{"id":26488,"date":"2020-11-27T11:13:38","date_gmt":"2020-11-27T14:13:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=26488"},"modified":"2020-11-27T11:13:38","modified_gmt":"2020-11-27T14:13:38","slug":"jadue-neoliberalismo-e-democracia-sao-incompativeis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26488","title":{"rendered":"Jadue: &#8220;Neoliberalismo e democracia s\u00e3o incompat\u00edveis&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdnmundo3.img.sputniknews.com\/img\/07e4\/08\/0d\/1092414524_0:0:2904:2048_638x450_80_0_0_212583a77e927a03cbb1f6e7f71e68b3.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->SPUTNIK NEWS<\/p>\n<p>Em uma extensa entrevista, Daniel Jadue, o exitoso prefeito chileno de Recoleta, analisou as mudan\u00e7as no Chile e os desafios dos partidos de esquerda. &#8220;Hoje se apresenta uma nova oportunidade para que corrijamos erros anteriores&#8221;, assegurou. Falou da concentra\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o no Chile e das armadilhas que poder\u00e1 enfrentar a ansiada nova Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014Em outubro de 2019 o povo chileno pareceu despertar e desde ent\u00e3o ocupa as ruas para exigir mudan\u00e7a. O que passou para que se produzisse essa nova situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o creio que tenha sido uma mera explos\u00e3o social ou que tenha se produzido de maneira espont\u00e2nea. Trata-se de um processo, tremendamente longo, de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que nasceu no mesmo ano em que terminou formalmente a ditadura. Nesse momento, a maioria do sistema pol\u00edtico chileno apostou em sair da ditadura dando fim \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, ao modelo e \u00e0 cultura organizacional da ditadura, espalhada por todas as institui\u00e7\u00f5es do Estado e das FFAA, for\u00e7as da ordem e da seguran\u00e7a. Se bem que a princ\u00edpio teve o apoio majorit\u00e1rio de uma parte da sociedade e do sistema pol\u00edtico, foi perdendo respaldo na medida em que as promessas feitas foram para a lata do lixo. Quando se miram os 30 anos se veem as mesmas demandas, as mesmas organiza\u00e7\u00f5es sociais, os mesmos partidos pol\u00edticos que estiveram sempre nas ruas: os secundaristas, os universit\u00e1rios, os trabalhadores p\u00fablicos, o pessoal da sa\u00fade. O que sucedia era que havia protestos por interesses particulares em separado e agora, todos juntos questionam o modelo em termos gerais. N\u00e3o vejo como uma explos\u00e3o social, mas como um processo que chega at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o de outubro. Esta \u00e9 uma batalha que ainda n\u00e3o terminou.<\/p>\n<p>\u2014O Chile foi um modelo de neoliberalismo imposto a sangue e fogo. Houve um tempo em que os chilenos acreditaram nesse modelo?<\/p>\n<p>\u2014O modelo neoliberal te promete que, se tu fazes tudo o que o sistema te diz \u2014estudar uma carreira t\u00e9cnica, trabalhar e aceitar um sal\u00e1rio miser\u00e1vel\u2014 e deixas que o modelo funcione, chegar\u00e1s a ter uma boa vida. As gera\u00e7\u00f5es que aceitaram inicialmente essas promessas acharam que estava tudo bem no Chile, mas 30 anos depois, se deram conta de que era tudo mentira.<\/p>\n<p>As AFP, por exemplo, as seguradoras de fundos de pens\u00e3o (que deveriam chamar-se associa\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas de pobres): prometiam que se a pessoa trabalhasse por toda a vida, se n\u00e3o tivesse faltas no trabalho e se contribu\u00edsse permanentemente durante 40 anos, chegaria a ter os 100% do sal\u00e1rio final na aposentadoria. A realidade \u00e9 que uma pessoa que trabalha 40 anos de maneira ininterrupta hoje n\u00e3o consegue obter 30% da aposentadoria. Esses fundos da AFP serviram para financiar todo o sistema econ\u00f4mico neoliberal no Chile. Somente n\u00e3o serviram para assegurar pens\u00f5es dignas aos chilenos. 30 anos depois, os chilenos veem que possuem os medicamentos mais caros do mundo, a comida mais cara do mundo, os livros mais caros do mundo, sem que ningu\u00e9m diga nada. Hoje tem gente que viaja do Chile at\u00e9 Mendoza (Argentina) para comprar medicamentos e, mesmo com os gastos da viagem, termina saindo mais barato.<br \/>\n\u2014Al\u00e9m de se aprovar uma mudan\u00e7a constitucional no plebiscito se decidiu que se dar\u00e1 atrav\u00e9s de uma assembleia constituinte.<\/p>\n<p>\u2014Na realidade, uma assembleia constituinte tem plenos poderes. O que se sucedeu no Chile \u00e9 que, depois de um m\u00eas de protestos de toda a cidadania, o sistema pol\u00edtico tenta seguir mantendo o controle do processo. Isto \u00e9, aprovou-se uma mudan\u00e7a constitucional atrav\u00e9s de um plebiscito de entrada, conven\u00e7\u00e3o constitucional e plebiscito de sa\u00edda, por\u00e9m, o Congresso \u00e9 que \u00e9 soberano. Nesta assembleia ou conven\u00e7\u00e3o constitucional h\u00e1 coisas que n\u00e3o se podem discutir. Por exemplo, a conven\u00e7\u00e3o constitucional n\u00e3o pode discutir nenhum dos tratados de livre com\u00e9rcio. Por isso digo que n\u00e3o \u00e9 uma assembleia constituinte porque n\u00e3o \u00e9 soberana nem possui plenos poderes. \u00c9 um poder delegado por quem se considera soberano. \u00c9 uma maioria do sistema pol\u00edtico que imp\u00f5e esta sa\u00edda institucional ao povo chileno, que na verdade queria uma assembleia constituinte. Este processo \u00e9 o melhor que pudemos conseguir nestes 30 anos para atirar no lixo da hist\u00f3ria a Constitui\u00e7\u00e3o de Pinochet. N\u00e3o \u00e9, e isto se deu por vontade de uma maioria do sistema pol\u00edtico, o que a cidadania popular estava exigindo.<\/p>\n<p>\u2014Ainda assim ser\u00e3o discutidas as bases do modelo econ\u00f4mico neoliberal que gerou esta concentra\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande da riqueza que tem o Chile?<\/p>\n<p>\u2014Sem d\u00favida. Por\u00e9m, vou fazer uma diferen\u00e7a conceitual: mais que uma assembleia constituinte, ser\u00e1 uma assembleia destituinte, porque est\u00e1 posto o qu\u00f3rum dos 2\/3 para aprova\u00e7\u00e3o do que vai ficar no texto final e que logo ser\u00e1 submetido \u00e0 cidadania em um plebiscito. \u00c9 um qu\u00f3rum alt\u00edssimo. E \u00e9 assim porque a direita tem 33% de votos (1\/3), o que significa que a direita tem o poder de veto sobre aquelas coisas novas que se deseja incorporar.<\/p>\n<p>Podemos ter a certeza de que a direita n\u00e3o vai poder voltar a instalar uma Constitui\u00e7\u00e3o como a de Pinochet, por\u00e9m n\u00e3o temos a certeza de que a cidadania vai poder instalar a que ela queira. N\u00e3o sabemos se teremos a for\u00e7a para construir a Constitui\u00e7\u00e3o que queremos. Corremos s\u00e9rio risco de sair com uma Constitui\u00e7\u00e3o muito minimalista. N\u00e3o estou reduzindo a import\u00e2ncia deste processo: de agora em diante haver\u00e1 um pa\u00eds mais democr\u00e1tico onde as maiorias e as minorias se expressem de maneira adequada. Acho que iremos nessa dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2014No Chile h\u00e1 um alto n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o que nunca se foi tocado. \u00c9 poss\u00edvel pensar para o Chile uma lei de m\u00eddia como houve na Argentina?<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 imprescind\u00edvel. Todos vimos com muito estupor o que ocorreu no Peru. Resulta que agora os meios de comunica\u00e7\u00e3o chilenos est\u00e3o cobrindo a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e escrevem surpreendidos: &#8220;Brutais viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos no Peru com dois mortos&#8221;. Aqui levamos meses de protestos e v\u00e1rias dezenas de mortos, entretanto, n\u00e3o vi publicada nenhuma manchete sobre a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos no Chile. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o chilenos n\u00e3o s\u00e3o meios de comunica\u00e7\u00e3o: s\u00e3o meios de indu\u00e7\u00e3o social; est\u00e3o absolutamente politizados. A maioria \u00e9 de extrema direita. Os mais &#8220;democr\u00e1ticos&#8221; est\u00e3o na centro direita. E todos s\u00e3o profundamente partid\u00e1rios do neoliberalismo.<\/p>\n<p>A cobertura do processo chileno foi muito ruim. Sup\u00f5e-se que o presidente da Rep\u00fablica chamou a uma reuni\u00e3o no La Moneda todos os editores dos meios para lhes passar a linha de como devem se comunicar. N\u00e3o sei se isto \u00e9 poss\u00edvel em outro pa\u00eds. Canal 13 e canal 7 foram encobridores dos crimes da ditadura, como El Mercurio e La Tercera. \u00c9 sustent\u00e1vel, \u00e9 compreens\u00edvel, \u00e9 democr\u00e1tico que as v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, que as associa\u00e7\u00f5es de familiares dos presos, desaparecidos e executados pol\u00edticos nunca tenham conseguido uma m\u00eddia a seu favor? Os partidos de esquerda, como o Partido Comunista do Chile, por lei n\u00e3o podem ter meios de comunica\u00e7\u00e3o, o que a mim me parece absurdo. Todos os meios se regem pelo mercado. Sucede ent\u00e3o que isto obriga o Partido Comunista a comunicar-se com seus eleitores atrav\u00e9s dos di\u00e1rios da extrema direita. \u00c9 impressionante!<br \/>\n\u2014Sua gest\u00e3o na comuna Recoleta est\u00e1 muito bem avaliada. Por que \u00e9 t\u00e3o exitosa?<\/p>\n<p>\u2014Na atual Constitui\u00e7\u00e3o, o Estado proibiu por lei incorrer em atos de com\u00e9rcio. Portanto, n\u00e3o se pode criar empresas estatais nem se vender coisas. Em Recoleta, descobrimos uma f\u00f3rmula para cumprir com a letra da lei, mas alterando seu esp\u00edrito. O ato de com\u00e9rcio se define tanto pela compra e venda, que \u00e9 a transa\u00e7\u00e3o que um faz com quem vende e com quem compra, ao lado da fixa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os. A fixa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os se define quando se compra a um valor e se vende por outro valor. De tal maneira que na diferen\u00e7a de valor se colocam os custos operacionais e a utilidade.<\/p>\n<p>N\u00f3s estabelecemos uma s\u00e9rie de servi\u00e7os populares e, para evitar esta linha da lei, compramos coisas a um valor e as vend\u00edamos com o mesmo valor, de tal maneira que ningu\u00e9m poderia dizer que havia um ato de com\u00e9rcio, assumindo os custos operacionais do &#8220;giro&#8221; como parte do or\u00e7amento geral do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>\u2014Por exemplo?<\/p>\n<p>\u2014Criamos uma farm\u00e1cia popular que conseguiu baixar o valor m\u00e9dio dos medicamentos em 70%. Os custos operacionais s\u00e3o pagos pelo munic\u00edpio atrav\u00e9s de sua \u00e1rea de sa\u00fade. O mesmo com a \u00f3tica popular: as lentes custam 75 ou 80% menos. Instalamos um centro de diagn\u00f3stico auditivo para fazer fones de ouvido populares a 200 d\u00f3lares, que seguem sendo caros para as camadas populares, mas que s\u00e3o muito mais acess\u00edveis que os 1.500 d\u00f3lares que valem em qualquer outra parte do Chile, e os nossos t\u00eam uma tecnolog\u00eda imensamente superior aos do mercado.<\/p>\n<p>Criamos uma livraria e loja de discos popular onde os livros e discos t\u00eam 40% menos do valor de mercado. Tamb\u00e9m conseguimos estabelecer universidades abertas. Nossas escolas e liceus funcionam at\u00e9 \u00e0s dez da noite todos os dias, s\u00e1bados e domingos tamb\u00e9m, para que toda a comunidade possa ocupar a escola e usar os gin\u00e1sios e toda a infraestrutura para todas as atividades que queiram, de tal maneira que as crian\u00e7as n\u00e3o tenham que estar na rua.<br \/>\nTamb\u00e9m criamos uma imobili\u00e1ria popular que constr\u00f3i apartamentos municipais para aluguel a pre\u00e7o justo. O aluguel n\u00e3o pode ser maior que 20% do or\u00e7amento familiar. Isto foi t\u00e3o forte que outras prefeituras e outras cidades come\u00e7aram a nos copiar. Inclusive prefeitos de direita. Em seguida nos associamos a essas municipalidades e formamos associa\u00e7\u00f5es de munic\u00edpios que come\u00e7aram a importar medicamentos de fora, muito mais baratos que os do mercado interno. N\u00f3s mesmos nos pusemos a produzir lentes e rem\u00e9dios. Financiamos estudos universit\u00e1rios. Tudo o que n\u00e3o estava fazendo o Estado central nos \u00faltimos oito anos, atrav\u00e9s de uma gest\u00e3o tremendamente disruptiva, terminaram fazendo muitos munic\u00edpios que se foram associando e que, al\u00e9m disso, desenvolveram uma fren\u00e9tica competi\u00e7\u00e3o entre os governos locais por inovar, mudando a forma de entender os governos locais em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u2014Estas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o levadas a cabo em munic\u00edpios de todo o Chile?<\/p>\n<p>\u2014De todo o Chile. Hoje em dia a farm\u00e1cia popular est\u00e1 presente em cerca de 200 munic\u00edpios no Chile, o que constitui cerca de 70% do territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>\u2014Como \u00e9 poss\u00edvel descrever sociologicamente a comuna de Recoleta?<\/p>\n<p>\u2014Esta \u00e9 uma comuna popular em que mais de 85% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 no limite, um pouquinho mais acima ou mais abaixo do que define a pobreza. No neoliberalismo, a classe m\u00e9dia n\u00e3o existe. Sociologicamente entendemos a classe m\u00e9dia como aquela que vive uma vida modestamente acomodada, quer dizer, que n\u00e3o gasta todas as suas necessidades materiais e imateriais, sem ter que endividar-se. Isso \u00e9 quase inexistente em um pa\u00eds neoliberal. Nossa comuna \u00e9 fundamentalmente popular e com poucos recursos. Ao sul temos a comuna de Santiago, a comuna capital, que tem tr\u00eas vezes mais recursos por habitantes do que n\u00f3s. Ao norte fazemos limite com a comuna de Las Condes, que tem entre cinco e seis vezes mais recursos que Recoleta. N\u00f3s, com muito menos recursos, temos conseguido fazer muito mais coisas do que as outras comunas.<\/p>\n<p>\u2014Teu nome surge como poss\u00edvel candidato \u00e0 presid\u00eancia para as elei\u00e7\u00f5es de novembro de 2021. A esquerda \u00e0s vezes vai com v\u00e1rios candidatos, o que favorece a direita. Est\u00e3o se prevendo alian\u00e7as dentro do arco progressista?<\/p>\n<p>\u2014Estamos trabalhando para que a alian\u00e7a seja a mais ampla poss\u00edvel. Por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio colocar alguns limites: a alian\u00e7a tem que ser antineoliberal. N\u00e3o queremos que por ser t\u00e3o ampla ou por assegurar o triunfo termine nos levando a governos como j\u00e1 tivemos antes, a exemplo do kirchnerismo na Argentina, que eram supostamente governos de centro esquerda, social-democratas, mas que apenas desenvolveram pol\u00edticas neoliberais. A esquerda real tem que assumir primeiro que est\u00e1 fortemente permeada pelos valores do neoliberalismo e tremendamente voltada aos projetos personalistas mais do que aos coletivos, o que faz com que se fragmente.<\/p>\n<p>Segundo, chama a aten\u00e7\u00e3o que a esquerda siga pondo sobre a mesa a pol\u00edtica de alian\u00e7as que lhe permita chegar, e n\u00e3o ponha sobre a mesa as necessidades de desenvolvimento da for\u00e7a pr\u00f3pria com um trabalho de base que lhe permita justamente crescer. Na Argentina, a esquerda tradicional, a esquerda dura, anticapitalista, \u00e9 capaz de apresentar cinco ou seis candidatos. Aqui vai se passar algo similar, porque temos um problema s\u00e9rio a partir de 18 de outubro: o povo n\u00e3o quer um segundo governo de direita. Digo isso claramente. N\u00e3o querem voltar aos tempos da Concerta\u00e7\u00e3o, que administrou o modelo de Pinochet por 20 anos e prometeu que ia melhorar a vida das pessoas e estamos onde em estamos por causa deles tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2014Os valores neoliberais t\u00eam se difundido at\u00e9 em zonas muito profundas. H\u00e1 possibilidade de mudar isso?<\/p>\n<p>\u2014Recoleta \u00e9 uma mostra eloquente de que se pode combater os valores do neoliberalismo. Aqui chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que financiar com o dinheiro de todos, com impostos, o barateamento e a facilita\u00e7\u00e3o da vida das pessoas \u00e9 um objetivo desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014H\u00e1 mobiliza\u00e7\u00f5es na Col\u00f4mbia, no Peru, Chile. Voc\u00ea acredita haver ventos de mudan\u00e7a na regi\u00e3o, ventos antineoliberais?<\/p>\n<p>\u2014Tivemos uma d\u00e9cada completa em que o progressismo na Am\u00e9rica Latina avan\u00e7ou. Por\u00e9m, \u00e9 preciso se fazer uma autocr\u00edtica. Muitos desses processos foram caudilhistas, muitos n\u00e3o lograram transformar a base produtiva dos pa\u00edses e das sociedades que lideraram. Somente se limitaram a repartir de maneira mais equitativa a renda dos recursos naturais. Muitos desses processos foram profundamente frouxos com a corrup\u00e7\u00e3o e a transpar\u00eancia, com a efici\u00eancia e com a efic\u00e1cia, conceitos que parece termos deixado para a direita. Para a direita na Am\u00e9rica Latina nunca foi um problema serem ladr\u00f5es ou corruptos porque \u00e9 parte de sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a esquerda n\u00e3o pode tolerar. Por isso \u00e9 importante a capacidade de recuperar a participa\u00e7\u00e3o, a inova\u00e7\u00e3o, a transpar\u00eancia, a efici\u00eancia, a efic\u00e1cia e a probidade como valores fundamentais dos projetos da esquerda. \u00c9 importante o sujeito coletivo se colocar acima dos caudilhos personalistas. S\u00e3o temas que temos de resolver.<br \/>\nQuando se viu o esgotamento dos projetos progressistas, por exemplo, quando ganhou democraticamente na Argentina Mauricio Macri, muitos disseram: &#8220;Que venha o neoliberalismo&#8221;. N\u00e3o se equivoquem, porque o programa neoliberal \u00e9 incompat\u00edvel com a democracia. O programa neoliberal se baseia em seis pontos essenciais: deixar que o valor das coisas suba, que os sal\u00e1rios caiam, substituir a for\u00e7a de trabalho humana por for\u00e7a de trabalho robotizada, transferir aos consumidores a \u00faltima fase do processo produtivo, para que terminem trabalhando de gra\u00e7a para as empresas, como os m\u00f3veis desarmados que voc\u00ea termina de armar em sua casa. Al\u00e9m disso, nos vendem coisas que, pela obsolesc\u00eancia programada, sabemos que v\u00e3o deixar de funcionar para que tenhamos que compr\u00e1-las de novo. E como se fosse pouco, querem pagar menos impostos. N\u00e3o creio que o neoliberalismo represente de fato alguma alternativa na Am\u00e9rica Latina e no mundo. O grande desafio \u00e9 que a esquerda fa\u00e7a o seu trabalho.<\/p>\n<p>\u2014Fracasso da restaura\u00e7\u00e3o conservadora?<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o \u00e9 que tenha fracassado a restaura\u00e7\u00e3o neoliberal. Simplesmente \u00e9 imposs\u00edvel vigorar para sempre por causa dos efeitos que gera. Os fracassos anteriores s\u00e3o nossa responsabilidade e temos que assumir isso. \u00c9 claro que o neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o para os povos e que portanto h\u00e1 uma nova oportunidade para que corrijamos nossos erros. A d\u00edvida hist\u00f3rica \u00e9 que a esquerda assuma o desafio de governar de maneira eficaz e eficiente, mas com muita participa\u00e7\u00e3o popular, e que comecemos a usar a linguagem da emancipa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a linguagem da domina\u00e7\u00e3o com a qual vimos nos comunicando h\u00e1 30 anos.<\/p>\n<p>No Chile se imp\u00f4s o neoliberalismo pela for\u00e7a e fomos o \u00fanico pa\u00eds que saiu da ditadura mantendo a Constitui\u00e7\u00e3o da ditadura. Custou-nos 30 anos. A Am\u00e9rica Latina tem que aprender com todos esses processos. O que passou na Bol\u00edvia com Luis Arce \u00e9 not\u00e1vel, mas a\u00ed \u00e9 preciso haver um processo de autocr\u00edtica fraterna entre os movimentos de esquerda. Teria sido melhor trocar o l\u00edder principal e seguir avan\u00e7ando. Porque o voto n\u00e3o era contra o projeto do Movimento ao Socialismo (MAS), como ficou demonstrado pelos 52% que votaram em Arce. Era um esgotamento da figura principal, que tem de saber quando chega o momento de dar um passo de lado para que o projeto se fortale\u00e7a, e n\u00e3o seguir construindo projetos baseados em personalidades. Al\u00e9m disso, o neoliberalismo faz sua radiografia perfeitamente. Sabe como te destruir. Busca te desestabilizar e, se n\u00e3o consegue, promove um golpe de Estado e te derruba. O desafio, portanto, est\u00e1 no nosso lado.<br \/>\n&#8230;<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>https:\/\/mundo.sputniknews.com\/entrevistas\/202011211093579684-daniel-jadue-el-modelo-neoliberal-y-la-democracia-son-incompatibles-en-chile-y-en-el-mundo-entero\/?fbclid=IwAR3oN-9Mkoa7s10kL-LRRUQ3yOfYTGx-BKvr9OTq_RcvOC43hZ9_zrj33Gg<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/26488\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87],"tags":[233],"class_list":["post-26488","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Te","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26488"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26488\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}