{"id":26364,"date":"2020-10-31T20:48:31","date_gmt":"2020-10-31T23:48:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26364"},"modified":"2020-10-31T20:48:31","modified_gmt":"2020-10-31T23:48:31","slug":"os-comunistas-e-os-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26364","title":{"rendered":"Os comunistas e os animais"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn.domtotal.com\/img\/noticias\/2018-01\/1224135.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Artigo de Opini\u00e3o<\/p>\n<p>1\u00ba de novembro: Dia Mundial do Veganismo<\/p>\n<p>Maila Costa &#8211; militante do PCB de Caxias do Sul (RS)<\/p>\n<p>Embora o movimento por liberta\u00e7\u00e3o animal tenha sido cooptado pelo capitalismo e esta seja na atualidade sua forma hegem\u00f4nica, esse desenvolvimento hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade deste movimento e se deu da mesma forma com que as outras lutas antiopress\u00e3o foram assimiladas pela ideologia liberal, incluindo a pr\u00f3pria luta oper\u00e1ria, que em parte foi cooptada pelas promessas e imposi\u00e7\u00f5es da democracia burguesa.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9tica reservada aos animais n\u00e3o humanos e \u00e0s consequ\u00eancias da sua explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recente, sendo normalmente remontada, al\u00e9m das tradi\u00e7\u00f5es religiosas, desde os fil\u00f3sofos da antiguidade. Entretanto, foi quando o movimento oper\u00e1rio ganhou for\u00e7a na Europa, no s\u00e9culo XIX, que o movimento animalista tamb\u00e9m surgiu. Ao mesmo tempo que os trabalhadores e trabalhadoras eram precarizados pelas pr\u00e1ticas de uma nova burguesia, esta tamb\u00e9m sistematizou e intensificou a explora\u00e7\u00e3o animal e ambos fen\u00f4menos se entrela\u00e7aram nos desenhos da nova divis\u00e3o social do trabalho.<\/p>\n<p>Os defensores dos animais eram normalmente motivados pelas descobertas de Darwin com a teoria da evolu\u00e7\u00e3o, que contrapunha o materialismo mecanicista de Descartes. Um dos mais not\u00e1veis foi o ge\u00f3grafo anarquista \u00c9lis\u00e9e Reclus, militante da Primeira Internacional dos Trabalhadores e membro da Comuna de Paris. Reclus pontuava j\u00e1 naquela \u00e9poca as contradi\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o animal capitalista, que desfigura e diminui os animais, bem como criticava a selec\u00e7\u00e3o artificial.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Engels, tamb\u00e9m defensor e entusiasta das ideias processualistas darwinianas e estudioso das ci\u00eancias da natureza, dedicou diversas p\u00e1ginas do Anti-Duhring, da Dial\u00e9tica da Natureza e de cartas e textos para tratar das consequ\u00eancias desastrosas da influ\u00eancia humana sobre os animais motivadas pelo capital e de como a ci\u00eancia nos proporciona sentir \u201cdesprezo pelo enaltecimento idealista do humano em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais bestas\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Brasil, al\u00e9m dos imigrantes asi\u00e1ticos que tradicionalmente eram pr\u00f3ximos ao vegetarianismo apenas como estilo de vida, alguns anarquistas tamb\u00e9m se posicionaram contra a explora\u00e7\u00e3o dos animais desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Jos\u00e9 Oiticica, que participou da Insurrei\u00e7\u00e3o Anarquista do Rio de Janeiro, em 1918, e da Uni\u00e3o Geral dos Trabalhadores pontuava que o consumo extremo de carne e de outros produtos animais fazia parte de um v\u00edcio social que seria um empecilho para a revolu\u00e7\u00e3o, pois influenciaria no entendimento da rela\u00e7\u00e3o entre os humanos, a terra, os alimentos e os animais.<\/p>\n<p>Mais tarde, na d\u00e9cada de 80, foram as feministas, ecofeministas e o movimento punk que estruturaram o veganismo pol\u00edtico, tecendo cr\u00edticas \u00e0s pol\u00edticas ambientais sovi\u00e9ticas e reformulando a cr\u00edtica ao imperialismo e \u00e0 sociedade do consumo. Hoje, com o acirramento da luta de classes, vemos o crescimento das organiza\u00e7\u00f5es comunistas e, devido ao car\u00e1ter colonialista das nossas rela\u00e7\u00f5es sociais, as contradi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria animal se mostram tamb\u00e9m gritantes, fazendo com que o movimento comunista se depare com novas quest\u00f5es, que antes n\u00e3o tinham impacto crescente nos debates e disputas pol\u00edticas, como agora: a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, o sofrimento animal e a irracionalidade extrema da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o artificial de animais.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 o maior exportador de carne do mundo, possuindo o segundo maior rebanho bovino, com 214,7 milh\u00f5es de animais, n\u00famero maior que o de pessoas no pa\u00eds. Em 2019, foram abatidos aqui 5,81 bilh\u00f5es de frangos. Esses n\u00fameros retratam como a quest\u00e3o animal \u00e9 um grande desafio no contexto brasileiro. Embora grande parte dessa produ\u00e7\u00e3o seja voltada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, ela tamb\u00e9m reflete nos h\u00e1bitos e costumes da classe trabalhadora, j\u00e1 que nossa rela\u00e7\u00e3o com esse n\u00famero estrondoso de animais se d\u00e1 completamente atrav\u00e9s da forma mercadoria, configurando umas das maiores amputa\u00e7\u00f5es da percep\u00e7\u00e3o da realidade na nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia de naturalidade esconde a ess\u00eancia de um dos eixos da economia local e mundial, respons\u00e1vel pelo enriquecimento de setores inteiros da burguesia e dos latifundi\u00e1rios, bem como pela concentra\u00e7\u00e3o de terras, genoc\u00eddio ind\u00edgena, desmatamentos, queimadas, polui\u00e7\u00e3o de rios e solo, emiss\u00e3o de gases, mau uso de recursos, acidentes e s\u00edndromes decorrentes do trabalho e sofrimento animal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a ind\u00fastria animal, juntamente com a pol\u00edtica agr\u00edcola de exporta\u00e7\u00f5es, \u00e9 respons\u00e1vel pelo preterimento da produ\u00e7\u00e3o de produtos ecologicamente sustent\u00e1veis, nutritivos, saud\u00e1veis e acess\u00edveis. Nesse sentido, os comunistas, historicamente, se comprometem com a reforma agr\u00e1ria e o enfrentamento ao latif\u00fandio, buscando sua substitui\u00e7\u00e3o ideal pelo modelo mais moderno e ecologicamente sustent\u00e1vel poss\u00edvel, que hoje seria a agroecologia, t\u00e9cnica que reduz ao extremo ou at\u00e9 mesmo abole a produ\u00e7\u00e3o animal.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio revela que, por um lado, a profunda transforma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a racionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, num contexto revolucion\u00e1rio onde a continuidade da vida humana da Terra esteja em jogo, como \u00e9 o caso na atualidade, passaria obrigatoriamente pela quest\u00e3o animal. E, por outro lado, que somente o socialismo \u00e9 realmente capaz de resolver a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o animal num pa\u00eds continental que tem sua economia baseada no agroneg\u00f3cio e que alimenta &#8211; com vegetais &#8211; mais gado do que gente e, portanto, possui suas for\u00e7as produtivas desenvolvidas suficientemente para tornar essa ind\u00fastria obsoleta e se voltar a uma produ\u00e7\u00e3o racional, que reduza os riscos ambientais, \u00e0 sa\u00fade humana e o sofrimento animal socialmente produzido. Nessa s\u00edntese repousa a import\u00e2ncia em tratar essa pauta com a seriedade e a urg\u00eancia necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dever dos comunistas venerar o passado menos evolu\u00eddo nem se colocar contra desenvolvimentos objetivamente superiores. Nossa atua\u00e7\u00e3o se baseia na an\u00e1lise cient\u00edfica concreta da situa\u00e7\u00e3o concreta, por isso cada vez mais os comunistas v\u00eam incorporando a luta por liberta\u00e7\u00e3o animal \u00e0s suas pautas pol\u00edticas e pr\u00e1ticas di\u00e1rias e disputando a hegemonia do movimento, bem como construindo s\u00ednteses te\u00f3ricas que buscam entender e explicar este novo momento hist\u00f3rico. A disputa pela hegemonia de movimentos pol\u00edticos que refletem demandas reais e leg\u00edtimas faz parte do movimento comunista.<\/p>\n<p>Como opress\u00e3o que se originou com a propriedade privada e foi sistematizada em larga escala com o capitalismo, a explora\u00e7\u00e3o animal s\u00f3 pode ser resolvida com a socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e sua reorganiza\u00e7\u00e3o. O fato de a produ\u00e7\u00e3o animal estar profundamente assimilada e naturalizada na nossa sociedade, mesmo com suas gigantescas contradi\u00e7\u00f5es, revela o car\u00e1ter extremamente revolucion\u00e1rio necess\u00e1rio para a real liberta\u00e7\u00e3o animal e, por isso, o movimento comunista \u00e9 o \u00fanico instrumento da classe trabalhadora realmente capaz de realizar as transforma\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a retirada dos animais das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, extra\u00edmos nossas no\u00e7\u00f5es morais das rela\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que s\u00e3o a base de nossa condi\u00e7\u00e3o de classe, a moral burguesa historicamente justificou a domina\u00e7\u00e3o e os interesses da classe dominante, o que inclui todos os tipos de explora\u00e7\u00e3o &#8211; em rela\u00e7\u00e3o aos humanos, aos outros animais e \u00e0 natureza. Portanto, a defesa de Engels da moral prolet\u00e1ria como aquela que representa os interesses dos oprimidos, da revolu\u00e7\u00e3o do presente e, sendo assim, do pr\u00f3prio futuro pode ser a chave para enriquecer e fortalecer nossa compreens\u00e3o do potencial que a emancipa\u00e7\u00e3o humana e a moral comunista carregam.<\/p>\n<p>Ele afirma que uma verdadeira moralidade humana s\u00f3 pode existir quando superarmos e esquecermos como o antagonismo de classes era na pr\u00e1tica di\u00e1ria. Nesse sentido, os horrores cometidos contra os animais humanos e n\u00e3o humanos e naturalizados na intera\u00e7\u00e3o com a realidade superficial devido \u00e0 l\u00f3gica da mercadoria certamente devem ser esquecidos para dar lugar a um novo mundo onde o valor e o direito \u00e0 dignidade de cada ser n\u00e3o sejam medidos pela sua posi\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>AG\u00caNCIA IBGE. Em 2019, cresce o abate de bovinos, su\u00ednos e frangos. 19\/03\/2020. https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/27167-em-2019-cresce-o-abate-de-bovinos-suinos-e-frangos<br \/>\nAG\u00caNCIA IBGE. Rebanho bovino tem leve alta em 2019, ap\u00f3s dois anos seguidos de quedas. 15\/10\/2020. https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/29164-rebanho-bovino-tem-leve-alta-em-2019-apos-dois-anos-seguidos-de-quedas<br \/>\nENGELS, Friedrich. Anti-D\u00fchring : A revolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia segundo o senhor Eugen D\u00fchring. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015.<br \/>\nENGELS, Friedrich. Carta a Marx de 14 de julho de 1858. Vol 29. Berlin: Editora Dietz, 1978.<br \/>\nENGELS, Friedrich. Dial\u00e9tica da Natureza. Editora Leitura, 1968. (marxists.org)<br \/>\nLUKACS, Gyorgy. Para uma ontologia do ser social I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012.<br \/>\nMOTA, Ana Gabriela; SANTOS, Kauan Willian dos. Liberta\u00e7\u00e3o animal, liberta\u00e7\u00e3o humana : veganismo, pol\u00edtica e conex\u00f5es no Brasil. Ju\u00edz de Fora: Editora Garcia, 2020.<\/p>\n<p>\u00c1rea de anexos<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/graph.facebook.com\/IDADAPUBLICACAO\/picture\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26364\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[233],"class_list":["post-26364","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Re","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26364","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26364"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26364\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}