{"id":26385,"date":"2020-11-06T22:08:17","date_gmt":"2020-11-07T01:08:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26385"},"modified":"2020-11-06T22:08:17","modified_gmt":"2020-11-07T01:08:17","slug":"os-generais-do-trafico-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26385","title":{"rendered":"Os generais do tr\u00e1fico na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn.pixabay.com\/photo\/2018\/09\/25\/20\/59\/stroy-3703152__340.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O hist\u00f3rico latino-americano de policiais, ministros e generais envolvidos com tr\u00e1fico<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, a ideia convencional do tr\u00e1fico de drogas como uma batalha entre oficiais de um lado e criminosos do outro est\u00e1 longe de ser verdade.<\/p>\n<p>Por Parker Asmann | InSight Crime &#8211; Tradu\u00e7\u00e3o de Nara Castro para a Revista Opera, com revis\u00e3o de Rebeca \u00c1vila<\/p>\n<p>Existe um elemento que se provou vital para o sucesso operacional das organiza\u00e7\u00f5es internacionais de tr\u00e1fico de drogas em todo o mundo, incluindo a Am\u00e9rica Latina: a coniv\u00eancia de oficiais corruptos dos governos para proteger as remessas e evitar interdi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, v\u00e1rios casos de grande visibilidade demonstraram at\u00e9 que ponto oficiais de seguran\u00e7a passaram para o lado errado da lei e se envolveram com grupos do crime organizado.<\/p>\n<p>A ideia de uma batalha convencional travada entre dois atores aut\u00f4nomos \u2013 o governo de um lado e grupos criminosos do outro \u2013 est\u00e1 longe de ser verdade. \u00c9 muito mais frequente que oficiais e criminosos interajam, contando uns com os outros para negociar as condi\u00e7\u00f5es que regulam a ordem e a viol\u00eancia para seu benef\u00edcio m\u00fatuo.<\/p>\n<p>O InSight Crime examina cinco casos \u2013 de forma alguma uma lista exaustiva \u2013 de supostos conluios entre grupos narcotraficantes e oficiais de governos na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Genaro Garc\u00eda Luna<br \/>\nQuando o ent\u00e3o presidente mexicano Felipe Calder\u00f3n decidiu que o governo lan\u00e7aria medidas oficiais de repress\u00e3o ao crime organizado em 2006, Genaro Garc\u00eda Luna ocupou a linha de frente como seu secret\u00e1rio de seguran\u00e7a p\u00fablica desde aquele momento at\u00e9 2012.<\/p>\n<p>No entanto, promotores dos EUA alegam que o ex-secret\u00e1rio \u2018jogava para o outro lado\u201d, aceitando milh\u00f5es de d\u00f3lares em subornos do Cartel de Sinaloa para, em troca, proteger carregamentos de drogas e afastar a pol\u00edcia das atividades criminosas do cartel, de acordo com acusa\u00e7\u00e3o de dezembro de 2019 .<\/p>\n<p>Garc\u00eda Luna negou as acusa\u00e7\u00f5es. No entanto, em carta do dia 2 de outubro, promotores afirmaram possuir \u201c189.000 p\u00e1ginas de documentos, bem como volumosas comunica\u00e7\u00f5es interceptadas\u201d, que sustentam as alega\u00e7\u00f5es de que ele \u201ctraiu aqueles que jurou proteger\u201d ao trabalhar ao lado de membros do Cartel de Sinaloa para facilitar seu empreendimento criminoso ao longo de quase duas d\u00e9cadas, antes e durante o per\u00edodo em que era o principal chefe de seguran\u00e7a do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua pris\u00e3o, dois oficiais de alta patente que trabalharam sob suas ordens \u2013 Luis C\u00e1rdenas Palomino e Ram\u00f3n Peque\u00f1o Garc\u00eda \u2013 tamb\u00e9m foram indiciados por tr\u00e1fico de drogas. Promotores afirmam que os tr\u00eas ajudaram o Cartel de Sinaloa a traficar mais de 50 mil quilos de coca\u00edna para os Estados Unidos desde 2001, de acordo com acusa\u00e7\u00e3o substitutiva de julho de 2020.<\/p>\n<p>Garc\u00eda Luna se declarou inocente das acusa\u00e7\u00f5es criminais, mas pode enfrentar pena m\u00e1xima de pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>Salvador Cienfuegos Zepeda<br \/>\nCom a militariza\u00e7\u00e3o da chamada guerra \u00e0s drogas levada a novos patamares por Calder\u00f3n, o ex-general Salvador Cienfuegos Zepeda assumiu a luta do governo como secret\u00e1rio de Defesa do M\u00e9xico sob a presid\u00eancia de Enrique Pe\u00f1a Nieto (2012-2018).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, autoridades estadunidenses afirmam que, em vez de trabalhar para derrubar as opera\u00e7\u00f5es de grupos do crime organizado, Cienfuegos, na verdade, ajudava o chamado \u201cCartel H-2\u201d \u2013 como a pol\u00edcia nomeou a rede que surgiu da Organiza\u00e7\u00e3o Beltr\u00e1n Leyva, outrora aliada do Cartel de Sinaloa, que era liderado por Juan Francisco Patr\u00f3n S\u00e1nchez. De acordo com uma acusa\u00e7\u00e3o de agosto de 2019, o ex-oficial teria inclusive assumido o pseud\u00f4nimo de \u201cEl Padrino\u201d ou \u201cThe Godfather\u201d (em refer\u00eancia ao filme O Poderoso Chef\u00e3o).<\/p>\n<p>Em carta do dia 16 de outubro, promotores alegam que enquanto Cienfuegos atacava organiza\u00e7\u00f5es rivais, assegurava transporte mar\u00edtimo para carregamentos de drogas e conectava l\u00edderes criminosos a outras autoridades mexicanas corruptas, o grupo dissidente da [Organiza\u00e7\u00e3o] Beltr\u00e1n Leyva \u201cconduzia sua atividade criminosa no M\u00e9xico sem interfer\u00eancia significativa dos militares mexicanos e exportava milhares de quilos de coca\u00edna, hero\u00edna, metanfetamina e maconha para os Estados Unidos.\u201d<\/p>\n<p>Intercepta\u00e7\u00f5es de \u201cmilhares\u201d de mensagens enviadas por celulares Blackberry est\u00e3o entre as evid\u00eancias que os promotores alegam possuir para sustentar as acusa\u00e7\u00f5es de que Cienfuegos dava liberdade de a\u00e7\u00e3o ao grupo criminoso para operar sem obstru\u00e7\u00f5es no M\u00e9xico, em troca de dezenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares em subornos.<\/p>\n<p>Resta ver como proceder\u00e1 seu julgamento, mas Cienfuegos enfrenta pena m\u00ednima de 10 anos, com m\u00e1xima podendo chegar \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>Jes\u00fas Guti\u00e9rrez Rebollo<br \/>\nEmbora militares raramente, ou nunca, sejam presos e devidamente processados por trabalharem lado a lado com traficantes de drogas, o caso do ex-chefe do combate ao narcotr\u00e1fico no M\u00e9xico, Jes\u00fas Guti\u00e9rrez Rebollo, foi uma exce\u00e7\u00e3o incomum.<\/p>\n<p>Rebollo foi preso em 1997 sob acusa\u00e7\u00f5es de ter negociado um acordo com o traficante de coca\u00edna mais prol\u00edfico do pa\u00eds na \u00e9poca, Amado Carrillo Fuentes, mais conhecido como o \u201cSenhor dos C\u00e9us\u201d, para que este pudesse operar livremente, em troca de robustos subornos.<\/p>\n<p>O ex-chefe da ag\u00eancia federal antidrogas do pa\u00eds \u2013 e uma das primeiras autoridades mexicanas de alto escal\u00e3o a ser presa por associa\u00e7\u00e3o com traficantes de drogas \u2013 acabou sendo condenado e sentenciado a 40 anos de pris\u00e3o por tr\u00e1fico de drogas, corrup\u00e7\u00e3o e outras acusa\u00e7\u00f5es. Rebollo morreu em 2013, em um hospital militar na Cidade do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Juan Carlos Bonilla Valladares<br \/>\nNem mesmo as acusa\u00e7\u00f5es de que fazia parte de um esquadr\u00e3o da morte respons\u00e1vel pelo desaparecimento e execu\u00e7\u00e3o de membros das infames gangues de rua de Honduras puderam impedir Juan Carlos Bonilla Valladares, tamb\u00e9m conhecido como \u201cEl Tigre\u201d, de se tornar chefe da pol\u00edcia do pa\u00eds em 2012.<\/p>\n<p>Ele foi rapidamente afastado do cargo em 2013 e, em abril de 2020, promotores dos EUA acusaram Bonilla de abusar dos cargos de alto escal\u00e3o que ocupou na pol\u00edcia hondurenha entre 2003 e 2018 para \u201cdesrespeitar a lei e desempenhar um papel fundamental em uma violenta conspira\u00e7\u00e3o internacional de tr\u00e1fico de drogas\u201d, segundo den\u00fancia criminal.<\/p>\n<p>Bonilla teria protegido cargas de coca\u00edna em nome do presidente Juan Orlando Hern\u00e1ndez e seu irm\u00e3o, Tony, um ex-congressista que foi condenado por tr\u00e1fico de drogas em outubro de 2019. Em ess\u00eancia, Tony usou a ascens\u00e3o pol\u00edtica de seu irm\u00e3o, enquanto contava com oficiais de seguran\u00e7a supostamente corruptos, como Bonilla, para dirigir uma quadrilha internacional de tr\u00e1fico de coca\u00edna por mais de uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Promotores alegam que, por meio da garantia de que a Pol\u00edcia Nacional n\u00e3o interceptaria ve\u00edculos cheios de coca\u00edna e do fornecimento de informa\u00e7\u00f5es confidenciais sobre as opera\u00e7\u00f5es a\u00e9reas e mar\u00edtimas da pol\u00edcia, Bonilla se tornou t\u00e3o \u201caltamente confi\u00e1vel\u201d que o presidente Hern\u00e1ndez e seu irm\u00e3o Tony tamb\u00e9m lhe deram \u201catribui\u00e7\u00f5es especiais,incluindo assassinatos. \u201d<\/p>\n<p>Bonilla ainda n\u00e3o foi preso e negou categoricamente as acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mauricio L\u00f3pez Bonilla<br \/>\nDurante a gest\u00e3o do ex-presidente da Guatemala, Otto P\u00e9rez Molina (2012-2015), Mauricio L\u00f3pez Bonilla acumulou poder consider\u00e1vel como ministro do Interior. Ele se tornou uma grande figura com a qual o governo dos Estados Unidos freq\u00fcentemente contava para liderar a sua \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, em fevereiro de 2017 \u2013 quando L\u00f3pez Bonilla j\u00e1 estava sob investiga\u00e7\u00e3o por corrup\u00e7\u00e3o e lavagem de dinheiro na Guatemala \u2013 autoridades dos EUA acabaram por indiciar o veterano de guerra e ex-chefe da for\u00e7a policial do pa\u00eds, por tr\u00e1fico de coca\u00edna para os Estados Unidos entre 2010 e 2015, de acordo com a acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A m\u00eddia local El Peri\u00f3dico informou que, de acordo com documentos enviados como parte do pedido de extradi\u00e7\u00e3o feito pelas autoridades estadunidenses \u00e0s suas contrapartes na Guatemala, L\u00f3pez Bonilla teria \u201cordenado que oficiais da Pol\u00edcia Nacional escoltassem carregamentos de coca\u00edna e realocado funcion\u00e1rios da institui\u00e7\u00e3o, a pedido de organiza\u00e7\u00f5es do narcotr\u00e1fico, em troca de subornos. \u201d<br \/>\nUm ano antes, em 2016, o InSight Crime publicou uma investiga\u00e7\u00e3o que revelou poss\u00edveis liga\u00e7\u00f5es entre L\u00f3pez Bonilla e a not\u00f3ria traficante de drogas Marllory Chac\u00f3n Rossell, tamb\u00e9m conhecida como \u201cRainha do Sul\u201d. Em 2012, o Departamento do Tesouro dos EUA havia tamb\u00e9m identificado Chac\u00f3n entre os \u201cmais ativos\u201d lavadores de dinheiro da Guatemala. Posteriormente, ela passou a cooperar com as autoridades em troca de um acordo que lhe conferiu liberdade antecipada da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Guatemala, Chac\u00f3n teria investido em uma empresa de seguran\u00e7a privada ligada ao ex-ministro em troca de prote\u00e7\u00e3o oficial. L\u00f3pez Bonilla vem negando acusa\u00e7\u00f5es de liga\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de drogas e ainda n\u00e3o foi extraditado para os Estados Unidos para enfrentar tais acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nara Castro<\/p>\n<p>\u00c9 graduada em Hist\u00f3ria com \u00eanfase em Hist\u00f3ria da Arte e Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas. \u00c9 tamb\u00e9m pesquisadora dos entrela\u00e7amentos entre poesia e arquitetura na obra da escritora jamaicano-estadunidense June Jordan, para quem a fun\u00e7\u00e3o do poeta \u00e9 tornar a revolu\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel.<br \/>\n\u00c1rea de anexos<br \/>\nVisualizar o v\u00eddeo &#8220;No he tenido ninguna relaci\u00f3n de ning\u00fan tipo con el abogado Tony Hern\u00e1ndez\u201d: Juan Carlos Bonilla do YouTube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26385\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[227],"class_list":["post-26385","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Rz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26385","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26385"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26385\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}