{"id":26398,"date":"2020-11-10T09:04:03","date_gmt":"2020-11-10T12:04:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26398"},"modified":"2020-11-21T18:02:36","modified_gmt":"2020-11-21T21:02:36","slug":"lenin-e-a-revolucao-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26398","title":{"rendered":"L\u00eanin e a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/lenin-se-fudendo-no-xadrez.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->LavraPalavra<\/p>\n<p>Por Paulo Mar\u00e7aioli<\/p>\n<p>\u201cO programa de paz dos bolcheviques enunciado antes mesmo de Outubro de 1917 se diferencia de uma paz imperialista imposta pelos vencedores da guerra, como foi a Paz de Versalhes de 28 de Junho de 1919. A palavra de ordem bolchevique era uma paz justa e democr\u00e1tica, sem qualquer anexa\u00e7\u00e3o ou contribui\u00e7\u00e3o de guerra\u201d.<\/p>\n<p>L\u00caNIN E A REVOLU\u00c7\u00c3O DE OUTUBRO<\/p>\n<p>\u201cNossa revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 burguesa, e por isso os oper\u00e1rios devem apoiar a burguesia \u2013 dizem os Potresov, os Gvodiez e os Tcheideze, como dissera antes Plekhanov. Nossa revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 burguesa \u2013 dizemos n\u00f3s, marxistas, e por isso os oper\u00e1rios devem abrir os olhos do povo para que veja a mentira dos pol\u00edticos burgueses e para ensin\u00e1-lo a n\u00e3o acreditar nas palavras, a contar unicamente com suas pr\u00f3prias for\u00e7as, com sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o, com sua pr\u00f3pria uni\u00e3o, com seu pr\u00f3prio armamento. (\u2026) Mostraremos em que consiste a especificidade deste momento, da passagem da primeira para a segunda etapa da revolu\u00e7\u00e3o, e porque a palavra de ordem, a \u201cordem do dia\u201d, neste momento deve ser: Oper\u00e1rios! Voc\u00eas realizaram prod\u00edgios de hero\u00edsmo prolet\u00e1rio e popular na guerra civil contra o tzarismo. Voc\u00eas devem realizar prod\u00edgios de organiza\u00e7\u00e3o do proletariado e de todo o povo para preparar o seu triunfo na segunda etapa da revolu\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 CARTAS DE LONGE \u2013 Primeira Carta: a primeira etapa da primeira revolu\u00e7\u00e3o. Escrita a 7 (20) de Mar\u00e7o de 1917. V. I. L\u00eanin<\/p>\n<p>Quando L\u00eanin retornou do seu ex\u00edlio para a R\u00fassia na noite de 3 de Abril de 1917 fazia poucas semanas do triunfo da primeira etapa democr\u00e1tico-burguesa da Revolu\u00e7\u00e3o, que destituiu o secular czarismo e instituiu um governo provis\u00f3rio de natureza burguesa, com o apoio, por um lado, do imperialismo anglo-franc\u00eas, e por outro lado, contanto com a mobiliza\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios e camponeses pobres consubstanciada no Soviete de Petrogrado.<\/p>\n<p>Quando do retorno de L\u00eanin, o dirigente bolchevique tinha 47 anos de idade, estava em sua plena maturidade intelectual e j\u00e1 era ent\u00e3o o principal dirigente do partido bolchevique, agrupamento que, ainda em abril de 1917, era minorit\u00e1rio nos Sovietes.<\/p>\n<p>O contexto daqueles eventos envolvia a participa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia na 1\u00aa Guerra Mundial. Consta que a vinda de L\u00eanin e outros exilados russos foi objeto de negocia\u00e7\u00e3o com a Alemanha do Kaiser que tinha interesse no retorno \u00e0 R\u00fassia de revolucion\u00e1rios internacionalistas, cujo programa envolvia a retirada da R\u00fassia da guerra, ou, para ser mais exato, a transforma\u00e7\u00e3o da guerra entre os imperialismos em guerra civil revolucion\u00e1ria de classes.<\/p>\n<p>Sobre o retorno de L\u00eanin \u00e0 R\u00fassia, muitos detratores buscaram associar este retorno a uma esp\u00e9cie de acordo esp\u00fario de L\u00eanin com os alem\u00e3es. Contudo, Isaac Deutscher relata de forma detalhada como seu deu este retorno:<\/p>\n<p>\u201cL\u00eanin cuidou desta viagem (de regresso \u00e0 R\u00fassia) por meio de bem conhecidos socialistas alem\u00e3es, suecos, su\u00ed\u00e7os e franceses. A \u00fanica obriga\u00e7\u00e3o que assumiu diante do governo alem\u00e3o foi fazer o poss\u00edvel para assegurar que um grupo de civis alem\u00e3es tivesse permiss\u00e3o de sair da R\u00fassia, como quid pro quo. O governo alem\u00e3o, sabedor da oposi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin \u00e0 guerra, certamente esperava ganhar com sua propaganda dentro da R\u00fassia. L\u00eanin teve escr\u00fapulos antes de decidir se valer das facilidades para viajar atrav\u00e9s da Alemanha. Os escr\u00fapulos cederam diante da preocupa\u00e7\u00e3o principal \u2013 estar o mais cedo poss\u00edvel no centro da revolu\u00e7\u00e3o. Teria preferido ir \u00e0 R\u00fassia atrav\u00e9s da Inglaterra, mas o governo brit\u00e2nico recusou-lhe a autoriza\u00e7\u00e3o. Ao chegar, ningu\u00e9m censurou a viagem. Os dirigentes dos partidos socialistas saudaram-no como um dos velhos e consumados l\u00edderes. Algumas semanas mais tarde, Martov e outros mencheviques seguiram o exemplo e viajaram para casa pelo mesmo caminho, sem nunca suscitar nenhuma censura ou cr\u00edtica. Somente mais tarde, quando a influ\u00eancia de L\u00eanin come\u00e7ou a crescer, foi que o vag\u00e3o lacrado se viu transformado por alguns advers\u00e1rios num pacto sinistro entre o Estado-Maior alem\u00e3o e os bolcheviques\u201d. (Deutscher, 2006).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil cogitar da profunda apreens\u00e3o que um revolucion\u00e1rio em tempo integral como L\u00eanin devia passar ao acompanhar os eventos revolucion\u00e1rios na R\u00fassia \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A primeira das cartas de longe foi escrita em 7 de Mar\u00e7o de 1917, uma semana ap\u00f3s o \u00eaxito da revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro. Come\u00e7a a carta apontando que a primeira etapa da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima, fato confirmado em outubro do mesmo ano.<\/p>\n<p>Nestes escritos L\u00eanin suscita a quest\u00e3o: como foi poss\u00edvel uma monarquia absolutistas secular ser destitu\u00edda do poder em apenas uma semana? Como explicar este aparente milagre da hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>S\u00e3o tr\u00eas os pontos fundamentais que explicam a r\u00e1pida queda dos Romanov para L\u00eanin. Em primeiro lugar, a revolu\u00e7\u00e3o russa de 1905-1907. Sem os tr\u00eas anos de formid\u00e1veis batalhas de classe n\u00e3o teria sido poss\u00edvel uma segunda revolu\u00e7\u00e3o t\u00e3o r\u00e1pida.<\/p>\n<p>\u201cA primeira revolu\u00e7\u00e3o (1905) revolveu profundamente o terreno, arrancou pela raiz preconceitos seculares, despertou milh\u00f5es de oper\u00e1rios e dezenas de milh\u00f5es de camponeses para a vida pol\u00edtica e para a luta pol\u00edtica; revelou a cada classe (e todos os principais partidos) da sociedade russa, a verdadeira correla\u00e7\u00e3o de seus interesses, suas for\u00e7as, seus modos de agir, seus objetivos imediatos e subsequentes\u201d. (L\u00eanin)<\/p>\n<p>O segundo fator que determinou a breve vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro foi a guerra imperialista mundial. A natureza imperialista da guerra acelerou extraordinariamente e recrudesceu a luta de classes do proletariado contra a burguesia, transformando-se em guerra civil entre classes inimigas. O terceiro fator tem natureza pol\u00edtica e diz respeito \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do Soviete de Deputados Oper\u00e1rios de Petrogrado. L\u00eanin neste ponto refor\u00e7a que os bolcheviques n\u00e3o podem adotar qualquer pol\u00edtica de apoio ao governo provis\u00f3rio: \u00e9 necess\u00e1rio armar o proletariado, consolidar e desenvolver o papel e a import\u00e2ncia e a for\u00e7a do soviet, como garantia da liberdade e da impossibilidade de restaura\u00e7\u00e3o do czarismo. \u00c9 dada \u00eanfase \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias oper\u00e1rias: conforme as tradi\u00e7\u00f5es da Comuna de Paris de 1871 e da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905, dissolver e fundir as fun\u00e7\u00f5es de pol\u00edcia, ex\u00e9rcito e burocracia com todo o povo em armas.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a chegada de L\u00eanin em Petrogrado em abril de 1917 seria publicado o seu famoso artigo \u201cAs Tarefas do Proletariado na presente revolu\u00e7\u00e3o \u2013 Teses de Abril\u201d.<\/p>\n<p>L\u00caNIN A CAMINHO DO PODER<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a chegada de L\u00eanin em Petrogrado em abril de 1917 foi publicado o seu famoso artigo \u201cAs Tarefas do Proletariado na presente revolu\u00e7\u00e3o \u2013 Teses de Abril\u201d.<\/p>\n<p>O texto foi publicado no jornal Pravda de 7 de abril de 1917 com a assinatura de L\u00eanin e foi escrito provavelmente no trem, na v\u00e9spera da chegada do dirigente bolchevique a Petrogrado. L\u00eanin leu as teses em duas reuni\u00f5es realizadas em 4 de abril: na reuni\u00e3o dos bolcheviques e na reuni\u00e3o conjunta de bolcheviques e mencheviques delegados da Confer\u00eancia de Toda a R\u00fassia de Deputados Oper\u00e1rios e Soldados no pal\u00e1cio Taride.<\/p>\n<p>A peculiaridade do momento da R\u00fassia consiste na transi\u00e7\u00e3o da primeira etapa da revolu\u00e7\u00e3o que deu o poder \u00e0 burguesia \u00e0 sua segunda etapa, que iria por o poder nas m\u00e3os do proletariado e das camadas pobres do campesinato. De um lado a continuidade da guerra imperialista e a amea\u00e7a da restaura\u00e7\u00e3o do czarismo. De outro lado, a instaura\u00e7\u00e3o de uma nova legalidade baseada na tomada do poder pol\u00edtico dos oper\u00e1rios e camponeses pobres.<\/p>\n<p>A dualidade de poderes se expressa pelo governo provis\u00f3rio burgu\u00eas de um lado e pelos sovietes de deputados oper\u00e1rios e camponeses do outro. Ainda em abril os bolcheviques s\u00e3o minorias no sovietes, o que faz com que os comunistas devam ter uma pol\u00edtica de explicar os erros da t\u00e1tica dos conselhos de um modo paciente, sistem\u00e1tico e adaptado \u00e0s necessidades pr\u00e1ticas das massas. Mesmo sendo minoria, os bolcheviques atuam nos sovietes e desenvolvem um trabalho de cr\u00edtica e esclarecimento dos erros.<\/p>\n<p>A palavra de ordem naquele contexto era a de lutar para quebrar as ilus\u00f5es do povo no governo burgu\u00eas. Al\u00e9m de denunciar o governo provis\u00f3rio, combater a influ\u00eancia ideol\u00f3gica da pequeno burguesia sobre o movimento oper\u00e1rio. De maneira reiterada, L\u00eanin op\u00f5e o governo republicano burgu\u00eas da nova experi\u00eancia de poder do sovietes, cuja prima mais pr\u00f3xima fora a Comuna de Paris de 1871. A dissolu\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, do ex\u00e9rcito e da burocracia substitu\u00edda pelo povo em armas. A constitui\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias oper\u00e1rias com a participa\u00e7\u00e3o de homens e mulheres de 15 a 65 anos de idade. O mais absoluto controle e revogabilidade dos cargos de elei\u00e7\u00e3o. A necessidade de mudan\u00e7a do nome do partido como forma de se opor \u00e0 social democracia europeia que capitulou perante a guerra imperialista: de partido social democrata para partido comunista. Finalmente, a necessidade da cria\u00e7\u00e3o da III Internacional, ante a completa fal\u00eancia da II Internacional, dos social chauvinistas (Plekhanov) e dos centristas (Kautsky).<\/p>\n<p>OS BOLCHEVIQUES DEVEM TOMAR O PODER<\/p>\n<p>No m\u00eas de julho de 1917, as jornadas contrarrevolucion\u00e1rias dirigidas por Kornilov colocam em novos termos o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o russa. A vit\u00f3ria dos oper\u00e1rios e soldados sobre a contrarrevolu\u00e7\u00e3o em Julho coloca na ordem do dia a tomada do poder. J\u00e1 em setembro de 1917 os bolcheviques j\u00e1 s\u00e3o maioria nos sovietes de deputados oper\u00e1rios e soldados de ambas as capitais. Ainda em 12\/14 de Setembro, L\u00eanin lan\u00e7a a palavra de ordem que os bolcheviques devem tomar o poder:<\/p>\n<p>\u201cDepois de ter conquistado a maioria dos Sovietes de Deputados Oper\u00e1rios e Soldados de ambas as capitais, os bolcheviques podem e devem tomar o poder de Estado em suas m\u00e3os. Podem, pois a maioria ativa dos elementos revolucion\u00e1rios do povo de ambas as capitais \u00e9 suficiente para levar consigo as massas, vencer a resist\u00eancia do inimigo, derrot\u00e1-lo, conquistar e manter o poder; podem, pois ao propor no ato a paz democr\u00e1tica, no ato de entregar a terra aos camponeses e restabelecer as institui\u00e7\u00f5es e liberdades democr\u00e1ticas, destru\u00eddas e destro\u00e7adas por Kerensky, os bolcheviques formar\u00e3o um governo que ningu\u00e9m poder\u00e1 derrubar\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi sem vacila\u00e7\u00e3o que os demais dirigentes da fra\u00e7\u00e3o mais consequente e revolucion\u00e1ria da R\u00fassia encaravam a proposta de L\u00eanin da tomada imediata no poder. Uma opini\u00e3o era de que os bolcheviques devessem aguardar a realiza\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte do governo provis\u00f3rio. Outra opini\u00e3o dizia que os bolcheviques devessem aguardar a realiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Democr\u00e1tica. Mais do que uma mudan\u00e7a na data da insurrei\u00e7\u00e3o, estavam em jogo diferentes posi\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas com implica\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas: o partido bolchevique deve tomar para si o poder ou deve apenas tomar o poder para imediatamente entreg\u00e1-lo aos sovietes de toda a R\u00fassia? Quem \u00e9 o sujeito hist\u00f3rico e quem \u00e9 o sujeito pol\u00edtico da revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Neste aspecto, L\u00eanin, seguindo as trilhas de Marx, chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a insurrei\u00e7\u00e3o deve ser encarada como uma arte: havia o risco objetivo da tomada da capital para contrarrevolu\u00e7\u00e3o e o atraso da insurrei\u00e7\u00e3o em Petrogrado e Moscou poderia colocar tudo a perder. A iminente tomada de Petrogrado tornaria as chances cem vezes maiores. L\u00eanin chama a aten\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u201cesperar\u201d a Assembleia Constituinte, pois Kerensky, por conta da rendi\u00e7\u00e3o de Petrogrado, pode perfeitamente frustrar sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cE para tratar a insurrei\u00e7\u00e3o de um modo marxista, isto \u00e9, como uma arte, devemos, ao mesmo tempo e sem perder sequer um minuto, organizar um Estado-Maior dos destacamentos insurgentes, distribuir as for\u00e7as, lan\u00e7ar os regimentos de confian\u00e7a contra os pontos mais importantes, cercar o Teatro Alexandrinki e tomar a Fortaleza de Pedro e Paulo, prender o Estado-Maior general e o governo enviar contra os cadetes e contra a divis\u00e3o selvagem tropas dispostas a morrer antes de permitir que o inimigo abra passagem em dire\u00e7\u00e3o aos centros da cidade; devemos mobilizar os oper\u00e1rios armados, convocando-lhes a uma luta desesperada, \u00e0 luta final; devemos ocupar imediatamente as centrais de tel\u00e9grafos e de telefones, instalar nosso Estado-Maior da insurrei\u00e7\u00e3o junto \u00e0 Central de telefones e coloc\u00e1-los em contato telef\u00f4nico com todas as f\u00e1bricas, com todos os regimentos, como todos os pontos em que se desenrole a luta armada, etc.\u201d.<\/p>\n<p>Nos escritos \u201cConselhos De Um Ausente\u201d de 8 de outubro de 1917 e na \u201cCarta Aos Membros do Comit\u00ea Central\u201d de 24 Outubro, L\u00eanin refor\u00e7a que a demora na a\u00e7\u00e3o equivale \u00e0 morte, que o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o russa e da revolu\u00e7\u00e3o mundial depende de dois ou tr\u00eas dias de luta.<\/p>\n<p>Finalmente, em 25 de Outubro de 1917, \u00e0s 10 horas da manh\u00e3 o Comit\u00ea Militar Revolucion\u00e1rio adjunto ao Soviet de Deputados Oper\u00e1rios e Soldados de Petrogrado anuncia a queda do governo provis\u00f3rio e a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, dos soldados e dos camponeses.<\/p>\n<p>L\u00caNIN NO PODER \u2013 1917\/1923<\/p>\n<p>No dia 25 de Outubro de 1917 (7 de Novembro) o comunicado escrito por V. I. L\u00eanin \u201cAos Cidad\u00e3os Russos\u201d informou a popula\u00e7\u00e3o da derrubada do governo provis\u00f3rio. O poder foi tomado pelo Comit\u00ea Militar Revolucion\u00e1rio, \u00f3rg\u00e3o do Soviete de Deputados Oper\u00e1rios e Soldados de Petrogrado.<\/p>\n<p>Poucos dias depois a insurrei\u00e7\u00e3o de Outubro se estenderia de Petrogrado \u00e0 Moscou e \u00e0s prov\u00edncias. Uma cruenta guerra civil teria in\u00edcio imediatamente ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Socialista de Outubro: aliada at\u00e9 ent\u00e3o dos imperialismos ingl\u00eas e franc\u00eas, a R\u00fassia sairia pouco depois da I Guerra Mundial atrav\u00e9s de uma paz em separado com os Alem\u00e3es. Entre 1917-1921, uma guerra civil brutal mobilizou nada menos do que 14 estados nacionais contra o poder sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Aleksandr Vasiliyevich Kolchak dirigiu a contrarrevolu\u00e7\u00e3o da Sib\u00e9ria mobilizando os ex\u00e9rcitos brancos de 1917 at\u00e9 a sua derrota em Omsk no ano de 1919. Anton Denikin dirigiu o ex\u00e9rcito branco desde o sul at\u00e9 a captura de Moscou, sendo derrotado em 1920. Tropas japonesas intervinham pelo oriente e os grupos contrarrevolucion\u00e1rios obtiveram apoio em dinheiro e armas principalmente de Inglaterra, Fran\u00e7a e EUA.<\/p>\n<p>Em uma interven\u00e7\u00e3o naquele per\u00edodo L\u00eanin comparou a situa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de outubro \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que ao mesmo tempo busca erguer do zero a sua casa e tem de defend\u00ea-la dos ataques e torpedos de um assaltante.<\/p>\n<p>Quando se analisa as interven\u00e7\u00f5es de L\u00eanin ap\u00f3s a tomada do poder, duas quest\u00f5es de imediato surgem: a necessidade de vencer a resist\u00eancia contrarrevolucion\u00e1ria e a nova quest\u00e3o de aprendizagem quanto \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do estado sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Quanto ao tema da contrarrevolu\u00e7\u00e3o, a paz de Brest-Litovski de 3 de Mar\u00e7o de 1918 cumpriu o importante papel de estabelecer uma tr\u00e9gua, ainda que profundamente desfavor\u00e1vel aos russos, dos inimigos externos possibilitando direcionar as for\u00e7as vermelhas sobre a contrarrevolu\u00e7\u00e3o interna (Kolchak, Denikin, socialistas revolucion\u00e1rios, mencheviques, etc.).<\/p>\n<p>O programa de paz dos bolcheviques enunciado antes mesmo de Outubro de 1917 se diferencia de uma paz imperialista imposta pelos vencedores da guerra, como foi a Paz de Versalhes de 28 de Junho de 1919. A palavra de ordem bolchevique era uma paz justa e democr\u00e1tica, sem qualquer anexa\u00e7\u00e3o ou contribui\u00e7\u00e3o de guerra.<\/p>\n<p>Este tema da Paz foi abordado por L\u00eanin em setembro de 1917 no escrito \u201cAs Tarefas da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d:<\/p>\n<p>\u201cO governo sovi\u00e9tico dever\u00e1 propor sem demora a todos os povos beligerantes (isso \u00e9, a seus governos e, simultaneamente, \u00e0s massas de oper\u00e1rios e camponeses) a conclus\u00e3o imediata de uma paz geral sobre bases democr\u00e1ticas e, al\u00e9m disso, um armist\u00edcio imediato (ainda que somente por tr\u00eas meses). A condi\u00e7\u00e3o fundamental para uma paz democr\u00e1tica \u00e9 renunciar \u00e0s anexa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o no sentido falso de que todas as pot\u00eancias devam recuperar o que tenham perdido, mas no \u00fanico sentido justo, ou seja, no sentido se que todo o povo, sem exce\u00e7\u00e3o alguma, tanto na Europa, quanto nas col\u00f4nias, obtenha liberdade e possibilidade de decidir por conta pr\u00f3pria se deseja constituir um Estado independente ou participar de qualquer outro. Ao propor estas condi\u00e7\u00f5es de paz, o governo sovi\u00e9tico dever\u00e1, por sua vez, coloca-las em pr\u00e1tica sem qualquer demora, isto \u00e9, dever\u00e1 tornar p\u00fablico e anular os tratados secretos que ainda nos ligam, tratados conclu\u00eddos pelo tsar, nos quais se promete aos capitalistas russos o saque da Turquia, \u00c1ustria, etc.\u201d.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, a Paz de Brest Litovisk e a vit\u00f3ria vermelha na Guerra Civil 1917\/1921 marcam a primeira fase de exist\u00eancia do poder sovi\u00e9tico, per\u00edodo caracterizado como \u201ccomunismo de guerra\u201d (express\u00e3o utilizada por L\u00eanin).<\/p>\n<p>Nesta primeira etapa, pode-se falar de uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica no sentido de acabar com os resqu\u00edcios feudais da economia, da cultura e das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sovi\u00e9ticas. Vencer este atraso medieval, considerando a esmagadora maioria populacional russa de pequenos camponeses, envolveria mesmo o estabelecimento de um capitalismo de estado, caracterizado por L\u00eanin, como uma antec\u00e2mara do socialismo. Neste primeiro momento, havia a necessidade urgente de reestabelecer a grande ind\u00fastria e organizar a troca direta dos seus produtos pelos da pequena agricultura camponesa, contribuindo para a socializa\u00e7\u00e3o desta; tomar aos camponeses, a t\u00edtulo de empr\u00e9stimos, uma determinada quantidade de v\u00edveres e mat\u00e9rias primas atrav\u00e9s da requisi\u00e7\u00e3o. Com o fim da Guerra Civil, surge a necessidade de aumentar a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias atrav\u00e9s de concess\u00f5es pontuais ao capitalismo: ao inv\u00e9s das requisi\u00e7\u00f5es armadas dos tempos da guerra civil, o imposto em esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Uma segunda etapa da revolu\u00e7\u00e3o tem in\u00edcio com a partir da primavera de 1921 e esta nova situa\u00e7\u00e3o se expressa nas cogita\u00e7\u00f5es de L\u00eanin nesta \u00faltima fase de sua vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Os comunistas devem colocar a si a tarefa de elevar a produtividade do trabalho social \u2013 nesta etapa n\u00e3o h\u00e1 a necessidade de impulsos hist\u00e9ricos, como na fase imediata ap\u00f3s outubro, mas uma marcha cadenciada, sabendo avan\u00e7ar e recuar conforme as exig\u00eancias do momento. \u201cMelhor Menos, Por\u00e9m Bom\u201d e \u201cSobre o Coopera\u00e7\u00e3o\u201d s\u00e3o textos representativos desta \u00faltima fase dos escritos de L\u00eanin, quando surge a ideia de uma revolu\u00e7\u00e3o cultural e mudan\u00e7as nas institui\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas, como a cria\u00e7\u00e3o da Inspe\u00e7\u00e3o Oper\u00e1rio Camponesa para melhorar e reformar o estado sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Em cartas direcionadas ao XII Congresso do Partido, L\u00eanin sugere o aumento n\u00famero de membros do comit\u00ea central de 50 at\u00e9 100 militantes, que deveriam ser recrutados dentro da base oper\u00e1ria. Uma das raz\u00f5es \u00e9 que L\u00eanin j\u00e1 previa uma cis\u00e3o no partido e cita nominalmente Trotsky e St\u00e1lin como a prov\u00e1vel origem da cis\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde a segunda metade de 1921, L\u00eanin sofre de dores de cabe\u00e7a e ins\u00f4nia regulares. Em 30 de agosto de 1918 j\u00e1 havia sido v\u00edtima de um atentado a bala, o que debilitou desde ent\u00e3o a sua sa\u00fade. Em mar\u00e7o de 1923 L\u00eanin sofreu um terceiro acidente vascular cerebral e perdeu sua capacidade de fala. No dia 21 de janeiro de 1924 falecia Vladimir Ilyich Ulianov, L\u00eanin.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26398\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-26398","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6RM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26398"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26398\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}