{"id":26424,"date":"2020-11-13T20:11:35","date_gmt":"2020-11-13T23:11:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26424"},"modified":"2020-11-13T20:11:35","modified_gmt":"2020-11-13T23:11:35","slug":"so-e-possivel-vencer-sendo-radical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26424","title":{"rendered":"S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel vencer sendo radical"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/pera-6-696x464.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto: Geraldo Magela\/Ag\u00eancia Senado<\/p>\n<p>A modera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a radicalidade, \u00e9 o caminho da derrota. \u00c9 a hora de enfrentar os problemas pela raiz e responder \u00e0 ofensiva burguesa.<\/p>\n<p>Por Luis Eduardo* e Jones Manoel | Revista Opera<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de 2020 n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 realidade das cidades, definindo que prefeitos e vereadores ser\u00e3o eleitos, muito menos pode ser compreendida apenas como um ensaio geral para 2022. Essa elei\u00e7\u00e3o marca um momento fundamental da luta de classes e da grande pol\u00edtica no Brasil, pois, depois de meses com as ruas paralisadas como palco de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica devido \u00e0 pandemia, podemos, finalmente, medir at\u00e9 certo ponto \u2013 dado que elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 espelho da vontade popular \u2013 a for\u00e7a da extrema-direita e da ofensiva burguesa.<\/p>\n<p>Entre as an\u00e1lises dos mais diversos setores de esquerda, \u00e9 p\u00fablico e not\u00f3rio que, desde 2015, h\u00e1 uma ofensiva direitista no Brasil e na Am\u00e9rica Latina. Em nome do \u201cterrorismo fiscalista\u201d, a supremacia financista no seio do Estado brasileiro, a domestica\u00e7\u00e3o liberal das for\u00e7as progressistas, o dito \u201ccombate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o\u201d e o alinhamento aos ditames do imperialismo, em especial norte-americano, abriu-se espa\u00e7o para o c\u00e3o raivoso do liberalismo tupiniquim acumular for\u00e7as. A coaliza\u00e7\u00e3o entre grupos e indiv\u00edduos abertamente fascistas, militares entreguistas, milicianos, fundamentalistas religiosos e financistas ultraliberais se apoderou de parte do poder de Estado, por meio do governo federal sob lideran\u00e7a do famigerado capit\u00e3o miliciano.<\/p>\n<p>No entanto, por mais que essa ofensiva imponha uma grande derrota estrat\u00e9gica para as for\u00e7as populares \u2013 ao contr\u00e1rio, por exemplo, do golpe de 1964, no qual as for\u00e7as reacion\u00e1rias, liberais e pr\u00f3-imperialistas operaram uma \u201climpa\u201d f\u00edsica e da influ\u00eancia social e pol\u00edtica de comunistas, trabalhistas e nacionalistas no movimento popular, sindical, das For\u00e7as Armadas e da vida institucional \u2013, o golpe de 2015\/16 n\u00e3o possuiu o mesmo poder de consenso e coer\u00e7\u00e3o para alargar suas bases sociais e pol\u00edticas e, consequentemente, impor uma estabilidade duradoura em nome de novas reformas conservadoras na administra\u00e7\u00e3o da inser\u00e7\u00e3o internacional do capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p>No andar de cima, o novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o intensificado com o golpe de 2015\/2016 tamb\u00e9m representa a intensifica\u00e7\u00e3o de disputas monopol\u00edsticas para amplia\u00e7\u00e3o das margens de lucro entre os diferentes setores. Al\u00e9m de maiores press\u00f5es de setores financistas em busca de lucros imediatos por meio de privatiza\u00e7\u00f5es de empresas p\u00fablicas, saque dos recursos naturais, retirada de direitos trabalhistas e outros mecanismos como a especula\u00e7\u00e3o do real frente ao d\u00f3lar e press\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o aos juros de curto, m\u00e9dio e longo prazo da d\u00edvida p\u00fablica. Por \u00f3bvio, se h\u00e1 muita gente ganhando dinheiro \u2013 em especial se deslumbramos o aumento dos n\u00fameros de bilion\u00e1rios no pa\u00eds \u2013 tamb\u00e9m h\u00e1 muito mais gente que sai perdendo nesse jogo.<\/p>\n<p>Por outro lado, no campo popular, se o regime de 1964 representou uma maior burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado e crescimento industrial (mesmo com o aumento da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho), tal padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o permitia a inser\u00e7\u00e3o, mesmo que provis\u00f3ria, de mais setores sociais no pacto social e econ\u00f4mico. Sendo assim, uma marca radicalmente distinta do padr\u00e3o p\u00f3s-2016 \u00e9 a instabilidade social, pol\u00edtica e institucional, pela pr\u00f3pria natureza restrita do pacto liberal-financista.<\/p>\n<p>A luta da grande burguesia, associada e subordinada ao imperialismo tardio, \u00e9 para alargar esse pacto. Para isso, atrav\u00e9s das suas m\u00faltiplas organiza\u00e7\u00f5es formais e informais, a mesma opera com algumas t\u00e1ticas que reverberam nas elei\u00e7\u00f5es: 1) consolidar a polariza\u00e7\u00e3o entre a extrema-direita bolsonarista versus centro-direita liberal; 2) consolidar o terrorismo fiscal atrav\u00e9s do mantra da \u201cresponsabilidade fiscal\u201d como o \u00fanico projeto econ\u00f4mico vi\u00e1vel para o pa\u00eds; 3) fortalecer uma esquerda domesticada em fun\u00e7\u00e3o do pacto liberal-financista.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es municipais que se avizinham podemos constatar, em especial nas grandes capitais, a dificuldade para a grande burguesia consolidar sua estrat\u00e9gia. Por um lado, o bolsonarismo se mostra enfraquecido do ponto de vista org\u00e2nico em conseguir apresentar voos solo no territ\u00f3rio nacional. O governo Bolsonaro, no segundo turno, deve apoiar at\u00e9 mesmo candidatos da centro-direita liberal a fim de evitar a vit\u00f3ria de candidatos oposicionistas. Por outro lado, os liberais dependem de grande parte da base social bolsonarista para vencer seus advers\u00e1rios. Em cidades como Porto Alegre, Fortaleza, Rio de Janeiro, Bel\u00e9m, S\u00e3o Paulo e outras capitais temos candidatos de esquerda e centro-esquerda do PT, PSOL e PCdoB com boas chances de chegar ao segundo turno e at\u00e9 a vit\u00f3ria eleitoral.<\/p>\n<p>Entretanto, o grande obst\u00e1culo das for\u00e7as oposicionistas \u00e9 a sua incompreens\u00e3o acerca da natureza da ofensiva burguesa em curso e a necessidade de uma profunda revis\u00e3o estrat\u00e9gica. Nesse sentido, a tradicional tend\u00eancia ao centrismo em eventuais segundos turnos pode ser um grande tiro no p\u00e9 para poss\u00edveis vit\u00f3rias no curto, m\u00e9dio e longo prazo contra o bolsonarismo e o pacto liberal-financista. Al\u00e9m dos ataques e fake news contra a esquerda, devemos acompanhar nas pr\u00f3ximas semanas diversas tentativas de domestica\u00e7\u00e3o das candidaturas populares pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Um exemplo disso \u00e9 o que ocorre contra Guilherme Boulos em S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m da manipula\u00e7\u00e3o covarde por parte da grande m\u00eddia e a dissemina\u00e7\u00e3o de fake news pela m\u00e1quina bolsonarista, o crescimento de Boulos gerou um grande inc\u00f4modo entre os liberais, at\u00e9 mesmo os tidos como progressistas. O programa que prop\u00f5e cobrar d\u00edvidas dos grandes bancos e empresas, renda m\u00ednima para os trabalhadores mais vulner\u00e1veis, cria\u00e7\u00e3o de frentes de trabalho nas periferias, cr\u00e9dito barato para os pequenos comerciantes e passe livre para estudantes e desempregados t\u00eam sido questionado at\u00e9 por \u201capoiadores\u201d que apontam essas propostas como irrealiz\u00e1veis e irrespons\u00e1veis em termos fiscais.<\/p>\n<p>Talvez pela incompreens\u00e3o sobre o novo momento e ainda presos a uma antiga estrat\u00e9gia, muitos dirigentes e intelectuais de esquerda ainda optem pelo caminho da modera\u00e7\u00e3o e de uma \u201cfrente ampla\u201d abstrata, sem conte\u00fado social e program\u00e1tico, como o \u00fanico caminho poss\u00edvel de obter vit\u00f3rias pol\u00edticas e eleitorais. No entanto, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 se a esquerda vai aceitar ou n\u00e3o legitimar politicamente o pacto golpista liberal-financista. Por isso, n\u00e3o podemos requerer modera\u00e7\u00e3o frente a um projeto que imp\u00f5e fome, desmonte de pol\u00edticas sociais, destrui\u00e7\u00e3o ambiental e regress\u00e3o produtiva da economia nacional. O caminho para enfrentar a radicaliza\u00e7\u00e3o de direita \u00e9 a defesa intransigente, por parte da esquerda, de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para os trabalhadores e da soberania nacional. Isso \u00e9 ser radical? Isso n\u00e3o \u00e9 problema nosso, mas deles.<\/p>\n<p>Todas as tentativas at\u00e9 agora de frente \u00fanica pela democracia em abstrato, ou o falso antagonismo de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o versus barb\u00e1rie\u201d, redundaram em nada. Os flertes com FHC e o PSDB ou tentativas como a Frente \u201cDireitos J\u00e1\u201d produziram um efeito nulo no aumento da temperatura pol\u00edtica na luta de classes. Assumir a gravidade da situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, tra\u00e7ar uma linha de demarca\u00e7\u00e3o com o social-liberalismo e os liberais de esquerda, oferecer solu\u00e7\u00f5es ousadas, radicais e realistas, \u00e9 o \u00fanico caminho poss\u00edvel para reconquistar setores da classe trabalhadora na desesperan\u00e7a ou atra\u00eddos pelo bolsonarismo.<\/p>\n<p>A modera\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho da derrota. \u00c9 a hora de enfrentar os problemas pela raiz e responder \u00e0 ofensiva burguesa com uma ofensiva popular, nacional e revolucion\u00e1ria. A elei\u00e7\u00e3o de 2020 vai sinalizar esse dilema. Oxal\u00e1 os dirigentes, intelectuais, partidos e movimentos compreendam o que est\u00e1 em jogo antes que seja tarde.<\/p>\n<p>* Historiador, doutorando em Servi\u00e7o Social pela UFRJ e militante do PCB.<\/p>\n<p>Jones Manoel<\/p>\n<p>\u00e9 historiador, mestre em Servi\u00e7o Social, educador popular e militante do PCB. Email para contato: manoel_jones@hotmail.com<br \/>\n\u00c1rea de anexos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26424\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[17],"tags":[226],"class_list":["post-26424","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s21-eleicoes","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Sc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26424","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26424"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26424\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}