialismo Lenin disse que toda crise sob o capitalismo, seja econ\u00f4mica ou pol\u00edtica, torna-se uma ocasi\u00e3o para a centraliza\u00e7\u00e3o do capital. \u00c9 preciso acrescentar as crises sanit\u00e1rias \u00e0 lista de Lenine, na verdade toda a esp\u00e9cie poss\u00edvel de crises.<\/p>\n<p>O mecanismo habitual para a centraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a ru\u00edna que visita os pequenos produtores capitalistas durante uma crise (ela tamb\u00e9m visita os microprodutores, mas a sua dizima\u00e7\u00e3o \u00e9 encoberta sob a express\u00e3o acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital, ao inv\u00e9s de centraliza\u00e7\u00e3o) e portanto aqueles, tipicamente bancos mais pequenos ou ag\u00eancias de cr\u00e9dito, que os financiaram. Todos estes s\u00e3o capturados por companhias maiores, ou simplesmente afundam, deixando o campo livre para companhias maiores invadirem o espa\u00e7o at\u00e9 ent\u00e3o ocupado por eles.<\/p>\n<p>Al\u00e9m deste mecanismo de centraliza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m a simples fus\u00e3o de capitais, o agrupamento conjunto de vastas massas de pequenos capitais nuns poucos muito grandes, tais como o que os bancos ou mercado de a\u00e7\u00f5es promove. Isto constitui outro mecanismo, muito poderoso, de centraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que temos assistido durante a pandemia \u00e9 ainda outro mecanismo de centraliza\u00e7\u00e3o, diferente dos dois acima, decorrente da incapacidade de pequenos possuidores de riqueza enfrentarem os colapsos de pre\u00e7os de a\u00e7\u00f5es que os multimilion\u00e1rios podem aguentar. Este poder dos multimilion\u00e1rios n\u00e3o tem nada a ver com qualquer &#8220;coragem&#8221;, ou &#8220;determina\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;empreendedorismo&#8221; ou qualquer daquelas supostas virtudes que a mitologia do capitalismo lhe atribui. Ele simplesmente tem a ver com o fato de que eles s\u00e3o grandes.<\/p>\n<p>Como eles s\u00e3o grandes podem permitir-se aguentar flutua\u00e7\u00f5es dos pre\u00e7os das ac\u00e7\u00f5es na sua caminhada e at\u00e9 mesmo efetuar ganhos maci\u00e7os com a incapacidade dos pequenos possuidores de riqueza para assim fazer. De fato, ironicamente sua capacidade para aguentar flutua\u00e7\u00f5es dos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es decorre n\u00e3o de serem &#8220;tomadores de risco&#8221;, mas sim de serem precisamente o oposto, ou seja, avessos \u00e0 tomada de riscos.<\/p>\n<p>A sua riqueza implica que se podem dar ao luxo de n\u00e3o correr riscos, ou seja, o luxo da &#8220;seguran\u00e7a&#8221;. Da\u00ed que detenham a sua riqueza de uma forma diversificada para minimizar o risco e as ac\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas uma das formas em que det\u00eam a sua riqueza. Quando os pre\u00e7os das ac\u00e7\u00f5es caem a um n\u00edvel invulgar, como acontece com qualquer crise sem precedentes, podem permanecer imperturb\u00e1veis, ao passo que os detentores de riqueza mais pequenos s\u00e3o apanhados desprevenidos. Os grandes detentores de riqueza aproveitam esta oportunidade para obterem ganhos com os males dos pequenos detentores de a\u00e7\u00f5es que come\u00e7am a vender a\u00e7\u00f5es em desespero.<\/p>\n<p>Um exemplo tornar\u00e1 este ponto mais claro. Se eu tiver 100 rupias de riqueza, ent\u00e3o gostaria de mant\u00ea-la numa forma que me d\u00ea um rendimento suficientemente grande, mesmo que haja o perigo de incorrer em perdas de capital. A minha prefer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 por gostar de correr riscos, mas porque preciso desesperadamente do rendimento. Por isso, por exemplo, colocarei toda a minha riqueza em a\u00e7\u00f5es. Se, pelo contr\u00e1rio, se eu tiver 1 milh\u00e3o de r\u00fapias, ent\u00e3o j\u00e1 tenho um rendimento amplo de qualquer forma e posso dar-me ao luxo de reter apenas metade da minha riqueza sob a forma de a\u00e7\u00f5es e a outra metade sob a forma de saldos banc\u00e1rios que dificilmente me d\u00e3o qualquer rendimento. Se houver uma queda de 10% nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o enquanto o pequeno detentor de a\u00e7\u00f5es perde 10% da sua riqueza, o grande detentor de a\u00e7\u00f5es perde apenas 5% (ou seja, 10% sobre metade da sua riqueza). O \u00faltimo pode portanto permitir-se suportar a queda na sua trajet\u00f3ria, ao passo que o primeiro n\u00e3o pode. E quando em desespero, para evitar novas perdas, o primeiro come\u00e7a a vender a\u00e7\u00f5es, o segundo, ou seja, o grande detentor de a\u00e7\u00f5es, compra essas a\u00e7\u00f5es e as mant\u00e9m at\u00e9 o mercado se tornar mais favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>As flutua\u00e7\u00f5es no mercado de a\u00e7\u00f5es s\u00e3o comuns sob o capitalismo; mas as quedas s\u00e3o muito mais dr\u00e1sticas durante as crises, n\u00e3o importam como sejam causadas. E este \u00e9 precisamente o per\u00edodo em que grandes possuidores de riqueza fazem uma matan\u00e7a \u00e0s expensas dos pequenos. A centraliza\u00e7\u00e3o ocorre com uma vingan\u00e7a durante tais per\u00edodos.<\/p>\n<p>Todo este processo, embora executado em rela\u00e7\u00e3o aos pequenos detentores de riqueza, faz lembrar a acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital infligida aos microprodutores. Se os grandes detentores de riqueza compram a\u00e7\u00f5es no valor (genuinamente) de Rs 100 aos menores a Rs 100, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 ganho l\u00edquido para eles. Para pagar esta compra, t\u00eam de reduzir os seus saldos de caixa ou pedir emprestado aos bancos ou vender algum outro ativo que possuam. Em todos estes casos n\u00e3o h\u00e1 aumento do ativo l\u00edquido que possuem (ou do seu &#8220;patrim\u00f4nio l\u00edquido&#8221;). Mas se comprarem a\u00e7\u00f5es no valor de Rs 100 por apenas Rs 50 devido a uma queda nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es, e, digamos, tomarem emprestado este montante junto a um banco, ent\u00e3o quando os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es recuperarem para o seu verdadeiro valor, eles teriam expandido o seu patrim\u00f4nio l\u00edquido em Rs 50. Neste caso, os maiores detentores de a\u00e7\u00f5es teriam enriquecido \u00e0 custa dos menores em Rs 50, o que \u00e9 an\u00e1logo \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital.<\/p>\n<p>O porta-voz do UBS alegou que o aumento da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza durante a pandemia era um fen\u00f4meno estranho ao capitalismo. Ele n\u00e3o podia estar mais errado. Est\u00e1 inteiramente em conformidade com a l\u00f3gica do capitalismo; na realidade, \u00e9 inevit\u00e1vel sob o capitalismo que toda trag\u00e9dia humana que desencadeie uma crise neste sistema se torne uma ocasi\u00e3o para um aumento da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza atrav\u00e9s do mecanismo que acaba de ser esbo\u00e7ado.<\/p>\n<p>Este aumento na concentra\u00e7\u00e3o da riqueza tem ocorrido pa\u00eds ap\u00f3s pa\u00eds, incluindo mesmo na \u00cdndia, onde, de acordo com a mesma fonte, a riqueza dos multimilion\u00e1rios indianos aumentou 35% no mesmo per\u00edodo para US$ 423 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ( The Wire, 16 de Outubro). Ao longo deste per\u00edodo, a produ\u00e7\u00e3o contraiu-se em quase um quarto, tal como o emprego. Este contraste d\u00e1 uma ideia do modus operandi do capitalismo.<\/p>\n<p>25\/Outubro\/2020<br \/>\n[*] Economista indiano, ver Wikipedia<\/p>\n<p>O original encontra-se em peoplesdemocracy.in\/2020\/1025_pd\/billionaires-and-pandemic<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o de JF.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26339\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[197],"tags":[234],"class_list":["post-26339","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6QP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26339","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26339"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26339\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26339"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26339"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26339"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}