{"id":26430,"date":"2020-11-15T20:42:39","date_gmt":"2020-11-15T23:42:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26430"},"modified":"2020-11-15T20:42:39","modified_gmt":"2020-11-15T23:42:39","slug":"os-ventos-do-norte-nao-movem-moinhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26430","title":{"rendered":"Os ventos do norte n\u00e3o movem moinhos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/98pg5li6v8-flywheel.netdna-ssl.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Biden-by-Gage-Skidmore-flickr-300x200.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Elei\u00e7\u00e3o de Joe Biden, nos Estados Unidos, serve para que analistas, pol\u00edticos e jornais busquem dar li\u00e7\u00f5es tortas para o Brasil.<\/p>\n<p>Por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria, nas sociedades e na pol\u00edtica, o axioma matem\u00e1tico segundo o qual \u201ca ordem dos fatores de uma soma ou multiplica\u00e7\u00e3o n\u00e3o altera o produto\u201d \u00e9 falso. Compreender que os fen\u00f4menos s\u00e3o desdobramentos hist\u00f3ricos de outros, se eles t\u00eam precedentes hist\u00f3ricos, e que tipo de correla\u00e7\u00e3o h\u00e1 entre eles nas esferas econ\u00f4mica, cultural, pol\u00edtica e psicol\u00f3gica s\u00e3o elementos b\u00e1sicos de uma an\u00e1lise competente, sem os quais a queda nas armadilhas da ideologia costuma ser certa.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana o democrata Joe Biden venceu seu concorrente republicano Donald Trump em uma elei\u00e7\u00e3o apertada que, no Brasil, mobilizou analistas, jornais e pol\u00edticos com suas \u00e1lgebras tortas. No geral, os c\u00e1lculos partem de uma primeira grande falsifica\u00e7\u00e3o: a pr\u00e9dica de que a chegada de Donald Trump ao governo norte-americano foi uma esp\u00e9cie de raio em c\u00e9u azul, uma excentricidade desconectada da realidade, uma distopia moment\u00e2nea sem precedentes que, a partir de seu governo, iniciou um grande processo de ruptura hist\u00f3rica nas esferas das liberdades civis e dos direitos democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Os dedos midi\u00e1ticos no Brasil que apontam para a decad\u00eancia do imp\u00e9rio como se ela fosse produto de Trump (e n\u00e3o este produto dela) tem tr\u00eas apontados para c\u00e1; n\u00e3o se trata de li\u00e7\u00e3o moral que dou a eles, mas li\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tentam dar a n\u00f3s.<\/p>\n<p>A reprimenda segue a seguinte l\u00f3gica: Trump, O Excepcional, chegou ao governo norte-americano sabe-se-l\u00e1-porqu\u00ea, com apoio tirado sabe-se-l\u00e1-de-onde e, manipulando as massas manipul\u00e1veis-por-raz\u00e3o-nenhuma, inaugurou tempos novos de racismo, \u00f3dio a imigrantes, organiza\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias a n\u00edvel interno, e de agressividade e apoio a \u201cpopulistas\u201d de direita.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a primeira li\u00e7\u00e3o que nos quer ser dada: fen\u00f4menos como Trump seriam exce\u00e7\u00f5es perigosas, que surgem de tempos em tempos detr\u00e1s das moitas, prontos a destruir tudo o que existia, como uma esp\u00e9cie de s\u00edntese de nada sen\u00e3o de si mesmo. Da \u201cli\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 colhido um fruto importante: a falsifica\u00e7\u00e3o e a deslembran\u00e7a sobre a hist\u00f3ria recente, pela qual um p\u00fablico que h\u00e1 pouco passou a se interessar por pol\u00edtica pode se tornar mais moderado, imaginando que o mundo era antes menos violento, enquanto uma outra fra\u00e7\u00e3o de pessoas, especialmente aflitas com a velocidade da destrui\u00e7\u00e3o capitalista em sua crise corrente, pode olhar ao passado como horizonte. \u00c9 ir\u00f4nico que um campo de discurso t\u00e3o capaz em apontar \u201cnovos normais\u201d num mundo p\u00f3s-pand\u00eamico falhe conscientemente em, primeiramente, descrever o antigo normal.<\/p>\n<p>Este fruto, no entanto, germina em nossa terra, onde se busca explicar Bolsonaro igualmente como um fen\u00f4meno excepcional em si \u2013 esta vis\u00e3o prega que o homem faz a hist\u00f3ria, a desencaminha, e n\u00e3o que ela, em seus descaminhos, faz homens como o presidente. Assim se apagam 500 anos de racismo f\u00e9rrico, de autoritarismo de fato, de dom\u00ednio das oligarquias e elites \u00e0 for\u00e7a, de projetos de espolia\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00f5es, de insufici\u00eancias de governos ditos de esquerda, de liberais bem dispostos a apoiar ditaduras ou indecisos com \u201cescolhas muito dif\u00edceis\u201d, de opera\u00e7\u00f5es jur\u00eddico-policiais-midi\u00e1ticas que, reordenando o sistema pol\u00edtico, criaram um grande vazio no qual a \u201cm\u00e1scara estranha em busca de tempos estranhos\u201d p\u00f4de encontrar um rosto para vesti-la. No caso norte-americano, igualmente, apaga-se mais de um s\u00e9culo de pol\u00edtica externa policialesca e plenamente ditatorial, um segregacionismo doentio que permeia toda a sociabilidade do pa\u00eds, uma pol\u00edtica hist\u00f3rica de restri\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o (cuja raiz est\u00e1 precisamente na espolia\u00e7\u00e3o dos povos a n\u00edvel global, que sustenta a posi\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio), e o apoio a ditadores das mais variadas estirpes \u2013 n\u00e3o eram chamados de \u201cpopulistas\u201d antes, e, de fato, por vezes sequer eram mencionados.<\/p>\n<p>Germe na terra, a li\u00e7\u00e3o busca se arvorar: frente a um candidato excepcional, dizem, destruidor dos mundos e dos homens, a f\u00f3rmula m\u00e1gica da vit\u00f3ria \u00e9 um candidato absolutamente convencional, \u201ccentrista\u201d e \u201cmoderado\u201d, capaz de convergir for\u00e7as de diferentes espectros pol\u00edticos. Para que nada mude sob a sensa\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a, \u00e9 preciso que o que pouco mudou antes pare\u00e7a uma metamorfose profunda; \u00e9 preciso configurar o que havia antes de Trump ou Bolsonaro como \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d (\u201cciviliza\u00e7\u00e3o assassina!\u201d, como diria Ho Chi Minh) contra um projeto de barb\u00e1rie que, agora, gra\u00e7as \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de nosso moderado de sorriso prateado, foi encerrado.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que Trump, como Bolsonaro, seja uma figura especialmente detest\u00e1vel, e que sua comunica\u00e7\u00e3o siga, como a de Bolsonaro, uma l\u00f3gica de tensionamento cont\u00ednuo, que, tanto l\u00e1 como c\u00e1, pesando todas as diferen\u00e7as, serve para mobilizar e dar sustenta\u00e7\u00e3o a l\u00edderes e projetos com pouco apoio pol\u00edtico-institucional.<\/p>\n<p>No entanto, o discurso de que representam em si um perigo excepcional, sem precedentes, \u00e9 um engodo que serve somente para que a vit\u00f3ria de figuras com penachos de modera\u00e7\u00e3o pare\u00e7a uma conquista.<\/p>\n<p>Fala-se numa \u201cdemocracia recuperada\u201d. Conv\u00e9m voltar a citar Ho Chi Minh: \u201cEnquanto isso, no ch\u00e3o, fedendo a gordura e fuma\u00e7a, uma cabe\u00e7a negra mutilada, queimada, deformada, ri sarcasticamente e aparenta se perguntar ao sol se pondo: \u2018\u00e9 isto a civiliza\u00e7\u00e3o?\u2019\u201d \u2013 assim o vietnamita descreveu linchamentos na terra da liberdade no s\u00e9culo passado. Quantos milh\u00f5es n\u00e3o perguntariam, l\u00e1 ou aqui: \u201cEra aquilo a democracia?\u201d<\/p>\n<p>Era aquilo a democracia nos estampidos das balas que mataram 111? Era aquilo a democracia o que trazia o ceifador de vestes negras em Corumbiara e Eldorado do Caraj\u00e1s? Era aquilo a democracia nos manuais das UPPs? Era ela democracia em Pinheirinho e Pau D\u2019Arco? Era aquilo a democracia, carregando madeira porque para o g\u00e1s n\u00e3o d\u00e1? Era ela em 2013? Em 2016?<\/p>\n<p>Perguntariam tamb\u00e9m em ingl\u00eas: foi a democracia quem salvou os bancos em 2008-2009? Era a democracia da \u201cAm\u00e9rica p\u00f3s-racial\u201d a que derrubou \u00e0 bala Travyon Martin e Michael Brown? Era aquilo a democracia, nos telhados de Ferguson, ao lado da Guarda Nacional? Era ela o vulto sinistro na L\u00edbia, S\u00edria, Ucr\u00e2nia, I\u00eamen, Som\u00e1lia e Paquist\u00e3o? A bisbilhoteira que espionou o Brasil e perseguiu Chelsea Manning, Assange e Snowden?<\/p>\n<p>Trump, Biden e o imperialismo<br \/>\nEm termos geopol\u00edticos, o governo Donald Trump se caracterizou por um deslocamento das tens\u00f5es com a R\u00fassia, direcionando-se para a China e consolidando o \u201cpiv\u00f4 para a \u00c1sia\u201d que seu antecessor, Barack Obama, ensaiou nos \u00faltimos anos de seu governo. Como reflexo dessa pol\u00edtica, refor\u00e7ou a linha da infame Doutrina Monroe, de 1823, segundo a qual a Am\u00e9rica Latina constitui um protetorado norte-americano a ser defendido, de todas as formas, da influ\u00eancia estrangeira por ser espa\u00e7o de interesse vital dos Estados Unidos, inclusive em termos de \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica teve como desdobramentos a tens\u00e3o cont\u00ednua contra a Venezuela (via Brasil e Col\u00f4mbia), o golpe de estado na Bol\u00edvia, al\u00e9m de uma pol\u00edtica de endurecimento com Cuba em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o Obama. Eventos importantes foram as manifesta\u00e7\u00f5es na Col\u00f4mbia, Equador e Chile, respondidas, via de regra, pela militariza\u00e7\u00e3o, o que demonstra que a repeti\u00e7\u00e3o do mote \u201cfalar com um porrete em m\u00e3os\u201d na Am\u00e9rica Latina tem raz\u00e3o de ser para os norte-americanos.<\/p>\n<p>A n\u00edvel interno, Biden, tendo mais apoio de Wall Street, do chamado \u201cestado profundo\u201d e da institucionalidade bipartid\u00e1ria, contar\u00e1 com um n\u00edvel consideravelmente maior de estabilidade, o que deve lhe permitir promover uma pol\u00edtica externa mais coordenada que a de Trump.<\/p>\n<p>Biden considera que h\u00e1 um \u201cv\u00e1cuo de lideran\u00e7a\u201d na regi\u00e3o, o que permite que a China seja \u201ca maior ou segunda maior parceira comercial de virtualmente todo pa\u00eds no Cone Sul da Am\u00e9rica do Sul\u201d. \u00c9 improv\u00e1vel, portanto, que Biden fa\u00e7a um novo giro, retomando a intensidade da agressividade contra a R\u00fassia que marcou os governos Obama e se afastando da quest\u00e3o chinesa.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento tudo aponta que, na Am\u00e9rica Latina, Biden ir\u00e1 privilegiar o \u201clawfare\u201d, a persegui\u00e7\u00e3o judicial com fins pol\u00edticos, no lugar da amea\u00e7a aberta do uso da for\u00e7a e golpes \u201ctradicionais\u201d, ao estilo boliviano. Se isto se confirmar, ser\u00e1 um erro estrat\u00e9gico \u2013 as iniciativas de persegui\u00e7\u00e3o judicial at\u00e9 o momento s\u00f3 t\u00eam gerado instabilidade e corros\u00e3o dos sistemas pol\u00edticos, precisamente o contr\u00e1rio do que os Estados Unidos precisam da Am\u00e9rica Latina em sua luta contra a influ\u00eancia chinesa.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que Biden formule uma nova \u201cAlian\u00e7a pelo Progresso\u201d, aumentando investimentos na Am\u00e9rica Latina via Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento (o primeiro passo j\u00e1 foi dado, com investimentos privados pela Iniciativa Am\u00e9rica Cresce), mas com foco no combate \u00e0 criminalidade, refor\u00e7ando os la\u00e7os de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d com governos da regi\u00e3o e poss\u00edveis acordos de livre com\u00e9rcio enquanto, na \u00c1sia, escala a presen\u00e7a militar. Para tanto, deve tentar recompor as rela\u00e7\u00f5es com o bloco europeu, fortificando a OTAN e a OCDE.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre Trump e Biden, a n\u00edvel interno e externo, n\u00e3o s\u00e3o em objetivos, nem em estrat\u00e9gia, mas no terreno t\u00e1tico. Mas a vit\u00f3ria de Biden ter\u00e1 um papel pedag\u00f3gico: uma nova gera\u00e7\u00e3o ingenuamente esperan\u00e7osa, e uma velha gera\u00e7\u00e3o desiludida (e disposta a concess\u00f5es) ser\u00e3o lembradas que com Trump ou Biden os ventos do norte n\u00e3o movem moinhos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26430\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[222],"class_list":["post-26430","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Si","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26430"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26430\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26430"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}