{"id":26452,"date":"2020-11-19T22:57:03","date_gmt":"2020-11-20T01:57:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26452"},"modified":"2020-11-25T22:23:08","modified_gmt":"2020-11-26T01:23:08","slug":"a-geografia-dos-grupos-armados-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26452","title":{"rendered":"A geografia dos grupos armados no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/pera-20-696x464.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->No Rio de Janeiro, a propor\u00e7\u00e3o de controle territorial por mil\u00edcias e fac\u00e7\u00f5es \u00e9 bastante diferente do normalmente veiculado na imprensa.<\/p>\n<p>Por Thiago Sardinha Santos | Revista Opera<\/p>\n<p>O ano de 2020 definitivamente tem sido bastante peculiar em muitos aspectos e em diferentes lugares. Na cidade do Rio de Janeiro, o drama social parece ocorrer de forma planejada, envolvendo as esferas pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas, e atingindo ainda mais duramente a parcela mais vulner\u00e1vel da cidade. No caso da seguran\u00e7a p\u00fablica e da militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, embora n\u00e3o seja uma novidade, uma s\u00e9rie de movimenta\u00e7\u00f5es que chamam aten\u00e7\u00e3o acerca do que pode acontecer a curto e m\u00e9dio prazo v\u00eam ocorrendo.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de grupos armados e a disputa territorial promovida por eles na cidade do Rio de Janeiro \u00e9 algo j\u00e1 carimbado, que at\u00e9 pode ser considerado um significante imanente quando se menciona o antigo distrito federal. Como express\u00e3o da militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, esses grupos realizam em diferentes localidades o controle territorial, armado e ostensivo, com pr\u00e1ticas militares e recorrendo ao uso da viol\u00eancia direta para se legitimarem enquanto manifesta\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio do poder e domina\u00e7\u00e3o para determinados fins, sejam eles econ\u00f4micos, pol\u00edticos, sociais ou simb\u00f3licos.<\/p>\n<p>Destaco a categoria oriunda de uma an\u00e1lise espacial, a geografia pol\u00edtica, ao inv\u00e9s de \u201cgeopol\u00edtica\u201d, por conta de uma confus\u00e3o comum na utiliza\u00e7\u00e3o desta \u00faltima para analisar este tipo de fen\u00f4meno. Embora tanto a geografia pol\u00edtica quanto a geopol\u00edtica tratem da rela\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7o e poder, a escala desta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para demarcar as diferen\u00e7as; enquanto a primeira possui maior preocupa\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es de poder dentro do Estado, a geopol\u00edtica est\u00e1 mais preocupada com as rela\u00e7\u00f5es de poder entre Estados e sua forma\u00e7\u00e3o como pot\u00eancias globais, envolvendo rela\u00e7\u00f5es de diplomacia, confer\u00eancias internacionais, organiza\u00e7\u00f5es multilaterais etc.<\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada de 1990 e in\u00edcio dos anos 2000, a cidade maravilhosa foi marcada pela disputa sangrenta entre fac\u00e7\u00f5es do varejo do tr\u00e1fico de drogas: Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA). O TCP e o CV possuem suas ra\u00edzes no antigo pres\u00eddio C\u00e2ndido Mendes, conhecido como Caldeir\u00e3o do Diabo, localizado na Ilha Grande, na regi\u00e3o da Costa Verde Fluminense, utilizado com frequ\u00eancia na d\u00e9cada de 1970 para receber presos da Lei de Seguran\u00e7a Nacional durante a ditadura empresarial-militar. O ADA, hoje bastante enfraquecido, s\u00f3 aparecer\u00e1 no cen\u00e1rio criminoso da cidade no in\u00edcio dos anos 2000, tendo como principal lideran\u00e7a Ernaldo Pinto de Medeiros, o U\u00ea, morto na rebeli\u00e3o organizada por Fernandinho Beira-mar no pres\u00eddio de Bangu 1 em 2002.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos o CV se consolidou como a principal fac\u00e7\u00e3o da capital. Segundo o jornalista Carlos Amorim, pesquisador de grupos armados, na d\u00e9cada de 1990 o grupo chegou a dominar quase 90% das favelas na cidade e ainda hoje \u00e9 a maior fac\u00e7\u00e3o do varejo do tr\u00e1fico com dom\u00ednio territorial na cidade.<\/p>\n<p>Durante muitos anos esses tr\u00eas grupos, junto do jogo do bicho e grupos de exterm\u00ednio, foram as principais refer\u00eancias do crime organizado na cidade do Rio de Janeiro. Embora os grupos de exterm\u00ednio fossem mais comuns na regi\u00e3o metropolitana, como na Baixada Fluminense, a cidade carioca tamb\u00e9m experimentou a atua\u00e7\u00e3o deles, como no caso dos esquadr\u00f5es da morte. De l\u00e1 pra c\u00e1 muita coisa mudou: outros grupos apareceram, como a mil\u00edcia (paramilitares) e at\u00e9 mesmo outras fac\u00e7\u00f5es. Alguns que j\u00e1 existiam sofisticaram suas pr\u00e1ticas e adotaram outras. O fato \u00e9 que definir uma \u00e1rea a partir das rela\u00e7\u00f5es de poder para formar um territ\u00f3rio na cidade do Rio de Janeiro tornou-se mais complexo, tanto pelos crit\u00e9rios, pr\u00e1ticas sociais e simb\u00f3licas, quanto pela quantidade de grupos armados, pelo Estado e outros interesses que circulam no espa\u00e7o da ilegalidade do capitalismo contempor\u00e2neo. Aliado a isso, ocorreu a implementa\u00e7\u00e3o das Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora, as UPPs, que contribu\u00edram significamente para o reordenamento territorial dos grupos, a expans\u00e3o das mil\u00edcias, que at\u00e9 a CPI (Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito) das Mil\u00edcias, de 2018, eram conhecidas como grupos de autodefesa comunit\u00e1ria, sendo defendidas por pol\u00edticos not\u00f3rios \u2013 incluindo o presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Na cidade do Rio de Janeiro chegou-se a contar, desde 2008, um total de 38 UPPs, sendo uma delas na Baixada Fluminense, no munic\u00edpio de Duque de Caxias. Planejada para servir como um modelo novo, as unidades de policiamento pacificador encontraram f\u00f4lego durante os chamados megaeventos. No entanto, antes mesmo do final dos Jogos Ol\u00edmpicos, em 2016, este projeto j\u00e1 mostrava sinais de ser um fiasco em termos de seguran\u00e7a p\u00fablica. Ap\u00f3s as Olimp\u00edadas seu definhamento j\u00e1 era vis\u00edvel. Hoje assistimos aos poucos ao fim das UPPs. Em 2018, o comandante-geral da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro, coronel Wolney Dias, havia anunciado o fechamento de 17 unidades de policiamento sem detalhar em quais locais seriam.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foram as UPPs que, ao se fincarem nas favelas, fizeram com que as fac\u00e7\u00f5es migrassem para outros munic\u00edpios da Regi\u00e3o Metropolitana, incluindo a Baixada Fluminense e as Baixadas Litor\u00e2neas (regi\u00e3o dos lagos). Trata-se de um processo de metropoliza\u00e7\u00e3o, em que a metr\u00f3pole possibilita que outros territ\u00f3rios experienciassem um tipo de viol\u00eancia promovida pelos grupos armados at\u00e9 ent\u00e3o restrito somente \u00e0 capital.<\/p>\n<p>\u00c9 no ano de 2018 que as movimenta\u00e7\u00f5es ser\u00e3o ainda mais dram\u00e1ticas e decisivas acerca da trama territorial envolvendo os grupos armados. Nesse mesmo ano, a pol\u00edtica nacional vivia (ainda vive) uma ofensiva da extrema direita que, em linhas gerais, converge para sua principal s\u00edntese, o bolsonarismo, uma esp\u00e9cie de fascismo baseado no discurso da elimina\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio pol\u00edtico, do aumento da viol\u00eancia policial (seja institucionalmente, atrav\u00e9s das opera\u00e7\u00f5es policiais, ou atrav\u00e9s do armamento civil para quest\u00f5es cotidianas), um obscurantismo anticient\u00edfico etc. Nesse sentido, por conta de uma afinidade ideol\u00f3gica, estes grupos armados (principalmente a mil\u00edcia) serviram de bra\u00e7o armado e militarizado para a extrema direita brasileira.<\/p>\n<p>Tudo isso ir\u00e1 reverberar tamb\u00e9m na figura do governador eleito naquele ano no Rio de Janeiro, Wilson Witzel. J\u00e1 nos primeiros oito meses de 2019 ocorre um aumento da letalidade policial em opera\u00e7\u00f5es, com 1.249 mortes entre janeiro e agosto, uma m\u00e9dia de 5 mortes por dia. E n\u00e3o parava apenas na produ\u00e7\u00e3o de mortes: o governador fazia quest\u00e3o de mostrar afinidade com a pol\u00edcia militar, fosse aparecendo em fotos com policiais do Bope fazendo flex\u00f5es nos quart\u00e9is, fosse segurando uma metralhadora .30 em coletivas de imprensa ap\u00f3s uma opera\u00e7\u00e3o do Bope no Complexo do Alem\u00e3o. Wilson Witzel foi a express\u00e3o da estatiza\u00e7\u00e3o das mortes via militariza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as de Seguran\u00e7a, como a Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<p>Foi no governo do quase impichado Witzel que algo assombroso tomou forma no que se refere \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es policiais em territ\u00f3rios dominados pelo comando vermelho. Em um relat\u00f3rio parcial do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni \/ UFF), e do Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles (IPPUR\/UFRJ) ficou constatado que das 569 opera\u00e7\u00f5es policiais realizadas em 2019 somente 6,5% ocorreram em \u00e1reas de mil\u00edcia, enquanto 48% foram feitas em \u00e1reas controladas pelo tr\u00e1fico, e 45,5% em regi\u00f5es sob disputa. Guaratiba e Campo Grande, regi\u00f5es onde atuam as mil\u00edcias, tiveram menos opera\u00e7\u00f5es policiais. Na distribui\u00e7\u00e3o por fac\u00e7\u00e3o, o estudo tamb\u00e9m revelou algo que j\u00e1 era imaginado pelos cariocas: 233 opera\u00e7\u00f5es (40,9%) ocorreram em \u00e1reas do Comando Vermelho, 39 opera\u00e7\u00f5es (6,9%) em \u00e1reas do Terceiro Comando Puro, 37 opera\u00e7\u00f5es (6,5%) em \u00e1reas de mil\u00edcia e uma opera\u00e7\u00e3o (0,2%) em \u00e1rea do Amigos dos Amigos.<\/p>\n<p>Foi por conta deste foco n\u00e3o oficial das opera\u00e7\u00f5es policiais em territ\u00f3rios dominados pelo CV que nasceram algumas especula\u00e7\u00f5es: 1) haveria uma poss\u00edvel alian\u00e7a entre o TCP e a mil\u00edcia para enfrentar o CV; e 2) Wilson Witzel objetivaria ficar conhecido como o governador que acabou com o duradouro Comando Vermelho. A primeira tese \u00e9 falsa, mas tratarei deste fato mais \u00e0 frente. Quanto \u00e0 segunda, \u00e9 uma hip\u00f3tese de dif\u00edcil confirma\u00e7\u00e3o como plano oficial de governo. Todavia, podemos especular diante dos dados publicados: no imagin\u00e1rio social da pol\u00edcia, sabe-se que nenhum policial aceita a exist\u00eancia do Comando Vermelho, pois \u00e9 considerada a fac\u00e7\u00e3o que mais assassina policiais, e tanto a pol\u00edcia como o TCP e a mil\u00edcia possuem o Comando Vermelho como inimigo comum.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, surge outra fac\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro para disputar territ\u00f3rio na cidade: o Primeiro Comando da Capital (PCC). A fac\u00e7\u00e3o paulista tem sua origem em um pres\u00eddio em S\u00e3o Paulo na d\u00e9cada de 1990, e j\u00e1 h\u00e1 algum tempo tenta ingressar na cidade e aumentar sua influ\u00eancia, cuja capacidade alcan\u00e7a quase todo o territ\u00f3rio nacional. Na tentativa mais recente, descoberta pela Pol\u00edcia Federal, o PCC recrutava presos em pres\u00eddios e favelas no Rio de Janeiro via aplicativos de conversa, inclusive mulheres, algo novo em compara\u00e7\u00e3o com as fac\u00e7\u00f5es cariocas. No processo de recrutamento de futuros membros, o interessado preenchia uma lista que ia desde nome completo, vulgos (codinome) de batismo e at\u00e9 matr\u00edcula; quebrada de origem e quebrada atual. Embora queira a todo custo ingressar com suas atividades e neg\u00f3cios, que n\u00e3o se restringem apenas ao varejo do tr\u00e1fico. O PCC, diferente das fac\u00e7\u00f5es cariocas, n\u00e3o atua por e a partir de um determinado territ\u00f3rio. Os trabalhos de Gabriel Feltran e o livro \u201cIrm\u00e3os: uma Hist\u00f3ria do PCC\u201d s\u00e3o boas fontes para compreender a hist\u00f3ria da fac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, destaca-se o \u201cPovo de Israel\u201d, um grupo dentro do TCP liderado pelo traficante \u00c1lvaro Malaquias Santa Rosa, o Peix\u00e3o, que faz quest\u00e3o de demonstrar seu lado religioso, constru\u00eddo por sua origem familiar. Seu nome e sua perspectiva de forma\u00e7\u00e3o do complexo de Israel n\u00e3o s\u00e3o, portanto, meras coincid\u00eancias. O interessante do nome \u00e9 que ele realmente possui uma conota\u00e7\u00e3o religiosa, especificamente evang\u00e9lica. N\u00e3o \u00e9 surpreendente a identifica\u00e7\u00e3o de grupos armados no Rio de Janeiro com a doutrina evang\u00e9lica, mas o que chama aten\u00e7\u00e3o no Complexo de Israel \u00e9 o fato de carregar s\u00edmbolos como a estrela de Davi e a bandeira do Estado de Israel para demarcar seu territ\u00f3rio; \u00e9 com essas caracter\u00edsticas que o TCP vem expandindo seu controle territorial no Rio de Janeiro. De 2019 at\u00e9 recentemente a cidade tem se deparado com conflitos entre integrantes do bonde do Peix\u00e3o e traficantes do Comando Vermelho, principalmente do Complexo da Penha, j\u00e1 que o territ\u00f3rio dominado pelo Povo de Israel envolve bairros vizinhos ao complexo de favelas da Penha, como Cordovil, Cidade Alta, Parada de Lucas e Vig\u00e1rio Geral.<\/p>\n<p>Outros grupos armados tamb\u00e9m possuem forte aproxima\u00e7\u00e3o com o neopentecostalismo, em alguns casos expulsando moradores de religi\u00f5es de matriz africana e at\u00e9 depredando terreiros e s\u00edmbolos destas religi\u00f5es, ou mesmo usando igrejas para fazer suas reuni\u00f5es de neg\u00f3cios. No entanto, o mais conhecido \u00e9 o Povo de Israel. Nos locais onde atuam nenhuma outra manifesta\u00e7\u00e3o religiosa \u00e9 permitida, nem s\u00edmbolos, nem vestimentas. Somente os evang\u00e9licos possuem tal permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, em termos de grupos armados do varejo do tr\u00e1fico no Rio de Janeiro, temos uma trama bastante inconclusiva para prever um resultado diante da intensifica\u00e7\u00e3o dos conflitos e das disputas territoriais. Somente nos tr\u00eas primeiros meses de 2018, foram registrados 24 conflitos entre fac\u00e7\u00f5es envolvendo 15 bairros em diferentes \u00e1reas da cidade: Zona Sul, Norte e Oeste. Aliado a isso, cabe ressaltar o crescimento e a expans\u00e3o das mil\u00edcias na capital, que tamb\u00e9m participam dessa disputa. Comparada com as fac\u00e7\u00f5es, a mil\u00edcia atualmente possui um dom\u00ednio territorial bem maior que qualquer fac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias a mil\u00edcia tem sido destaque dos principais notici\u00e1rios, tanto por suas a\u00e7\u00f5es, quanto pelo tema sempre receber destaque durante o per\u00edodo eleitoral. O que se nota \u00e9 uma complexa mir\u00edade de abordagens que, na verdade, dificultam uma compreens\u00e3o do problema mais pr\u00f3xima da realidade. Ouve-se muito que quase qualquer atividade criminosa na cidade do Rio de Janeiro \u00e9 feita por mil\u00edcias ou fac\u00e7\u00f5es do varejo do tr\u00e1fico. Mais uma vez: \u00e9 preciso ter cuidado.<\/p>\n<p>O estudo do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos em parceria com o Fogo Cruzado, Disque Den\u00fancia e o NEV-USP revelou ainda como a mil\u00edcia cresceu desde a CPI em 2008. Se observarmos a Regi\u00e3o Metropolitana, o controle territorial das mil\u00edcias envolve 199 bairros, segundo o estudo; ou seja, 21,8% da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro, enquanto o CV possui o controle em 216 bairros, cerca de 23,6% da regi\u00e3o. J\u00e1 o TCP e ADA contam com 3,0% e 0,3% respectivamente. Se observarmos apenas a cidade do Rio de Janeiro, a mil\u00edcia tem o controle de 41 bairros, cerca de 25, 5% dos bairros da cidade, enquanto o CV controla 39 bairros, representando 24,2%. Isto \u00e9, quem tem maior controle territorial militarizado da cidade do Rio de Janeiro n\u00e3o \u00e9 a \u201cmaior fac\u00e7\u00e3o da cidade\u201d como sai frequentemente na imprensa, mas a mil\u00edcia. J\u00e1 o TCP e ADA est\u00e3o em 13 e 3 bairros, representando respectivamente 8,1% e 1,9%.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias na cidade do Rio de Janeiro e Regi\u00e3o Metropolitana possui alguns anos de exist\u00eancia. \u00c9 preciso destacar que sua atua\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a n\u00e3o ocorrem de forma homog\u00eanea em todas as \u00e1reas que domina, seja na Baixada Fluminense, na Regi\u00e3o de Jacarepagu\u00e1, Zona Oeste da cidade, S\u00e3o Gon\u00e7alo, Niter\u00f3i e Itabora\u00ed, ou de Campo Grande a Sepetiba, outra parte da Zona Oeste do Rio, sendo delimitada pelo maci\u00e7o da Pedra Branca. Este dado hist\u00f3rico \u00e9 importante para desfazer certos discursos repetitivos sobre sua origem, hist\u00f3rico, modus operandi e quem s\u00e3o os envolvidos com esses grupos.<\/p>\n<p>O que estes grupos armados possuem em comum constitui, em termos pr\u00e1ticos, a\u00e7\u00f5es bastante parecidas, e por isso \u00e0s vezes ocorrem certas confus\u00f5es. Grupos de exterm\u00ednio, fac\u00e7\u00f5es policiais, antigos esquadr\u00f5es da morte, justiceiros de bairros e grupos de execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria \u2013 e mais recentemente at\u00e9 as fac\u00e7\u00f5es \u2013 possuem algumas pr\u00e1ticas bastante semelhantes: imposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s do medo, controle armado, extors\u00e3o econ\u00f4mica de mercados legais e ilegais etc. Por\u00e9m, n\u00e3o podem ser classificados como uma \u00fanica coisa. S\u00e3o, sim, grupos armados que atuam no espa\u00e7o urbano perif\u00e9rico ou favelado da cidade, com controle territorial militarizado e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas identificar como cada um deles exerce seu poder \u00e9, apesar de importante, realmente uma tarefa dif\u00edcil e ao mesmo tempo perigosa.<\/p>\n<p>At\u00e9 a CPI de 2008, as mil\u00edcias eram consideradas como grupos comunit\u00e1rios de autodefesa contra a imin\u00eancia de invas\u00e3o de alguma fac\u00e7\u00e3o. Este medo generalizado, alimentado pela imprensa, permitiu por um tempo que a mil\u00edcia que j\u00e1 vinha atuando desde a d\u00e9cada de 1990 em diferentes bairros da Zona Oeste, fosse aceita de modo geral pela opini\u00e3o p\u00fablica. O que come\u00e7ou no bairro de Cosmos, com Aldemar Almeida dos Santos tentando evitar o consumo e com\u00e9rcio de drogas no local onde morava, fez com que logo fosse apelidado de Batman, por ser negro e agir como \u201cjusticeiro\u201d, por realizar execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias para alcan\u00e7ar seus objetivos. Tal empreitada recebeu apoio dos pr\u00f3prios moradores at\u00e9 chegar ao ex-policial civil Ricardo da Cruz Teixeira, que ficou conhecido como o Robin. Ricardo se somaria ao Batman para \u201cajud\u00e1-lo\u201d na seguran\u00e7a local. Com o tempo, a empreitada foi crescendo e tomando propor\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o impensadas: execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias, desaparecimento e extors\u00f5es come\u00e7aram a fazer parte da rotina de Batman e Robin, que tamb\u00e9m chamaram aten\u00e7\u00e3o de policiais militares, bombeiros, militares e pol\u00edticos como o ex-deputado estadual Natalino e o ex-vereador Jerominho, que viram ali a possibilidade de forma\u00e7\u00e3o de um mercado eleitoral amplo e sem muitas dificuldades. Assim, tanto Batman quanto Robin tornaram-se cabos eleitorais de Natalino e Jerominho, formando a chamada Liga da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A Liga da Justi\u00e7a foi considerada a maior mil\u00edcia da Am\u00e9rica Latina. Em cada bairro que controlava na Zona Oeste havia o s\u00edmbolo do Batman como lembran\u00e7a simb\u00f3lica de que ali havia a \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d da Liga da Justi\u00e7a. No entanto, seu dom\u00ednio e expans\u00e3o sofreram um freio com a CPI das mil\u00edcias em 2008, presidida pelo ent\u00e3o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Com a CPI foram indiciadas 226 pessoas envolvidas com as mil\u00edcias. A lista inclu\u00eda oito policiais civis, 67 policiais militares, tr\u00eas bombeiros, dois agentes penitenci\u00e1rios, dois militares das For\u00e7as Armadas, cinco militares de \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o identificados e 130 civis, al\u00e9m de dois deputados e sete vereadores. O relat\u00f3rio tamb\u00e9m indicou que as principais atividades de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica eram o servi\u00e7o de seguran\u00e7a atrav\u00e9s de cobran\u00e7a de taxas, servi\u00e7o de vans, servi\u00e7o de internet e TV a cabo, venda exclusiva de g\u00e1s e \u00e1gua, al\u00e9m de interven\u00e7\u00e3o no setor imobili\u00e1rio. No entanto, ap\u00f3s a den\u00fancia da CPI e a pris\u00e3o de suas lideran\u00e7as, Jerominho, Natalino e Ricardo (que havia deixado de ser o \u201cRobin\u201d para se tornar \u201cBatman\u201d ap\u00f3s a morte de Aldemar), as coisas foram mudando e assumindo contornos obscuros.<\/p>\n<p>Outro fato importante a considerar \u00e9 que neste per\u00edodo, embora a maioria dos seus componentes fossem civis, a organiza\u00e7\u00e3o e o ordenamento ficavam a cargo de agentes do Estado, como policiais militares e civis, bombeiros, agentes penitenci\u00e1rios e militares. Com o definhamento da Liga da Justi\u00e7a, essa rela\u00e7\u00e3o foi se desdobrando em outras a\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>O fim da Liga da Justi\u00e7a inaugurou uma disputa sobre quem comandaria a continua\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios. Nesse sentido, no lugar da diminui\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o desses grupos, seus dom\u00ednios cresceram territorialmente e, sobretudo, financeiramente. Tudo isso ocorreu sob a lideran\u00e7a de Toni \u00c2ngelo, um ex-policial militar. Foi Toni quem expandiu a mil\u00edcia para os dom\u00ednios nos quais se encontra hoje, inclusive invadindo favelas da Zona Oeste que pertenciam ao TCP e mesmo ao CV. Assim foi inaugurado o \u201cBonde do Toni\u201d, no lugar da Liga da Justi\u00e7a. Depois da pris\u00e3o de Toni, outros l\u00edderes disputaram a lideran\u00e7a do bonde, mas quem assumiu foi Carlinhos Tr\u00eas Pontes, morto pela pol\u00edcia numa opera\u00e7\u00e3o em 2017. Ap\u00f3s a morte de Carlinhos, que tamb\u00e9m era policial, quem assume seu lugar foi seu irm\u00e3o, Welington Braga, o \u201cEcko\u201d.<\/p>\n<p>Com o Bonde do Ecko, algumas mudan\u00e7as substanciais na organiza\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias na Zona Oeste do Rio de Janeiro aconteceram. Ecko n\u00e3o pertencia a nenhuma institui\u00e7\u00e3o militar, e sob seu comando o perfil dos milicianos come\u00e7a a sofrer mudan\u00e7as. Come\u00e7am a ser alistados um n\u00famero significativo de civis, principalmente ex-traficantes das favelas tomadas pelo Bonde do Ecko. Este fato fez com que muitos policiais e militares abandonassem o grupo. Outros tamb\u00e9m sa\u00edram por causa da amplia\u00e7\u00e3o da extors\u00e3o, que chegou ao n\u00edvel de economia de pilhagem. Tudo \u00e9 pass\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e extors\u00e3o ou cobran\u00e7a de taxa pelo Bonde do Ecko: comerciantes em geral, camel\u00f4s, ambulantes, postos de sa\u00fade, farm\u00e1cias etc.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de perfil fez com que muitos afirmassem que formou-se uma \u201cnarcomil\u00edcia\u201d, ou seja, uma alian\u00e7a entre o TCP e a mil\u00edcia. \u00c9 claro que tal absurdo n\u00e3o se traduz na realidade, por\u00e9m cabe mencionar alguns elementos que podem conduzir a um racioc\u00ednio desatencioso. Primeiro que algumas pr\u00e1ticas, tanto da mil\u00edcia quanto das fac\u00e7\u00f5es, s\u00e3o similares, tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da inser\u00e7\u00e3o de ex-traficantes nas mil\u00edcias; segundo, o pr\u00f3prio tr\u00e1fico percebeu que poderia usar outras formas de arrecada\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, como cobran\u00e7a de taxas ou vendas exclusivas de servi\u00e7os de g\u00e1s e \u00e1gua, TV a cabo e internet. Por\u00e9m isto n\u00e3o ocorre em todos os territ\u00f3rios dominados pelo tr\u00e1fico; terceiro, o TCP, a mil\u00edcia e a pr\u00f3pria pol\u00edcia t\u00eam como inimigo comum o CV. Assim, em dadas ocasi\u00f5es, milicianos e traficantes do TCP n\u00e3o se enfrentaram para focar no seu inimigo comum, o CV, raz\u00e3o pela qual se forma a Alian\u00e7a 5.3. O n\u00famero 5 representa a mil\u00edcia e o 3 o TCP, como a fac\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecida no Rio de Janeiro. No entanto, por enquanto, \u00e9 dif\u00edcil encontrar exemplos concretos de divis\u00e3o do controle territorial entre a mil\u00edcia e o tr\u00e1fico, j\u00e1 que a mil\u00edcia se legitima exatamente como for\u00e7a paramilitar de combate ao crime organizado e ao tr\u00e1fico. Outro fato interessante \u00e9 que mesmo com o crescimento exponencial das mil\u00edcias, a atua\u00e7\u00e3o ilegal da pol\u00edcia n\u00e3o cessou, pelo contr\u00e1rio, continua funcionando. Muitos policiais possuem esquemas ilegais ou legais fora de servi\u00e7o, \u00e9 uma pr\u00e1tica corriqueira. Isto dificulta a classifica\u00e7\u00e3o das atividades il\u00edcitas da pol\u00edcia como miliciana.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, a atua\u00e7\u00e3o dos grupos armados na cidade do Rio de Janeiro e Regi\u00e3o Metropolitana se parece em muitos pontos com a dos grupos paramilitares do M\u00e9xico e Col\u00f4mbia, evidentemente com diferen\u00e7as expl\u00edcitas, mas tamb\u00e9m com semelhan\u00e7as encontradas dentro de uma realidade cuja configura\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica vai desde um dom\u00ednio neocolonial a uma forma\u00e7\u00e3o de um capitalismo perif\u00e9rico e dependente. Para entender a forma\u00e7\u00e3o desses grupos, estes dados hist\u00f3ricos devem ser considerados como ponto de partida.<\/p>\n<p>Thiago Sardinha<br \/>\nMilitante do PCB, ge\u00f3grafo e professor de Geografia, pesquisa a militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano desde 2011 e atualmente vem realizando pesquisas sobre a expans\u00e3o territorial militarizada das mil\u00edcias na Zona Oeste do Rio de Janeiro para a tese de doutoramento do programa de p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da UFRRJ.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"vjh01X4DwP\"><p><a href=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2020\/11\/18\/a-geografia-dos-grupos-armados-no-rio-de-janeiro-e-a-sua-reconfiguracao-territorial\/\">A geografia dos grupos armados no Rio de Janeiro e a sua reconfigura\u00e7\u00e3o territorial<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A geografia dos grupos armados no Rio de Janeiro e a sua reconfigura\u00e7\u00e3o territorial&#8221; &#8212; Revista Opera\" src=\"https:\/\/revistaopera.com.br\/2020\/11\/18\/a-geografia-dos-grupos-armados-no-rio-de-janeiro-e-a-sua-reconfiguracao-territorial\/embed\/#?secret=vjh01X4DwP\" data-secret=\"vjh01X4DwP\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26452\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[200,20],"tags":[219],"class_list":["post-26452","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-moradia","category-c1-popular","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6SE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26452","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26452"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26452\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26452"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26452"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26452"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}