{"id":26432,"date":"2020-11-15T20:45:59","date_gmt":"2020-11-15T23:45:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26432"},"modified":"2020-11-15T20:45:59","modified_gmt":"2020-11-15T23:45:59","slug":"dualismo-etico-moral-e-miseria-teorica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26432","title":{"rendered":"Dualismo \u00e9tico-moral e mis\u00e9ria te\u00f3rica"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lavrapalavra.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/rock.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Resposta ao artigo do El Pa\u00eds<\/p>\n<p>LavraPalavra<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>Em um debate te\u00f3rico-pol\u00edtico, quando se insinua simpatias n\u00e3o declaradas e objetivos ocultos ao interlocutor ou advers\u00e1rio, \u00e9 importante aceitar com tranquilidade o mesmo pensamento de volta. Aliado a isso, todo escrito que se prop\u00f5e a ser uma baliza moral precisa usar a moral e \u00e9tica defendida para si pr\u00f3prio. Essa introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante para comentar o escrito publicado hoje no El Pa\u00eds, \u201cO caso St\u00e1lin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro\u201d de Yara Frateschi.<\/p>\n<p>Yara se prop\u00f5e a responder o artigo escrito por mim e Breno Altman. O argumento do nosso artigo, \u201cCaso St\u00e1lin: o papel da vilania na Hist\u00f3ria\u201d, \u00e9 que devemos abordar o fen\u00f4meno de St\u00e1lin e do stalinismo por uma \u00f3tica materialista, dispensando o moralismo prim\u00e1rio e a-hist\u00f3rico constru\u00eddo durante a Guerra Fria com participa\u00e7\u00e3o fundamental de espadachins do capital \u2013 como Marx chamava os intelectuais da burguesia. Para quem n\u00e3o quiser ler todo artigo que eu e Breno lan\u00e7amos, segue um trecho do dirigente comunista Palmiro Togliatti que sintetiza bem o que defendemos:<\/p>\n<p>\u201cAntes, todo o bem era devido \u00e0s sobre humanas qualidades positivas de um homem; agora, todo o mal \u00e9 atribu\u00eddo a seus defeitos, tamb\u00e9m excepcionais e assombrosos. Num como no outro caso, estamos fora dos crit\u00e9rios de julgamento que s\u00e3o caracter\u00edsticos do marxismo. Omitem-se os verdadeiros problemas, tais os de como e por que a sociedade sovi\u00e9tica p\u00f4de chegar a certas formas de afastamento do caminho democr\u00e1tico e da legalidade que ela havia tra\u00e7ado\u201d (citado por Alberto Guerreiro Ramos em \u201cMito e verdade da revolu\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, Editora Insular, p. 154).<\/p>\n<p>O nome e sobrenome disso \u00e9 materialismo-hist\u00f3rico. E eu nunca defendi que fazer uma an\u00e1lise materialista de St\u00e1lin ou do stalinismo significa elogiar esse processo hist\u00f3rico. Por exemplo, considero os livros Mulher, Estado e revolu\u00e7\u00e3o, de Wendy Goldman e Um St\u00e1lin desconhecido, de Zhores A. Medvedev e Roy A. Medvedev, belos exemplos de uma an\u00e1lise hist\u00f3rica de qualidade e quem conhece um pouco esses livros sabe que n\u00e3o t\u00eam nada de elogiosos \u00e0 St\u00e1lin.<\/p>\n<p>Mas na vis\u00e3o de Yara, defender uma vis\u00e3o materialista da cr\u00edtica do stalinismo guarda objetivos ocultos, n\u00e3o declarados. Ela busca explicitar esses objetivos, numa leitura sintomal que daria inveja a Louis Althusser. Vejamos. Primeiro diz que o argumento usado por mim e Breno no escrito utiliza \u201co mesmo argumento que temos ouvido de bocas neonazistas, como foi um dia o de Adolf Eichmann\u201d. Em seguida, diz fala \u201cHitler diria o mesmo\u201d dos nossos argumentos. Um pouco mais a frente, afirma que \u201co argumento central de Breno Altman e Jones Manoel em \u2018Caso St\u00e1lin\u2019 pode servir em um artigo sobre o \u2018Caso Costa e Silva\u2019 ou sobre o \u2018Caso Bolsonaro\u2019\u201d e, por fim, insinua que temos \u201cbaix\u00edssima densidade democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o note, segundo o argumento de Yara, eu e Breno Altman temos afinidades n\u00e3o declaradas com neonazistas, baixa densidade democr\u00e1tica, usamos um expediente te\u00f3rico que serve para absorver todos os ditadores da terra e, claro, s\u00f3 conhecemos Hannah Arendt por \u201cmanual\u201d.<\/p>\n<p>O procedimento b\u00e1sico \u00e9 simples: Yara n\u00e3o responde ao argumento central do escrito, mas faz uma censura moral. Dessa censura moral alega objetivos ocultos, n\u00e3o declarados, e sai sustentando sua abordagem por analogias \u2013 tipo com neonazistas.<\/p>\n<p>Gostei tanto do procedimento de Yara que vou usar para analisar seu pr\u00f3prio escrito. A professora Yara tem como um dos seus objetivos, no escrito, defender o legado da fil\u00f3sofa Hannah Arendt, mas n\u00e3o cita em nenhum momento o racismo da autora e suas abordagens para l\u00e1 de problem\u00e1ticas sobre o movimento negro, escravid\u00e3o, colonialismo, regime de supremacia racial no Sul dos EUA. N\u00e3o condena o racismo e os flertes, muitas vezes expl\u00edcitos, de simpatias com o colonialismo presentes na obra de Hannah Arendt.<\/p>\n<p>Vejamos, por exemplo, o que Hannah Arendt escreveu sobre o movimento negro no auge dos protestos pelos direitos civis e contra o apartheid nos EUA:<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia s\u00e9ria s\u00f3 entrou em cena com o aparecimento do movimento Poder Negro nos recintos universit\u00e1rios. Estudantes negros, a maioria dos quais admitidos sem qualifica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, se consideravam e se organizavam como um grupo de interesses \u2014 os representantes da comunidade negra. Seu interesse era rebaixar os padr\u00f5es acad\u00eamicos [\u2026] parece que a institui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, na sua curiosa tend\u00eancia de ceder mais \u00e0s exig\u00eancias dos negros, ainda que sejam abertamente ultrajantes e tolas, do que \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es desinteressadas e por vezes altamente morais dos rebeldes brancos\u201d (ARENDT, p. 106 \u2013 Crises da Rep\u00fablica. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2015).<\/p>\n<p>Imagino que n\u00e3o preciso lembrar, tamb\u00e9m, as \u201creflex\u00f5es\u201d racistas de Hannah Arendt contidas no seu \u201cReflex\u00f5es sobre Little Rock\u201d ou ent\u00e3o os coment\u00e1rios sobre a obra de Frantz Fanon no famoso ensaio sobre a viol\u00eancia. Nesses dois exemplos o que vemos \u00e9 uma \u00e0s vezes sutil, \u00e0s vezes aberta, concilia\u00e7\u00e3o com o racismo e o colonialismo.<\/p>\n<p>Hannah Arendt, no seu cl\u00e1ssico livro \u201cSobre a Revolu\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m realiza uma hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Americana semelhante \u2013 na conclus\u00e3o e n\u00e3o no procedimento, \u00e9 claro \u2013 \u00e0 dos membros da Ku Klux Klan e supremacistas apoiadores de Trump. Hannah Arendt simplesmente n\u00e3o considera no seu balan\u00e7o hist\u00f3rico a manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Americana, o aceleramento do exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios, o bloqueio econ\u00f4mico contra a Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana e a introdu\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o em territ\u00f3rios anexados ou tomados pelos Estados Unidos (muitos deles, onde a escravid\u00e3o j\u00e1 tinha sido abolida). Hannah cita a escravid\u00e3o? \u00c9 claro, mas ela n\u00e3o tem peso te\u00f3rico, estatuto de reflex\u00e3o, na sua apologia da Revolu\u00e7\u00e3o Americana e condenado da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e Russa.<\/p>\n<p>Para Hannah Arendt, George Bush, Trump, um membro da Ku Klux Klan e um neonazista dos EUA, o pa\u00eds \u00e9 um exemplo de democracia e liberdade, talvez o melhor de toda hist\u00f3ria, e tudo que citamos acima n\u00e3o muda isso. Esse argumento foi detalhado no livro \u201cRa\u00e7a, classe e revolu\u00e7\u00e3o: a luta pelo poder popular nos Estados Unidos\u201d (Autonomia Liter\u00e1ria, 2020).<\/p>\n<p>Considerando sua defesa acr\u00edtica de Hannah Arendt, e como nenhum desses temas citados foi debatido, antes o contr\u00e1rio, pintando a fil\u00f3sofa alem\u00e3 como grande democrata, vou usar o m\u00e9todo de Yara e supor que ela \u00e9 uma supremacista branca, racista e simp\u00e1tica \u00e0s pr\u00e1ticas hist\u00f3ricas do colonialismo.<\/p>\n<p>E note, ainda seguindo o procedimento de Yara, se ela pode elogiar Hannah Arendt sem precisar citar e condenar seu racismo, por que um militante conservador ou neonazista n\u00e3o pode fazer o mesmo com os respons\u00e1veis (e te\u00f3ricos) pelos massacres coloniais na Arg\u00e9lia, Vietn\u00e3, L\u00edbia, S\u00edria? N\u00e3o eram os generais que comandaram as tropas francesas no assassinato de 1 milh\u00e3o de argelinos homens de um governo democr\u00e1tico e republicano, tementes a Deus Pai e a santa constitui\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a?<\/p>\n<p>Por que vamos tirar as est\u00e1tuas e monumentos de nomes hist\u00f3ricos do colonialismo e dos massacres coloniais, ou fazer como esses b\u00e1rbaros pa\u00edses africanos que cobram repara\u00e7\u00f5es pelo colonialismo? Afinal, n\u00e3o podemos esquecer dos aspectos democr\u00e1ticos e civilizat\u00f3rios dos pa\u00edses europeus, n\u00e3o \u00e9?!<\/p>\n<p>Devo imaginar, considerando o m\u00e9todo de leitura sintomal adotado por Yara, que ela \u00e9 uma grande admiradora de Lothrop Stoddard e uma guerreira em defesa da ra\u00e7a branca e tal qual os Pais Fundadores dos EUA, considerados por Hannah Arendt camp\u00f5es da liberdade, n\u00e3o v\u00ea problemas em conciliar liberdade com escravid\u00e3o dos negros.<\/p>\n<p>Poderia insinuar tamb\u00e9m, ainda seguido o m\u00e9todo de Yara, que ela vibra de felicidade quando assiste um filme ou document\u00e1rio com vietnamitas destro\u00e7ados, considerando a posi\u00e7\u00e3o de Hannah Arendt sobre a guerra do Vietn\u00e3, e a aus\u00eancia no seu escrito de coment\u00e1rios sobre o tema.<\/p>\n<p>Bem, se de acordo com a regra \u00e9tico-moral e a leitura de objetivos ocultos adotada pela professora Yara eu termino com simpatias neonazistas e baixo apre\u00e7o pela democracia, ela termina como uma racista, supremacista branca e forte candidata a membro da escola de forma\u00e7\u00e3o da Ku Klux Klan.<\/p>\n<p>Perceberam o quanto \u00e9 frut\u00edfero esse debate? Ele n\u00e3o leva a lugar nenhum. Mas se Yara sustenta sua metodologia, eu sustento a aplica\u00e7\u00e3o da sua metodologia para ela mesma. Ali\u00e1s, o argumento base, central, do meu escrito com Breno \u00e9 que existe uma abordagem moralista, filo-liberal e baseada no paradigma do vil\u00e3o de St\u00e1lin e do stalinismo. Yara, em momento nenhum, buscou o b\u00e1sico e central, se queria refutar o escrito, que \u00e9 mostrar que essa abordagem n\u00e3o existe ou que n\u00e3o tem for\u00e7a ou ainda que n\u00e3o fazemos uma abordagem melhor do que a que estamos criticando. Ou seja, n\u00e3o tocou, nem de leve, no argumento central do texto.<\/p>\n<p>A professora buscou apenas estigmas morais, insinua\u00e7\u00f5es e \u201cargumentos\u201d toscos, como esse de ler Hannah Arendt por \u201cmanual\u201d. De novo, rogo que aplique para si sua metodologia; no final acharemos Yara com um capuz e uma cruz pegando fogo. Acha esse caminho frut\u00edfero? Eu n\u00e3o acho e recuso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26432\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[219],"class_list":["post-26432","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Sk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26432\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}